domingo, 30 de novembro de 2008

CARTA ANÔNIMA >> Eduardo Loureiro Jr.

No gramado aqui perto de casa, vi uma bola de papel amassada: ponto branco sobre a página verde. Sem saber bem qual o motivo de minha atitude, fui até a bola, tomei-a em minhas mãos e desamassei o papel. Era uma carta. O destinatário não estava explícito. E a carta não estava assinada. Reproduzo aqui, caso algum leitor saiba de que se trata e possa me dizer.

Klondike Kid / Flickr.com

Querido,

Sei que você quer entender, então resolvi deixar por escrito.

Sabe quando você acorda, depois do sono depois do almoço, com vontade de comer alguma coisa doce? Antes mesmo que você acorde completamente, eu me aproximo e lhe ofereço um doce diferente de qualquer doce que você já tenha provado. Talvez lhe pareça estranho, pois não tem o gosto nem a cor do chocolate, talvez nem lhe pareça bom. Você pode mesmo pensar que preferiria ter comido o chocolate, você pode até comer o chocolate, mas antes mesmo de você acordar com vontade de doce, o doce que lhe trago já está esperando por você, e um dia você vai preferir esse doce a tudo o mais. Um dia, você verá que o doce de que você gosta atualmente é um resto de açúcar num copo plástico, deixado na cama por preguiça de se levantar e levá-lo até a cozinha para, horas depois, acordar e descobrir que ele está sujando o lençol. E, ao seu toque, as formigas se assustam e se espalham, mesmo que baste um pequeno movimento de mão para que você recolha quase todas as formigas com o próprio copo e corra para afogá-las na pia do banheiro.

É como brincar de esconde-esconde com alguém que está a dois mil quilômetros de distância e com quem você não fala há alguns dias. Vocês estão juntos, ligados, conversando, brincando; quando você pensa, você vive. É como descobrir que ainda tem saudades de quem já foi há muito tempo, de quem em você não deveria restar nada senão um nome e uma lembrança amena nas datas especiais. Mas você não esqueceu, e ouve a canção que diz que ainda não esqueceu.

É tanta coisa para você sentir que você já se sente fazendo, e pensa que não dará tempo de fazer tudo, e decide que algo tem que ser deixado de fora, e você coloca um aviso "hoje não", porque quer dar uma satisfação às pessoas. Quando acorda , você descobre que só tem uma coisa a fazer, que só está ligado a um único compromisso: não é o doce, embora nada lhe impeça de comê-lo; não é a distância, pois vocês já estão próximos; não é o esquecimento, porque você continuará a lembrar. A única coisa a fazer é dizer "hoje sim", abrir uma pequena brecha na porta do caminho e deixar a luz entrar; a princípio, tímida. Timidez não da luz, mas da abertura à luz. E por essa fresta na porta, por essa réstia de luz, todos saberão que você acordou. E o que vem depois daí? Bem, você não precisa ter pressa em saber, porque tudo que você especula que vai acontecer, ou teme que vai acontecer, já aconteceu. Tudo está feito. Tudo perfeito. Basta você descobrir no doce branco o gosto de uma vida nova.

Amor sempre,





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sábado, 29 de novembro de 2008

TANGO NA MADRUGADA [Sandra Paes]


Noite fria. O inverno prenuncia sua chegada de forma mansa e firme. Gosto desse clima, ar mais refinado, como se minh’alma se afinasse com essa tonalidade. Respiro melhor, me sinto mais leve e mais entregue de forma geral. Passeio na madrugada pelas ruas vazias e sinto a força da liberdade que esse gesto envolve. Aperto um botão e entra o Tango de Piazola para me acompanhar. Os acordes do bandoneon tocam com requinte meu sentimento de tristeza e paixão.

Para mim o tango é isso: a via mais curta entre um sentimento e outro. Quem o faz e concebe sabe dessa ternura louca que habita as ruas nas madrugadas, e é capaz de vibrar por qualquer coisa em silêncio, apenas no arfar de uma respiração intensa, soltando o fog que encobre o próprio ser. E nesse contexto me pego sorrindo, cúmplice única do piantal revelado na canção. O louco que carrega uma bandeirola nas mãos, como um táxi livre, a correr pelas ruas.

A melodia e a voz de Amelita Baltar se mesclam perfeitamente e me vejo pelas ruas de Buenos Aires, quaisquer bons ares, como esse que agora respiro, e me sinto livre e louca, no melhor de sua tonalidade e vibração. Pronto: me pego feliz, sem mais nem porquês.

De repente me sinto livre do manicômio que envolve a todos, todos os que seguem à risca as obrigações ditadas pela obviedade da sobrevivência e das normas impostas a todo que se diz cidadão e trabalhador — combinação muito aplaudida nos tempos de hoje em dia, moldura dourada que envolve muitas das milhares de vidas humanas por aí afora, correndo atrás de ganhar a vida, com esforço, com sacrifício, com empenho, como se ganhar tivesse que ver com toda essa batalha invisível em torno do tempo de viver. E eu a ouvir na estrada o canto rouco que diz: queira-me assim piantal, piantal!

E é tao solene essa verdade poética, que chega a rasgar o véu de minha própria lucidez. Percebo o quanto sou luxuriosa — rasgar o véu da lucidez. Não é isso que fazem os loucos? Quando, em que momentos? Quantas vezes podemos viver um "estado de insanidade temporária? Essa moderna definição de paixão?" E rio com tudo isso, ao perceber entre um acorde e outro a loucura onde vivemos todos que nos dizemos sãos, cordatos, lógicos, obedientes, fiéis e donos de nós mesmos.

E nesse instante percebo que meu coração se amansa e ajeita seu ritmo de ser, naturalmente, já que a pressão dos “donos” de todo e qualquer pedaço se desmancha e derrete vilmente, diante do colosso que só eu posso experimentar nessa estrada.

E de repente, um carro em alta velocidade perde o rumo e rola diante de mim como num filme de ficção. Desgovernado por completo, rola fora da estrada e eu apenas o contemplo na mansidão que me envolve, e nem ouso pensar: que louco é esse? Afinal, a canção fala da loucura mansa e real, o resto não sei e, talvez por isso, não permito nem que invada minha jornada. Bendita a paz que me envolve, tão intensa que não permitiu que o carro se chocasse ao meu interrompendo meu momento de leveza: dessa vez, sustentável. E pode até ser que seja nesse momento que damos graças à vida, de verdade!

Faz tempo que venho percebendo os sinais da morte por perto. Quando foi diferente? Os sinais estão todos por aí, percebê-los é que se torna distinto. Se não há tempo pra apreciar, do bolero ao tango, do vinho ao chá de jasmin, ficamos como um personagem de script definido, cenário composto, falas rijas e bem sincronizadas com os títulos que se carregam na parede, nas alianças das mãos, nas grifes de roupas e modas em geral, no “status” das casas onde moramos, e como tudo o mais que nos faz confusos e sem fusos.

E eu a me deleitar como uma figura de poema de Fernando Pessoa, um louco por aí, sem estar no manicômio, percebendo a vida como uma dádiva, tão delicada e tenra, e por isso mesmo tão preciosa. Sabedora por um instante da efemeridade dessa bolha de sabão, contemplo a face revelada de amigos, com quem por momentos únicos e inefáveis pude contemplar instantes de preciosa delicadeza, trama de um bordado requintado tecido por almas que parecem saber tudo sobre tangos, madrugadas, perfumes e gosto de jasmim.

A flor da idade é essa que desabrocha a cada instante onde podemos saborear a vida e como ela passa. Os gregos, por certo, ao criar o mito das horas, sabiam desse mistério que envolve o tempo, encobre como o fog da estrada a visão do destino, os rumos traçados por uma divindade alhures, tudo isso que integra a mágica dos sentidos, o que nos faz crer que os dominamos e o delírio bom de querer perdê-los ou mesmo experimentar essa sensação diante de sentimentos fortes e avassaladores.

Coração coberto de adrenalina, dopamina ou qualquer embriaguez da lógica, bate diferente — ou melhor, não bate, se afina com o todo — e nesse estar íntimo, só cabem os amantes, os grandes amigos, os companheiros de estrada — como o tango, o fog no ar e os que nos inspiram a seguir, sem saber como, onde, nem por quê.

Quem foi mesmo que disse que é preciso dois pra dançar tango? Na madrugada, essa dança, pelo menos na imaginação — o baile mais requintado que ousei viver — há muito mais que dois, aliás, número e figuração não integram esse momento. E é isso — esse estar entre, esse quase que! E eu posso descobrir que meu coração não é feito de vidro pintado. E por cause...


Imagens: Car Driving at Night, Walter Hodges; Tango Dancers, Carlos Goldin; Woman in Goggles Enjoying Sunshine, Tim Pannell

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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

LEONARDO MARTINELLI (1971-2008) >> Leonardo Marona


Mais um poeta se matou. Por que essa frase parece tão cômica e eu não consigo rir? – a cara torta se engana diante do espelho. A morte do poeta é o próprio mito da contradição de viver. A busca do poeta, o verdadeiro poeta, que é só poeta e mais nada, portanto sendo nada, a busca do poeta é sempre a morte, o andar cambaleante de quem espera um cataclismo, a direção do poeta é sempre a resolução inevitável do que se funde fátuo, mas muitos poetas, como quase eu muitas vezes ou anteontem, não admitem que na busca da morte se encontre a vida bruta, sem regras, inacessível porque dispersa e cheia, sem arestas. E para isso serve o poeta: ensinar sobre a vida com a própria morte. Não falo aqui de apologias ou bustos erguidos de pedra. Falo da presença eterna dos vultos, dos signos insondáveis que regem vagas potências, falo aqui da necessidade violenta de se olhar fundo a morte nos olhos, assim frente a frente, oferecer a ela um pirulito, mas há que se voltar, isso muitos poetas se esquecem, porque algo de fora, de muito lá fora, lembrou que nem tudo está sob controle, e as paredes de repente incharam, e os amigos tomaram as mais longínquas embarcações, mas equivoca-te se pensas estar só, és da cor do precipício mas brilha em ti a máscara mais delicada, pudera alguém chegar bem perto, inclinar o julgamento para apaziguar o ânimo, devagar, junto ao ouvido, dizer: “calma, dorme um pouco, esquece isso”. Mas estás num círculo de coisas que giram e não lhe dizem mais nada, procuraste em falsos cânones a resolução do tempo errado, o tempo certo se apresenta e não sabes que decisão tomar, as portas se fecharam, não lembras de nenhuma prece, és todo caminho sem rédea, o desfecho se precipita à preguiça irrevogável de apenas e tão somente ser. É, sim, extremamente compreensível esse clichê antigo: a morte de mais um poeta. O que não se compreende muito bem – ah e com que força! – é a contradição representada pela sua perda, sem ao menos reconhecer sua presença. Porque o poeta será sempre essa contradição contínua, essa contramão da hipótese, vácuo a que se soma a palavra que deserta sem se desculpar.


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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

DETALHES TÃO PEQUENOS DE NÓS DOIS (OU MAIS) >> Ana Coutinho >>

É incrível como é por pequenas coisas que nosso coração se infla.

Ouvi certa vez que uma pesquisa, feita com pessoas que passaram pela tal quase-morte, dizia que, na hora da partida, as imagens que lhes vinham à mente eram de coisas pequeninas, afetos quase invisíveis do cotidiano. Um jeito de olhar do amigo, um programa de televisão inocente, uma gargalhada numa noite de calor, o avental de cozinha, sempre precisando lavar. A unha do pé torta de seu companheiro, a mão fria na mão quente do seu amor, um vento gelado e um nariz pingando, a voz fina de sua irmã, o beliscão firme de sua mãe.

Talvez, se um dia eu morrer (é que ainda não tenho muita certeza disso), no meu filme de lembranças afetivas tenha uma meia suja que sempre uso em casa, o espirro exagerado de meu pai, a alça do sutien caindo da minha mãe, a gargalhada solta da minha sobrinha. Talvez me lembre apenas de coisas pequeninas e tolas como as noites em que assistia ao Amaury Jr. abraçada ao meu marido, ou o raspar dos pães queimados pela torradeira desregulada. Talvez fique a lembrança doce dos almoços de domingo em família, alguém pedindo pra passar o sal, outro pedindo pra pôr mais arroz, o suco é de que hein, mãe? tem gelo pro guaraná? passa o prato de chuchu? tá bom de frango? mais? quer molhinho? feijão em cima ou do lado?

Mas, ainda segundo a pesquisa, não obrigatoriamente as pessoas mais próximas a você são aquelas de quem se lembrará. Talvez venha à sua mente desconexa o chiado da televisão, a vinheta matinal do programa de rádio que você sempre ouvia, a língua presa do Kassab ou os cabelos repartidos no meio do Galvão Bueno...

Não, não serão as viagens extraordinárias com o seu marido que ficarão na sua lembrança. Serão as conversas ásperas, talvez até monótonas do dia-a-dia: "Que horas você vai chegar?", "Tira o carro da garagem?", "Carrega pra mim?". Serão as lembranças mais afetivas que seu coração trará, como que dizendo como foi boa a sua vida. Como foi terno e amoroso cada despertar suave, ao lado do seu bem, quando um cobria o outro, ou quando um sentia o corpo quentinho do outro, aquele segundo mínimo entre o dormir e o acordar quando, por um milésimo de segundo, você ainda não tem certeza onde está e, no instante seguinte, vê-se ali, na sua zona de conforto, que pode ser um quarto apertado ou o corpo pequenino de seu filho junto ao seu, explicando o porquê de sua coluna estar mesmo tão dolorida.

Porque, no final das contas, é disso que é feita a vida. Das bolhas na mão, do ralinho da pia cheio de comida, do cheiro usual daquele edredom velho, de uma piscadela na multidão.

E se esses segundos bobos, tolos, invisíveis, não forem bons, meu amigo, você está com problemas. Porque a viagem pra Paris ou os cristais swaroviskis do seu vestido de noiva foram detalhes muito pequeninos perto daquela pelinha solta do dedo mindinho do seu irmão mais velho...



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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

NOTÍCIA BOA >> Carla Dias >>

Eu tenho uma notícia boa, mas vou guardá-la por mais um tempo. Sempre fui guardadora de notícias boas, de ficar ruminando a dita até onde fosse possível.

A notícia boa chegou numa hora não tão boa, então tudo ficou mais leve. Notícia boa tem esse poder, não? Além do mais, ontem troquei de canal e assisti pela sei lá quantésima vez o mesmo episódio do seriado Friends, ao invés de assistir ao canal de notícias. As notícias por lá andam tão ruins que me deu vontade de rir à toa, só para lembrar como é isso. Friends me faz rir à toa... Não me canso de assistir.

Vocês já assistiram Alice, série brasileira da HBO? É boa... Muito boa.

Mas hoje não estou aqui pra falar sobre séries de televisão (mas me deu vontade, viu?). Estou aqui porque tenho uma notícia boa que dividi somente com poucos amigos, porque tenho medo de que ela evapore. E ela não é boa só porque é e pronto!

É boa porque chegou numa hora em que tudo só me escapava. Fosse criança, minhas irmãs diriam que ando com a mão furada. Já fui mão-furada profissional, sabe? Adulta, posso dizer que ando com a alma furada e, sabendo que adoro me profissionalizar...

Mas a notícia boa ainda é boa e concreta, ao menos por agora. Até eu conseguir transformar a notícia em fato. Aí pode ser que ela se prolongue um pouco mais.

E quem não gosta de prolongar sensação que notícia boa desperta?

Há muito tempo eu não recebia notícia boa; já nem sabia que cara ela tinha. Vinha estudando, detidamente, as notícias não tão boas, e as ruins, por certo, nunca faltaram. Mas eu me dei conta de que essa contemplação me fez praticamente esquecer como é receber uma notícia boa. O que é uma pena, porque posso muito bem ter passado batido por várias delas, tão distraída estava com seus avessos.

Agora, tenho de ir cuidar da tal notícia boa. Dar de beber, de comer, encontrar um lugar pra ela dormir. Fazer vingar, que não basta recebê-la, de braços abertos. Para que esse tipo de notícia boa seja boa mesmo, temos de dar com a língua nos dentes e celebrá-la.

Então, voltarei aqui pra gritar pra vocês que notícia boa é essa, mais adiante. Quando ela florir de vez.


Imagem: Jim do www.unprofound.com


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domingo, 23 de novembro de 2008

A SINA DOS SINAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

astreia — Flickr.comA vida avisa. Improvisos têm provisões. Chama tem chamado. Pele tem apelo. Pavor tem pavio. No começo, são só dois pontos, distantes, desconexos, invisíveis a um só olhar. Depois multiplicam-se os pontos — intermediários — chamando a atenção. O olhar, então, começa a ligá-los. Adivinha-se a figura. A sina tem sinais...

Quando era para ter sido a última vez em que eu a veria, eu lhe disse no ouvido, feito segredo: "Que pena. Logo agora..." — providente improviso. Invisível traço entre o meu ponto e o dela. Joelhos e cabeça curvados ao destino.

Quando nascemos, estamos nus. Nudez é companheira dos nascimentos. Quando durmo nu, já sei que planto inícios, aviso à vida.

No dia seguinte, acordei tarde demais para surpreender o sol na praia. Fui surpreendido por ele. Olho do sol em mim, aviso de calor feito motor de carro que se liga para a viagem. E então ela. Esperança do que não se espera. Seu corpo feito marcador de livro na minha história. Livro aberto, enredo esquecido, história retomada: "seria uma sereia ou seria só um sonho de criança?" Chamado da chama do sol.

Meu corpo treme feito os que sabem mas ainda não estão prontos para agir. Faço uma prece na pressa de ser feliz. Tomo música querendo ouvir coragem. Conclamo forças. Parto atracas. Invento versos...

Meu bem dorme ao lado
— sem dar por nós.
Respira vento, desenha seios
— remoto controle da onda em meu próprio peito.
Vermelho das unhas de seu corpo branco
ainda pinga a tinta de onde veio.
Meu coração... coração meu?
Parece agora que é alheio.

A indecisão demora, tem longas histórias, encena floreios. A ação é rápida, mesmo que sem jeito. Água numa mão, chocolate na outra: se tivesse a mão livre, puxaria a mão dela antes de pedi-la — a pele apela. Puxei-a só com essas mãos sem unhas — as palavras.

Quando o traço chega do ponto ao ponto, vê-se que não é ponto: "olha, menina, mostra o teu pensamento, dentro dessa cabeça eu sei que tem um universo". Ponto pessoa é planeta. Pele é atmosfera. O espaço da distância é o tempo de outra era. Frágil é o que se toca e se quebra. Frágil é o que se quebra ao ser tocado. Frágil é o que se quebra ao tocar. O traço une os pontos, mas os pontos continuam lá e cá. Ausência de toque. Depois do traço, o lápis do olho se eleva ao espaço.

O pavio do pavor acende: "que não seja Ela, que não seja Ela, que não seja Ela..." Pergunto para que não seja, para que não tenha, para que não faça, para que não sinta, para que não cante, para que não haja... Pergunto, pergunto, pergunto... Na borda do precipício do silêncio, muito se fala.

Não, não é Ela. Mas é tão feito Ela. Como se Ela avisasse: "Prepare-se! Decifre, da sina, os sinais." E por não ser Ela, eu ouso o toque e beijo sua mão — tão fina e macia como eu quero que seja a dEla —, e beijo seu rosto — tão morno e suave como eu quero que seja o dEla — e me precipito na vertigem do silêncio sem mais palavras.




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sábado, 22 de novembro de 2008

PASSOS [Maria Rita Lemos]


Eu já estava a caminho do trabalho quando o celular tocou. Era Ana, uma amiga querida, avó como eu de dois netos e uma neta. Ela ligou-me exultante, e na manhã nublada que começava eu vi um sol em suas palavras; sorrindo pela voz, ela me contou que ontem, aos 11 meses, seu neto caçula começou a andar: na verdade, deu três ou quatro passos pela sala, em direção à mãe dele, filha de Ana. A alegria foi geral, e se espalhou pela manhã de quinta feira, à medida que minha amiga contava a notícia à família, amigas e amigos próximos. Tive certeza dessa sua euforia quando, poucas horas depois, ao ligar o computador, recebi uma mensagem emocionante de minha amiga, dizendo dos primeiros passos de seu netinho num cartão virtual cheio de ternura.

Muito trabalho me esperava, mas não pude deixar de me lembrar de Ana e dos primeiros passos de Luca, seu netinho, durante alguns minutos de meu dia. Meu pensar perdeu-se no passado, bem passado mesmo, uma vez que Ana e eu estudamos juntas no mesmo Colégio, desde o jardim da infância até o final do curso de Magistério (naquela época, as professoras faziam o 'curso normal'), e acompanhei grande parte da vida dessa amiga, que foi uma verdadeira montanha russa, desde o primeiro namoro e casamento. Um começar e recomeçar incrível, na vida, nos sonhos, na profissão... enfim, eu sempre tive Ana como uma guerreira. Acredito que, quando ela ler esse texto algum dia, reconhecerá sua vida e talvez até se emocione, como eu estou emocionada em escrevê-la. Comparei os primeiros passos de Luca aos de Ana, e, por que não, aos passos de todos nós, os primeiros, em cada etapa de nossas vidas. Estou convicta de que essas passadas, trêmulas e incertas, que nossas crianças arriscam para começar a grande marcha de suas vidas, são apenas as primeiras de muitas outras jornadas, e para isso atenho-me, outra vez, a Ana. Não sei como foram seus primeiros passos em bebê. Mas sei como foram seus passos quando ela fez sua primeira comunhão, aliás, na mesma turma que eu. Lembro-me de que os passos que ela deu, no grande salão do colégio, pelo braço de seu pai, também foram hesitantes e inseguros, menina tímida que sempre foi. Depois, veio a formatura, e outra ainda... e os passos se repetiam. Solenes, sérios, assistidos por muitas pessoas que sorriam, ao vê-la passar.

O grande momento dos passos de Ana, aliás, os passos decisivos foram os que a conduziram, novamente pelo braço do pai, ao altar, para unir sua vida à de Vítor. Novamente ante os olhares admirados de amigos e parentes, Ana marchou serena e solenemente pela nave, os olhos brilhantes chegando com a alma à frente do corpo, de encontro ao homem que amou por dez anos, até que um acidente o levou para sempre de sua vida. Estive com minha amiga nessa noite de dor, acompanhei seus passos quando ela caminhava (ah, os passos, novamente...), dessa vez lenta, mas dolorosamente, em direção à última morada do corpo daquele que foi seu grande amor.

Felizmente, a vida continuou a fazer sua parte. O tempo encarregou-se, como geralmente faz, de secar as lágrimas, e outros amores chegaram aos braços carinhosos de Ana. Ela emocionou-se, novamente, com os passos que deu para conduzir seu filho caçula na formatura do colegial: eu estava lá, no grande clube, e a vi caminhar orgulhosa e sorridente, com a mão apoiada no braço do filho querido. Ana casou-se novamente, dessa vez sem grandes passos nem pompa, mas não sem menos felicidade. Foi e é muito feliz na escolha que fez, creio que dessa vez para sempre, como ela sempre diz, que envelhecerá ao lado da pessoa que a ama e a quem ela ama também, com muita ternura.

Enfim, fica aqui, para Ana e meus leitores e leitoras amigas, essa reflexão de hoje: quantos 'primeiros passos" já demos em nossas vidas? Quantas jornadas começamos, de quantas voltamos atrás, talvez corajosamente, ou quem sabe por temor de continuar a caminhada? O bom da vida, com certeza, é que sabemos que, a cada manhã, novos passos nos esperam. Haverá um dia, certamente, em que nossos passos serão os últimos, pelo menos nesse plano da matéria. Louvado seja Deus por nos dar essa certeza, e ao mesmo tempo nos poupar de conhecer esse dia... Só peço, a esse mesmo Deus que guiou os primeiros passos nossos, em todas as caminhadas, que os últimos movimentos sejam em direção à alegria. Que estejamos emocionadas(os), nesse momento solene, tanto quanto estávamos enquanto caminhávamos em direção à pessoa amada, que nos esperava para a jornada que seria partilhada, dali em diante. Que nossos últimos passos, a caminho da eternidade, sejam serenos e tranquilos como quem sabe que andou pelos caminhos do amor, da verdade e da justiça.

Terminando, Ana querida, aí vai meu tributo pelos primeiros passinhos de Luca. Não sei se poderei vê-lo nessa nova etapa, antes de seu aniversário,na próxima semana: mas, certamente, nesse dia lá estarei, para beijar muito esse menino doce. Que, certamente, será tão guerreiro quanto as mulheres de sua vida, particularmente sua mãe e sua avó.


Baby Steps, Tom Grill; Tired Woman Sitting on Stairs, M. Thomsen; Woman Climbing Stairs, M. Thomsen

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

UM BLUE >> Leonardo Marona


Então a música feita de fuligem se instalou provisoriamente por dentro das redomas do cérebro, e ele num piscar de olhos, muitos olhos em volta e por entre as moitas de calças arriadas, não estava mais ali, diante de máquinas feitas para não serem percebidas e sim eficientes na sua eficácia, mas ele não era de repente mais uma dessas máquinas e podia ouvir cordas, chocalhos grudados aos pés em choque violento com uma poesia analfabeta, a seqüência pulsante de que se precisa para suportar as esporas nas costas, o cavalo que suava pelas narinas, o povo de boca aberta, os pescoços vermelhos tilintando sob o sol, e ele não era mais máquina olhando para máquina apenas, havia na atmosfera algo que parecia espremer as existências para um canto sem oxigênio, havia o óleo quente e o cheiro de galinha frita, alguma risada desafinada e a lembrança de que somos todos feios em essência, de que, incompletos, arquejamos e esperamos ansiosamente pelo fim alheio, de que somos feitos de poeira cósmica e por isso devemos nos abraçar, unir os corpos feito elemento químico, e não era mais possível agora odiar a feiúra, negar a natureza como presente trabalhoso, sons muito agudos marcavam a chegada dos desajustados, a milenar cavalaria barroca, os traços de pele curtida rechaçada pelo sol com náusea, o gêiser de mil bocas abaixo da terra como que se mexendo, prestes a mudar de novo o quadro, e ali estamos todos em roda, não há mais porque falar em nada, somos a junção da existência e precisamos fazer seguir a ventoinha ceifadora, cacete falar em dicotomias mitológicas: bom-mau, bonito-feio, deus-diabo, estamos aqui e queremos tudo que não for diagnosticável, queremos a morte desprovida de sintoma, o toque de caixa exige que se preste atenção ao ritmo, as notas são pés negros que pulam do tiro que obriga a dançar – e de onde vocês acham que veio o reggae? – os pés sobre a brasa, a música primitiva dos homens sincréticos, dos negros fugitivos, a música dos contrabandistas de vinho barato, daqueles que recolhem tocos de cigarro do chão e, sempre elegantes, tiram o chapéu a quem passa, antes de lhe roubar a carteira, porque somos todos um pouco pedintes, rasgos ainda em sangue sensíveis ao artifício, por isso a música veloz, o murmúrio macambúzio por tragédias ancestrais, somos a música de após o maremoto, somos apóstolos vestidos com macacões sujos de graxa, mas isso por agora não é mais problema, chegue mais perto, não ligue para o cheiro forte, quanto à música, não se assuste, ela se torna mesmo mais rápida, assim, de um suingue como o coração ainda vivo, pegando fogo de repente no meio do ar, mas não perca o ponto, bata forte o pé no chão porque é música da terra, encha o peito de ar e sorria, pois pode ser a última vez – e será.

Então resta vestir o capuz, acomodar a corda em torno à garganta ressecada, as mãos impotentes não fazem mais acordes, estão trincadas uma na outra e delas agora escorre a seiva extinta, a música então desacelera, a paisagem fica por um instante esfacelada, todos fazem o sinal da cruz, mas deus sabe que chega a hora de cada um, e todos pensam: “mais um dia e não chegou minha vez” – a música pára somente quando não passa de um corpo dependurado.


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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O INIMIGO >> Ana Coutinho >>

Existe alguém aqui dentro. Logo aqui, dentro de mim, alguém que está contra mim. Não sei quem é, não sei bem o que quer, mas existe alguém aqui que está boicotando tudo. Falo baixo para não acordá-lo, ando na ponta dos pés, principalmente se estou feliz, porque ele – ou será ela? – esse ser que habita em mim, não pode ver uma idéia boa, um sorriso tonto, que logo vem atrapalhar tudo.

É o inimigo. Ah você achou que não tinha inimigos? Que caso fosse assassinada, um dia, sua vizinha de porta apareceria pesarosa no Jornal Nacional: “Nossa, mas ela não tinha inimigos...” Pois você tem, bem aí, dentro de você. E é melhor conhecê-lo do que deixá-lo assim, agindo à própria sorte. Talvez o seu tenha aparições mais sutis, pode ser que ele use pantufas e seja um gentleman, chega, sai e você nem percebe. Mas sabe quando você vai falar uma coisa numa reunião importante, e a palavra lhe some dos lábios? Ou nem precisa ser uma ocasião especial, quando você está batendo papo com um amigo e vai falar daquele filme, ai aquele, claro que você sabe, com aquela atriz, meu Deus, ai que aflição, aquele, tá na ponta da língua, aquele lá, sabe? Não. Mas sei quem foi que roubou. Foi ele, o inimigo. É um ladrão, o danado.

O inimigo chega quando você acha que está dominando. A mim ele vem sempre diante de uma tela branca. Impressionante. Eu tenho mil idéias, textos prontíssimos na mente, era só ditar para as minhas mãos e estariam prontos. Mas, bastou a tela vazia aqui, a me olhar, que o inimigo veio e roubou tudo. Fiquei de mãos — cabeça e tela — vazias. Mas eu tinha acabado de pensar uma idéia boa...

O que mais me impressiona nesse sujeito é a rapidez. Ele é tão veloz que você pode saber uma coisa num minuto e, no instante seguinte, ele terá levado de você. Mas como? Estava aqui agora mesmo? Você dirá, como se diante de uma vaga vazia onde você estacionara seu carro pela manhã. Roubaram, claro. Alguém toma a conclusão de você.

Imagino que o inimigo fique escondido, observando tudo à espreita e, quando vê que as coisas estão bem, surge com seu movimento derradeiro, tirando tudo de esquadro. Às vezes leva-se dias para entender um acontecimento. Mas é quando esse acontecimento faz sentido, é quando estamos com a pele queimada de sol, pra cima, positivos e confiantes, que ele — atrevido — aparece. Logo uma onda de desânimo nos pega, talvez até uma gripe, ou, se ele estiver num dia bom, só uma dúvida, uma pequena duvidazinha que pergunta, tal qual um pernilongo zumbindo no seu ouvido: “Sou mesmo capaz? Consigo mesmo fazer isso?”. Ah, mas você já sabia agora há pouco, por que não trancou as portas? Porque não fechou os vidros, ele entrou afinal...

Sempre se trata de algo que você já tinha. Uma palavra, uma certeza, uma blusa que você tinha planejado usar bem hoje, ou mesmo uma presilha de cabelo que some, sem explicação. Pode saber, foi ele.

Ele quer o que temos, ele quer aquilo que conquistamos — a duras penas — quanto mais difícil foi conseguir, mais o inimigo tentará levar de você. Há quem o evite, alguns mais firmes conseguem rejeitá-lo muitas vezes. Eu ainda apanho do meu inimigo. Porque, de certa forma, cuido dele. Trato-o não com raiva, mas como garoto peralta que gosta de fazer macaquices. É um saci, meu inimigo, e, talvez por isso, tão impertinente. Se eu tratasse à altura, como um inimigo sombrio e forte, talvez ele não tivesse — por exemplo — levado o final desse texto, uma frase prontinha e bem amarradinha que eu tinha aqui, agorinha, na ponta da língua... Viram? Correndo ali na esquina? Foi ele, bandido!

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

SE CADA UM... >> Carla Dias >>

Ah, mudar as coisinhas...

Houve uma época em que eu acreditava que sim, que mesmo embarcando numa jornada solitária, conseguiria mudar o que me agredia o senso de justiça e a eloqüência emocional. Era tão clara minha necessidade de mudar as tais coisas, que às vezes me esquecia do que se tratavam; que envolviam outras pessoas, outras direções.

E como chegar ao mesmo lugar indo para cantos diferentes?

Tenho noções bem apanhadas sobre no que resulta a intolerância. Sabe aquela frase que escapa da boca da gente vez ou outra? “Parece que eu atraio”. Já atraí momentos freneticamente intolerantes para a minha vida. Alguns eu assisti de camarote... Até a cena dois, quando não agüentava e tomava partido do meu afeto, assumindo a coragem de sol em escorpião e chorando mais tarde, aos moldes da lua em câncer.

Mas nunca quis mudar os astros... Os lábios... Os astrolábios.

Outras vezes, eu tive de engolir a seco a intolerância, porque quando desferida na gente, a ela nos faz reagir intolerantemente. E se não queremos nos juntar aos seus súditos, melhor não abrir espaço para a possibilidade, não é mesmo? Apesar de que, humana que sou, não consegui evitar vez ou outra. Dar aquilo que não se deseja receber é de uma crueldade homeopática. Auto-crueldade.

Pensei, de coração, que mudaria o mundo...

Mas foi mudando os móveis de lugar que me dei conta de que o mundo é aquilo que deduzi, depois de ouvir uma raspa de conversa de duas moças que saíam do supermercado, ainda outro dia. Uma delas apertou a jugular do clichê e mandou: “Se cada um fizesse sua parte...”

Às vezes, não, muitas vezes durante um mesmo dia, eu tenho de me valer de frases feitas, de pensamentos prontos, para chegar onde preciso, mesmo quando mudar o rumo da prosa, acentuar suas nuanças, poderia tornar o resultado muito mais satisfatório e, de quebra, nos permitir usar melhor a originalidade. Mas estranho é como originalidade anda démodé... E justo num momento em que o novo é o da vez: mal usou, experimente um novo, um melhor, um mais, mais. Essa efemeridade consumista e que nos consome não me daria frio na espinha se também não estivesse sendo aplicada às pessoas cada vez mais rápidas no gatilho ao definirem quem e como o outro fará parte da sua vida.

Sem café em dia chuvoso e frio? Horas papeando sobre nada e tudo e sobre o quase?

Eu sei que tudo se transforma, inclusive a forma como lidamos com a realidade, mas eu queria por demais mudar essa coisinha... E que fosse simples: as pessoas conquistassem seu espaço na gente, levando o tempo que fosse para nos fazer apaixonar por elas, porque essa jornada é fascinante.

Ela disse: “Se cada um fizesse a sua parte”. Ela saindo do supermercado e eu entrando, já esquecida do que deveria comprar, a frase se repetindo na minha cabeça, até que achei uma companheira para ela:

Se cada um fizesse a sua parte, finalmente conheceríamos o inteiro. Seríamos inteiros. E inteiros, compreenderíamos mistérios, velaríamos segredos, compartilharíamos... Café quente em dia chuvoso e frio... Horas papeando sobre nada e tudo e sobre o quase.

A intolerância do lado de fora.


Imagem: Jim do www.unprofound.com


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terça-feira, 18 de novembro de 2008

A HISTÓRIA DO MEU LIVRO -- Paula Pimenta

A minha amiga Lara outro dia me perguntou se eu já tinha escrito uma crônica sobre o meu livro. Ainda não tinha. Mas resolvi satisfazer o desejo dela, porque realmente não é todo dia que se lança um livro e também tanta gente me pergunta como este livro nasceu, que resolvi contar a história.

Uma noite qualquer, em outubro de 2004, eu me sentei na frente do computador e pensei: “Vou escrever um livro”. Essa cena já tinha se repetido algumas vezes, tenho uns três livros guardados que comecei e aposentei ainda nos primeiros capítulos, mas daquela vez foi diferente.

Quando comecei a escrever, eu não tinha a menor idéia do que viria a ser aquela história. Eu tinha um daqueles livrinhos de “significado dos nomes” e abri numa página qualquer. Bati o olho em “Fani”. Significado: “Diminutivo de Estefânia”. Gostei. Minha personagem principal já ia nascer com nome e apelido. E foi assim que eu comecei a história. Uma menina de 16 anos, em casa, em pleno fim de semana, por vontade própria. Uma menina que não tem nada a ver com a menina que eu fui, que saía em todos os fins de semana, que tinha milhões de amigos e não perdia uma festa. Acho que isso já responde à pergunta que sempre me fazem, se o livro é autobiográfico. Não, não é. A história da Fani é a história que eu gostaria de ter vivido.

Eu escrevi os dois primeiros capítulos, mostrei pra minha mãe e uma amiga, as duas gostaram muito, escrevi mais uns três, mostrei tudo pra minha prima, ela também gostou muito e aí aconteceu um fato em minha vida que me fez parar a escrita por um tempo. Eu me mudei pra Londres, em março de 2005. Lá, no começo, não dava pra escrever nada. Além de estar com a cabeça a mil e sem a menor inspiração, eu não tinha um computador, só fui comprar um notebook uns três meses depois, mas ainda assim a minha vontade de escrever não tinha aterrisado nas terras londrinas. Um pouco depois, comecei a fazer um curso de escrita criativa. E que curso! Ele acontecia em uma livraria megastore, que fechava às 18h. O curso começava às 19h, e então a livraria era só dos participantes. O moderador falava do assunto do dia, a gente discutia, e aí todo mundo era liberado para se sentar em qualquer lugar da livraria para escrever. Depois a gente se reunia novamente e lia para todos o que escreveu. No final, fazíamos uma conclusão. Era uma terapia da escrita. Esse curso é uma das coisas que eu mais tenho saudade em Londres. E foi exatamente nele que a minha vontade de continuar meu livro, já estacionado há uns cinco meses, aflorou.

Eu reli tudo o que tinha escrito, modifiquei umas partes (já influenciada pelo aprendizado do curso), e comecei a continuação. Eu gravei uma trilha sonora especialmente para escrever, gravei músicas que faziam com que eu entrasse no clima do livro, e toda noite colocava meu fone de ouvido e escrevia até de madrugada. Nos finais de semana, eu colocava o computador na mochila e ia para os parques, sentava embaixo de alguma árvore e aí é que a inspiração vinha mesmo. Uma pena não podermos nos sentar nos parques do Brasil pra escrever. No mínimo nos roubam o laptop e a história.

Meu livro foi virando realmente um livro, em vez de capítulos. Continuei mandando trechos para minha prima, mãe e amiga (as mesmas que vinham lendo desde o comecinho) e elas ficavam muito ansiosas pelos próximos, o que me fez ver que estava no caminho certo. Certa noite, eu acordei de madrugada e do nada me veio uma idéia. Como a protagonista era louca por cinema, por que eu não explorava mais isso e colocava um trecho de cada filme que ela gostava para ilustrar e costurar os capítulos? E foi o que fiz. Quando terminei de escrever o livro, pesquisei citações de vários filmes e consegui reunir mais de 200 interessantes. Penerei as que encaixavam melhor e só então defini quais delas iriam entrar. Foi a parte que deu mais trabalho, mas também a mais divertida, porque foi muito interessante tentar traçar um paralelo entre os filmes e os capítulos.

Não esqueço do dia em que terminei de escrever. Outubro de 2005. Quando escrevi FIM, caí no choro. Mandei um e-mail na mesma hora pra minha mãe: “Buááá, minha amiguinha foi embora...” E foi mesmo essa sensação que senti, como se alguém que estivesse me fazendo companhia durante todos aqueles meses tivesse viajado e me largado ali.

Mas na verdade, a Fani desembarcou no Brasil junto comigo. Mal cheguei aqui, comecei a procurar editoras para mostrar o livro. Foi aí que eu senti como é difícil publicar um livro no Brasil. No exterior é tão fácil! Tem uma profissão no USA e na Inglaterra que se chama “agente literário”. Você manda os três primeiros capítulos do seu livro pra vários desses agentes, por e-mail mesmo, eles vão ler com a maior atenção e te dar o retorno, se gostaram ou não. Se gostarem, vão te pedir a continuação e então eles é que vão correr atrás da editora pra você. No Brasil não funciona assim. Nós mesmos é que temos que imprimir o livro, bater na porta de cada editora e implorar pela atenção de alguém. O que me impressionou mais é que as pessoas nem querem ler o começo do seu livro, nem uma página. Simplesmente acham que você não tem competência pra escrever um livro bom, que dê lucro, e te dispensam.

Por sorte, uma amiga já tinha lançado um livro pela editora Autêntica e me apresentou para a dona de lá. No começo ela também não queria ler meu livro, mas quando eu contei o tema, ficou interessada. Poucos dias depois, minha amiga me ligou falando que o pessoal da editora tinha ligado pra ela. Leram meu livro e adoraram. E o principal: iam publicar! Mas não foi aí que eu comecei a comemorar, tinha um ‘porém’. A agenda de publicações daquele ano (2006) estava lotada. Só poderiam lançá-lo em 2007. Tudo bem, eu já tinha esperado tanto... assinei o contrato. Quando 2007 chegou, passaram pra 2008. Minha ansiedade, que já é grande, ficava ainda maior pelas perguntas vindas da família e amigos o tempo todo: “E o livro?”, “Você não ia lançar um livro?”, “Seu livro não vai sair mais?”

O tempo finalmente passou, 2008 chegou, e em abril meu livro entrou em produção. Começou a revisão, editoração, a primeira reunião e a partir daí foi só alegria. Não esqueço o dia que me chamaram pra escolher a capa. Fiquei em dúvida entre duas e fiz todo mundo à minha volta votar. Hoje não sei como eu tive dúvidas, a capa escolhida é perfeita (na minha suspeitíssima opinião). No dia que ele ficou pronto, as meninas que trabalham na editora me falaram que era o livro mais bonito que já tinha passado por lá. Quase tive um ataque quando vi. Realmente era o livro mais lindo que eu já tinha visto na vida. Não tinha a menor possibilidade de ver um livro desses na livraria e não sair de lá com ele. E era meu.

O lançamento foi uma festa. Mais de cem pessoas compareceram. Eu não vi nada. Só assinei, assinei, assinei. No dia seguinte, me deu a maior tristeza. O acontecimento que eu tinha esperado por três anos, tinha chegado e passado. Mas logo fiquei feliz de novo, comecei a receber os muitos elogios e até hoje eles ainda não pararam de chegar. Todos os que lêem realmente parecem gostar, muitos dizem que choraram no final, e acho que não tem alegria maior pro escritor do que essa, causar identificação e emocionar o leitor.

E cá estou. Quase dois meses desde o lançamento e ainda completamente envolvida. Fiz um site, o http://www.fazendomeufilme.com.br/ e ele também tem feito sucesso (ainda bem, porque ele deu mais trabalho do que escrever o livro!). Agora já penso na continuação da história, que é o que as pessoas mais têm me pedido nos e-mails que tenho recebido.

Eu disse que a vida da Fani é a que eu gostaria de ter vivido, mas pensando agora, depois de recordar toda a saga do livro, penso que me enganei. Não troco essa história da minha vida por história de livro nenhum. Afinal, o melhor de tudo é poder escrever várias histórias na vida da gente. E “hoje eu sei que nenhum filme (ou livro) é melhor do que a própria vida”. E essa última frase não é minha. É da Fani.


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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

DESORDEM HUMANA >> Albir José Inácio da Silva

- Pega aí, moça, que essa batalha é muito ruim – disse, depois que mais uma pessoa o ignorou, empurrou sua mão ou se esquivou do folheto. – Se alguém soubesse como isto é ruim de fazer...- seguiu ele resmungando. Tornou a estender a mão e a recolhê-la, ante o olhar furioso da senhora de quem cortou o caminho. Afastou-se quando ela começou a falar: - Já não bastavam os camelôs e mendigos de todas as idades que infestam as calçadas, agora não se pode mais andar no Rio de Janeiro sem “tropeçar”nestes entregadores de papel.

Acho que a senhora usou com precisão a palavra tropeçar. A gente tropeça naquilo que não vê. Do que vê a gente desvia, empurra, chuta, mas não tropeça. Ali não estão pessoas, estão incômodos. Incômodos que não têm rosto, não têm fome, não têm filhos esperando em casa. Não são humanos, são invisíveis, são desordem urbana.

Desordem urbana é uma expressão que temos ouvido muito ultimamente, principalmente por conta das eleições municipais. Choque de ordem foi a principal promessa dos candidatos. E todos concordamos com a necessidade de ordem e racionalidade nesta cidade. Principalmente quando a desordem é causada pela incompetência administrativa, pelo desinteresse político, pela corrupção e pelas vantagens indevidas. Os jornais e a televisão têm mostrado imagens de policiais fardados comprando ou “ganhando” CD’s de pornografia pirata. Flanelinhas acharcam livremente os motoristas nesta cidade sem que se consiga um único policial nas proximidades para pedir socorro. Verdade que no final do dia estes aparecem cochichando com aqueles, provavelmente pedindo-lhes afetuosamente que não repitam isso no dia seguinte. Ainda dizem que a polícia do Rio é violenta!

Mas deixemos de lamúrias e retornemos àquele jovem lá do começo. Comigo a abordagem foi além do papelzinho. Como eu trazia na mão uma garrafa de água, ele me pediu um gole. Disse-lhe que a garrafa já estava quase vazia, mas que poderíamos comprar outra ali naquele bar. Chegamos ao balcão e seus olhos percorreram ávidos tudo que havia para comer. Não acredito em esmolas, acredito em políticas sociais custeadas pelos impostos dos cidadãos e geridas pelo poder público. Como canta Gonzaguinha, a esmola “... ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Mas ele não me pediu nada e eu não pude ignorar seu olhar. Sorriu quando perguntei se estava com fome. Tomou café com leite, comeu duas coxinhas e um pedaço de bolo. Comentei que teria sido melhor se ele tivesse almoçado, mas ele replicou que assim estava bom porque estava com muita pressa. Tinha de terminar os folhetos, receber pelo trabalho, viajar por duas horas e levar para casa pelo menos leite, feijão, farinha e o que mais o dinheiro desse. Falou isso sem amargura, com um meio sorriso de quem quer amenizar palavras que sabe fortes. Disse que esperava que Deus me abençoasse muito, porque não tinha comido nada até aquela hora.

Por mero acaso ele deixou de ser apenas um incômodo para mim. Tive de enxergá-lo, de ver seu rosto, de reconhecê-lo pessoa.

E ele não me pareceu nada com desordem urbana.

Que a desordem urbana, que esconde interesses escusos e criminosos, que embrutece o cidadão descrente da solidariedade e da justiça, não nos impeça de ver a pessoa. Não nos impeça de reconhecer a dignidade daqueles que são dignos mesmo sem os direitos da cidadania.

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domingo, 16 de novembro de 2008

FLOR DO CAMPO >> Eduardo Loureiro Jr.


Certo dia, após alguma insistência de minha parte, minha avó contou essa história, que eu não conhecia. Hoje, depois de ouvi-la muitas e muitas vezes de minha avó, de minha mãe e de minha irmã, eu reconto a história assim...


Era uma vez um reino onde vivia um pescador que pegou um peixe que havia engolido uma pedra preciosa que foi parar no fundo do mar não se sabe como. Quando o pescador abriu o peixe, descobriu a jóia — com espanto. O peixe ficou morto na praia, e o pescador levou a jóia para casa.

O pescador, que era viúvo, tinha uma filha chamada Flor do Campo, nomeada assim por sua beleza. Além de bonita, Flor do Campo era inteligente.

— Veja o que encontrei, filha.
— Bonita pedra, meu pai.
— É linda! Vou levá-la de presente ao rei.
— Ele não vai recebê-la.
— Não acha esta pedra digna de vossa majestade?
— Ele vai pedir um estojo, e o senhor não tem o estojo.
— Só você mesmo, filha. Diante de uma jóia tão valiosa, você acha que o rei vai pedir um simples estojo?
— Então leve, meu pai.

O humilde pescador pediu audiência e foi atendido. Apresentou ao rei seu presente.

— É uma bonita pedra. E agradeço sua generosidade. Mas não posso recebê-la sem um estojo.

O pescador pensou em voz alta:

— Flor do Campo estava certa.

O rei perguntou de que se tratava, e o pescador explicou. O príncipe, ouvindo aquela história, pediu ao rei para resolver, ele mesmo, aquela situação. Autorizado pelo rei, o príncipe propôs ao pescador:

— Sua filha parece inteligente. Eu ficarei com a pedra, mesmo sem o estojo, se a sua filha me fizer uma camisa com a areia fina da praia.

O pescador não soube o que dizer. Arrependido de ter ido ao palácio, e já lamentando ter achado aquela jóia, ele voltou para casa.

— Então, meu pai?
— Você estava certa.
— Ótimo. Vamos continuar nossa vida.
— Não é tão simples assim, filha. O príncipe se meteu na história, e agora quer que você faça para ele uma camisa com a areia fina da praia.
— Só isso? Não tem problema.
— Minha filha, isso não é hora para brincadeiras.
— Vá até o castelo e diga que eu terei prazer em fazer a camisa tão logo o príncipe me envie linha e agulha próprias para o serviço.

O pescador suspirou de desesperança. Pensou em discordar da filha. Mas assim como o rei permitiu ao príncipe que assumisse a dianteira, o pescador deixou-se guiar pelo conselho de Flor do Campo e voltou ao castelo.

— Senhor príncipe, Flor do Campo está disposta a fazer-lhe a camisa. Pediu-lhe apenas linha e agulha apropriadas ao serviço.
— Sua filha é mesmo muito inteligente. Quero ver se ela é também muito bonita. Traga-a aqui.

E assim aconteceu. O pescador levou sua filha até o castelo, e beleza como a de Flor do Campo o príncipe nunca tinha visto. Pediu-lhe imediatamente em casamento. Ela aceitou. O pescador consentiu. O rei autorizou.

— Minha futura esposa, há uma única condição para nosso casamento: que você nunca mais revele a sua inteligência para quem quer que seja.

Flor do Campo, que também se encantara pelo príncipe, aceitou. E houve sete dias de festa para celebrar o casamento.

O tempo passou. O velho pescador morreu num dia de sol, na praia, fisgado pelo anzol do pescador maior que é Deus. O príncipe e Flor do Campo foram morar em outras terras, onde viveram felizes até que o rei faleceu. O príncipe retornou para assumir o reinado: ele tornou-se rei; Flor do Campo, rainha.

Certo dia, durante sua caminhada matinal, a rainha Flor do Campo viu um camponês triste, sentado à beira da estrada.

— Algum problema, meu senhor?
— O salário está atrasado, rainha.
— Só o do senhor?
— O de todos. Desde que o novo rei assumiu.
— Não se preocupe. Mais tarde, o rei passará por aqui a cavalo. O senhor arranje uma vara e comece a pescar.
— Mas aqui não tem água, rainha.
— Faça de conta. O rei vai achar estranho e descerá do cavalo. Quando ele perguntar, diga que está tentando pescar seu salário que está atrasado.
— Mas rainha...
— Faça assim, se quiser receber seu salário. Mas o senhor vai ter que me prometer segredo. Não pode revelar ao rei que fui eu que lhe dei a idéia.
— Prometo, vossa majestade.

Não demorou muito e o príncipe passou por ali. Vendo o camponês naquela situação, apeou do cavalo.

— Pescando no seco?
— Estou tentando pescar meu salário que está atrasado.
— Desde quando?
— Desde que seu pai morreu.
— É só o seu salário que está atrasado?
— O de todos nós, vossa majestade.
— Pois que venham todos ao castelo amanhã para receber o pagamento.

No dia seguinte, o rei acertou as contas com todos os servos, deixando o camponês por último.

— Farei o seu pagamento logo que você me diga quem lhe deu a idéia de pescar no seco.
— Vossa majestade está certa. A idéia não foi minha. Eu posso ficar sem o pagamento.
— Esta não é uma opção. Se você não disser de quem foi a idéia, será castigado.
— Sinto muito, vossa majestade. Eu fiz uma promessa de não revelar.

Quando o camponês já estava sendo levado por dois guardas, a rainha chegou.

— Que está havendo, meu marido?

O rei contou-lhe o que se havia passado.

— Pode libertar esse pobre homem. Fui eu que dei a ele a idéia.

O rei ordenou que o camponês fosse libertado, e pagou-lhe em dobro o salário:

— Isso é pela fidelidade que você dedicou à rainha, guardando-lhe o segredo.

Quando ficaram a sós, o rei falou para Flor do Campo.

— Creio que você é inteligente o suficiente para saber que descumpriu nosso acordo ao revelar sua inteligência para aquele camponês.
— Sim, senhor.
— Creio também que você já me conhece o suficiente para saber que sou um homem de palavra.
— Sim, senhor.
— Então arrume suas coisas. Uma carruagem lhe levará para onde você desejar logo após o almoço. Como prova de minha boa vontade, permito-lhe que leve consigo uma lembrança, um presente, algo de que goste no palácio.
— Assim será, senhor.

Durante o almoço, Flor do Campo colocou um sonífero no prato do rei, que dormiu sem demora.

O rei só acordou algumas horas depois.

— O que aconteceu comigo? Onde estou?
— Você está na antiga casa de meu falecido pai.

O rei, ainda um pouco sonolento do remédio, fez cara de quem não estava entendendo. Flor do Campo completou:

— Você me autorizou a levar do palácio algo de que eu gostasse, como uma lembrança. Naquele palácio não há nada de que eu goste mais do que de você.

Vendo-a ali, na casa do pai, sem trajes de rainha, uma flor do campo, simples, bela e amorosa, o rei sorriu e disse:

— Você não tem mesmo jeito. Vamos voltar ao castelo. De hoje em diante, você está livre para usar sua inteligência da maneira que achar melhor.



E por essa história eu digo: Grato, Vó Izolda.
E por essa história eu digo: Bem-vinda, Flor do Campo.






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sábado, 15 de novembro de 2008

A CHEGADA DA NOVA MULHER [Maria Rita Lemos]


Fui ao Rio de Janeiro, dia 25/10, para participar do lançamento do livro genealógico que conta toda a história de minha família paterna, desde a migração do Porto, em Portugal, até os dias atuais. Antológica e interessante, a obra foi "garimpada" e escrita pela amiga e genealogista Regina Cascão, uma criatura doce e genial que por duas vezes teve membros da família que se cruzaram com o nosso "galinheiro", como carinhosamente apelidamos nossas origens.

Na carinhosa recepção que nos foi preparada, cheia de (re) encontros e abraços, o assunto de nossas antepassadas fêmeas surgiu, e então comentamos o quanto nossas vidas mudaram, enquanto mulheres que somos. Aliás, nossas avós e bisavós jamais poderiam sequer sonhar com o que podemos fazer e viver nos dias atuais, embora ainda reste muito caminho a percorrer.

Ninguém pode contestar que, embora a mulher tenha sido colocada por muitos séculos em plano secundário em sua relação com o homem, de fato ela sempre caminhou a seu lado. Durante quase toda a história da humanidade, ela foi preparada para o cuidado do lar e as prendas domésticas, não ultrapassando os limites das paredes de sua casa. Nossas ancestrais nem sonhavam em realizar algo que não tivesse a ver com o cuidado dos filhos e do serviço da casa, além das chamadas "prendas" domésticas. Por mais de quatrocentos anos, elas viveram dentro de uma sociedade hermética, totalmente patriarcal. Até a República, passando pelo Brasil colonial e imperial, o sexo feminino era considerado e tratado como um ser humano de menor importância, comparado às crianças e até mesmo aos animais e demais pertences da casa, todos eles propriedade exclusiva do dono, seu pai ou marido.

Ironizando ainda mais sua posição subalterna, e certamente para colorir um pouco tanta indiferença disfarçada, o "bondoso" macho brasileiro criou a expressão "rainha do lar", talvez tentando, ainda que inconscientemente, compensar suas mulheres, irmãs, mães e filhas por estarem sempre ausentes das grandes decisões que envolviam a política e a história brasileira. Mulheres estas que, tão inteligentes e com tanto potencial como as de hoje, muitas vezes não tinham o direito de opinar, e, se o fizessem, na quase totalidade das vezes eram ignoradas. Tinham apenas que obedecer, sempre, ainda que não concordassem, voltando-se para os trabalhos do lar e das crianças. Essas mulheres que foram nossas antepassadas e fazem parte de nossa vida, ainda que em outra dimensão, nem sequer sonhavam em ir sozinhas a uma sessão de cinema, muito menos em viajar ou a visitar alguém. Tudo isso só podia ser feito, pelas "donzelas de família", acompanhadas por familiares próximos.


Foi só em meados do século vinte que conquistamos o direito de votar, e ainda demorou muito entre a liberação eleitoral e o fim da castração sexual. Embora a palavra pareça pesada, insisto nela: castração, sim, porque a sexualidade feminina foi por muito tempo determinada pelos homens que eram seus "donos e senhores"... vejamos, então: se donzela e virgem, ela assim deveria permanecer, até o casamento. Casando-se, tinham que entregar-se única e exclusivamente aos seus maridos, ainda que não sentissem prazer algum, e nem pensavam em reivindicar esse direito ou dialogar sobre isso. Se ficassem viúvas ou fossem abandonadas, novos homens apareciam, requisitando seus favores, afinal, como se pensava, elas não poderiam simplesmente optar pela abstinência sexual, depois de tanto tempo de dominação...

Chegou, finalmente, o final do século dezenove e o século vinte começou. Depois de vinte séculos, algumas mulheres foram à luta, tentando mudar essa situação, buscando, senão uma igualdade, um reconhecimento maior por parte do mundo masculino. Foram as primeiras feministas, que, talvez, tenham exagerado em suas manifestações, como o extremismo acontece em todas as "viradas" que marcaram a história. É normal, em qualquer mudança, que radicalismos e exageros ocorram, até que se restabeleça o equilíbrio. Foi assim com o fim do império e o começo da república, foi assim com os movimentos abolicionistas. Foi assim, também, com os primeiros movimentos feministas. Estamos, nesse início no século vinte e um, diante de uma nova e bela mulher, que, segundo as pesquisas, já é maioria nas universidades brasileiras. Já nos é possível, enquanto mulheres, participar ativamente de todas as nuances e movimentos sociais, conquistando aos poucos o direito de tomar decisões em todas as esferas políticas, no campo das letras, do esporte, da arte e da vida em geral. Já podemos, até, roubar um beijo ou algo mais, de quem nos atrai, sem termos que ser necessariamente mulheres “da vida”!

O efeito colateral, pois toda mudança também carrega isso, é a perplexidade masculina diante de suas novas esposas, filhas, mães, sogras, etc... Nossos homens estão meio perdidos, não sabem ainda muito bem como se relacionar diante dessas mulheres que eles (felizmente!) tanto amam, apesar de todas as mudanças. Acostumados que estavam a ditar as normas, estar à frente de todas as decisões, de repente eles se vêm diante de mulheres dinâmicas, que tomam suas próprias decisões, caminham com as próprias pernas, são independentes e liberais. A própria evolução das relações, no entanto, está se encarregando de colocar as coisas no lugar. Percebo, com alegria, que minha neta às vezes toma decisões no relacionamento com seu namorado, e às vezes ele é quem toma, e fica tudo bem. Tenho certeza de que as coisas vão tomar seus lugares, e que a mulher não regredirá jamais: o homem, sim, se adequará à nova fêmea. As Marias continuarão tão ou mais sensíveis do que eram, sem precisar desmaiar para despertar amores masculinos, e os Joões já poderão chorar, quando sentirem vontade, sem ninguém desprezá-los por isso.

Que seja benvinda a nova mulher, expressa já em mim e aperfeiçoada em minha companheira, minhas filhas e neta, e seus homens maravilhosos, que é também o meu filho, são meus genros e meus netos, os que já vieram e os que virão. Amém!

Imagens: Three Generation, Condé Nast Archive; Three Generations Of Women, Eric Audras; Generations of Women at the Beach, Jack Hollinsworth

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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

OFÍCIO >> Leonardo Marona


Para falar a verdade, há qualquer coisa de fútil em somar palavras. O tipo inquieto, os olhos preguiçosos, e de nenhuma ocupação, alheio, pouca técnica e muito sentimento, intensidade, não podia ver uma chuva e achava que era comunhão com deus. Mas, bêbado, não havia deus. Era a própria afirmação da consciência do Senhor. Acima de tudo sentia-se amaldiçoado, um pouco como que se arrastando por uma trilha desastrosa. Perseguir o desastre, aí estava a grandeza. E, no caminho, descrever a paisagem. Os corpos caindo em torno, as cabeças soltas ainda gritando, os campos azuis, as paredes submersas, os cata-ventos em chamas e as harpas vermelhas. Daí o começo da morte, quando o corpo, mais complexo, não dava conta, e a vida tornava-se algo secreto. Doía o cenho manter os olhos injetados. A desculpa para o precipício era falta de força moral, talvez a perda da mãe muito cedo, o que atraía almas caridosas, logo massacradas por sua ferocidade juvenil. Pois que o corpo era continuação do raio, o sumo do prazer que deveria circular pela carne presente, constantemente em cada atitude o baque, o trocar o cerne, o ser antena parabólica, o ser deus e diabo, acender as velas e cuspir no chão. Perder a dicotomia: seu único pavor. E toda essa idéia patética consumia-lhe as veias. Não sabia ele que para ser o que teria sido era preciso receber os tomates, justificar a existência do homem através de demonstrações ridículas de toda espécie, ser o bêbado que se estapeia ou o palhaço que se molha, acima de tudo um microscópico ser, urgido na linha do tempo sem sentido, o ajudante de pedreiro quando as pedras são de Sísifo, o santo decaído porque não pode negar o pecado, o que se entranha sem fazer alarde e grita quando se apavora. Mas, para falar a verdade, há qualquer coisa de fútil em somar palavras.


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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Raros e normais >> Ana Coutinho

Recebi esses dias um e-mail, desses com uma pergunta de lógica. Tinha uma seqüência numérica e você teria que descobrir o 6º número. Eu tentei um pouco, não consegui. Logo, outros destinatários começaram a escrever dizendo o tempo que tinham levado para matar a charada: 2 minutos, 3 segundos, meio minuto, e o remetente que confessou ter levado 3 minutos, logo recebeu críticas: “Tá fraco hein? Precisou de todo esse tempo?” – dizia um dos gênios. “Nossa, que devagar, eu não levei mais de 5 segundos”, bradava outro.

Eu, assistindo àquilo tudo, voltei para os números. Li, reli, fiz contas, simulei algumas possibilidades e nada. Oito minutos. Levantei, tomei um café, voltei e peguei firme nesses números malditos, até sentir que saía fumaça da minha cabeça... A manhã havia passado e eu me sentia a maior anta entre todos. Comecei a me perguntar como foi mesmo que eu consegui entrar nessa empresa. Como fiz faculdade e sou até pós-graduada, imagine, uma tosca como eu, pós-graduada! Se o Jornal Nacional me descobre, pronto, vou sair na Globo provando como a educação no Brasil é ruim. Pessoas limítrofes com diplomas pomposos, é o fim!

Lembrei, imediatamente, de Fernando Pessoa: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”.

Faz tantos anos que esse gênio escreveu isso que me atordoa como é atual. Faça um teste: Diga aí, numa roda de amigos que vai chegar uma conhecida sua que é uma grossa, que humilha os outros e maltrata a todos. Os seus amigos, todos dirão: “Ah, comigo não, comigo nem vem que não tem, eu grito mais alto, eu não aceito esse descaramento, eu – o rei – irei rebater a sua amiga, que eu não levo desaforo pra casa, não..”. Ninguém, em nenhum bar, assumirá o seu receio. Ninguém dirá humilde: “Ai que chato, detesto essas situações, vou indo...”. Não. São todos reis e fortes. Se a mal-educada de fato vier, no entanto, muitos se calarão diante de suas grosserias. Tímidos, humilhados e amendrontados diante de gritos alheios, irão fingir que não ouviram ou que não entenderam a piada grosseira. Porque, ate onde eu sei, não somos todos os reis da floresta. Somos?

Meu QI deve ser o padrão, mas todo mundo que fez o teste diz que o seu é, no mínimo, um pouco acima. Eu não sei cozinhar, tenho dificuldades ridículas como trocar uma cena do DVD que está passando, assisto novela e, vez ou outra, compro a Istoé Gente inclusive. Também assisto o TV Fama um dia ou outro, é raro, é verdade, mas eu assisto a Íris Stefanelli (isso, ela mesma) na Rede TV! Mas todo mundo que conversa comigo, jura que só sabe as fofocas de ouvir falar – onde é que eu não sei. Ninguém se confessa humilhado ou sem-graça com uma brincadeira de mau gosto. Eu devo ser mesmo muito tola, porque até choro quando gritam comigo, mas não grito de volta. Também me calo, se no trânsito me fecham ou se um motoqueiro me xinga, não porque eu não tenha visto ou ouvido, mas porque tenho medo – sim, medo – de apanhar, de morrer no trânsito ou qualquer coisa assim. Não sou valentona. Não sou fodona. Sou uma fraca em meio aos fortes, sinto-me uma gazela sem-jeito em meio aos leões.

Mas sou uma gazela que paga as próprias contas, não jogo nenhum papelzinho de bala no chão, seguro o elevador para os outros, trato igualmente bem os meus conhecidos, sejam eles porteiros do meu prédio ou presidente da empresa na qual trabalho. Sou uma pessoa honesta, procuro ser justa e leal a cada minuto e, embora meu QI não seja lá essas coisas, embora eu titubeie quando me perguntam a capital da Rússia, talvez tenha algum valor por ser uma humana normal, cheia de vergonhas e orgulhos. Ainda que eu seja a única nesse mundo de reis, doutores e gênios. E eu ainda não descobri o 6º número.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

MARGENS >> Carla Dias >>


As margens me interessam...

Margem do caderno, aquele risco, por vezes colorido, a separar a palavra escrita do vazio necessário. Naquele lugarzinho que me aperreava observar, desenhei muitas margaridinhas. Na minha cabeça de menina convivendo com cadernos, um talo tinha a ‘altura’ da página, e nele se dependuravam as florezinhas em cores que, nem sabia, não cabiam em pétalas.

As margaridinhas com pétalas marrons me enchiam os olhos. Elas que dividiam o mesmo talo, como hoje muitas pessoas dividem seus apartamentos.

A margem da represa que banhou minha infância... Lembro-me da pele amorenada pelo sol que hoje, adulta, tenho de evitar a todo custo. Ao invés de andar pela margem arrastando os dedos do pé na água geladinha; equilibrando-me nas pernas grossas de criança criada a arroz, feijão, chuchu e polenta; imaginando como seria viver debaixo da água escura, como seriam seus habitantes, aqueles que adulavam os peixes; ao invés disso, hoje me limito a represar o suspense, a facilidade em conceber fantasia.

O meu hoje são margens cercadas por muros gigantescos e transparentes. Apesar de poder observá-las, não há como desenhar nas suas faces as margaridinhas marrons, nem mesmo como tocá-las com os pés.

Por isso observo as margens, sei delas tanto que poderia escrever um livro somente sobre o que nelas se perdem; por que nelas me perco. Viver de margens não é ficar em cima do muro. Tornar-se especialista em margens não é viver de teorias.

Viver das margens pede por uma coragem descarada. Como a coragem de conhecer a profundidade que ela protege. É isso... As margens são protetoras férreas das essências. Você pode conhecer a essência e viver à margem dela, sinalizando o caminho a outros, os que, sozinhos, passariam reto por ela e perderiam a delícia de saber sobre o início do que buscam.

Margens são inícios... Sem inícios chegamos a lugar nenhum.



“Espaço livre de tempo ou de lugar”, parece marcador do livro da vida. Soubesse como pular esse muro particular, eu me banharia nas margens da consciência, da tolerância, da dignidade, da euforia.

Apaixono-me fácil pela margem do ser de alguém. Aprecio quem se é à margem dos que lutam para não demonstrar, como fosse hall de entrada para a intimidade. Somos margens vazias, até sermos seduzidos pela vida e nos atrevermos a caminhar no próprio dentro, voltando às margens para de lá observar as descobertas. Abraçar horizonte com o olhar.

Sou das margens, e com esse quê de pescadora de nonsense. Entende? Nem precisa, contanto que me permita ficar por perto, à margem de quem é.



Estou aqui se precisarem de margaridinhas com pétalas marrons, dedos dançando nas águas da represa; confinada ao lado de cá de muitas margens, mas grata por serem os muros transparentes. Porque, de certa forma, também eles são margens e, vazias, atiçam minha vontade de completá-las ao gosto da minha imaginação.


www.carladias.com


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terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sua Imagem, o Orkut e Você >> Claudia Letti


O homem que diz "sou" não é,
porque quem é mesmo é "não sou"

[Canto de Ossanha - Baden Powelll e Vinícius de Moraes]


Uma pessoa que conheço me disse uma vez, que nós não somos o nosso discurso; defendemos teorias, ideologias e até idéias banais com uma certa calorosidade, mas não sabemos exatamente se praticamos, realmente vicenciamos e somos essas idéias e teorias. Mas, gostei da frase e fiquei com ela por um bom tempo na cabeça, cuidadosa das minhas palavras pra não discursar em falso, até que vi e ouvi esta mesma pessoa -- que admiro, diga-se -- esbravejando um texto enquanto suas atitudes eram escandalosamente opostas. Era a criatura, representada pelo texto, desmascarando o seu criador.

Lembro de um comercial de refrigerante feito para a televisão em que um homem atravessava um deserto, suado e cansado e empurrava goela abaixo um saco de batatas fritas. Só depois é que bebia, vitorioso e sofregadamente o tal refrigerante, gelado como devia ser. Criança na época, eu não entendia porque o homem protelava o momento de saciar a sede e, o que era pior, atacava batatas fritas antes de beber. A idéia era provocar a sede até não aguentar mais e, mesmo bem crescidinha, não consigo entender essa provocação ao que não queremos ou sequer podemos suportar, que vai para o lado completamente oposto do nosso desejo final.

Você já deu uma olhada nas comunidades do orkut em que participa? Provoquei alguns amigos para uma brincadeira conjunta de suas comunidades. Concluímos que quando socializamos nossos gostos, eles parecem contar a verdade -- eu gosto de vermelho, de quiche, literatura, perfume de jasmim, adoro sapatos, mpb, miojo. Não gosto de aliche, de acordar cedo, de acampar. As nossas preferências merecem credibilidade porque nossos gostos banais não nos ameaçam. Mas, quando vamos para a seara do "eu sou", melhor ter cautela para não discursar sobre alguém que ainda estamos longe de conhecer.

Foi divertido perceber que alguns dos meus amigos, que estavam em comunidades do tipo: "Lixe-se Quem Me Odeia", "Não Tô Nem Aí Para Sua Inveja", são os que mais se ocupam dos outros na tentativa de serem bem aceitos e morrem de medo da inveja alheia. Um desses amigos cultiva até arruda na sala de casa.

Não resta a menor dúvida de que são títulos divertidos e que nem todas as pessoas que participam desse tipo de comunidade tem esse perfil "dá o tapa, esconde a mão", mas nessa brincadeira com meus amigos percebemos que, na maioria das vezes nos defendemos e adotamos atitudes que querem dizer justamente o contrário do que sentimos. Se não estamos preocupados com o que pensam ou com quem não nos tolera, não estaríamos nos ocupando em mandar recados via comunidades ou através de posturas atravessadas. E nem precisa ser estudante de psicologia pra perceber isso.

O fato é que, mesmo que esse tipo de atitude ou discurso seja a casca grossa da planta tenra, nós nos atrapalhamos e em dado momento acabamos acreditando que a nossa imagem reflete aquilo que somos. Queremos, precisamos desesperadamente do refrigerante gelado de limão, mas atacamos o saco de batatas fritas porque não queremos demonstrar nossa sedenta fragilidade; somos os durões da falsa atitude segura com a boca seca.

A imagem que lançamos via nossos satélites pessoais ou virtuais não é proposital e duvido muito que seja para angariar simpatias. É apenas um alerta de "não me subestime, não se penalize, eu sei de mim". Ou mesmo de dizer "Olha só, eu sou apenas humano, não esqueça disso". Queremos estampar uma imagem, à revelia do que realmente somos porque não gostamos de nos mostrar frágeis ou inseguros ou tristes; podemos ser rejeitados e, para não correr qualquer risco, falamos que somos assim, assados, crus ou cozidos, quando na verdade não temos certeza, sequer, se somos grelhados ou mal passados.

Na era das pílulas azuis, se você não estiver firme sobre seu pescoço, não pode ser feliz. A alegria pode ser vendida na farmácia mas, não nos enganemos, é sintética e só se cura da perda e abraça a alegria quem se dá ao luxo do luto. Nós não sabemos do que somos feitos e é natural que também não tenhamos idéia do tamanho da desidradatação, mas antes de discursar a favor de toda sede saciada, melhor não ceder à tentação de atacar as batatas fritas. Quem nos ama já conhece a nós e nossos discursos e aposto que se diverte com nossos recados truncados. Quem não nos ama, bem... Que se incomode e abra uma comunidade.

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domingo, 9 de novembro de 2008

A ENCRUZILHADA >> Eduardo Loureiro Jr.

Marcio Melo - Encruzilhada
"Para aqueles que viajam, o tempo não existe — só o espaço."
(Paulo Coelho)

A cidade mudou. A ponte, cuja construção esteve parada durante os dois anos e meio em que morei aqui, virou novamente um canteiro de obras. O homem que trabalhava até oito horas da noite, agora caminha no calçadão da beira-rio em pleno final de tarde. O casal, que havia se separado, passeia novamente lado a lado. A professora está incrivelmente mais magra. A amiga será avó de trigêmeos. Eu mesmo -- que agora estou aqui de passagem — cheguei diferente: o cabelo mais comprido e a consciência de que daqui a pouco chegarei à encruzilhada.

Numa encruzilhada, não há grande dificuldade de escolha. Os caminhos — não importa o número deles — podem se resumir a dois: um que nós pensamos que os outros escolheriam para nós, se tivessem esse poder; e outro que nós mesmos queremos escolher, apesar de eventuais evidências em contrário. No fundo, é uma escolha entre fazer a vontade dos outros ou a própria vontade.

Alguns de nós tomam a decisão imediatamente, porque já tomaram uma decisão básica antes: sempre arriscar com a própria vontade; ou sempre ceder à vontade alheia. Para a maioria de nós, entretanto, essa decisão prévia não está tomada e temos que, a cada encruzilhada, procurar o oráculo que são os outros e que somos nós mesmos. Entregamo-nos a consultas, a pedidos de conselho, à obtenção de sugestões de pessoas que nos parecem mais aptas, mais sábias, mais experientes. E, ao final do dia, quando as luzes se apagam, recorremos a nós mesmos — nem que seja no mundo inconsciente dos sonhos —, perguntando o que queremos.

Durante essas conversas que antecedem a decisão, imaginamo-nos no futuro. "Se eu escolher esse caminho, daqui a algum tempo estarei...". Se eu optar por aquele outro, minha vida será...". Os futuros estão lá, não como coisas que ainda não existem, mas à maneira de cidades que se encontram à beira de estradas que também já estão lá. O tempo vira espaço. Mas isso não diminui nossa dúvida, porque podemos não conhecer uma das duas cidades e não termos meio de comparação. Podemos mesmo não conhecer nenhuma das duas cidades, e a escolha pode parecer completamente cega.

Mas tudo é teatro, dramatizações da mente, porque há uma forma bastante simples de determinar qual rumo seguir. Não, não é jogando uma moedinha pra cima (embora essa seja uma opção divertida). Cada caminho imaginado tem uma força. E nós só precisamos sentir de que lado da força estamos ao imaginar cada caminho. Qual dos dois caminhos nos faz mais forte? Qual dos caminhos nos dá a sensação de que podemos mais? Esse é o caminho a seguir.

E não nos deixemos iludir por exterioridades. O caminho que nos faz fortes pode nos fazer parecer fracos aos olhos dos outros, pode até mesmo nos fazer submeter à vontade de uma outra pessoa.

Decidir é relativamente fácil, o difícil — também relativamente — é comprometer-se com a decisão perante os outros. Porque nós levamos os outros pelos caminhos que escolhemos, assim como os outros nos levam por seus caminhos.

Para os que caminham no tempo, há riscos de arrependimento: "Ah, se naquela época eu tivesse decidido diferente...". Para os viajantes — que caminham sempre no espaço, mesmo naquilo que os outros pensam ser caminhos de tempo —, tudo continua lá, visitável: todos os caminhos acessíveis por uma nova viagem, destino de uma nova vontade.

A força de quem escolhe o próprio caminho tem a forma de asinhas nos pés. Sua velocidade não é a dos ponteiros, mas a da luz. A Terra não é limite; é pedra entre as pedras do caminho das pedras do universo — aquilo que é único sem deixar de ser diverso. E o passo daqueles que decidem seus caminhos no sentido da força é o passo de gigantes para os quais as encruzilhadas do tempo não passam de casas vizinhas numa brincadeira descontraída de Amarelinha.




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sábado, 8 de novembro de 2008

OBAMA - O DESEJO REAL DE MUDANÇA! [Sandra Paes]


Ele veio sem muita conversa, sem muito explicar. Sim, o verso é de Chico Buarque, mas se encaixa perfeitamente pra esse jovem americano, hoje o mais célebre eleito presidente americano.

Mansamente, com seu jeito de ginga de jogador de basquete, e uma eloquência altamente sedutora e envolvente, foi se aproximando com o forte slogan: CHANGE.

Diante de candidatos fortíssimos como a veterana Sra. Clinton, ele não se intimidou. Continuou o trabalho de conquista, ignorando críticas, narizes empinados, na certeza de quem sabe seu destino: fazer o ponto máximo no jogo, que dessa vez não era de basquete, mas não deixava de simbolizar a mesma coisa.

Seria preciso vencer!

Acompanhei de perto esse moço, cheguei a ver a ginga com que ele dançou num programa vespertino, e percebi pelo ritmo dos quadris alguém totalmente solto na desenvoltura também da cintura. E gente com jogo de cintura é o que a América vem precisando hé muito tempo. Os americanos são famosos por serem duros de cintura.

E, depois, aquele sorriso, um sorriso de menino confiante, que não vive em função do julgamento alheio, mas do que tem dentro de si, do que ostenta com vida. Li, tempos depois que o nome dele significa “Abençoado, predestinado”.

Com todos esses apostos, mais o laureado título concedido por Harward, a mais famosa universidade americana, especialista em direito constitucional, estava muito claro que o rapaz tinha/tem todas as condições pra vencer qualquer desafio. Restava um porém: vencer o racismo na América.

O moço sabia tudo sobre vitória, e parece que carrega isso como um selo: um desafio se vence pela coragem, pela determinaçao, pela fé, e pela ternura, não pelas armas bélicas, pelas mentiras, e por jogos de falsas promessas, apostando na hipocrisia, na possibilidade de falar pra tentar agradar. Obama mostrou sempre essa transparência em suas falas, suas atitudes e sua elegância - não só física, mas postural e verbal. E sempre por todos os lados a força de sua presença acompanhada da mensagem subliminar básica: CHANGE!

Ganhou não só a convenção nacional de seu partido, mas a simpatia dos novos eleitores e mostrou que se um povo quer mudança tem que mostrar isso votando mesmo. Aqui, nos USA, votar não é obrigatorio, e ver filas e mais filas por todos os lados, antes da data da eleição pra não perder a chance de dizer “Quero mudança!”, ja mostrava, pelo menos pra mim, uma virada triplamente histórica nesse país.

Com a crise econômica que revela aos poucos uma maior crise institucional na América, o mundo se viu diante de um terremoto. As raízes da democracia e do capitalismo ameaçam ruir. Não seria mais possivel continuar como estava. A ameaça de recessão, acrescida à perda da liderança e da boa imagem da América no mundo, congelava a esperança e o sonho americano. E Obama soube como denunciar isso com clareza, ao declarar que a América teria que mostrar ao mundo que ela é a terra onde o sonho se faz realidade e que há esperança sempre quando se une forças e se trabalha pra mudar o que precisa ser mudado.

Essa a maior verdade revelada. Os republicanos não sabiam mais nada a não ser atacar moralmente o presidente forte como sua raiz, transparente em postura e fala, como quem passou por todas as vicissitudes da vida e não ser vergou.

E, diante disso, o desafio de uma economia desasatrada, um país numa guerra desnecessária, neuroticamente caótico, numa conduta velha e também imatura, precisava de um símbolo que poderia dar ao mundo a marca da união de forças, de competência e acima de tudo a necessidade de quebrar com mitos e tabus, tais como a cor da pele, a pouca idade cronológica, a ascendência multirracial, como formas de “pré-julgamento” para inviabilizar um cargo de tamanha responsabilidade: a presidência dos USA.

E Obama engloba a salvação não só do ‘novo mundo’- assim chamada América -, mas o novo mundo como o ideal de aquário, a possibilidade do mundo integrar um novo povo, uma nova forma de conduzir todas as questões, alguém que começa uma campanha viajando pelo planeta mostrando a necessidade de integração. Alguém que traz nas veias o sangue da velha mãe África, que morou na Ásia e conhece a cultura daquela região; alguém que traz na alma o inato saber do direito de cada um de ser livre e ter reais oportunidades de realizar seu sonho.

Sua biografia mostra que a vida o preparou pra chegar onde está e sua resposta às chances que a vida lhe deu revela sua determinação pra mostrar que há verdade em sua fala. Espero que a boa fortuna que simboliza seu nome lhe traga grandes parceiros de trabalho também - e a mostrar pelo discurso de agradecimento feito ao povo, dá pra perceber que esse homem tem intenção de instalar uma democracia mais madura, por que vai levar os anseios do povo à capital e não o contrário, e isso é inédito. A massiva votação nele mostra isso e aponta o desejo real de mudança contido na mente e no coração dos eleitores americanos.

O mundo só tem a ganhar com as idéias desse jovem promissor, e apertem os cintos, por que as mudanças vêm sim, e vão sacudir nossos sonhos, e como ele mesmo disse: “Escolha sem medo! Diga sim à mudança!” E é claro que tem muita gente que tem medo da mudança, e há ainda aquele ditado horrível: “ Em time que está ganhando não se mexe”, mas o time vem perdendo - e muito - e esse time representa o velho, o modelo arcaico de conduzir, a acomodação de padrões de crença, a manutenção de tabus, o medo de não ser bom o suficiente. E esse moço vem mostrar que tudo isso vai por terra.

Agora, vai caber a cada um de nós sermos parceiros na vida, dos padrões de mudança que escolhemos, e acreditar acima de tudo que pior do que estava não poderia ser mais.

Ser eleito um dia depois do falecimento de sua amada avó, a quem ele dedicou três dias de atenção quebrando sua campanha política, mostrou, para mim, pelo menos, que dentro dele tem um coração leonino da melhor qualidade, um homem que não põe o interesse do ego acima de seus afetos reais, e essa é a marca do verdadeiro rei.

Obama é o 44º Presidente americano. A soma desses números é oito e numerologicamente falando isso tambem é mudança. Quando esperamos por ela, ansiamos por ela, investimos nela, ela vem e melhor ainda com a aprovaçao de tantos. O dia 04 de novembro de 2008 marca um novo tempo pra todos nós. Com certeza!

Imagens: Obama, The Huffington Post Journal; Obama, S. L. Wilson; Obama, AP

Sandra Paes vive nos EUA.

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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

"Os Compreendidos" >> Leonardo Marona

Quero dizer agora que não quero. Não quero mais. Não mais dizer que não sei de mais nada e tenho medo. Não quero que me dêem nada, que me dêem referência. Nada de ninguém se pode esperar porque a esperança é a face obscura do otimismo – outra é dar cabo da vida e para falar sobre isso seria melhor não fazer. A literatura do sim afinal só serve para juntar dinheiro e espelhos estrábicos. Aqui ela não servirá. O mais justo é tratar de amedrontar o ser humano pelas suas próprias leis e, amedrontado, retirar-lhe o sumo do sacrifício paganizado, provar-lhe a humanidade.

Exige-se para isso o despojamento do cinismo e uma boa dose alcoólica, mas nem todos têm estômago. Nem bem abri o parágrafo, ainda há tempo de parar. Mas o passo adiante é o que mantém intacto o absurdo, que rege a vida sobre a Terra. E essa é minha única referência. Que viver é seguir o absurdo até a carne. Que amar não é nada além de ter muito medo e querer alguém que nos ampare, que sacie todo o perdão avulso, alguém que se corte no nosso lugar. Amar é esperar o anticristo.

Não amar, eis o que sobra à bondade cristalina. Além de quebrar-se em passos imprecisos pelas ruelas imperdoáveis do passado, porque somos todos, mais tempo, menos tempo, feitos de passados imperdoáveis.

Não amar e esperar que tudo possa acontecer – ainda mais, ter uma noção aproximada de uma gama de causas e conseqüências, apenas para se instalar no meio delas, se entranhar delas, nutrir pequenas mentiras pelo bem da causa pública. Assim fazem os sem estômago. Assim farão os poéticos sem olhos.

Aos que vomitam, aos que ainda sentem engulhos, calar-se, olhar-se no espelho, balançar a cabeça em pêndulo, constatar o fato: o mundo passou por vocês. Não passam de petróleo, camada mineral, estatísticas encomendadas, vocês que se sentam ouvindo blues e martelando as teclas de uma máquina de escrever qualquer, que rasteja assim como vocês, a máquina, e bate forte e devagar, como um coração precipitado.

Pena de todos vocês amantes constantes, pobres figuras descabeladas no centro do inverno serão vocês, perdidos nas ruas com bons poemas nos bolsos – mas quem os lerá? Essas jaquetas, esses coturnos surrados – ah não vista essa mortalha! – ou vista pela última vez.

Por onde desaparecem na junção da noite? O que, desgraçados, desajeitados, existe ainda para fazer outra vez sorrir? Apesar do castigo da morte constante, ó sensíveis que deixais usar “ó sensíveis” nas frases! O que aconteceu com aquela impetuosidade selvagem, com toda aquela associação de idéias? Para onde a boca alheia em elogios inúteis, o que foi feito da velha bandana em volta do pescoço?

Ah não mais vemos vocês nas motos caindo aos pedaços, seus pedaços caindo delas, levando vento na cara, soprando a canção futura. Foram-se os moinhos multiplicados, partiram os últimos navios, no campo verde, os corvos. Aprendemos finalmente a amar, essa palavra pegajosa. Não precisamos mais dos arroubos, dos sapateados na chuva, já escolhemos o nome para a futura geração. Seremos “Os Compreendidos”, seremos os das doze peles, os que agem para não morrerem e se adaptam às paredes.

Amar é aceitar que as pessoas não são assim tão admiráveis. Somos os ladrões sorridentes. Por isso amar é o que há de mais humano, aprendemos essa aula: amar é um roubo. Pois se abdica deliberadamente do ideal e mergulha-se na tragédia inevitável da pele. Fora daqui com essa flechas em chamas, retirem os precipícios, os frascos envenenados, os sonetos de exatidão métrica. Os olhos furados, as costas açoitadas não nos deixam mentir. O problema maior é essa tristeza mais leve, que fica feito carrapato, e é a própria constatação da vida. E sempre sobrará algo, um resto úmido de qualquer coisa contínua, ao caçador de constantinoplas.


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