domingo, 28 de setembro de 2008

CHUVA, SR. PICA-PAU >> Eduardo Loureiro Jr.


Irmã Admir (Pepeta)
a/c do Pica-pau
Caixa Postal, 44
Guariba - Colniza - MT
CEP 78335-000


Senhor Pica-pau, estou supondo que o senhor abriu esta correspondência, dirigida à Pepeta, e que a está lendo neste momento. Não posso julgá-lo, pois sei como é tentador abrir correspondência alheia, fazer descobertas, desvendar segredos. Para nós, humanos, é crime. Para os senhores pássaros, eu não sei; talvez seja até lei, passível de punição caso não seja cumprida. De todo modo, a correspondência está a seus cuidados, então não me parece de todo injusto que o senhor a abra. Afinal, ao cuidador cabe saber daquilo de que está cuidando. O senhor não me conhece, é compreensível que desconfie do teor da mensagem: pode ser algo perigoso, ofensivo. Eu até agradeço por ter esse cuidado com a Pepeta.

Quando comentei com um amigo que enviaria esta carta aos cuidados do Pica-pau, ele me advertiu que seria melhor mandá-la aos cuidados do Pombo-correio, que já tem mais experiência no assunto. Eu pensei, pensei... e lembrei da definição de Pepeta para o Céu e para o Inferno: "Céu é a comunicação sem barreiras. Inferno é a ausência de comunicação." E me perguntei por que o Céu estaria reservado só aos pombos-correios. Os pica-paus não são também merecedores da comunicação? Têm que ficar o tempo todo pic-pic, pic-pic, pic-pic... numa árvore? Não podem voar livremente com uma cartinha no bico, exercitar as asas, admirar a paisagem, fazer piruetas? Ah, por certo que os pica-paus merecem essas liberdades. Comuniquei a decisão ao meu amigo que, insistente, pediu que eu pelo menos confiasse o envio da mensagem a um pica-pau amarelo, que tem mais tradição poética, donabêntica, et cetera. Eu não sei a sua cor, Sr. Pica-pau, mas acho pouco elegante condicionar a entrega dessa mensagem ao tom das suas penas. Meu amigo há de conformar-se.

Mas e a carta, o senhor deve estar se perguntando.


Brasília, 28 de setembro de 2008

Querida Pepeta,

Há quanto tempo! E faz tão pouco. De tanto pensar em você, de tanto escutar do lado de dentro do ouvido as suas sábias palavras, o seu desprendido riso e até o seu silêncio (quando crescer, quero ter um silêncio desses), de tanto lembrar e me espelhar em você, parece que você não está longe nem no espaço nem no tempo.

Escrevo porque chove em Brasília. Aliás, escrevo porque choveu. Não a primeira chuva da estação, porque nessa eu me encontrava dentro de casa, protegido por teto e quatro paredes. Foi a primeira chuva da minha pele, aquela que me pegou desprevenido num final de tarde, que me surpreendeu distraído, caminhando e vendo o pôr-do-sol. No começo, pensei que tivesse sido alvo do xixi de algum passarinho (nada pessoal, Sr. Pica-pau) ou que um orvalho atrasado tivesse enfim despencado do alto do Guapuruvu, que já perdeu sua linda copa amarela. Mas não, era chuva mesmo. A delicadeza inicial foi logo substituída por uns pingos grossos que nem espocavam quando caíam na minha pele. A pele da gota escorregava na minha própria pele feito uma criança descendo num tobogã.

A chuva é um rio que corre entre o céu e a terra. E sem mais nem menos, nós, os bípedes, estamos nadando em pé, nem a favor nem contra a corrente, simplesmente atravessando o rio. Às vezes, apressados para cumprir a travessia e chegar em casa. Outras vezes, dedicados ao prazer de nadar, prolongando a alegria de estar na água que veio do Céu. A chuva é o rio que vem da comunicação sem barreiras. A chuva é Palavra de palavras: sussurra, geme, ri, declama... e cada um ouve o que quer. O que a chuva diz mesmo, pode-se até saber. É só ficar ali, molhando, encharcando, plantando o silêncio pra colher o som. Então se pode ver a mão que entorna o balde que é a nuvem. E se pode ouvir seu sorriso de satisfação por estar banhando suas crianças — o final da tarde é mesmo um bom horário para um banho.

O Fabiano tem uma canção que diz "a chuva vai fazer a gente se encontrar". E ele escreveu certa vez que "cartas são encontros que a gente tece". Então minha mente lógica, matemática, só pode concluir, querida Pepeta, que esta carta é uma chuva que tenta restabelecer o nosso Céu para além das lembranças do ouvido interno.

Quando sua nuvem estiver pronta, mande também a sua chuva daí.

Aquele abraço molhado,

Eduardo Jr.

P.S. Não se surpreenda se lhe chegar aí alguma outra correspondência de algum leitor meu. Aliás, se surpreenda. É realmente de surpreender receber uma cartinha de quem não se conhece. É a surpresa boa do Inferno se transformando no Céu.







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sábado, 27 de setembro de 2008

ENTREGA E CONFIANÇA [Sandra Paes]


Domingo, tarde da noite. O casal amigo espera por nossa chegada. Ela, ansiosa, já ligara algumas vezes. Depois de pedir pra levar um vinho branco gelado, pra refrescar sob a lua, continua querendo saber se a gente ia ou não apreciar o churrasco feito mais cedo, afinal era dia dos pais.

Finalmente, depois de todas as naturais delongas de meu amigo, chegamos. Percebi que não os via fazia tempos. Abraços longos e saudosos da parte dela, uma saudade que se estendia para além do momento e da ocasião. Já me parecia alegrinha pelos vinhos tomados durante todo o dia. E que dia! Como ela me ligara mais cedo chamando para o almoço e compartilhar o que estava planejando, não só para a cozinha mas pra viagem que faria com a família dias depois, ouvi entre outras coisas, numa interrupção de fala:

- Desliga não que a ligação é de fora e eu tenho que atender... desliga não!

E, pra minha surpresa, volta ela alteradíssima, falando que a vizinha estava no hospital por que tinha tentado se matar... E lá se foi a conversa por conta de como ela “soube” que a vizinha estava planejando se matar e o que fizera e tal e agora... “ela quase conseguiu!”

- Como é isso? Gente, do céu! - exclamo atônita; não dou conta disso, não, e ainda tinha que me concentrar pra não errar a mão no molho...

Enfim, eu sabia que minha chegada à noite representava um certo refresco para um dia atribuladíssimo - até briga com o ex-marido houve.

Assim que mostrou as obras novas da casa, veio o pequeno filho - com quem tenho uma relação muito especial e gostosa mesmo - e me disse: - Olha ali! Ele tem apenas três anos e meio...

E eu perguntei: - O que?

E feliz responde: Churrasco pra você! Todo sorridente e feliz.

Olhei para o pequenino, vi que os cabelos encaracolados haviam crescido mais e que ele também ganhara peso e altura. E ao perguntar: “Cadê meu beijo de boa noite?!”, ele simplesmente correu e se atirou nos meus braços na certeza plena de ser recebido e amparado.

Entrega de criança, bem como sua alegria e sorrisos, tem sido o sinal mais evidente que recebo de estar com minha essência, a inocência, esperança e fé. E o pequeno Giovanni mais uma vez me dava aquele que seria o presente do dia.

A mãe, carente de atenção bem como o pai, meio tímido, comigo pelo menos, nos convida a sentar pra ver a lua, e generosa na sua receptividade diz:

- Meu bem, vai buscar o abridor e copos pra nossos amigos!

O marido já olha com ares de cansaço e resmunga qualquer coisa. Escolhi ficar ligada na paisagem e no encontro com o pequenino.

Meu amigo me pede o celular emprestado por que precisa fazer uma ligação urgente e se retira do cenário.

Nos, as duas amigas, ficamos ajeitando a mesa, ela falante por todos os poros, feliz e excitada, a mostrar a obra nova da churrasqueira e tal.

O marido não voltou lá de dentro. Fomos até a cozinha pegar o que queríamos e lá sob luzes mais fortes, notei o quanto ela estava bela. Parecia luminosa, mais magra e com um olhar mais penetrante. Comentei:

- Amiga, como você esta linda?! Que olhar diferente é esse?

E vi que ela tinha colocado uma espécie de maquiagem permanente, dessas que aumentam os cílios e tonificam ou colorem mais a expressão da gente. E ela sorrindo meio sem graça diz:

- “Mulher, quem me dera que meu marido pudesse ver e apreciar como você vê tudo. Meus filhos te adoram, e eu também, por que você é essa pessoa presente que diz o que sente sempre com delicadeza e sinceridade. Ah, como eu sinto falta disso no meu dia a dia!”

Aquilo me marcou, claro. Fiquei pensando por um pequeno tempo por que os casais não podem ou não cultivam simplesmente a mútua apreciação. Fato é que depois tive que chamar a atenção de nosso amigo pendurado há quase uma hora no meu telefone celular. Já passara do limite ate da boa educação pois não se faz isso chegando numa casa, onde se é esperado para um jantar. Ele conseguira, com isso, fazer vir à tona notável irritação do marido dela que disse:

-“Vou me recolher... estou cansado e o dia foi longo.”

Vi que estava dando uma desculpa pra não interagir com a gente. Dei meia volta e insisti pra que ele ficasse e tal e fui atrás do outro que parecia ter se esquecido de onde estava e por que fomos lá. O tal do telefonema parecia a coisa mais importante do mundo.

Flash novamente, e fiz uma outra fotografia em preto e branco. Seria coisa dos homens? Eu, que sempre achei esquisitíssima essa coisa de clube do Bolinha e da Luluzinha que via nos encontros de família. Que coisa difícil é essa? Por que os homens não podem se sentar com as mulheres e vice-versa? Que espaço é esse? E, afinal, depois de conseguir diplomaticamente pôr todos em volta da mesa, começamos uma conversa qualquer. Não deu dois minutos e o casal começa a brigar e a se desentender visivelmente. Deu pra notar que era coisa antiga, e que a paciência e tolerância haviam desaparecido. Ele reclamando que o Dia dos Pais tinha sido ruim e ela a se queixar que foi todo o dia atropelado, que tinha conseguido finalizar o almoço para deixar as crianças felizes e tal, mas era assim: ele, o atual marido, nunca estava satisfeito e ela estava exausta disso.

Respirei fundo. E após tomar fôlego, fui tentar apaziguar os ânimos, uma vez que ali havia dois egos inflados carentes de atenção exclusiva, coisa que não cultivavam um com o outro, parecia, há tempos.

Pois é... Que situação... O que fazer quando se percebe que a confiança havia sido quebrada e sem ela não havia entrega? Percebi que nesse binômio residia tudo que sustenta qualquer relação. Especialmente a de um casamento. Afinal, se não se confia, não se entrega, e o amor parece repetir seu mito todos os dias. Há que ter a magia, o mistério que nos leva a confiar cegamente no outro, para nos entregarmos de corpo e alma. Cultivar isso é o segredo de manutenção dessa magia. Caso contrário, o amor emigra. E com ele, toda a paz e tentativa de alegria e gozo que se pode ter e usufruir.

Passei alguns momentos tentando conversar com o marido que se levantara pra ir embora por duas vezes, visivelmente zangado e tentado ganhar atenção por algo que não se encontrava claro. Vi que ele não agüentava ficar quando ele era o assunto e quando o tema da conversa girava em torno de crítica a suas ausências - coisa que ele praticava com esmero, a olhos vistos - e a dança do vazio e do clima quente, por conta do verão e da tensão entre eles que estavam juntos, aparecia, apenas pra tentar mostrar quem tinha razão.

Olhei em volta e a paisagem não soou mais a mesma. Quando a harmonia se vai, com ela vai o brilho do luar e toda poesia – não para mim, pois já tinha retido a confiança e entrega total do Giovanni, no abraço de minha chegada.

O tema ficou comigo por toda a semana pautando o volume de confiança e de entregas que faço e recebo. Não é assim com todos nós? Penso que sim.


Imagens: Mother and Son, Somos Imagem; Couple Holding Hands, Bloomimage; Moon Above the Ocean, Matthias Kulka

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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Tão triste quanto um prelúdio de Claude Debussy >> Leonardo Marona

Estou doente do coração. Mas não são apenas palpitações arrítmicas, é uma explosão repentina que de repente congela. E quando congela o mundo fica escuro. E isso tudo é tão banal que eu não posso parar de pensar no assunto. Mãos e bons-votos de sabedoria estão por toda parte: existe bondade numa flor amassada sobre o asfalto. Mas o que procuro debaixo dos tapetes? Disseram que era uma felicidade difícil, mas eu sou tão fácil que tenho medo de dizer "vamos juntos". Porque me disseram que era uma felicidade difícil, então passei a desconfiar das palavras. E meu coração adoece: pobre membro supervalorizado, escravista de veias mecânicas e mitos. É chegada a hora fúnebre, quando amigos já não são cavernas tranqüilas e a dor já não muda de freqüência. De repente me pego dizendo: "deus, por que te neguei tantas vezes?". E o dia está mesmo tão propício, com essa chuvarada de martelo. Tudo parece sufocado. Por que fui ler Clarice Lispector? E mesmo as coisas coloridas estão murchas como se estivessem enjoadas, após uma série de abortos forçados. Tudo de repente – enquanto tento rasgar meu peito – ruma para o mesmo lugar supra-real, onde nada existe e tudo passa. E a essa coisa truculenta, maciça, a essa unidade de constatação chamei felicidade difícil. Pensando nisso deito a mão no meu peito, peço calma. Peço com delicadeza dessa vez, aceito a derrota de antemão, me rebato apenas pelo hábito da coisa. Mas ele não pára nunca, o coração, está doente. Ele não pára nunca, está vendado. Lhe amassaram as plaquetas do mistério, confiscaram o vulto secreto da sua mão veludosa, que protege a todos e desfalece quando não há perdão. Desejei a tudo amargamente, e num castelo dourado cercado de uivos fiz a cama do meu precipício. Vejo agora a fumaça que sai da minha boca, tão desordenada que nunca varia. E eu, sempre tão ordenado, sempre tão inatingível – depois da felicidade difícil – grito a mim mesmo coisas que não vêm dos homens. Coisas que eu mesmo não entendo. E não é minha própria voz. E dizem alguns que a voz muda de tom antes de morrermos ou virarmos santos. Mas não sou ambicioso. Onde foi todo mundo? Não, Silvia, o gás não será aberto. Eu fujo de mim mesmo passo a passo – esse inatingível clichê – para dentro de mulheres que nunca conheci, em cujos olhos procuro o que nunca foi tocado e me repele. Mas agora me sinto observado por vultos vermelhos numa floresta escura. Eu sou aquele bicho encurralado por um pedaço de queijo podre. Ainda não será dessa vez. Posso ter certeza de que não será e por isso choro: certeza é morte. Ainda assim agora não será. Ainda despejarei meus dejetos sobre o tempo andante. Alguém ainda há de me acompanhar, e o pavor dessa constatação me faz contorcer o corpo: último suplício antes da perda dos sentidos. O desejo mórbido que povoa a mente do fraco, de sempre querer o que lhe cabe. Estou doente do coração, porque ele bate, bate como quem bate à porta sem ar, como alguém que vem de muito longe, com uma notícia ingrata. Meu coração falece porque seu corpo pré-histórico foi violado por modinhas de amor e desatinos. Fico imaginando o que faria um francês na minha situação. Apago a luz e prendo a respiração.


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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

OUTROS SONS! >> Carla Dias >>

Há muito tempo não me sentia assim, com esse desejo pungente de ver um show, chegando mesmo a contrariar algo que decidi há alguns anos: não assistir shows em estádios, estacionamentos, ou em qualquer lugar onde o público seja de milhares e milhares de pessoas. De onde a gente sai com a sensação de que melhor era ter ouvido o CD em casa ou assistido o DVD com mais conforto, lá na sala de estar, do que encarando telões. Se você não pode bancar o melhor lugar, prepare-se para lonjuras e o som chegando a você com um atrasinho incômodo.

Freqüentei algumas edições do festival Hollywood Rock. Em 1995, fui de arquibancada e até que num lugar bacana. Foi quando assisti um dos melhores shows de rock’n roll da minha vida: Rolling Stones.



Rolling Stones Live - Miss You

Na edição do ano seguinte do mesmo festival, fui de gramado, e realizei um desejo e tanto: ver Robert Plant e Jimmy Page ao vivo. Durante os shows que antecederam essa apresentação, coloquei em prática minha vontade de ficar grudada na grade, bem de cara com o palco, e assisti de pertinho o show de uma banda que me conquistou e sobre a qual eu nada sabia: The Black Crowes.


The Black Crowes - By Your Side

O problema foi que uma amiga que estava com a turma passou mal, foi retirada por seguranças e levada à enfermaria, e eu tive de abandonar o posto para procurá-la. Quando cheguei à enfermaria, minha amiga já havia sido dispensada. Assisti ao show de parte do Led Zeppelin bem de longe, encarando telões, e só encontrei minha amiga no final do show, já próximo ao nosso carro, fora do Pacaembu.

Apesar disso, há um momento que ficou gravado na minha memória: eu e meus amigos na fila de entrada. No estádio, Robert Plant e Jimmy Page passando o som. Lá de fora, escutávamos aquela canção do Led Zeppelin que adoro: Going to California. Parte dos amigos que estavam comigo, também foram meus companheiros de banda. Houve, naquele momento, entre nós, uma comoção verdadeira, proveniente da parceria e da amizade. Sentimo-nos gratos por dividirmos esse episódio.


Led Zeppelin Live at Earl's Court - Going To California

No próximo domingo, voltarei aos shows com milhares e milhares de pessoas. Tive de revogar a promessa, e confesso que o fiz com um estabanado gosto por retomar o feito, já há bons pares de anos espero pela oportunidade de ver essa banda no palco. Ainda não sei se os verei como pontos distantes, se haverá meio-termo (pontos menos distantes... mas distantes), ou se conseguirei, se me esticar bem, vê-los quase nitidamente. Nem sei se me restará apenas contentar com os telões, sabe?

Só sei que assistirei ao show da Dave Matthews Band, no About Us, que também me ganhou pela proposta, já que se apresenta como o festival da sustentabilidade. Vamos ver como será na prática! Outros artistas participarão do festival, como Seu Jorge, Vanessa da Mata e Ben Harper. A Dave Matthews Band fechará o evento.

Gosto muito das letras das músicas da Dave Matthews Band, assim como a considero uma das mais bacanas no que se refere à parte instrumental. São ótimos músicos, e o Dave Matthews é um letrista de primeira. Enfim, que venham os milhares de pessoas!


Dave Matthews Band Live at Folsom Field - Everyday

Ah, meus caros... Fazer o quê? A música me surpreende cada vez que lança sua magicazinha nos meus ouvidos. Quando acho que sosseguei, ela me cutuca e para cá eu venho: deslumbrada com ela, dividindo apreços.

Imagem: Drika Bourquim >> www.flickr.com/drikabourquim

www.carladias.com



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domingo, 21 de setembro de 2008

BOLAS DE MEIA >> Eduardo Loureiro Jr.

MKanegae - Flickr.comEla amassou a notícia de jornal — como quem amassa a crise das bolsas de valores, a campanha eleitoral, um novo crime hediondo ou a vida íntima de uma celebridade. Amassou bem amassado, transformando o plano retangular no volume arredondado.

Ela envolveu a bola de papel numa meia sem par — como quem acompanha o passo dos homens da família mesmo depois que eles esqueceram as meias em lugares impossíveis de achar.

Ela costurou o tecido — como quem costura a tarde, a memória, os personagens de suas contas de histórias.

Ela segurou a mão do menino — como quem abre a terra.

Ela colocou na palma da mão dele uma bola de meia — como quem planta a semente da esperança.

Assim ela fez, bola por bola, menino por menina.

E, no seu campo plantado, as crianças e os adultos arremessavam as bolas de meia, que eram recebidas a metros de distância — e arremessadas novamente. Por horas.

As bolas voando cada vez mais alto, chamando os pássaros que voavam cada vez mais baixo. Bolas de meia e pássaros atravessando o céu nublado do crepúsculo: água amassada, costurada em nuvem, pronta para ser arremessada à terra.

À noite, os pingos de chuva lançados da borda do telhado — estrelas cadentes na escuridão do céu — eram recebidos na palma sem cansaço da minha mão.

Ela, A que costurou a chuva... Ela, A que conhece todas as histórias... Ela, para quem somos todos crianças... Nossa, querida, Senhora, que linda bola de meia é esta em que a gente mora!





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sábado, 20 de setembro de 2008

DIAS DE "CAPELETI" [Maria Rita Lemos]


Foi no domingo, dia dos Pais. Éramos três mulheres conversando sobre a data, sendo que os pais biológicos de todas já haviam partido para outra dimensão. Certamente por esse motivo, e também porque nossos filhos e filhas estavam passando o dia com os pais - biológicos ou não -, resolvemos juntar as comidinhas e a saudade para um almoço nada tradicional para a ocasião.

Cada uma de nós falou um pouco do pai que teve, e de como passávamos o seu dia, até sua partida. Foi então que ouvi a história do "capeleti", tão real quanto belíssima, que comoveu tanto a nós, ouvintes, que resolvi contar aqui, embora o Dia dos Pais tenha ficado para trás. Mas, como nunca é demais refletir...

O pai de Maria, que é o nome fictício que darei a esta pessoa querida, faleceu quando ela tinha 14 anos, mas na verdade ela já sentia sua falta desde os 11, ocasião em que ele partiu para outra viagem, também longa na distância, mas com voltas periódicas. Explico melhor. Maria morava, então, com os pais, o avô e avó maternos e o irmão mais novo no Rio de Janeiro. Quando tinha 11 anos, os homens adultos da casa resolveram tentar a vida no Mato Grosso, um estado em franca expansão, onde trabalhariam com seu ofício, que era a perfuração de poços artesianos, nas cidades e em zonas rurais. Lá se foram, o pai e avô de Maria, para o futuro que os aguardava no inóspito Pantanal. No Rio ficou o resto da família, ou seja, mãe, avó, Maria e o irmão de 9 anos, que vou chamar de João. É mais ou menos aí que a história começa a se fechar.

Entre o Rio de Janeiro e o Pantanal, agora como há mais de trinta anos atrás, as distâncias eram enormes e os meios de comunicação de então eram quase impraticáveis, portanto os homens só vinham duas vezes ao ano, geralmente em junho e nas festas natalinas. Não havia comemoração de aniversários, Dia dos Pais ou das Crianças fora desses períodos - tudo era festejado de forma compacta, quando os homens retornavam para os dias de férias.

Maria contou, emocionada, que tanto João quanto ela faziam, na escola, mimos para o Dia dos Pais: os tradicionais porta-retratos de papelão, marcadores de livros, prendedores de gravatas, que naquela época ainda eram usados. Tudo era feito e guardado com muito carinho. O mais importante, porém, nem era a entrega dos presentes, cansados de esperar nas gavetas. O fundamental era o ritual que acompanhava a chegada dos varões.

Italiano nato, educado em colégio do Vaticano, o pai de Maria adorava massas, mas deplorava as que eram compradas prontas. Por isso, a tradição mais solene de suas visitas à família era a confecção caseira, a muitas mãos, do "capeleti" com o qual se regalavam a família, amigos e vizinhos mais chegados. Acontecia assim: no dia imediato à chegada dos pais, após o merecido repouso, iniciava-se o preparo da iguaria. Papai e vovô faziam a massa e abriam-na com o rolo de madeira, Maria e João recortavam os quadradinhos, que, por sua vez, recebiam o recheio, carne ou frango, que mamãe e vovó já haviam preparado, também de forma artesanal. Em seguida, as crianças enrolavam os quadrados e uniam sua beiradas, formando conchinhas, perfeitamente iguais. Quase tudo pronto, as visitas chegavam e o "capeleti" ia para o caldeirão de água fervendo, após o que a massa cozida recebia o molho pomodoro, naturalmente feito em casa com legítimos tomates ao ponto. Sentavam-se então todos à mesa comprida, no quintal da casa grande em Laranjeiras, e o almoço, enriquecido com pasta de berinjela e garrafões de vinho tinto, só acabava no início da noite. Chegava, então, a hora da entrega dos presentes, de parte a parte: do dia dos Pais, das Crianças, do Natal. Tudo era festejado e apreciado, por mais humilde que fosse, enriquecido pela longa espera. No entanto, como "chegar e partir são só dois lados da mesma viagem", como diz a canção, o Ano Novo chegava e levava os homens de volta ao Pantanal. Havia, também, um certo ritual na volta - um ponto, na estrada, até onde as mulheres e crianças iam com seus amados, para depois retornarem para esperar o próximo "capeleti". Mas isto é outra história, que fica para outra vez.

O que quero deixar aqui é a moral da história, ou seja, o amor que não precisa de datas. Imprescindível, para o amor e os que amam, são os ritos, isso sim. Se os rituais do amor coincidirem com as datas que a sociedade convencionou, tanto melhor. Mas se não coincidem, por favor, escolham ser felizes como Maria foi com seu pai. Ou seja, troquem as datas fixas pelos rituais amorosos. Mais vale uma panelada de "capeleti" feita por pais e filhos juntos que todos os dias dos Pais, cheios de presentes e vazios de Amor.

Imagens: Father and Daughter on Beach, Rick Gomez; Family Toasting Outdoors, Ingolf Hatz

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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A VOCÊS << Leonardo Marona

Gostaria de dar algumas palavras aos estupradores de crianças e até mesmo fetos ainda em formação, às bandeiras erguidas pelo próximo traidor, ao que me faz chorar em certas tardes gaiolas e eu não sei o nome dessa sensação que faz chorar, mas não é choro de quem perde, é choro de quem nunca teve, e não sei de nada e espero tudo, o homem cotidiano descrito por Camus, que se levanta e não quer fazer o mal por medo de ser punido por seres magnânimos e matemáticos.

E a eles eu gostaria de entregar algumas palavras. Aos que abrem estradas sobre corpos humanos, aos metafísicos da consolação, a todos os grandes poetas que espancavam com amoladores de faca, na escuridão dos sentidos, crianças indefesas, que de alguma forma crescerão para colher os louros do patife laureado. Aos que enrolam dinheiro com esparadrapos na cintura e estão prestes a explodir. Aos que farejam como porcos e se alimentam de entranhas.

Dedicaria, se tivesse a grandeza necessária, com firma autenticada em cartório e assinada por deus, algumas palavras aos ilustres freqüentadores de bordéis, senhores poderosos e bonecos na cama, tão iguais a vocês e a mim, mas menos iguais a vocês, prefiro pensar, vocês que viram a cabeça, vocês que cortam a corda, vocês que aplaudem o pôr do sol e, bêbados, matam. Vocês que dedicam poemas e, ensandecidos, levam as mãos à cabeça. Vocês que presenteiam mendigos com cachaça nas datas festivas e os atropelam pelo resto do ano.

Aos contrabandistas de emoções, delfins elaborados em barro sintético, dou portanto algumas palavras a vocês, atrozes espelhos de si, sorridentes dentro da sombra, hienas com o dedo em riste, assassinos em série, candidatos à Prefeitura.

O mundo é de vocês mas, não se enganem, ainda estamos aqui, do outro lado, do lado fantasioso, do lado ingênuo, do lado utópico, do lado ultrapassado, do lado alienado, chamem do que quiserem. Daqui vemos muito bem e também sabemos esperar. Não há cá muita sombra, mas a vista é privilegiada e ainda temos pernas. Nossa cabeça está um pouco avariada, somos produto de uma noite tenebrosa, mas talvez isso nos mantenha absurdos e, portanto, de acordo com a vida.

É por isso que dou, entrego, cuspo estas palavras no colo dos formadores de opinião grisalhos e pedófilos, dos ventríloquos de auditório simpáticos e inofensivos, por isso letais, aos pantagruélicos donos de negócios promissores, que geram milhões e são incapazes de escolher uma esposa decente. Aos adolescentes que apodrecem nos edifícios comerciais como enormes consultórios dentários, ao que sorri e apunhala pelo gosto doce do sangue pastoso, ao fratricida de mil olhos e com a palavra certa.

Por causa de vocês nos restou muito pouco, e disso fizemos um mundo. Vocês líricos byronescos de visão turva e passo manco. Vocês integralistas enjaulados na cadência envelhecida. Vocês caçadores de recompensa em forma de mais um pouco de tempo. Vocês que, munidos de façanhas milenares, garantem a própria lápide e nos mastigam os anos.

Aos demolidores de séculos, atacadistas sentimentais, devoradores da esperança, destino estas palavras, que terminarão em breve e serão pó como tudo:

A terra é árida, o terreno não muito fértil, usado pelo avesso, mas nas veias ainda corre o algodão. Vocês nos ensinaram a quebrar os pés quando precisávamos de abrigo, nos mostraram o desgraçado jogo da oferta. Vocês nos fizeram saber sem esperar por mais nada. Estamos aqui nus, sim, a pele desmanchada. São feias as marcas no corpo, obra compulsiva de uma espécie milagrosa. Mas aprendemos a atirar com a língua, somos bardos e nosso desafio são os dentes roxos. Nosso escudo é o coração, outros já disseram. Estaremos esperando por vocês, prontos.


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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

MEIO SANTO >> Carla Dias >>

Tinha o hábito de se voltar a todos os santos. Quando lhe falavam de um e outro ser de alma evoluída, ele ia logo se informando, formando opinião própria sobre as bênçãos e milagres concedidos por tais criaturas iluminadas. Ainda mais se já estivessem mortos e enterrados; debaixo de palmos de consideração post-mortem.

Procurava, dentre tantas pessoas afobadas com as agonias particulares, aquelas que dessem mais do que pediam. E se não pediam, então, ganhavam dele um respeito indelével. Acreditava totalmente que esse feito era conseqüência de atributos colocados nessas pessoas pelo próprio Deus. Às vezes, imaginava o Deus, testa franzida num quê de dúvida; imaginava-o questionando suas crias e fazendo melhorias nelas como o amigo, o Santiago, fazia nos carros que iam parar na oficina dele.

Claro que, assim como os carros do Santiago, algumas pessoas não têm conserto.

Perdia noites de sono a zanzar com reflexões existencialistas; um terço católico numa mão e o mala budista na outra. No peito, o som forte dos tambores do candomblé tirando seu coração para dançar. Na mente as manchetes dos jornais. Algumas delas não lhe tiravam somente o sono, mas também lhe arrancavam lágrimas.

Estranhou o dia em que, depois de se levantar de um sono tranqüilo e fazer suas preces, entoar mantras, declamar saudações ao sol e verbalizar uma poesia religiosa, digna dos amantes da fé, sentiu no peito um vazio diferente daquele provocado pela indignação pelos que cultivam a intolerância e aqueles que cometem violência física, emocional, social, política.

Tratou logo de se apegar aos afazeres do dia, a mente voltada aos salmos que decorou com tanto gosto; a vitrolinha tocando a trilha sonora de uma vida simples de um homem com pensamentos grandiosos. Afinal, há mais do que a necessidade de crendice em alguém que, com o passar do tempo, colheu de várias religiões o que julgava justo, impregnando sua vida com a clareza de que muitos são os santos e tantos outros são os bárbaros. E que, muitas vezes, é preciso que um seja vizinho do outro, numa diplomacia de quem praticamente divide o quintal.

A jornada até a paz é árdua, e nem sempre significa paz de espírito. Ele sabe disso. Não se ilude com extremismos.

Corre a boca miúda, na cidade onde ele vive alheio aos buchichos, que o homem, ele próprio, é meio santo. Sabe como? Meio santo... Só não pode ser santo inteiro, porque namora a libidinosa da Malu. E santo não beija na boca, né? Onde já se viu! Ainda mais em público... Vai saber o que mais eles fazem no solário da casa dela, onde ficam por horas!

O que não sabem esses curiosos temerosos de se aproximarem de alguém tão diferente deles, é que o tal homem pouco se importa com as inquietações de seus companheiros de cidade. Assumidamente, ele morre de amores pela Malu, quem lhe apresentou o tantra, a voz de Ella Fitzgerald, o bolo de aipim, as esculturas de Rodin, o xamanismo. Essa mulher que o envolveu em cânticos de adoração à lua, às bendições, que despertou seu olhar para os detalhes, para as levezas incrustadas na rotina descabida e, por vezes, árida. De quem ele sorve o carinho necessário para manter o corpo firme, o espírito com identidade própria.

Mesmo que a crença desse homem pareça oriunda do desespero de quem não quer morrer sem religião ou ao menos sem o alento da fé, sem se deixar enganar pelo desconhecido, a verdade para ele é que os santos, os monges, os espiritualizados, os iluminados, os benquistos por Deus, até mesmo seu amigo mecânico, o Santiago, os homens, os bichos, os matos, e o amor de sua vida, a Malu, são tão divinos quanto poderiam ser. As rezas, as palavras de fé, as simpatias, as bênçãos são uma rotina de desejo engajado de que bons ventos abarquem essa viagem que é a vida.

Meio santo... Só não é santo inteiro, porque adora coisinhas terrenas, como a pinga com mel, o bailão anual de aniversário da cidade; vestir roupa que acabou secar no sol de inverno; tocar violão na madrugada das solidões.

É fã do dia de finados, e a isso credita um quê de lugubridade, já que esse não é um dia de show de rock’n roll, não há astros dos quais ser fã. Falando em música, coloca Santa Clara, Mahatma Gandhi, São Jorge (com dragão e as lendas), Chico Buarque, Joana D’Arc e The Beatles no mesmo altar. Ou devo dizer ‘patamar’ para não assustar demais os devotos?

Meio santo... Meio filósofo... Meio doido, esse moço. Mas quem dele não gosta? Lá está, e sempre, na igreja, joelhos dobrados diante de Cristo crucificado, pedindo pelo outro aquilo que jamais terá se for apenas dele. Feito a felicidade... Felicidade só é boa se dividida em abraço.

Compõe mantras, acende velas em casa que, ora servem para alumiar o recinto e ora outra para despachar espíritos ruins. Também gosta delas empinadas sobre castiçais, labaredas benzendo jantares. Joelhos dobrados, enquanto tenta alcançar a carta do irmão mais velho que mora em outro estado, que com a ventania da tarde, levou as notícias pra debaixo da cama. Vem-lhe a lembrança da meninice deles, quando se escondiam do pai brincalhão, que fingia não saber que eram eles a se esconderem; que fingia encontrar lá debaixo dois filhotes de urubus... Foi assim que o meio santo adquiriu o hobby de fotografar urubus, dizimando da biografia das aves de rapina a feiúra; arrematando-a com tal doce recordação.

Joelhos dobrados, língua traçando caminhos na barriga de Malu. As contas do terço misturadas às do mala; os deuses observando, curiosos, a novena desse homem que se aproxima tanto de Deus, na esperança de poder lhe cochichar no ouvido o agradecimento pela sua humanidade. E para confidenciar a ele que “sim, tudo nessa vida é de religiosidade a ser alimentada e provada, vezes outras, provocada”.


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domingo, 14 de setembro de 2008

DENTRO DE MIM >> Eduardo Loureiro Jr.

Mallmix, on FlickRFalar o quê? Melhor é ouvir o sussurro das coisas. Ou seus gritos. Bonito é tocar a vida de ouvido, ouvindo e fazendo som. Uma crônica não-crônica, aguda, ou grave gravidez sem gravidade...

Na hora de escrever, meu amigo Manu Kelé me manda um poema:

Dentro de mim
Um caminho sem fim,
com flores e cheiro de amor.

Dentro de mim
Profunda beleza,
Na certeza do teu calor.

Dentro de mim
Infinito desejo,
No beijo que a memória guardou.

Dentro de mim
Você linda estrela,
Teu céu me apaixonou.

Eu ouço "Pega o violão". E pego o violão. E o violão escuta "Pega a harmonia". E pega a harmonia. E minha voz canta o que ouve e preenche as palavras que não estavam no poema mas que está na canção.



E eu bem que poderia, antes de tudo, ter guardado o poema com desculpa de escrever a crônica, talvez colocando uma etiqueta: "encontrar melodia". E teria perdido a melodia que me encontrou. Ah, o medo de viver a vida assim, ao sabor do cheiro da comida que outro preparou. Ah, o medo de perder a chance, e perdê-la — mesmo — pelo medo de a perder.

Mar de Ulisses, mar de re-mar. Mar de Penélope, mar de a-mar.

"A gente não sonha, a gente vive." O sonho não precisa se realizar — já é real. O bem, o bem, sempre o bem. Nunca o mal.

A melodia não é a mais bonita, eu sei, é só a certa melodia — meio-dia — da canção. A pino, à plena luz, a claridade da certeza. Tudo é claro. A letra branca sobre a folha branca ainda se vê... quase não se vê... está sempre lá mesmo sem ser vista. Tudo é claro. O escuro vem da sombra ancelha, ancestral, do sobre-olho de quem lê.

Medida justa de tudo é leveza de felicidade.





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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

FAUSTO WOLFF (1940 - 2008) >> Leonardo Marona

Então morreu o lobo. Morreu de ofício do tempo e sem reclamar. O deserto se fechou, o lobo não vive afugentado no eterno branco. Não é possível mantê-lo de pé sem o líquido da vida, que apenas os duros bebem aos borbotões, com rosto duro cheio de ternura, e os selvagens se lambuzam. Morreu então o lobo que, sempre ereto, uivava palavras em alemão. O lobo que escutava uma tristeza ulterior no vento de areal. O lobo que comia carne crua e esperava a lua para nascer a cada dia. Um dia ele não mais nasceu. O mundo do lobo é um mundo sem bondade nem crueldade, totalmente aberto e perigoso, um mundo sublime possível justamente por ser um mundo sem rédeas. Um mudo natural por si. A dureza do lobo vinha de saber que um mundo assim é cruel para os padrões humanos e que, portanto, a natureza era mesmo cruel na visão humana, e isso fazia com que nós humanos não soubéssemos realmente o que fazer ou desejar, pois a maldade era a nossa própria cabeça, e a única saída era tornar-se inumano para, assim, renegar a falta de humanismo da massa original, que não vem exatamente de nós, mas do que nos gerou e não sabemos. O lobo chorou muito com o tempo adverso. Em silêncio, soletrou absurdos líricos, usou pedras de travesseiro cético. Costelas à mostra, chorava devagarinho. A dor lancinante – boca de abutre no intestino – dificultava os ganidos românticos. O lobo chorou para a lua porque no fundo desejava chorar por tudo que é e não é o mundo com uivo completo de magnitude caudalosa, como um agradecimento amaldiçoado ao germe da faísca. Difícil saber agora o que fazer sem a presença arrítmica do lobo, como imaginá-lo acinzentado ao vento, dar carinho aos seus restos pútridos. Seu charme magnético de andar. Sua relação direta com o cosmos. Seu mais completo desinteresse sobre questões de ego ou repartição. Ah, e sua violência mitológica! As garras de fora no momento do pulo. As costas eretas no toque do verbo. O lobo agora, vieram buscá-lo. Trouxeram finalmente a foice, pegaram-no diante do último salto. Pela força única que sua ética denota, o lobo, é provável, virá outra vez, e outras, porque ele é costela da natureza selvagem, poesia de gatilho e meio-fio à luz de prata. Deus queira que esteja por paragem ainda mais árida, ainda à espreita, andando por quem não tem pernas, vivendo por quem não tem vida. Mas deus não existe, eis a dura beleza. E o lobo sabe que é matéria inata, ancestral crucificado da beleza primitiva.


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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

LÍNGUAS >> Carla Dias >>

Eu falo gírias, dialetos, doidices. Minha voz é aguda durante o dia e gravemente pranteada nas madrugadas. Mas se assisto reprise de novela, então pranteio à tarde mesmo, dependendo do enredo. E se acordo desarrumada por dentro, aí pranteio o dia inteiro, faça chuva ou faça sol; noite estrelada ou enegrecida pra alimentar bicho arredio.

Já pranteei com a cara grudada na parede, o nariz amassado. E quis entrar no buraco negro só pra plantar no seu centro um buquê de fogos de artifício. Sabe o centro? Onde a gente escorrega os dedos dos pés como fosse bailarina desenhando a cara da dança na areia? Onde a gente se esparrama para os lados, criando saídas, rotas de fuga. Onde é crucificado nosso entendimento sobre a capacidade de dizimar solidão.

E me ofereceram ser fluente somente nas belezas, mas me engasguei no aprendizado ao enveredar pela diversidade dos idiomas. Hoje eu falo estranhezas, labirintos. Sou fluente em inquietações e assimetrias, vez ou outra dou palestras sobre a felicidade, esculpindo no concreto da indecente tristeza, um sorriso carmesim. Falo a língua dos temerários que, após detida consulta aos verbetes da coragem, vestem-se de esperança e saem em busca de si mesmos, até o topo das montanhas, onde fincam bandeiras que se contorcem na tentativa de seduzir a paz.

Já sorri engolindo o som do riso, esmerando-me para não libertar gargalhada. E ao contrário do que parece, foi sorriso dos bons, apesar de engolido, porque tingiu de caleidoscópio o meu dentro. Enfeitiçou minha alma com cores que jamais vira antes.

Conto histórias pra dormir a mim mesma; cantarolo orações. Já me declararam insana, delicada, cética, decente, vulgar; classificaram-me caso perdido, mais vezes do que manda o figurino. São as gírias, os dialetos, as doidices, essa combinação kamikaze de rompantes. Mas pra quem já pranteou de tanto engolir lógica sem nela confiar, creio estar na hora de verter lágrimas de fascinação pelos encontros e pelas descobertas. E, neste caso, só abrindo os braços e berrando alegrias.

Eu falo a língua de quem se desespera e depois amansa, sem desacreditar que a vida é poliglota, e nos entende e atende mesmo quando a estranhamos.


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terça-feira, 9 de setembro de 2008

O AMOR ARDE >> Claudia Letti


"O amor é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem ou de alguma coisa". Esse é apenas um dos significados que encontrei quando procurei pela palavra, nos dicionários. Os verbetes são longos e também dizem que o amor é dedicação absoluta, devoção extrema, gratuidade, bondade, generosidade, compaixão. Eu gosto mais da definição de Camões que, por acaso, também é citada num dicionário: o amor é um fogo que arde sem se ver.

Sempre me questionei se o amor é mesmo tudo isso ou se, acrescentando mais um adjetivo: pretensioso, acredita piamente que é. Não duvido -- quem me dera! --, que ele seja tudo o que se prega (ou se auto-determina) e mais um pouco. Eu apenas questiono a sua essência tão forte e inigualável como sândalo ao mesmo tempo que pode e sabe ser suave como lavanda. Sempre penso que amor, tal perfume, depende da pele onde se espalha e do temperamento de quem usa.

Poliglota, fala a língua dos loucos, dos anjos, dos sábios, dos ignorantes, ingênuos, crédulos e marginalizados. Usa códigos secretos, dos mais simples aos mais sofisticados, escondendo cuidadosamente suas senhas e traduções como jóias contrabandeadas. Quando não pode ou não sabe pedir, oferece a ironia, envergonhado demais para gritar por socorro. Paradoxal, grita palavras bem ditas e sussurra as desditas como um engasgo, sem piedade ou compaixão por si mesmo -- tudo em sua defesa, pelo medo turvo e incontrolável da rejeição. E, como não mede o que doa, definha se não se recebe, devorado pelo próprio apetite, anoréxico de reciprocidade. Encimesmado pela idéia de que quanto mais se dá, mais forte fica, esquece que sem nutrição é canibal faminto de sua própria carne.

Espaçoso e sem limites, ocupa grandes cômodos numa só morada que consiga aconchegar sua grandiosidade. Se encontra uma casa que lhe abrigue com alegria, esparrama-se em generosidade, é devoto, seguidor de si mesmo e -- ouso apostar --, quase narciso. Mesmo assim, sofre de desajeitamento e, sem perceber, perde o controle, esbarra nos móveis, quebra vidraças, estilhaça vasos antigos como um mamute tentando se movimentar dentro de um laboratório. Sua grandiosidade e delicadeza não impedem que estilhace experiências transformadoras em minúsculos cacos. Mas quando não encontra morada, porque nem sempre procura, é mendigo faminto e sem teto, pedinte de afeto e, vândalo, é capaz de destruir o mais belo canteiro de flores.

Maestro das grandes sinfonias e músico dos mais simples acordes e, por isso mesmo, mais belos, o amor também é caçador de borboletas, colecionador de cata-ventos, dançarino de coreografias intimistas e inventadas. Confeiteiro de delicados sonhos, alquimista de substâncias etéreas, escultor de obras surrealistas, malabarista por natureza e por dom. Circense engolidor de fogo, o amor arde. Arde quando nasce e cresce e arde quando suspira à própria sorte. É isso, tudo isso, o amor que os dicionários não traduzem, uma entidade que nasce, cresce e multiplica-se em si mesmo.

Os tolos, acreditando que ele é menor do que é, confundem-no com a paixão. Os que se acreditam mais razoáveis, não sabem muito bem a diferença. Mas, parece que somente os sensatos não o conhecem. Por isso, a conclusão que me toma é que de amar sabemos quase nada. Do que gostamos mesmo é de desejar o amor.

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domingo, 7 de setembro de 2008

A MEDIDA DA VIDA >> Eduardo Loureiro Jr.

Katia Mazzi
A gente sabe quando chegou a hora, quando não dá mais. No meu caso, é quando as meias se acumulam dentro dos sapatos. Sinal de que estou passando tempo demais fora de casa, sem tempo nem para lavar as meias enquanto tomo banho.

É nessa hora que a gente percebe que não fala com os pais há dias, que não liga para as pessoas queridas, que perdeu o enredo da vida dos amigos e, pior de tudo, que se extraviou de si mesmo.

Casa é o lugar onde a gente se encontra, onde a gente encontra tudo: a tesoura, o orégano, o livro. Casa é onde a gente anda de olhos fechados, de luz apagada. Casa é a cama sempre desfeita, sempre pronta para um descanso de costelas. Casa é o violão à mão, o tempo à inspiração.

Na falta da casa que é essa, pode-se brincar de casinha no meio do mundo — desde que haja silêncio. Se nós, humanos, praticássemos suficientemente o silêncio, chegaríamos, mais século, menos século, à telepatia. O silêncio é uma casa sem paredes.

As meias dentro do sapato fazem barulho. As cuecas sujas, irritadas, fazem barulho também. A mochila ainda não desfeita entra no desarranjo sonoro. O chuveiro elétrico grita friamente por um novo. Aquela canção incompleta, o vídeo não editado, o mapa astral não interpretado, o livro não revisado, o texto não escrito, o macarrão não cozinhado... tudo faz um barulho tremendo. Até o sono, atrasado, vira pesadelo.

A água transborda do copo desatento. A medida de todas as coisas perde a colherzinha certa. As coisas esquecem o tão necessário antes e depois, e viram coisa atrás de coisa que não se sabe como começou nem para onde foi. As coisas ficam sem história e viram manchetes —sensacionalistas — de jornal.

Dá vontade de virar bicho-do-mato. Porque diante de tanta coisa, de tanto ruído, ser bicho-do-mato é ser mais gente do que meia no sapato.





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sábado, 6 de setembro de 2008

O CÉU DE MARTE [Ana Coutinho]


Eu já era adolescente, uma jovem que pensava o que prestar para o vestibular, quando comecei a ter uma leve fixação pelo espaço. Pensei em prestar astronomia, quis conhecer as estrelas, achava isso tudo romântico e, então, quando me decidi pela Psicologia, achei que, caso a fixação se mantivesse, eu poderia ser psicóloga da NASA e visitar o espaço.
Aconteceu que a fixação veio e foi em épocas diferentes. Cheguei a entrar no site da NASA uma vez, baixei uns formulários e desisti na primeira linha. Se preencher era aquele sufoco imagine indo até o diabo do lugar e trabalhando lá. Percebi que a minha fixação era mais romântica do que prática.

Ainda assim, cada vez que a vida se mostra por demais cansativa e penosa, a idéia me volta com tudo à cabeça. Eu entro na internet, faço pesquisas sobre Marte, baixo imagens, olho para o céu e tudo mais, pensando que assim, estando mais perto do planeta vermelho, posso descolar-me um pouco da minha vida de terráquea, brasileira, paulistana da gema que, como todas, fez escolhas boas, outras nem tanto e, por ora, sente-se equivocada na sua doce e bela rotina.

Aconteceu que esses dias recebi um catálogo em casa, de uma agência de viagens. E lá estava uma viagem para índia, outra para África, ano-novo em Paris e assim ia. Até que, de repente, numa página qualquer, o anúncio de uma viagem ao espaço. Era de verdade: o anúncio dizia sobre sentir a falta da lei da gravidade, dizia sobre estar perto das estrelas, dizia da escuridão infinita do céu e de todos os adendos de uma aventura como essa. Pois parei ali. Fiquei longos minutos lendo e relendo o anúncio. No final da página, em letras miúdas, o preço: 200.000 dólares por pessoa. Peguei uma calculadora, fiz as contas, comecei a pensar em tudo o que eu poderia vender que, na verdade, se resume à alguns sapatos ou uns bons jeans, e cheguei a triste conclusão que não daria 200, nem 100 mil nada, muito menos dólares. Ainda assim, num movimento instintivo recortei o anúncio, dobrei com cuidado, e o guardei na minha carteira.

É uma tolice, eu sei, mas vira e mexe pego aquele pequeno recorte de papel e leio novamente. Uma insanidade quase que secreta, tola, porém inofensiva. É como se assim eu realizasse esse meu desejo enorme de deslocar-me por uns instantes do planeta. Como se, descolando-me da terra, eu tivesse tirando umas férias da minha vida. Seriam apenas férias, uns diazinhos só bastam, até porque a vida não anda ruim. E esse talvez seja o problema. Se a vida estivesse ruim, eu pensaria logo em suicídio, terapia ou pílulas. Mas a vida anda boa, tudo está nos conformes, os dias são de sol, a roupa de cama está tão limpinha, a comida tão saborosa, o trabalho bacana e meu doce amor mantém-se um marido de primeira.

Acontece que os anos às vezes são longos para termos a mesma vida. Deveria haver um esquema qualquer onde pudéssemos deixar de sermos quem somos apenas por pequenos períodos. Eu gostaria de descolar-me das minhas neuras, dos meus medos, das minhas malditas crenças e certezas, para que eu pudesser ser, ainda que por um dia apenas, outra: loira, alta, talvez barraqueira, corajosa e livre. Gostaria, apenas por alguns instantes, de ser africana, gostaria de ser negra, bem negra mesmo, e ter cabelos enorme que cresceriam pra cima. Gostaria de me descolar um pouco daqui, desse corpo que sempre foi magro, que sempre teve essas pintas, que sempre, absolutamente sempre, teve esse exato formato, esses exatos contornos, esse tamanho médio.

Não sei se apenas eu não me agüento às vezes, não sei se apenas eu me sinto presa nesse corpo, não seu se sou a única que sente-se cansada da mesmíssima vida de sempre. É uma angústia tão silenciosa e solitária, que não ouso compartilhá-la. Leio o meu papel, fecho os olhos fortemente e imagino: lá, em Marte, não há segredos, nem medos, nem certezas. Ouvi dizer, inclusive, que há dois sóis, e que o céu é sempre cor de rosa...

Imagens: Mars with Computer Generated Moon Surface, Denis Scott; Mamers Valles, Nasa, entre Abril 2002 e Maio 2003

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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Desconstrução do Amor >> Leonardo Marona

o amor é uma arma
usada por covardes
com medo da vida.

o amor é uma ferida
que mantém a busca
pela espera frenética
que porá em risco
as nossas estruturas
e, sem dúvida, um dia
nos matará, pela falta.

ridículo falar do amor
como a cura do indigno,
como a ponte do suicida,
como a razão do sociopata,
como a fome do inválido,
como a bengala do cego.
mas o amor é tudo isso.

um erro por dia e planos,
o amor se basta na vontade,
porque, tal como o sonho,
o amor só vale noutro plano.
o presente do amor são juras
hipotéticas, metalingüísticas.

essência do amor é a solidão,
fonte dos poemas e das mentiras.
jamais haveria o amor solene
se não houvesse um abandonado.
o amor poético se dissolve fácil
no chá silencioso dos hipócritas.

ao falarmos “amor, amor, amor”
não precisamos falar “que fome”,
“como está frio aqui”, “eu tenho
o que eu preciso e me sinto vazio”,
“eu não sei o que preciso e sofro”.

mas em vez disso temos sempre
o amor cúmplice, o amor covarde,
o amor por tendência, construtivo,
positivista: o amor com ventosas.

o amor é mesmo a planta química
devorada por bocas anestesiadas.
ou talvez o amor seja outra coisa,
palavra fora daquilo que se pensa.

ninho de enigmas carmesim,
o amor ergueu acampamento:
ele também se esgotou de si.

portanto não se preocupe
se ao olhar fundo nos olhos
houver apenas um e um: dois.

com amor demais matamos,
degolamos desejos, sorrimos
pensando no que vai nos salvar.

quem sabe tendo o amor fugido
nos juntaremos outra vez por medo
e do medo, talvez, a igualdade
possa nos manter em silêncio,
mas ao menos de mãos dadas.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

AH, MÚSICA! >> Carla Dias >>

Assistir filmes que tenham a ver com música me agrada muito, seja ela uma personagem ou apenas um cenário; venha através de músicos ou mesmo de dançarinos. Fato ou ficção.

Na lista de filmes e séries preferidas que apontei numa das crônicas passadas – e que já atualizei, claro -, há uma série de filmes assim. Sobre alguns deles eu já escrevi aqui, como o belíssimo Assédio, de Bernardo Bertolucci, e o fantástico TAP – A Dança de Duas Vidas, de Nick Castle.

O que fui consertar rapidinho, naquela lista, foi a falta de uma série que durou apenas 1 temporada com 8 episódios... Pois é, Love Monkey não caiu no gosto popular, mas fã que sou do Tom Cavanagh - que já vinha da bacanérrima série ED, da qual foi protagonista, e hoje faz o papel do pai do agradavelmente maluquinho da Eli Stone – conferi com gosto essa série onde o personagem de Cavanagh, um executivo de gravadora, é um homem às voltas com a paixão pelas mulheres e pela música.


Na série House M.D., enquanto Hugh Laurie encarna o mais ranzinza e genial dos médicos, também apresenta seus talentos musicais. O ator também é músico e essa característica se destaca na série, seja no momento em que House escuta seus discos ou toca sua guitarra, seu violão ou seu piano. Falando em piano, no 15º episódio da terceira temporada, Half Wit, o Dr. House faz um dueto ao piano, num quarto do hospital, com o Dave Matthews, quem vive Patrick Obyedkov, um homem que, após um acidente que o deixou com desabilidades neurológicas, passou a tocar piano perfeitamente.


O último filme que assisti, e que tem a música como personagem principal, traz como cenário a Irlanda. Alan Parker já havia fisgado os apreciadores da música, em 1991, com o seu The Commitments – Loucos Pela Fama, mostrando uma banda de Dublin que tocava soul music. Do filme de Alan Parker migrou para Apenas Uma vez o músico e compositor Glen Hansard, fundador, guitarrista e vocalista da badalada banda irlandesa The Frames.

Apenas Uma Vez, do qual o título original é Once, nasceu de uma simples história criada pelo ex-baixista da The Frames, John Carney, quem pediu à Glen Hansard para utilizar algumas das suas composições e que ele criasse canções inéditas para o filme. Em um determinado momento, John, ciente de que a música era a personagem principal do filme, resolveu que melhor seria ter músicos atuando do que atores tocando e cantando. Foi assim que Glen Hansard, quem no filme de Alan Parker fez o papel de um guitarrista, transformou-se no “rapaz” de Apenas Uma Vez, um músico de rua que conhece uma pianista, Markéta Irglová, a “garota”, e entre eles nasce um forte relacionamento calcado na música.

Glen e Markéta são amigos e parceiros de composição. Foi ele quem sugeriu que ela fizesse o papel da garota, o que propiciou uma naturalidade emocionante nas cenas em que tocam e cantam juntos.



Apenas Uma Vez é um filme honesto, que encanta pela música e a forma como os personagens lidam com ela. Não há muito que discursar a respeito dele, é preciso assisti-lo... Escutá-lo para compreender o seu valor.



"Falling Slowly" - Glen Hansard e Markéta Irglová.


Falling Slowly
, uma das canções do filme composta por Glen e Markéta, ganhou o Oscar de Melhor Canção Original.

John Carney se propôs a fazer um filme de baixo orçamento, de forma que os produtores não o pressionassem. Apenas Uma Vez foi filmado em 17 dias, com um orçamento de U$150 mil.

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