domingo, 31 de agosto de 2008

GUERREIROS E ANJOS DA GUARDA >> Eduardo Loureiro Jr.

theoi.com
Há tempos e tempos, os deuses viviam no meio dos homens. Zeus, Atenas, Apolo... nos apareciam com alguma freqüência, agiam entre nós, ora com seus superpoderes, ora com manifestações que poderíamos chamar de humanas, como orgulho, inveja, ciúmes.

Há tempos os deuses se fixaram no céu em pedras e fogo -- as luas, os planetas, as estrelas, as constelações -- como se tivessem desistido de interferir nesse nosso mundo.

Mas e se não for bem assim? E se a inércia -- o movimento previsível dos astros -- for apenas uma aparência, uma ilusão? E se os deuses continuam interferindo sem que nós nos demos conta disso, sem que nossos olhos percebam seu veloz e luminoso movimento?

De vez em quando, ocorre-me ver de relance alguns de seus lances. Durante esse mês de agosto, por exemplo, aqueles e-mails dizendo que Marte apareceria tão grande quanto uma lua no céu pareciam indicar que o Deus da Guerra, auxiliado pelo galhofeiro mensageiro dos deuses, Mercúrio, estava querendo marcar presença, mesmo que através de um boato infindado (a tal aproximação de Marte deu-se em 2003, e mesmo assim ele não ficou do tamanho da Lua).

Marte está sempre por aí, nos que se lançam, nos que empunham armas, nos que enfiam a cabeça, nos que abrem o peito, nos que desbastam matas, nos que cavam picadas, nos que inventam caminhos, nos que rompem o sono, nos que rasgam o espaço.

Marte e o espaço...

Aqui de onde escrevo -- Rio Branco, capital do Acre --, há muitos guerreiros. Guerreiros de hoje, que já não pegam em armas de metal, lembrando guerreiros de antigamente com seus fogos de independência. Marte está na estrela vermelha que brilha no canto da bandeira que se move com o vendaval que varre com louca vassoura o calçadão da Gameleira.

Gameleira
O espaço, aqui em Rio Branco, é uma cidade cercada de floresta por todos os lados. É o verde arrodeando o amarelo para além da bandeira, projetando as cores no vento. O espaço é o ar que se mistura com nossos pensamentos. E o ar está cheio de anjos da guarda.

O coração, que é Marte, rasga o espaço do peito. E há sempre outro espaço maior, que Marte tenta rasgar, e rasga... mas há outro espaço maior. Sempre. Os anjos da guarda.

A minha boca se abre, se marte, as minhas palavras se anjam, se guardam. Tudo é tão grande, tão grande: as seringueiras, as histórias dessa gente, a própria gente é tão grande. Tudo é tão marte rasgando, rasgando, que eu morro de medo de me deixar rasgar e virar um anjo da guarda.





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sábado, 30 de agosto de 2008

DIA DO PSICÓLOGO [Maria Rita Lemos]


Em 27 de Agosto de 1962, a lei 4119 regulamentou a profissão de Psicólogo no Brasil, estabelecendo critérios legais e civis para seu exercício.

Faz pouco mais de um século que Wilhelm Wundt foi o primeiro a encarar a Psicologia como ciência, no seu laboratório em Leipzig, na Alemanha. As idéias de Wundt, porém, não progrediram muito por estarem ainda muito ligadas ao fisiologismo. Entretanto, a partir de seu pioneirismo, muitas fundamentações teóricas se desenvolveram, como a psicanálise, o gestaltismo, o behaveourismo, a análise transacional, e mais modernamente a psicologia comportamental cognitiva. Embora cada escola aborde o ser humano conforme sua ótica, todas estão preocupadas com o estudo das angústias, conflito e equilíbrio emocional dos indivíduos.

Desde a regulamentação da profissão, há 46 anos, o dia 27 de Agosto passou a ser comemorado pelos profissionais da área, representando o compromisso dos psicólogos com uma sociedade mais justa, mais humana, igualitária e empenhada na qualidade de vida de todos os cidadãos, sem qualquer discriminação de classe, idade, sexo, orientação sexual, nível econômico, cor, etc.

No Brasil, a regulamentação foi, antes de tudo, uma vitória política, tendo em conta o antagonismo de outras profissões de saúde que se mantinham há séculos como detentoras de todos os saberes e práticas.

É evidente que a Psicologia e os psicólogos não têm todas as respostas para todos os problemas e angústias que oprimem os seres humanos em nosso tempo e nossa sociedade. No entanto, os profissionais de Psicologia têm muito a dar, sobretudo somando seus conhecimentos com os de áreas correlatas, como seria o ideal, trabalhando num contexto de interdisciplinaridade.

É preciso deixar claro que a Psicologia não é estudiosa apenas no campo da saúde. Seu campo de ação e práticas profissionais estendem-se a muitas outras áreas do conhecimento humano. Assim, há psicólogos atuando na área do Direito, com Psicologia Judiciária e Forense, psicólogos do esporte, psicólogos clínicos, comunitários e sociais. Isso, além dos diversos saberes que envolvem o campo das pesquisas, e contribuem para uma vivência social mais rica.

Sem se deixar envolver por políticas corporativas de quaisquer natureza, nem aceitando privilégios de nenhuma classe social, o psicólogo é, essencialmente, um profissional comprometido com a dignidade e os direitos dos cidadãos, enquanto trabalha sob os desígnios de um severo código de Ética profissional.

Ser psicólogo é, principalmente, ser pesquisador, estudioso e pensador, um cientista do comportamento humano, que situa-se entre a teoria e a intuição. Muito tivemos a comemorar nesse 27 de Agosto, mas também muito há que ser refletido e pensado a respeito de nossa atuação profissional, independente da área em que ela se dê. Há muito com que se preocupar no dia a dia, há muita luta, ainda, pela garantia também de nossos direitos, enquanto seres humanos que somos também.

Como forma de parabenizar a todos e todas que são colegas de profissão, nessa data que é nossa, permito-me reproduzir nesse espaço a "Oração do Psicólogo", de autor desconhecido, que acho belíssima.

"Senhor, só vós conheceis em profundidade a criatura humana.
Só vós, portanto, sois o verdadeiro Psicólogo.
Contudo, Senhor, aceitai-me como vosso ajudante.
Ensinai-me as técnicas mais corretas, orientai-me para que não erre...
E quando eu falhar, que sei que isso pode acontecer,
vinde depressa, Senhor, sanar o mal que eu possa ter feito a alguém.
Dai-me um amor intenso, diuturno e persistente pela criatura humana.
Não permitais que a rotina, o cansaço ou eventuais decepções tornem-me frio e indiferente ao outro.
Dai-me humildade bastante para aceitar meus erros e aprender com eles, procurando estudar e conhecer cada vez mais a mente e o comportamento humanos.
Perdoai minhas ofensas e ajudai-me a atribuir os êxitos a Vós, que sois fonte de minhas ações. Que, ao final de cada dia de trabalho, Senhor, eu possa dizer com sinceridade:
- Hoje eu fiz tudo quanto dependeu de mim para ajudar aos irmãos que foram colocados em meu caminho por Vosso Amor.
Obrigada, meu Deus e Senhor!"


Maria Rita Lemos é psicóloga clínica e terapeuta familiar.

Imagens: People Accessing Man's Mind, Rob Colvin; Woman Lying on the Couch of a Psychiatrist, Coleção Creasource

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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

ENTRE CAIXAS >> Leonardo Marona

Há uma sensação de alívio quando se trepa e não se goza. Algo semelhante a uma mudança repentina que no fundo não sucede. Na verdade eu havia me mudado apenas para poder não ter casa alguma, não pertencer a nenhum lugar, apenas para não esperarem mais por mim, ou talvez já nem esperassem mais e essa era a verdadeira questão: eu precisava me livrar dessa dúvida, ter um lugar só meu para poder abdicar dele.

E nos vemos subitamente em meio a caixas úmidas de papelão. Algo como se tivéssemos finalmente nossos pavores organizados segundo os padrões que inventamos e na verdade não cumprimos nunca porque não nos interessa o que sabemos. O tédio está no que se sabe, naquilo que dizemos aos outros com ares disfarçados de louvor. No fundo aprende-se com o melhor do mal original e se faz bom-proveito, na bacia infinita de lágrimas compartilhadas.

O quadrado onde, de forma exata, couberam minhas tralhas dava de frente para um vão central, comum aos piores cômodos dos piores apartamentos do edifício, os que não tinham nenhuma vista, a não ser a do vão comum, de onde se ouviam marteladas e escarnecimentos constantes.

Era na verdade muito parecido com aquele sistema carcerário imaginado por aquele careca, o Foucault. Havia é claro solteironas voluptuosas com os sutiãs à mostra e longos sorrisos de olhos ambíguos. Havia um garoto e sua mãe envelhecida, no entanto com pouco mais de trinta anos, ambos com brilhantina nos cabelos e a pele rachada de água sanitária, os modos simples, o cheiro do sabonete barato de glicerina, como personagens de John Fante indo à missa. Isso dava ao lugar um certo ar hospitaleiro que é possível encontrar nos melhores manicômios.

Eu ainda não tinha cortinas, nem vergonha de ficar nu. Havia superado esse paradoxo e me masturbava livremente, quando sentia vontade.

“Bom dia, meu nome é Márcia, muito prazer. Você deve ser o novo morador do 408. Eu também estou chegando de mudança, no 704. Se precisar de alguma coisa é só lembrar: Márcia”.

Talvez algum dia eu pedisse açúcar a Márcia. Não agora, enquanto minha vida encaixotada e por fim sem privilégios me deixava com o peito sulfuroso dentro de um metro quadrado padrão, e as malditas pombas sobrevoavam com seu barulho como o dos gatos e alguns seres humanos prontos para o amor como se isso fosse possível ou mesmo natural.

Em lugares escuros do edifício sem paisagem, “caros condôminos, queiram ensacar seu lixo devidamente antes de evacuá-lo na lixeira comum”, o longínquo som da terra exausta diminuía meu parâmetro e, ao mesmo tempo, cabia nas palavras milagrosamente. Sozinho entre caixas, perfeitamente abandonado como nos romances ruins de cavalaria, sem cuidados entre recém-nascidos, o novo eu-mesmo ainda sangrava e me era estranho, eu o ex-eu-mesmo que antes pairava, e não chegava a ser muito bem-vindo. E do estranho a criatividade brotava, meus dedos derretiam de tanto bater à maquina, uma antiga Hermes portátil e laranja, à falta da musa dos cabelos parnasianos e costas alexandrinas.

As antigas calças voltavam a se ajustar ao corpo, as malas feitas outra vez sobre a cama velha. De dentro da névoa gris feita da fuligem e do pó de cal que vem da obra interminável desemboca o horizonte ainda trêmulo, a promessa ainda abstrata, o coração pela metade, a boca magra sem paixão. Os dedos doem de bater mais forte nas teclas do meu único alimento. Os livros couberam na estante e estão calmos, com jeito de pedra, feito caramujo que é sua própria casa. Na porta do armário colei um cartaz com a representação do autêntico gaúcho às margens do Rio Prata. Eu agora tinha direito a ser patético, porque não era mais eu-mesmo e sim eu-outro. Baboseira pura.

Um garoto soprava uma flauta que ecoava como a solidão coletiva entre os pedaços de concreto no vão central do edifício acinzentado como um doente terminal. As frases precisavam ser mais curtas, a vontade honesta, os amores – ah esses então! – menos elisabetanos. A medida da vida ainda era a propagação do acaso. Pegar o açúcar com Dona Márcia, do 704. Abrir a velha máquina de escrever e, com a vida entre as mãos pela primeira vez, escorrendo, sentar os dedos, largar de lado o Inferno de Strindberg e soprar com peso as notas trágicas de um compasso fugidio, para sugar faminto os ares dessa liberdade enfim maculada, entre caixas que são castelos do coração de marfim.


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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

INTERIORES >> Carla Dias >>

Neste instante, talvez em outro, quem sabe? Minha existência confronta a serenidade. A intranqüilidade faz desconfortável a estadia neste universo novo em folha; envelhecido pela pressa com a qual seus habitantes constroem seus palácios, seja no mais requintado da alvenaria ou na emenda dos apodrecidos sarrafos.

Pense nela como a mulher que sabe que desejo nem sempre casa com realização. Quem não acredita que podemos tudo, pois tudo é sempre a mais, é extra, é o que não nos cabe. Ela acredita que o que nos cabe é um tudo disfarçado de fragmentada realização, então prefere saborear isso ao excesso impregnado de significativas perdas.

Mansões ou favelas comungam, atiçados um pela sorte do outro. O rico que esperneia para não empobrecer. O pobre sapateia para não engolir de vez a miséria. Há dores em cada lar desses, assim como há alegrias.

Pense nele como quem desvenda desfechos, correndo sempre atrás de uma nova oportunidade. Quem não se conforma com limites, joga-se ao imprevisível como fosse capaz de ler futuro nos olhos dele. A ousadia exposta nas suas palavras alimenta a intensidade da determinação que cultiva.

Mudam as batalhas, mas não as buscas. Todos nós desejamos o conforto de uma quase-felicidade, porque, no fundo, não estamos preparados para inquietação provocada pela total ausência dela. Também desejamos as certezas imobiliárias, o salário garantido; a condição de cidadão capacitado para viver em sociedade. São desejos pragmáticos, regados (em cumplicidade) pela euforia do desvario.

O que nos define nem sempre é claro. O mármore do chão toca friamente as solas dos nossos pés; os saltos batucam canções nas calçadas. Por isso alguns choram e outros dançam.

Ainda que cansado do que considera freqüentes provas de fé, ele regressa ao abraço dela sem vontade, ao menos hoje, de incitá-la a sentir o que ele sente, diante da vida. Ela, por sua vez, entoa uma canção sem letra, tirada de algum tempo da sua infância, que lhe faz bem ao conceder abrigo.

O pobre de espírito vocifera calunias aos deuses que desconhece. O rico em sabedoria observa silêncios, concebendo árias futuras. O moleque que vive na rua enfia o nariz na vitrine e sorri para um terno de fino corte, mas logo volta ao grupo de amigos para bater uma bola. O magnata remói saudade, sentado à sua escrivaninha imponente.


Imagem: Jander Minesso >>> http://www.flickr.com/photos/tantofaz

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domingo, 24 de agosto de 2008

O TEMPO, O ESPAÇO E O ABSURDO >> Eduardo Loureiro Jr.

O. Krause, et al., SSC, JPL, Caltech, NASAExiste o tempo, o espaço e o absurdo.

O tempo é uma pessoa que acende e apaga ininterruptamente um interruptor enquanto outra pessoa canta uma música que acende e apaga palavras:

Eu sou um vaga-lume
que brilha e também se apaga.
O escuro vai fugindo
por onde meu lume vaga.


O espaço é estar acima, do lado, entre ou mesmo distante.

Absurdo é lembrar de uma pessoa que não se vê há vinte anos, da qual não se tem a menor idéia de distância... lembrar apenas porque aquela pessoa lhe ensinou a fazer uma dobradura de papel e você está fazendo essa dobradura agora.

O tempo-espaço é sentir-se próximo mesmo sem se estar próximo apenas porque se esteve próximo num momento anterior. É guardar para sempre uma presença que não existe mais.

O espaço-absurdo é estar perto sem poder tocar, tocar sem poder entrar, entrar sem poder perder-se, perder-se e ter que se achar.

O absurdo-tempo é estar em qualquer então, sem máquina, apenas com o sentipensamento.

Tempo-tempo é este momento.

Espaço-espaço é o abraço.

Absurdo-absurdo é este mundo.

E se o tempo-espaço-absurdo fosse tal que nos permitisse viver o que quiséssemos viver e só depois se organizasse, também segundo a nossa vontade? E se pudéssemos escovar os dentes, tomar a sobremesa, comer a salada e, no final, disséssemos que comemos a salada, tomamos a sobremesa e escovamos os dentes? E se cada agora, aqui, desejo, fosse uma peça de Lego que juntássemos e desjuntássemos durante a vida e definíssemos sua forma final apenas na morte, iluminados pela luz definitiva do fim do túnel?

E se eu escrevesse num lugar longe de casa coisas sopradas ao meu ouvido por uma voz antiga — ou ainda vindoura — sem que eu compreendesse ao certo o seu sentido?

Aqui agora isso.




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sábado, 23 de agosto de 2008

AS MENINAS DA GINÁSTICA [Ana Coutinho]


Sempre me impressiono com essa coisa de Olimpíadas. Fico achando que se o nosso corpo permite aquilo tudo, é impossível que eu não possa dar uma cambalhota.

No entanto, esse ano, mais fortemente, tenho pensado nas meninas da ginástica olímpica. Entre todos os esportes esse me toca mais profundamente, por conta do que ele exige.

Ok, fomos feitos para ser fortes, fomos feitos para ser rápidos, fomos feitos para ser peixes até, mas não, não fomos feitos para ser equilibrados como aquelas meninas. As mocinhas, tão jovens, ficam firmes sob um fio de navalha, uma linha apenas, tão fina, tão pequena, e mantém-se de pé. Algumas tremem, outras, de forma absolutamente impressionante, conseguem ficar imóveis, intactas, frias como uma pedra de gelo, racionais como uma árvore, mudas e firmes como eu, em toda minha vida, nunca consegui ser. Nem por um instante. Talvez porque eu tenha nascido nesse país quente e borbulhante, onde ninguém fica mesmo muito parado. Inclusive elas, as ginastas brasileiras, são claramente mais emocionais, e às vezes caem. Ou dão aquela balançadinha, aquela mesmo que a gente em casa faz “ai, shhh, quase” e depois elas pairam no ar. Mas as americanas? Ou essas outras aí dos países frios? Essas nem tremem. São mansas e seguras, firmes como uma rocha, transformam-se em estátuas de cera, paralisadas, braços estendidos, corpo reto, tudo ali no seu devido lugar. Enquanto eu, do outro lado do mundo, suo por elas, caio por elas, até grito por elas.

De fato, o equilíbrio nunca foi o meu forte. Sempre pendi mais para um lado ou para o outro. Ora muito racional, escolhi que seria uma workaholic e trataria de trabalhar. Ora muito emocional achei que esse papo de ganhar dinheiro era bobagem e me joguei no amor. Já chorei por dias seguidos de dor de cotovelo e já me mantive seca, nenhuma só lágrima por longos períodos, quando decidia ser forte. E fui. Forte, fraca, calma, nervosa, mansa e doida varrida... Mas equilibrada? Nunca. Nem um só dia. Até finjo e finjo bem, mas por dentro os opostos se batem, se machucam e se vangloriam em seguida, cada parte a seu modo, cada extremo puxando a sua sardinha.

Gostaria de fazer ginástica olímpica. Gostaria de permanecer firme ainda que o espaço seja pequeno, gostaria de ser menos trêmula, menos molenga e menos emocional. Gostaria de manter-me em pé ainda que tudo estivesse desabando, gostaria de ter o controle sobre o meu corpo e a minha mente, ainda que o mundo ao meu redor estivesse em absoluto descontrole e caos.

Para mim, a imagem do controle está ali, naquelas meninas tão novas e tão fortes. De que adianta ser rápido? De que adianta ter músculos firmes, de que adianta dar o saque perfeito se, de repente, por uma bobagem qualquer você se desequilibra? De que adianta falar bem, ser coerente e calma, se quando o chão nos some dos pés nós cambaleamos e caímos, tolos, fracos, entregues à emoção, e, muitas vezes, ao desespero?

As meninas da ginástica são as minhas heroínas. Eu tento ficar paralisada em uma linha imaginária por alguns segundos, mas logo a linha desaparece e caio pro lado.

Eu tento, tenho tentado tanto seguir um caminho escolhido, trilhar pela estrada que está aqui no meu mapa, e por onde a paisagem é bonita, mas, não raro, distraio-me com um vento qualquer e perco o rumo, o prumo, o rebolado.

A Jade Barbosa nunca, nem por uma vez cairia nas armadilhas que caí. Diante do caos, do barulho e das perturbações do mundo exterior, ela centra-se nela e na sua própria força, talvez trema um pouco, mas estica as pernas, desdobra o joelho e ainda sorri, vencedora. E ainda que não ganhem medalhas, essas meninas têm a minha admiração, o meu respeito e – sim, sim - a minha enorme e descontrolada inveja.

Imagens: Olympic Games Commemoration Statue, Ron Chapple Stock; Teenage Gymnast, Cultura/Corbis; Scale Imprint on Heart-Shaped Candies, Carrot Productions

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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Essas coisas inomináveis >> Leonardo Marona

O objeto central da crônica de hoje é muito comum. Muitos cronistas superiores foram especialistas no tema, mas, mesmo assim, há que se falar, e o diabo de se escrever é esse: qualquer idiota pode fazê-lo, bem ou mal.

Falarei de um tema amplo, interminável, pois que permanece um mistério insondável por milênios. O tema sobre o qual discorrerei é ralo como areia nas mãos de imperadores e proxenetas. Pessoas sem espírito são capazes de fazer o sinal da cruz ao se depararem com certos exemplos do tema abordado hoje. Podemos explicar chacinas, parricídios abissais, mas o objeto sobre o qual escreverei permanece intacto diante dos nossos olhos, como de resto são o Triângulo das Bermudas, a Caixa de Pandora e o Senado da República.

Gostaria de tecer palavras carinhosas sobre o incrível e anatômico objeto a que me refiro, mas a verdade é que tenho medo dele, porque vim dele, ou seja, porque ele sempre será anterior a mim ou a qualquer homem; e antes dele apenas o vazio hipotético.

Este objeto tanto assusta por sua inabalável capacidade carmesim, que os maiores gênios da humanidade, homens carrancudos e sem vida própria, com medo dele o afastaram das idéias, o taxando como ser inútil de medidas desproporcionais. Tentaram derrubá-lo com motivos falsos de uma eficiência insípida, isso porque este objeto emite uma luz ofuscante, dado que é anti-eficiente e apenas reluz ao sabor das marés lunares. E eu respeito os gênios, mas não sou um deles. Minha moral é mais delicada, posto que não sou um deles. Então posso continuar tranqüilo até o fim.

Tal objeto tem a inacreditável capacidade de tirar vida de coisas sobre as quais os homens passam por cima. O contorcionismo é também outra grande habilidade. Pela atenção que desperta em si próprio e nos outros, este inenarrável objeto percebe o mínimo, e dele faz pequenos adornos e bibelôs para almas ciganas. Tendo alma cigana, mas sendo covarde e extremamente moralista, me faço de sincero e vou à luta. Pois não se engane: não há paz diante do objeto tratado. A paz diante do objeto tratado é o mesmo que a indiferença.

Sua luminosidade e sua mordaça secular fazem com que o feixe rasgue a pele. E então ali estamos, contando moedas, respeitando os vizinhos, comprando flores à meia-noite, dizendo amém. A incrível saga do objeto tratado faz de Dante Alighieri um rapaz que brinca de boneca.

O objeto, aliás, detestaria ser tratado assim. Tratemo-lo, pois, de “as coisas”. Elas sempre vão, os abraços são apenas disfarces. Nós, os limitados, tentamos agarrá-las à força, enjaulá-las em pátios de insanidade, não propriamente porque as amamos, mas porque, ao chegarmos perto delas, sentimos o sabor da primeira seiva, elas que estão mais próximas da primeira criação e, portanto, distantes de nós, os construtores sem élan.

Olha-se para um homem e vê-se quase tudo. Elas são o quase, a chance perdida. Apenas um idiota se aproximaria delas, essas inigualáveis coisas, em busca de equilíbrio mental e estabilidade financeira. E vejam quantos idiotas! Idiotas que ofuscam a vida, nuvens de fumaça sobre a floresta mágica. Afinal, só existem dois tipos de homem: os que não sabem e os que se enganam.

Digo mágica porque não há vocabulário adequado a esse fenômeno. Quero distância delas como quero distância de tudo aquilo que não sei e me atrai. Como quero distância do abismo e do amor materno. Como quero distância da pequena felicidade dos momentos silenciosos. Como quero distância da Sinfonia do Novo Mundo e dos sinistros meandros que me aproximam do inexprimível. E nós tentamos calar essas coisas como pudemos. Nós as açoitamos e exigimos que peçam perdão pelos nossos pecados. Porque nós temos pouco espírito e nenhuma humildade. E temos medo do não-limitado. Agora vemos nossas caras desmanchadas, a foice tranqüila refletindo ao sol, as violetas tomando a praça como pulgas.

Não tínhamos no fundo a ambição de manter a farsa por muito tempo. Não sabíamos que seria por séculos. Essas coisas agora nos imitam melhor, porque no fundo imitávamos delas a sensação do toque frágil, do sorriso de faca. Porque nossas faces estão sem pele e sentimos frio. Elas nos salvaram, essas coisas, enquanto as massacrávamos com a exigência do amor por nós criado, da mesma forma que um psicopata cria uma causa para suas mortes.

Agora as asas se dobraram sobre nós e os vidros foram estilhaçados. Não espero seu perdão – coisas anteriores ao tempo – nem mesmo quero ser notado. Estou no canto, tremendo a cada passagem violenta desse cheiro sem idade que elas trazem de onde paraíso e purgatório se bifurcam. E se porventura eu estiver no caminho delas, dessas coisas inomináveis, imploro sem expectativas que me peguem no colo e me deixem entrar, porque sou todo vocês e não sei quem sou.


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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

MINHA LISTA >> Carla Dias >>

Eu não nasci para listas...

Não fiz lista de mocinhos que beijei, quando era adolescente. Lia a lista das minhas irmãs e amigas, o que não deixava de ser interessante, até porque depois conferia a cara dos moçoilos lá na escola e ficava pensando se também eu os beijaria.

A lista de livros que devia pegar na biblioteca municipal se desfazia assim que eu botava os olhos nas prateleiras. Eram tantos que a lista ficava na bolsa. Voltava pra casa com, no mínimo, três exemplares. Nenhum deles estava na lista.

Fazer lista para ir ao supermercado é algo que me proponho a consertar. É que sempre faço, nunca uso e volto pra casa com itens faltando e outros sobrando. Tenho esperança de, dia desses, render-me ao valor da lista de supermercado, até para diminuir as idas e vindas carregando sacolas ecologicamente incorretas.

Obs.: Incluir na lista de supermercado uma sacola ecologicamente correta.

Acredito que a lista mais popular é a do que se deseja realizar durante a vida. Eu fiz uma quando ainda sonhava em arranjar um emprego e cair no mundo. Era mais ou menos assim:

- arrumar um emprego
- cair no mundo

Posso dizer que realizei minha lista capenga, já que essa deveria conter 10 itens... E existe até de 100! Enfim, arrumei um emprego e cai no mundo... De cara!





Fato é que algumas listas têm seu charme, melhor, alguns autores de listas são tão caprichosos na sua função que podemos chamá-los poetas. E há aqueles que não vivem sem uma lista: dos presentes que têm de comprar, telefonemas a fazer, amigos para visitar, médicos que precisa consultar. Para essas pessoas, ticar itens das suas listas é um prazer... Prazer, sabe?

Há alguns anos, um amigo, sabendo da minha paixão pelo cinema e pela televisão, pediu que eu fizesse uma lista de filmes e seriados para que ele saísse um pouco da rotina do gosto próprio. Confesso que demorei a fazer a tal lista. Meu amigo disse “aponte os seus preferidos”, e daí que me atrapalhei toda! Essa coisa de preferido é cilada...

Algumas semanas depois, mandei a ele a primeira versão da única lista que fiz com dedicação. Como títulos de filmes às vezes são duplicados, apontei o título original, ano de lançamento e nome do diretor.

Meu amigo teve de engolir que eu não sou boa com listas, mas aceitou a minha filha única com respeito... Quer dizer, antes disso, ele questionou bastante sobre eu realmente ter assistido aquilo tudo.

Fato é que algumas listas não têm fim, por isso parecem tão divertidas ou necessárias. Você tica um item, tica todos, e vai logo acrescentando outros. O mesmo se deu com a minha lista, que está em constante transformação, porque não paro de incluir itens. Mas o que gosto dela é que não dá pra ticar... O que lá consta já aconteceu, então, é uma lista de benquerenças, não de expectativas.

Apesar do esmero que dedico à minha lista, confesso que não quero entrar na onda de procriá-las. Certas coisas devem ficar fora das listas e da necessidade de realização que vem junto. Certas coisas não são necessidades... São conseqüências de outras.

Quer conhecer a minha lista? Clique aqui.

No mais, espero que os listeiros de plantão se dêem bem melhor com suas listas do que eu com as quase-listas que fiz nessa vida.

A do supermercado, prometo, vou praticar.

Obs.: Incluir na lista do que se deve praticar “conceber e usar lista para fazer supermercado”.

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domingo, 17 de agosto de 2008

LISTA DE FINAL DE SEMANA >> Eduardo Loureiro Jr.

Lídia Cerqueira1. Ver São Paulo, cidade que eu não visitava há 15 anos, de cima.
Observação: As coisas sempre parecem melhores vistas do alto: há mais água, mais verde, mais cores. De cima, toda cidade é maravilhosa.
Lembrete:
Nunca trocar uma janela por um corredor, mesmo se estiver com pressa de desembarcar do avião.

2. Abraçar Inês após um ano.
Observação: Por mais que se mantenha o contato, a proximidade e até a intimidade por telefone ou e-mail, não há nada como o todo da pessoa em nossa frente e ao nosso redor.
Lembrete
: Nunca passar um ano inteiro sem ver as pessoas muito queridas.

3. Visitar o Museu da Língua Portuguesa.
Observação: A palavra, no escuro, falada, tem o poder de tocar o coração feito os dedos tiram sons das cordas do violão.
Lembrete: Levar outras pessoas a lugares de encantamento.

4. Conhecer o som das vozes da palavras de Debora e Ana. (Ou: Ver a forma de ser da luz de Debora e Ana.)
Observação: Por mais bonitas e bem empregadas que sejam as palavras, as pessoas que as embelezam e bem empregam ainda são muito mais.
Lembrete:
Transformar agradecimento e admiração em amizade.

5. Andar no Parque do Ibirapuera.
Observação: Os pés e o olhar sabem escolher melhor os caminhos. A cabeça pode descansar e brincar com palavras, inventar versos, conceber crônicas.
Lembrete: Nunca mais sair para caminhar preocupado com a hora de voltar.

6. Cantar com meu caro amigo Fabiano na Bienal do Livro.
Observação: O canto do conto do centro do peito não carece de ensaios. Criança é todo aquele que responde perguntas simples ("Você já esteve muito, muito, muito, muito alegre?") e sorri antes mesmo de respondê-las. A vida é mais bonita com improvisos de amor.
Lembrete: Certificar-se de que no mesmo horário, e a 20 metros de distância, uma banda de rock não estará tocando.

7. Comprar, depois de folhear, o livro "O Cancionista".
Observação: Comprar pela internet é quase sempre mais prático, mas certos livros são como quase todas as pessoas, a gente não pode julgar pela capa, tem que tocar, abrir, cheirar, folhear ao acaso, procurar por algo que nos seduza e fechar só com a certeza de abri-lo logo, logo, num espaço mais íntimo.
Lembrete: Providenciar comprovação de meu estado de professor para obter descontos ainda melhores na compra de livros.

8. Escrever a crônica do dia de domingo.
Observação: A crônica só se escreve mesmo na hora. Concebe-se uma, várias até, em pensamento, mas aquela que é escrita é uma conspiração - revolucionária - dos dedos com o sentimento.
Lembrete: Nunca esquecer o que sempre digo aos leitores: crônica é um tanto de verdade e outro tanto de invenção.



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sábado, 16 de agosto de 2008

O LIMITE E A PELE [Sandra Paes]


O desejo de comer bolinhos de chuva numa tarde de nuvens espessas me levou à cozinha. Preparo a massa, me deslumbro com o misturar de gemas ao leite e me recordo com gosto dos tempos de gemada quente, com o conselho de que faz bem pra saúde.

A arte de cozinhar passa por memórias, ativa e abre o portal dos mistérios, aguça o feminino em mim e me leva sempre a cantar qualquer coisa ou vez por outra me surpreender com canções que mais parecem composições do momento. Claro, a criatividade nao tem limite. Rola numa dança solta, ritimada, feliz como bailarina que ensaia os próprios passos, sem se ocupar de platéia ou aplauso.

Momentos mágicos. Todos esses que vivem antes e depois do aha. A gente não os segura, apenas vivencia e vez por outra compartilha, e quando acontece, o júbilo e o riso estão sempre juntos.

Massa pronta, hora de preparar o óleo quente e começar a sonhar com histórias de Narizinho e Tia Anastácia.

Pego os primeiros bolinhos e os coloco com cautela na panela. Olho atentamente seu processo de fitura, o chegar da cor dourada e me pergunto por que se chamam bolinhos de chuva, pois parecem tão solar...

Tempo de virá-los pra fritar do outro lado. Chego perto e, de repente, o óleo espoca como que raivoso e jorra enormes quantidades pra fora da panela. Queimou-se meu ante-braço. Olho o vermelhidão que se forma imediatamente. Não permito que a dor corte o prazer da producão - na arte é assim, o espetáculo não pode parar... E dá pra sentir e entender o mistério do palco, da descoberta no laboratório mesmo quando explodem os tubos de ensaio. O momento do eureka é mais que mágico, simplesmente não dá pra descrever.

A dor não me paralisa. A mudança da tonalidade da pele, sua reação espontânea, me chamam a atenção.

E os bolinhos? Termino o que estava fazendo. Coloco o braço sob água fria num gesto carinhoso e íntimo de dizer à própria pele: estou aqui, e você sou eu também. Voltar-me pra própria pele me faz ver e perceber o conceito mais simples e puro de limite.

Penso no acidente, tão sem propósito, como todo acidente, e ao mesmo tempo sigo cada passo, mentalmente, pra ver o que possa ter feito pra ocasionar isso. Sempre fui muito orgulhosa de minha coordenação motora, de meus reflexos de gata. Não consegui descobrir a causa. Fato é que o braço arde. É preciso cuidar do ferimento, pra variar. Não me lembro quando eu mesma possa ter me ferido. Na minha coleção de cicatrizes - já não as tenho mais, por que não as cultivo - havia sempre o registro de ser ferida por outrem, não por mim mesma. E suas marcas vazaram a pele e invadiram meu limite mais profundo, tocaram minha alma.

Curioso tudo. Porque assim quero que seja apenas. No vídeo dentro do DVD restava um filme pra ver. Título: À flor da pele. Um lindo filme com Chico Buarque falando sobre mulheres, gravado em Paris. E ao fundo a música com o mesmo título fala do mistério do desejo.

Com isso tudo, o desejo dos bolinhos de chuva ficou adormecido. O sabor dos mesmos se adiam. Adiar o desejo pode acontecer sempre quando a voz da pele impõe seu limite, constato.

Dia seguinte. Braço melhor, o dia promete. Vontade de caminhar na praia... Levantar e ir. De repente a pele de novo grita seu limite e com isso, constato: nada de sol. Voce tem um braço vulverável e ele a revelar como trato minha vulnerabilidade - o limite mais terno e tenro, revelado pela delicadeza de uma pele, em sua flor - carne viva!

Sim, ando assim... Sempre fui à flor da pele... Quem sabe disso? E por que preciso ser lembrada disso agora? Qual a medida de meus sonhos e desejos? E que força é essa que me desacata sempre a impor um limite pra tudo?

Quero vazar a pele, atravessar oceanos de possibilidades, navegar na imaginação e nos campos não tangíveis de todas as formas, e tenho sempre que ser lembrada que estou na dimensão do físico, porquem cobram tanto, de todas as formas.

O encanto pela forma ainda não é mais forte do que o encanto pelo que o sustenta. Esse o segredo maior ou menor que me desafia hoje e sempre. Ainda jaz aqui o desejo de transceder o mistério da pele e romper todos os limites. E paro, com respeito, diante do braço queimado, respeitando o grito dessas células querendo se refrescar.

E a chuva não veio...


Imagens: Bolinho de Chuva, Panelinha; Woman Holding Flower, Goodshoot; Ocean and Sky with Cloud, David Vintiner
Nakedness
Sandra Paes vive nos EUA.

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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

HOMEM-COTOCO >> Leonardo Marona

Ali está ele, sobrando em calças velhas, espalhado pelas calçadas da cidade em que não há mais tempo, catando latas e pequenos bibelôs ou pedaços de coisas quebradas.

O homem de poucos membros principalmente sorri. Só existe desespero nos que são vaidosos a ponto de sentirem que têm muito a perder. O homem-cotoco magistralmente sorri, pois dificilmente perderá mais alguma coisa, e nem a vida é mais alguma coisa. O homem-cotoco sorri porque não está na disputa imbecil pelo tempo. Ele está dissolvido no cimento entre carros e restos de macarrão que as pombas renegaram.

O homem-cotoco sorri, eis a cena deplorável. O homem-cotoco, apesar de tudo, é mais feliz do que você e eu. Ele não tem pelo que existir e, portanto, tem direito a uma felicidade sublime, posto que não é uma felicidade material. A felicidade do homem-cotoco desnuda o homem de fé. Nada poderia ser mais cristão que a felicidade do homem-cotoco. Um homem que passou por uma provação e por isso pode sorrir como quem tem direito a isso, por ter passado por aquilo. O homem-cotoco está ao lado de Cristo, Joana D’Arc, Madre Teresa, James Mason.

Além do mais o homem-cotoco não sabe que não tem do que rir, e esse é o melhor motivo pelo qual um ri. É como algo que se espera muito. Enquanto se espera pela coisa, sente-se tremedeiras, dorme-se mal, anseia-se horrivelmente pela coisa, conta-se os dias e o estômago se retorce. Misteriosamente, pouco antes de a coisa acontecer, a alma se embota e o sangue foge à face, então somos tomados por um completo desinteresse pela possibilidade iminente da coisa.

Mas com o homem-cotoco não há possibilidade iminente. Ele é uma possibilidade resolvida para sempre. Pelo fato de a felicidade dos homens saudáveis ser no fundo um embuste, uma fábula que não se completa nada bem, pois que o homem saudável só é feliz enquanto espera, o homem-cotoco, por não fazer nada além de esperar, sente-se genuinamente livre do pavor da proximidade de qualquer concretização. É portanto feliz e mora num eterno interstício.

Enquanto isso, olhamos para o homem-cotoco, o feliz e satisfeito homem de poucos membros, e negamos a ele uma moeda ou ao menos os dentes. E dizemos que é porque não temos moeda, mas temos. E temos dentes também, apenas não mostramos e os deixamos apodrecer numa cena lamentável. Moedas, as temos muitas, não gostamos delas inclusive. Aliás, muitas vezes não sabemos o que fazer com elas. Elas provavelmente acabarão um dia no câmbio negro.

Não damos nossas moedas inúteis ao homem-cotoco porque precisamos esconder a nossa hipocrisia. Porque se déssemos seria como ser cúmplice de um sistema opressor de classes falido e corrupto que não repassa devidamente o dinheiro capitalizado pelos altos impostos etc e tal.

Mas no fundo queremos que o homem-cotoco desapareça com seu sorriso genuíno. Queremos que ele morra porque é mais feliz do que nós e não tem nada. Queremos que ele suma porque ele é a prova mais clara da nossa frustração. Ele deve, sim, desaparecer porque olhamos para ele e vemos nós mesmos desesperados e com pressa para sermos açoitados numa espécie de repartição sem fim. Devemos tirá-lo do mapa, o homem-cotoco, pois ele é a verdade inconcebível, que mora nua no fundo de um poço.

O homem-cotoco permanece entre a pastelaria chinesa e o amolador de facas. Ele sacode as moedas dentro do copo de plástico. Acima de tudo ele sorri. Seu sorriso é quase um desaforo e, por isso, ou damos dinheiro ou ignoramos, das duas uma, dois jeitos de chamar a morte. Porque foi descoberto que a morte vem da falta de atenção e da ganância. E o homem-cotoco é um ultraje, uma prova de que somos desatentos, se passamos reto. E uma prova de que somos gananciosos, se jogamos moedas.

Mas uma senhora surge num belíssimo carro, abre a janela e sorri para o homem-cotoco. Isso é uma revelação quase mítica e um clarão, uma aura absurdamente clara parece envolver a cena. O homem-cotoco se aproxima com as palmas das mãos sobre o asfalto quente, a senhora lhe coloca um cigarro na boca, acende o cigarro. Eles riem, sorriem, eles estão com as bochechas vermelhas. Conversam sobre algum assunto e o homem-cotoco parece estar dando à senhora algum conselho, pois permanece sorrindo, mas ela não. Seus traços estão suaves, mas compelidos. Algumas pessoas tropeçam nas calçadas diante da cena. Outras passam aos cochichos, indignadas.

A senhora abre a porta do carro, as pernas de seda, o salto de bico preto bem-polido. Ela se agacha e beija o homem-cotoco na testa, depois nos olhos, então na boca. O homem-cotoco segura as nádegas da senhora com suas mãos, enormes como pés. A senhora volta para o carro, bate a porta, buzina duas vezes e vai embora. Eles acenam um ao outro. O chinês da pastelaria sai de trás do balcão com o pano de prato na testa. A senhora rica dos cabelos vermelhos extravagantes não havia jogado moedas nem ignorado o homem-cotoco. A senhora era a vida ínfima, o que sobra ao eterno recomeço. A vida pura, que passa pelas brechas e encontra o sórdido sem asas, correndo de volta para a caverna. É quando deus se contradiz e nos sentimos mortos. E estamos por um triz, mas temos pernas.


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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

ELE >> Carla Dias >>

Despe-se da identidade, da indelicadeza do sobrenome; e se acredita nas saídas, também delas desdenha, já que permanece estático, o corpo aninhado no sem-tempo. Quem se atreve a decifrá-lo, acaba mancomunado com a poesia que se revela no seu semblante esmiuçado por êxtases, mágoas, ilusões, alegrias.

Sob a pele sequiosa por deleites há estradas miúdas que se cruzam no rubor das faces. Nelas a assimetria do reconhecimento embeleza uma das versões da verdade: viver também é sofrer a sós.

E catalogar imprevistos, porque entregar-se a eles com certo zelo o faz imergir a própria alma numa dança desengonçada, que mesmo muitos pensem ser um insulto à graciosidade, torna-se impecável aos olhares mais curiosos.

Torna-se cena de filme preferido.

A sós – mas à vista de quem possa desejá-lo -, transgride o fascínio ao enevoar virtudes. Zera a lista de qualidades, como mercadoria que já não está em liquidação, então adoece de depósitos, mostruários, vitrines; embebeda-se dos olhares dos miseráveis que só podem lamber os beiços e jamais tocá-la, quiçá levá-la para casa.

Ele abre os braços, setas opostas, opções indigestas, deflagrando a cantoria do coração. E a boca, há tempos enclausurada no silêncio, oferece guarida à língua transeunte que traficou palavra para presenteá-lo: lisura.

Engolida a palavra – que desceu mansa -, ele enfraquece subterfúgios. As mãos espalmadas amparam sonhos, e ele até se sente capaz de entoar árias, como fosse Lancelot desejando Guinevere, apesar do profundo respeito que tem por Artur. Como fosse cavaleiro montado em trem a mil por hora, contracenando com o vento que lhe desarruma os cabelos e lambe os pensamentos. O relinchar do metal de soundtrack.

Quem o observar de perto, com curiosidade bondosa, poderá alcançar os tantos anjos que o habitam; as asas enroscadas nos adereços da benquerença. Os dedos apontando benéficas transformações e sabedoria. Mas também avistará os demônios que, silentes, porém sorridentes, caminham no dentro do homem, esbarrando em perguntas jamais proferidas. E neste secreto questionamento moram tormentas.

Pudesse desmontar a própria biografia e reconstruí-la mais branda, certamente o faria. Mas este não passa de um delírio pueril, já que cada ser humano arrasta consigo o feito, tal e qual obra de arte de sua autoria; ela que, nem sempre, agrada ao criador... O que dizer sobre os transeuntes que lhe torcem o nariz?

E este é um homem que crê: os bastardos da perfeição são também os menestréis das peculiaridades. São sábios que sabem dizer desconsertos como fossem orações poderosas; que conseguem enxergar ao avesso, de través, pois não se detêm à enganação que há no imediato. São magos com canções de amor e tolerância pipocando de suas varinhas.

Desabonado de severidade e rico em contemplação, ainda espera quem lhe segure pela mão e o acompanhe pelos arrabaldes da felicidade. Lá onde carteira de identidade e sobrenome não definem o que o homem traz em sua alma, tampouco julga o que ele decidiu não pertencer a ela.

Imagens: Esculturas de Auguste Rodin >>> Danaid, The Kiss e The Hand of God.


"Some devil some angel/Has got me to the bones..."
Some Devil - Dave Matthews



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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Falta de assunto é um problema [Claudia Letti]

Quase que não escrevo minha crônica desta semana por dois motivos: falta de assunto mesmo, no duro, e por uma série de problemas e probleminhas que me impediram de sentar aqui e começar a pensar escrevendo. Falta de assunto poderia ser mais um problema se eu não considerasse alguns problemas como contratempo -- que é como costumo chamar a maioria dos meus problemas pra não deixar morrer a Pollyana que treinei por anos a fio.

Até porque o que não tem remédio remediado está, como diz o ditado. Problema é o que não falta na vida da gente, até mesmo quando é vendido como remédio, como se vê. E tem gente com todo tipo de problema e problema pra todo tipo de gente. Conheço quem adore um, trata feito animal de estimação ou planta rara que precisa ser hidratada e adubada todos os dias. Deus o livre se o problema morre, a pessoa padece de falta e alguns não conseguem nem disfarçar o luto, tamanha dor da perda. Também há aqueles que gostam de resolver problema, "Tem problema aí? Deixa comigo!" Há quem não goste, não reconheça e não resolva, "Problema? Onde? Enlouqueceu?". Nesse perfil é muito comum encontrarmos quem negue o problema de tal modo que não consiga articular corretamente e chama de pOblema -- o que não exime a criatura de ter que encarar mais esse problema, o de falar corretamente.

Não podemos esquecer daqueles cuja criatividade abundante arruma problema onde não tem ou, pelo menos, onde não precisaria ter. Esses, chamados visionários, quase mediúnicos, enxergam pêlo em ovo e chifre em cabeça de cavalo -- confesso que eu, às vezes, só às vezes, padeço desse mal. Existe ainda aquele tipo que reconhece o problema, sabe quem pariu mas chama de pendência, pepino, obstáculo, contratempo. E é onde me enquadro. Exceto se for uma quase fatalidade, aos 42 minutos do segundo tempo, me recuso, me nego, não tem por onde dar munição e chamar bandido pelo nome. Sem essas intimidades. Nego tanto que só me permito em crônica.

Gosto de dizer, ingenuamente, é verdade, que problema bom é aquele que o dinheiro resolve, mas falta de dinheiro pode ser um grande problema, sem dúvida.Embora dinheiro seja matemática e até eu, que sempre me dei melhor com letras do que com números, concordo que problema bom é o que a matemática pura e (dita) exata propõe. Então, vamos ser honestos: problema bom é problema resolvido. O resto é fórmula de máscara.

Crônica escrita, missão cumprida, vou ali resolver uns contratempos. E você, preste atenção: o dia está bonito, a temperatura está subindo, é quase primavera... Não fica aí na frente desse computador arrumando problema.

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

PAI >>> Albir José Inácio da Silva

Já não ouço a flauta
nem lhe advinho os passos

Levou voz e sorriso num único vôo

Ficou o canto em que se sentava
que pode ser cama
caso chorar eu queira

Mas também poderia ser colo
não fosse cadeira

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domingo, 10 de agosto de 2008

O CONTADOR DE HISTÓRIAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Peixe Grande, o filme— Edu, você é um contador de histórias!

A frase — que me surpreendeu — foi dita por uma colega de trabalho após eu relatar uns acontecimentos da festa de aniversário da noite anterior...

O poeta, também colega de trabalho, diante de uma prova de múltipla escolha, compôs: A ou B? C ou não C? E se for D?

Todos riram, baia após baia do ministério. Foi quando a colega disse:

— Você é um contador de histórias!

E eu fiquei pensando por que ela disse aquilo se eu fui uma criança tão tímida e se meu falar sempre me soou tão desinteressante.

Talvez a colega tenha dito aquilo porque eu fiz uma pequena introdução sobre o momento da festa em que o poeta recitara seus versos de brincadeira. Ou talvez porque eu arrematei o relato dizendo: "Foi D, e o poeta se fodeu."

— Você é um contador de histórias!

A frase ficou girando no meu juízo e me lembrei de meu pai, esse sim um contador de histórias.

Ontem, quando me recebeu em sua casa para o final de semana do dia dos Pais, ele não deixou que eu dormisse sem ouvir um soneto de Zé Lopes, um primo já falecido:

É meia-noite, na cidade triste,
Ouve-se, apenas, o rumor do vento.
Todos descansam, só meu pensamento,
Numa tolice vã em ti persiste!

Isso acontece, desde que partiste,
Esquecendo, talvez, o juramento
Que dizias eterno e, num momento,
Talvez só por pirraça, o destruíste!

Tu voltarás, mulher, tenho certeza,
Humilhada p'ra mim e com certeza,
A ti estenderei a minha mão.

Terás de tudo, mulher, todo conforto,
só não terás amor, porque meu peito é morto,
E nele já não pulsa mais o coração.


E meu pai concluiu: "Recitei isso para sua tia, e ela me disse 'Esse poema é bonito, não é, Dó? Mas sabe de uma coisa: eu não entendi nada'."

Se foi ou se não foi assim, não se pode dizer. Meu pai tem uma tendência para a ficção mesmo quando está apenas relatando fatos. E eu me surpreendi, naquele dia ainda, com o súbito e-mail do colega-poeta a todos da repartição. A mensagem eletrônica incluía uma versão do poema diferente daquela que eu havia contado. A versão, que na verdade era o original — vindo do próprio poeta —, pareceu-me inferior à minha invencionice. Se — a um contador de histórias — é necessária a memória para fazer mágica sem consultar o manual, tampouco pode lhe faltar a invenção para que a mesma história, tantas vezes repetida, não desenvolva o gosto amargo da monotonia. Acrescenta-se um pouco aqui, retira-se um pouco acolá... a depender da audiência. Muda-se uma palavra, altera-se um personagem... para que o ouvinte compreenda melhor — ou mesmo para desafiar-lhe a compreensão. Levar até o outro não a coisa em si mesma — coisa —, mas a coisa em si mesmo, a coisa provocada pela coisa quando nós mesmos a recebemos pela primeira vez.

— Você é um contador de histórias!

Eduardo Loureiro, pai e filhoO peixinho — filho do peixe — peixe já é?

*

Meu pai acorda de madrugada para fumar, talvez lembrando dos versos do mesmo Zé Lopes:

Este cigarro me mata, é um tormento,
Não fumo mais, por Deus, então dizia,
E assim que terminava o juramento,
Outro cigarro, distraído, eu acendia.

Fumava até o meio, e o juramento,
Como um credor atroz, me aparecia.
E eu jurava, em meio do tormento,
Que minha boca jamais cigarro via.

Fumei e hoje estou velhinho,
E da vida em meio ao torvelinho,
De fumar ainda não me arrependi.

Porque o cigarro é meu melhor amigo,
Se estou triste ou alegre, está comigo,
É o menor, e o mais fiel, de todos que já vi.

Eu — que não fumo — acordei de madrugada, ainda no escuro, com ânsia do vício de tragar palavras. E a mim, que há muito tempo não madrugo, surpreendeu o colorido da alvorada.

O amanhecer é um pôr-do-sol às avessas — penso. Ou seria — despenso — justamente o contrário? É meu pai que nasce na minha memória? Ou sou eu que me ponho em sua repetida história? Se penso, ou se despenso, o amanhecer permanece belo. Mesmo que dele eu não entenda nada.




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sábado, 9 de agosto de 2008

DIA DOS PAIS, TEMPO PARA FILHOS [Maria Rita Lemos]


Conta a lenda que, certa vez, um pai chegou do trabalho tarde, cansado e irritado, quando seu filho de 5 anos perguntou: - Pai, quanto você ganha por hora de trabalho?

- Mais ou menos oito reais por hora, se considerar o salário mensal. Mas por que essa pergunta?

- Não é nada, não, estava só pensando... , respondeu o menino.

Passaram-se alguns minutos, e o menino voltou ao assunto, quando o pai já se preparava para entrar no banho.

- Pai, você me empresta três reais?

Preocupado e tenso por problemas no trabalho, o pai respondeu: - Por que você não disse logo que queria dinheiro? Para que vir com essas perguntas bobas? Não percebeu que eu só quero descansar? Enfim, se é para me livrar de aborrecimentos, toma logo aqui o dinheiro que você precisa, e vai ver televisão, porque tenho que tomar banho e jantar.

Algum tempo depois, já mais relaxado, o pai voltou a perguntar ao filho, que cochilava no sofá:

- Mas por que é mesmo que você me pediu esse dinheiro?

- É que eu tinha juntado cinco reais, e com os três que você me emprestou fico com oito, e posso pedir que você chegue uma hora mais cedo para brincar comigo...


É apenas uma história à toa, essa com que começo esse texto. Mas também é verdade que desejo refletir, nesse dia dos pais, especialmente com aqueles que não têm tempo para os filhos. Pais têm tempo para tanta coisa, são tantas as preocupações, sobra tanto mês no fim do dinheiro que mal dá tempo para olhar para os filhos. Não estou dizendo ver, porque para ver basta ter olhos sadios, estou me referindo a olhar, ver além das aparências, prestar atenção.

Apesar de, com maior ou menor freqüência, dizerem que amam os filhos, muitos pais acreditam não ter tempo suficiente para vê-los crescendo, ajudá-los a crescer de forma saudável e feliz. Pensam, muitos pais, que sua maior missão é trabalhar para que nada falte aos seus filhos; então, por esse motivo trabalham ano após ano, horas extras, feriados e domingos, para que possam suprir a casa e as crianças com tudo o que, talvez, lhes tenha faltado na sua própria infância. O que fica esquecido, porém, é que nem sempre os filhos precisam de todas as coisas materiais que os pais acreditam que eles necessitem... eles apenas precisam de um abraço, uma história antes de dormir. Eles precisam mais de uma companhia para jogar futebol que de um campo de futebol inteiro dentro de casa, e um pai que não tem tempo para jogar com os filhos.

No fundo, pais sabem que essas são desculpas para driblar a consciência, enquanto vão semeando filhos que crescem sem a sua companhia. Crianças que tornam-se adolescentes, jovens e adultos que têm que sobreviver num mundo que não entendem muito bem, porque tiveram que decifrá-los quase sozinhos. A verdade é que os filhos só aparentemente se importam com as maravilhas tecnológicas (caras e muitas delas desnecessárias) que as horas passadas longe deles podem comprar. Crianças e jovens, em sua maioria, preferem jogar bola ou pescar com o pai, passear com ele num domingo, assistir a um filme e comer pipoca. Sozinho com o papai.

Importante é aquilo que se é, muito mais que aquilo que se tem, e apenas ser é muito mais, para seus filhos, que todo o "ter" do mundo, ainda que eles não saibam muito bem explicar isso.

O pior é que os filhos percebem. Eles sabem que, no fundo, os pais têm tempo, sim, o tempo que eles dizem não ter. Têm tempo para conversar com os amigos, para tomar cervejinhas com eles, para reuniões em quase todas as noites, para pescar com colegas no final de semana.

Como diz Vinícius de Moraes, em um de seus poemas, "os bares estão cheios de homens vazios". Bem como os clubes, os campos de futebol, os jardins, no interior, nas manhãs de domingo.

Filhos querem contar algo que aconteceu na escola, ou dizer da briga com o colega da esquina. Ou, ainda, perguntar de algo que ouviram mas não entenderam bem, e que "é coisa de homem"... mas agora não dá tempo, qualquer outra coisa se impõe, depois a gente vê, depois conversamos. Um depois que não vem nunca, que talvez nunca aconteça. Pais, nesse momento, perdem oportunidades importantes de conhecer seus filhos - e só se dão conta disso quando eles estão adolescentes, e já não querem contar. Não querem mais conversar, não sabem mais como se faz isso. Agora, eles é que não têm tempo. Tomara que agora não seja tarde demais.

Amanhã é Dia dos Pais. Olhe para os seus filhos, pode ser que ainda dê tempo. Você é responsável pela vida dele, então cabe-lhe ensinar sobre o amor, a alegria, o sofrimento e a morte. Pais são aqueles que, em todo o tempo possível, devem estar ao lado dos filhos, ajudando-os a crescer, ouvindo suas histórias, ainda que pareçam bobas e "coisas de criança"... Se você for um pai assim, tenha certeza de que, quando seu filho estiver passando por um momento importante, de problema, grandes alegrias ou dificuldades, é a você que ele irá procurar, com certeza é em seu ombro que ele repousará a cabeça, talvez já adulta.

Fazer um filho é fácil. Na maioria das vezes, é bom; em outras é problemático. A missão, porém, não está em fazê-lo, só isso seria muito simples. O seu grande desafio de homem, se quiser que seu filho escreva Pai com letra maiúscula, é prepará-lo para a vida. E depois sair de cena, ficar à margem. Deixá-lo partir, quando estiver pronto. Isso dá muito trabalho, dura toda uma vida, mas também é, talvez, a mais bela tarefa de um homem que quer ser chamado de Pai.

Recado: A bênção, meu pai, sr. Abelardo, que está já em outra dimensão, mas sempre foi exatamente como ainda é lembrado: um Pai com P maiúsculo. E com tempo para nós, seus cinco filhos.

Imagens: Pai, Anne Geddes; Tenderness, Marija Milovanovic Maksimovic; Father Son Talk, Donna Eaton

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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Jantar, foder e dormir >> Leonardo Marona

O governo estava sendo pressionado pelo partido, que estava sendo pressionado pelos dissidentes do partido, que estavam sendo pressionados pelos dissidentes radicais do partido, que estavam sendo pressionados por suas mulheres, filhos e amantes, que também estavam sendo pressionados por um babaca qualquer de jaleco, com cabelos saindo pelas orelhas. Era mais ou menos esse o panorama sócio-político durante os últimos duzentos anos.

Lins vinha de carro ouvindo rádio, insatisfeito com o trabalho, pensando na sensação que teria ao despejar óleo fervendo no ouvido do patrão, farto da fumaça seca e cinza dos carros, das caras murchas por trás dos volantes, tirando meleca e cutucando a orelha com o dedo mínimo. Figuras apáticas e resignadas. Como Lins. Como vacas. Todas dependuradas ao volante, procurando um pouco de paz na observação do nada. A cada volta do trabalho, Lins sentia-se como se estivesse com um rato faminto lhe subindo pelas bainhas das calças, até roer-lhe a virilha, arrancar-lhe os mamilos fora e furar-lhe o umbigo com as patas, para depois lamber-lhe as orelhas. Esse era o efeito do calor insuportável misturado com a irritação de uma vida sem sentido. Provavelmente uma das importantes causas da crescente violência no Rio de Janeiro.

Ainda por cima, estava se mijando desesperadamente. Por isso mudava as rádios sem parar. De uma rádio AM com ruídos para outra rádio AM com interferência de sinal. Tinha que pensar em alguma outra coisa ou então molharia as calças dentro do carro. Mas Lins tinha dado o azar de pegar a maré vermelha dos sinais na perimetral. "Meu deus, vamo lá, vamo lá!", ele urrava mordendo os lábios e trepidando no banco do carro, esmurrando o volante. Era daqueles trânsitos em que ninguém buzina. Porque já não faz mais diferença buzinar ou não. É ali que se conhece a tristeza nos ossos da rotina.

De repente Lins sentiu que não ia dar mais. Sentiu uma gota lhe passando pelo corpo cavernoso até chegar ao pau. Sentiu a gota saindo dele. Parecia quente. Abriu as pernas e acendeu a luz interna do carro. "Puta que pariu!", sussurrou quando apalpou as calças e olhou para baixo. Estavam molhadas. Não era muito, mas a calça era cinza-claro. Então era como se fosse um sol escuro no centro de Cubatão.

O prefeito estava se explicando sobre a segurança da cidade. Dizendo que isso era função do governo estadual – a segurança da capital. Provavelmente na semana seguinte o governador estará na mesma rádio alegando que não recebeu do Governo Federal a verba necessária para investir na segurança. E na outra semana o presidente porá a culpa toda na falta de investimentos dos países desenvolvidos, que não darão a mínima, assim como nunca deram.

Lins desligou o rádio. Levava no banco do carona um saco de papel pardo no qual trazia alguns legumes, pães e temperos para o jantar, além de uma garrafa de licor de uísque. Só faltou a boina, o charuto mofado e o exemplar do The Paris Review para ele se sentir a um milímetro do lugar onde gostaria de estar. Se fechasse os olhos e respirasse fundo.

Dobrou a esquina da rua onde morava. Largou o carro de qualquer maneira na frente de casa, cabeceou a quina da porta ao tentar se levantar rapidamente, escarneceu os céus, sentou-se novamente, abraçou o saco de compras, saiu outra vez. Então seguiu até a porta de casa, tocou a campainha e em seguida um saco plástico com cebolas caiu do seu saco pardo e algumas cebolas rolaram pelo chão imundo, isso pouco antes de Mara abrir a porta e olhar para baixo. Deu de cara com o resplandecente sol de mijo no meio das calças de Lins, que chutou o saco com as cebolas e partiu feito um jato para dentro de casa. Mara ficou colhendo as cebolas do chão. Ela tinha uma armação metálica cheia de dispositivos enfiada na cabeça e bolinhas de algodão entre os dedos do pé, cujas unhas haviam acabado de ser pintadas na cor vermelho-paixão. Colheu algumas cebolas do chão e voltou andando pelos calcanhares para dentro de casa, como se fosse um marreco.

Lins mijou, depois foi até a cozinha deixar as compras em cima da mesa. Ligou a televisão e foi até a geladeira. Deixou a garrafa de Drambuie no congelador, abriu a porta da geladeira e pegou uma lata de cerveja. Depois subiu para trocar as calças. Vestiu um calção um pouco curto demais e ainda por cima florido. Viu que estava se tornado um sujeito a cada dia mais ridículo, como se isso fosse um processo natural. Talvez fosse o processo natural do envelhecimento. Desceu as escadas e, antes de chegar de volta à cozinha, parou na frente do mezanino – que estava com a porta fechada –, de onde ouviu alguns ruídos. Pessoas conversando.

***

- Meu amor, sim, estou morrendo. Mas não sou eu quem se mata, é a minha consciência com a adaga. Ela explode em pensamentos negros e encarnados de vingança, ciúmes e luxúria, com os quais... Hum..Hum... Perdão...

- Porra, Lola! É só você continuar, cacete: “vingança, ciúmes e luxúria, com os quais meu ignóbil e vil semblante não suporta mais compactuar.”

- Ah, Hugo! Eu não entendo nada dessa merda...

***

Lins não entendeu muita coisa também. Foi até a cozinha. Mara estava lá, assistindo à novela de boca aberta, cutucando as unhas da mão.

- Mara, quem está no mezanino?

- Tina.

- Mas eu ouvi o barulho de um monte de gente conversando.

- Ela tá com o Hugo e com a Lola estudando.

- Porra, e por que falam tão alto?! Três pessoas estudando e precisam falar alto desse jeito?!

- Shhhhhhh!

- Como assim, shhhhhhh?

- Tina pediu que a gente falasse baixo pra não interferir no microfone.

- Mas que microfone?! Eles precisam de um microfone pra estudar em três dentro de um quartinho?!

- SHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

- Meu caralho! Mara, assim você tá se babando toda, olha aí. Vamos parar com isso, sim?

(Cochichando):

- É uma filmagem, homem. Eles estão fazendo um filme lá dentro.

- Um filme? Mas hoje é só segunda-feira. Por que não fizeram isso ontem, que não tinha ninguém em casa?

- Sei lá por que não fizeram. Mas não fizeram. E estão fazendo agora. Portanto, fique quieto.

Mara não olhou nenhuma vez para Lins enquanto falava. A novela. Lins já ia subindo as escadas olhando para o teto, como que não acreditando naquilo tudo, quando Mara:

- Outra coisa. Você não pode puxar a descarga também, oquei?

- Tá querendo me dizer que eu não vou poder cagar se eu precisar cagar? Que eu vou ter que cagar num BALDE?!

- SHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

Lins balançou a cabeça olhando para cima e subiu. Fazia tempo que não se sentia mal assim. Era o inferno no trabalho, no caminho do trabalho até a casa e na casa também. Não havia mais saída. Uma amante seria só mais uma complicação. E ele não conseguia se acostumar a ser todo dia recebido por um marreco de outro planeta quando chegava em casa. Uma dona que não era mais aquela com quem tinha se casado. E provavelmente nem ele era mais aquele. Mas ele pelo menos não andava por aí com um arame platinado na cabeça, cheio de penduricalhos inúteis e assuntos sem importância. Era ela quem fazia isso quando abria a porta para ele. Era ela a inútil pseudo-maníaca-depressiva que não sabia mais com o que gastar e por isso vivia entediada, e muito provavelmente o traía durante as tardes. E eram os penduricalhos dela que custavam o saco dele esfolado num escritório no qual nada parecia acontecer, além do dinheiro fácil e dos e-mails pornográficos.

E Tina? Era sua filha. Então por que nunca mais falou com ele espontaneamente desde que completou quinze anos? Estava agora com vinte e um e ele não a conhecia mais. Só tinham conversas instantâneas um com o outro. (- Oi, pai, preciso de 50 reais. - 50 reais!? Pra quê? - Faculdade, pai. Estou atrasada). Lins jamais havia erguido a mão para bater nela. Dava a ela o que comer. Pagava suas eternas noitadas e seus cursos de mês em mês. Comprava suas calcinhas. Era, portanto, o principal culpado por tê-la atirado num mundo de despreocupação, tranqüilidade e ócio, que fatalmente a tinha transformado numa depressiva latente – no mesmo caminho da mãe – que volta e meia era internada numa clínica para birutas ocasionais.

E também havia a questão do ódio de si próprio. Ou seja, de quem pensava barbaridades da própria filha e da mulher porque estava doente da cabeça. Porque estava perdendo a razão e deixando o ódio se acomodar. A começar pelo ódio de si próprio. Por pensar barbaridades dos outros. E por achar que tinha razão ao fazer isso.

Então tomou um bom banho. Isso às vezes adiantava. Ficou alguns minutos com um jato de água quente na nuca. Até que ajudou a esvaziar o cérebro. Conseguiu relaxar um pouco. Vestiu o mesmo calção colorido e ridículo e tentou descer as escadas, de volta até a cozinha, sem fazer nenhum ruído. Tentou ser invisível, imperceptível, mas a escada estava infestada de cupins por dentro e rangeu bastante. Quando já ia passando pelo mezanino, ouviu a voz de Tina. "PAI! PAI, É VOCÊ?" Lins não sabia de onde Tina havia tirado aquela voz de gralha. Ela abriu a porta e eles estavam de repente um de frente para o outro, como dois estranhos.

- Pai...

- Oi, filha.

E então, Lins se inclinou para cumprimentar os demais. Lola jogada num monte de almofadas com uma saia minúscula, facilmente uma boa foda. Hugo de pé, com cara de como se fosse convidar Lins para tomar cerveja, para em seguida lhe enfiar uma faca no estômago.

– Alô! E aí? Tudo certo, rapaziada?

A reação dos garotos foi segurar o riso e responder, aparentando tédio:

- Boa noite, tio.

- Pai – Tina o puxou pela camisa.

- Então – Lins se virou para ela. – Vocês estão fazendo um filme aqui, é isso?

- É, pai. Um filme. E, pelo amor de deus, não faz nenhum barulho lá embaixo, porque já tá foda de pegar o som aqui dentro. Nada de puxar descarga, nada de rir alto, discutir com a mamãe, raspar o prato, subir a escada correndo, nada, valeu?

- Não sei se valeu, não, Tina.

- Porra, pai! Se eu não trabalho você reclama. Mas quando eu trabalho você reclama também. O que você quer afinal?

- Jantar, foder e dormir. Te parece razoável?

- Sem gracinha, tudo bem? Por favor!

Lins desceu e Tina fechou a porta e entrou de volta. Lola estava esparramada sobre algumas almofadas enormes e brancas, enrolando os cabelos loiros e mal-cuidados atrás da nuca e mascando chiclete. Pela maneira como mascava e enrolava, parecia uma puta chata e cara. Hugo estava em pé de frente para Lola, com as mãos na cintura. Talvez estivesse esperando por uma cadeira, uma água de coco, um escravo abanando, uma vagabunda, ou que o chamassem gênio. Porque estava com toda a pinta de diretor de cinema em ascensão de carreira.

- Tina, essa tem que ser a última interrupção, oquei? Senão eu desisto. A gente tem que acabar a carta e ainda tem mais duas cenas de sexo pra rodar. Não dá pra fazer qualquer tipo de exercício criativo aqui dentro. Não com esse barulho e com essas interrupções.

- Tudo bem, amor. Já falei com o meu pai e ele não vai mais encher o saco.
- Tomara. Então vamos continuar. Onde é que a gente parou mesmo, hein?

- Eu tava nessa parte aqui, ó: “escárnio, desesperança e lágrimas hipócritas. Estas são as flores do meu túmulo!”

- Hum... Essa parte eu adoro. Bom, então vamos lá. Um... Dois... E... Gravando!
Hugo estalou os dedos.

- Escárnio, desesperança e lágrimas hipócritas. Estas são as flores do meu túmulo! E você nada pode fazer a não ser se unir a eles. Cuspa-me! Com todo o amor que...

- Corta, corta! Lola, você tá se confessando com um padre? Você é uma mulher de merda que está prestes a se matar, porra! Seja mais dramática. E, deixa eu ver aqui... Eu imaginei um enquadramento que começaria assim...

Hugo juntou polegares e indicadores formando um quadro na frente dos olhos. Esticou os braços à frente do tronco, fechou um olho e inclinou um pouco o rosto de lado, assim como fazem alguns cineastas ou qualquer outro tipo de picareta que não sabe muito bem o que fazer. Começou a passear pelo mezanino nesta mesma posição. Andou de um lado para o outro por uns três minutos. Parava, coçava o queixo, se acocorava. Então decidiu.

- Vai ser assim... Olhem. O percurso sai da estante de livros. Na verdade, a primeira imagem vai ser do Sexus, do Henry Miller, que é muito foda, aliás. Depois a câmera vem aqui pela lateral, passa pela tubulação de esgoto no teto... Eu vou ficar um tempo ali... Depois desce até passar pela Lola lendo o texto e, finalmente, chega na televisão desligada.

- Por que a televisão desligada? – interferiu Lola. - Por que não ligamos num filme qualquer? Seria bem mais poético dessa forma.

- Porque não, Lola. Porque isso já foi decidido. A tv fica desligada, oquei? Vamos lá... Um... Dois... E...

- Eu concordo com a Lola, amor – dessa vez foi Tina quem interrompeu. – É muito mais lógico se ligarmos a tv.

- Puta que pariu, Tina! Vamos ver, então.

Hugo ligou a tv. Colocou no Canal Brasil. Estava passando um filme em que um sujeito babaca dançava como um retardado mental enquanto uma música tocava. A música era do Caetano Veloso. O irmão também era dele. O que dançava como um retardado mental. O filme também era dele. O roteiro, tudo. A cena durava uns cinco minutos. A mesma coisa. Uma música e um retardado mental dançando a música. Hugo adorou.

- Lindo, gente! "Cinema Falado", do Caetano. Esse cara é um gênio mesmo. Foda! Fica perfeito com esse filme passando. Vamos usar a tv ligada então. Vai ser uma ótima citação. Então... Um... Dois... E... Gravando!

- Escárnio, desesperança e lágrimas hipócritas. Estas são as flores do meu túmulo! E você nada pode fazer a não ser se unir a eles. Cuspa-me! Com todo o amor que tiver retorcido no seu estômago, com todo o afeto que eu não mais puder enxergar...

- Corta, corta, corta! Eu tava pensando... Preciso de uma coisa pro cenário. Um copo de vodca... Ali... Ao lado da Lola. Você consegue isso, Tina?

- Hum... Pode ser um copo com água em vez de vodca de verdade?

- É claro que não! Tem que ser vodca de verdade. Porra, o teu pai tem umas três garrafas no congelador e nunca bebeu nenhum gole de nada! Tem aquilo tudo só pra se exibir. Não custa nada pegar um copo da vodca dele. Pode ser daquela dinamarquesa mesmo. Vamo lá, Tina, produção, produção! – disse Hugo batendo as mãos. – Você não quer ser uma produtora?

- Meu pai vai ficar puto com isso. Eu tenho certeza.

- Sem o copo de vodca não tem filme. É só isso. Porra, eu aqui me esfolando pra fazer o filme e vocês duas não ajudam em nada.

- Claro. Você quer fazer tudo sozinho – disse Lola.

- Lola, vai tomar no cu, tá bom? Eu sou o diretor, quer que eu faça o quê?

- Não vão brigar de novo – disse Tina. – Esperem aí que eu vou buscar a vodca.

E foi até a cozinha.

Lá dentro, Lins chupava uma coxa de frango com molho enquanto Mara não tocava na comida, vendo a novela. Assim que Tina entrou Lins levantou os olhos até ela. Ela não disse nada e foi direto ao armário. Pegou um copo, abriu o congelador e pegou uma garrafa de Danska, que já tinha com uma grossa camada de gelo em volta, tanto tempo sem ser tocada. Encheu o copo até a metade e fechou a porta do freezer. Ia voltando para o mezanino, quando Lins:

- Não sabia que você bebia vodca segunda-feira na hora da novela.

- Pai, não enche! É pra filmagem.

- Vocês estão filmando o que exatamente? Uma sauna russa?

- Pai, você não ia entender, valeu?

- E por que você não enche um copo com água? É a mesma coisa.

- Porque o Hugo quer que seja com vodca. E ele é o diretor. Agora, se vocês me dão licença...

E saiu. Lins terminou com os ossos secos no prato. Estava com molho nos cantos da boca e na ponta do nariz. Limpou os cantos da boca. Levou seu prato até a pia.

- Lins, pode deixar que eu lavo depois – disse Mara. – Pra não fazer barulho.

Mara levantou-se também e jogou sua comida no lixo. Estava praticamente intacta. Mas não tinha muita coisa no prato de qualquer forma. Lins não disse nada quanto a isso. Simplesmente se aproximou por trás de Mara e enfiou a mão por dentro da seu calção folgado, ela de frente para a pia. Enfiou a mão por baixo, pela abertura do calçao para as pernas. Mara estremeceu um pouco e Lins chupou sua orelha direita exatamente como se fosse uma coxa de frango com molho. Ela estremeceu novamente e apoiou-se com as duas mãos na pia. Lins continuou pressionando o corpo de Mara junto à pia, lambendo-lhe o buraco do ouvido. Sabia as estratégias. Ela rebolava no pau de Lins, que estava chegando lá. Começaram com um movimento ondular cíclico. Mara estava ofegante. Meio caminho andado. Lins estava com os olhos fechados e tinha alguns problemas agora com o papel celofane enrolado na cabeça de Mara, com os dispositivos, enfim, estava ficando difícil. De repente um prato escorregou da pia e caiu no chão, partindo-se ao meio. Mara desligou completamente. Lins não.

(Cochichando)

- Puta merda, Lins! Olha só o que você fez. Olha o barulho que fez.

- Não fui eu. Fomos nós. – E Lins voltou a se encaixar na bunda de Mara.

- Sai, sai, sai! Você não vê que acabou o clima?

- Não vejo, não. Olha aqui, o meu pau explodindo. Não acabou nada.

- Às vezes você me assusta, sabia?

- Queria assustar mais.

- Pára de bobagem, homem. Eu vou me deitar – e se agachou para colher os cacos e jogá-los no lixo. – Você apaga as luzes todas quando subir, por favor?

- Mas, Mara!

- SHHHHHHHHHHHHHH!!!

E Mara subiu. Lins foi até a sala e apagou as luzes uma a uma. Depois voltou no escuro até a cozinha e abriu o Drambuie. Serviu um copo e pegou outra cerveja na geladeira. Apagou as luzes da cozinha também e ficou ali na penumbra, em frente à pia, com as mãos apoiadas, olhando pela janela. Na casa vizinha havia um galo de madeira numa haste enorme que ficava com as asas girando conforme o vento. Estava com bastante vento dessa vez e as asas rodavam sem parar. Lins ficou olhando para aquilo durante um tempo. Depois sentou e ficou olhando para o teto. O pau inchado ainda estava lá dentro do calção florido e ridículo. Lins era apenas mais uma personagem que iria morrer muito em breve, como a personagem de Lola, lá em cima. Terminou seu licor, sua cerveja, então subiu as escadas no escuro, apalpando as paredes e se arrastando para não fazer muito barulho.

Quando ia passando em frente ao mezanino, resolveu parar para ouvir o que estava acontecendo lá dentro uma última vez antes de se deitar. Encostou a orelha na porta e ficou.

- Ui, ai, ai, ai, vai, não pára... Ufff! Lágrimas e escárnio... Vai! Ai, vai, mete, mete! Shhhhh! Você não sabe a dor... Vai, lá no fundo, vai, mete fundo, porra! Ai, ai, ai, ai, ai, ai, AAAAAaaaaaaaaaaaaaiiiiiii!

Lins tentou ver pelo buraco da fechadura. Não conseguiu ver nada. Mas nem precisava. Eram um homem, sua filha e uma amiga ali dentro. Ficou lá mais três minutos, quando todo e qualquer barulho cessou. A escada rangeu quando ele tentou se virar. Então subiu em disparada.

Entrou no quarto e Mara roncava. Roncava desde a época em que haviam se casado. Isso não era um problema. Mas era sempre a mesma coisa. Lins encostou a porta do quarto e foi até o banheiro. Estava atônito. Precisava de alguma coisa. No meio do caminho ainda parou em frente ao aparador e folheou um dos exemplares da revista REALIDADE, que ele guardava com muito carinho, achando que um dia aquilo tudo daria algum dinheiro num leilão para velhos obcecados.

Por fim entrou no banheiro, sentou na privada tampada e respirou fundo. Mas não conseguia controlar o fôlego. Ai, ai, ai, ai, Ui, mete, mete fundo! Isso ia e vinha o tempo todo, zunindo no seu ouvido. Estava trêmulo e com tesão. Principalmente trêmulo. Olhou para a porta do blindex e viu uma calcinha preta de renda transparente torcida e pendurada, recém-lavada. Pegou a calcinha, depois a retorceu e expôs seu forro contra a luz do banheiro, procurando um pentelho solto. Encontrou um e imediatamente o levou à boca. Sentou novamente na tampa da privada, arrancou o calção florido e ridículo e fechou os olhos, com a calcinha apertada junto ao nariz. O cheiro era bom. Ranço de buceta e sabonete misturados.

A calcinha devia ser de Mara. Mas primeiro ele imaginou que fosse de Lola, ele vindo por trás dela, ela parada e arrebitada, ele puxando seus cabelos com força e dizendo coisas sujas. Depois imaginou que fosse de Tina. Depois pensou em deus. Estranhamente ele veio à sua cabeça. Então tentou com Mara mas não conseguiu se concentrar. Daí voltou para Lola, ele descendo até sua cintura, lhe mordendo os grandes lábios e a fazendo urrar de prazer. Então lhe veio à cabeça a Aldine Müller. Ficou com a Aldine. Gostava dela. Depois se encheu de imaginar coisas e gozou de olhos fechados, tristes por dentro da capa de pele murcha. Só faltava agora se limpar para dormir ao lado da mulher que roncava. E amanhã talvez, quem sabe.




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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

PESSOALIDADES >> Carla Dias >>

Pessoas peculiares, algumas excêntricas, até, freqüentam minha vida, desde sempre. Muitas das que encontrei se tornaram minhas amigas.

Verdade seja dita: eu adoro os excêntricos, geniosos, complicados. Escutar o que eles têm a dizer; seguir a linha de raciocínio deles, me influencia a questionar o convencional.

Um desses meus amigos, um guitarrista muito talentoso, é dos mais inspirados. Não sei se pelas histórias em quadrinhos que adora ler ou porque a sua visão sobre a vida e o ser humano é realmente tragicômica, como é a versão oficial que vivenciamos diariamente.

Uma amiga muito querida é das que não medem palavras. Diz tudo o que pensa, sem peneirar. Normalmente, isso incomoda muito quem não a conhece, mas quem se detém um pouquinho mais em quem ela é; quem pára para escutar o que ela tem a dizer, compreende que esse incômodo que ela provoca pela sua sinceridade descarada e pronunciada, é justamente o que a torna uma pessoa dedicada a ajudar o outro, sem julgá-lo.

De um amigo eu invejo a ironia... Sei que não é o tipo de coisa que, normalmente, invejamos (tá... invejar é feio...). Mas é uma ironia refinada, que em nada afeta a pessoa bacana que ele é. As tiradas são fantásticas, o humor negro cultivador de interesse. É agradável conversar com ele, quase desafiador.

E tem essa amiga que parece que saiu de um seriado de televisão. Aliás, eu pego no pé dela para que escreva um roteiro, usando as percepções rotineiras dela. O humor ácido, a visão (e a falta de paciência) que ela tem sobre a rotina, são ingredientes hilários.

Há aquela que está sempre disponível para as pessoas; que costuma buscar uma saída para os problemas e, se não encontra, empresta o ombro. Não é a carente que precisa de aceitação, então usa a bondade exacerbada como ferramenta para alcançar as pessoas. É uma pessoa bondosa e ponto. A bondade e o interesse dela pelo outro me fascinam.

Conhecer pessoas é bacana, mas reconhecê-las é ainda mais interessante. E não pulo fora do balaio, já que também eu tenho lá minhas peculiaridades.

E desse jeito, vamos enriquecendo as relações humanas com as nossas pessoalidades.

Imagem: Jander Minesso >>> http://www.flickr.com/photos/tantofaz



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