quarta-feira, 30 de julho de 2008

SOLIDÃO A DOIS >> Carla Dias >>

Aluguei este filme há muitos anos. Depois de assisti-lo, insisti com a atendente da locadora de vídeos, e ela fez o pedido dele pra mim. Naquela época, comprar filmes não era fácil, tampouco barato. Mas eu tinha de ter aquele em casa, porque a música era demais e o filme... Bom, o filme.

No final de semana, assisti ao tal filme na tevê a cabo. Ainda o tenho, mas em VHS, e isso quer dizer que não o assisto há outros bons anos. Havia me esquecido do motivo de tê-lo comprado e assistido tantas vezes que perdi a conta. As madrugadas eram os melhores cenários para embarcar nesta jornada. E o filme me acompanhou em muitas delas.

A música tema é do Terence Tren’t D’Arby (hoje Sananda Maitreya), apesar de um dos personagens se engraçar com o outro cantando uma música tradicional americana, que tem o mesmo título que o filme. Enfim, tornei-me fã do Terence, a partir daí. Comprei vários CDs, conheci a história, e a música dele também me acompanhou por muitas madrugadas... Impressionante como as madrugadas me inspiram às descobertas.

Aí vai uma das minhas preferidas... Não é a música tema do filme, mas é uma das que venho cantarolando (desafinadamente) há muitos anos.





Confesso que, mais do que a sinopse, o que me atraiu no filme Frankie & Johnny, a ponto de levá-lo para casa e assisti-lo pela primeira vez, foram os atores: Al Pacino e Michelle Pfeiffer. São eles os protagonistas dessa história que trata, com sutileza, da condição dos solitários... De como é difícil sair dessa condição e atrever-se a deixar que outra pessoa entre e nos faça companhia.

Muito do roteiro é tão próximo à realidade comum aos solitários que a graça do filme, definido como comédia, drama e romance - que também fazem parte do roteiro das nossas vidas -, está nos detalhes: a moça que compra um vídeo-cassete para espantar as noites que passa sozinha, que tem um amigo gay que a ajuda com os problemas de casa e também os emocionais. A senhora que morre e quase ninguém vai ao funeral; o homem que é preso e tem de recomeçar a vida, restabelecer o contato com os seus. A mulher que espera pelo homem ideal, e aquela da qual cobram casamento e filhos.

Frankie (Michelle Pfeiffer) e Johnny (Al Pacino) são pessoas sem qualquer glamour. Ele consegue um emprego de cozinheiro na lanchonete onde ela é garçonete, e o interesse é mútuo e imediato, mas há um caminho árduo a ser trilhado. Os companheiros da lanchonete e os acontecimentos cotidianos creditam ao filme uma veracidade quase palpável. Neste filme, os solitários se reconhecessem, assim como os amigos.

Frankie & Johnny é um filme honesto, que fala de maneira simples sobre sentimentos complexos; analisa com suavidade a condição daqueles que vivem em grandes cidades; que mesmo caminhando entre a multidão, voltam para casa sozinhos.

Este é um daqueles filmes que devem ficar por perto, feito livro de cabeceira. É bom revê-lo, saboreá-lo, interpretá-lo ao tom do momento.

Frank & Johnny foi dirigo por Garry Marshall, também diretor de outros filmes dos quais gosto muito, entre eles Um presente para Helen (Raising Helen) e Simples como amar (The Other Sister). Para situar os mais curiosos, ele também foi diretor de Uma Linda Mulher (Pretty Woman). Terrence McNally é autor da peça que inspirou o filme, Frankie and Johnny In The Clair De Lune, e também o roteirista do filme.

www.carladias.com




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terça-feira, 29 de julho de 2008

Dá licença? Posso entrar? >> Claudia Letti


Chego acompanhada da sensação de atraso que tentei deixar ali no hall de entrada. Não é exatamente uma sensação desconfortável mas, de todo modo, sempre fico com a impressão que perdi o melhor da festa, embora minha taça de champagne esteja gelada e borbulhante. Champagne, não mais coca-cola. Em algum momento nesses dez anos, depois de escrever aqui, no Crônica do Dia, categoricamente um "Obrigada, eu não bebo", aprendi a bebericar espumantes. Dez anos é muito tempo pra pretender que a vida permaneça inalterada e muito pouco pra alterar tudo que se gostaria.

Há dez anos me mudei para o Rio, que me acolheu com a calorosidade dos seus 40 graus. Cheguei aqui apaixonada pela cidade e pelo amor chiado e gingado que ela me oferecia. Se não me engano, minha primeira crônica para o Crônica do Dia falava do meu espanto pela cidade grande e pelo fascínio que ela causava no meu, até então, cotidiano provinciano. Uma década parece ser tempo o bastante pra extrair do amor um amigo e amar de novo -- com outro sotaque. Dez anos é tempo suficiente pra aprender uma cidade ou se perder nela.

Nesses dez anos, minha filha se transformou numa mulher enquanto eu ainda aprendo, todo santo dia, a ser menina. Ganhei três enteados, um deles já é um homem, dois ainda serão, no máximo, em dez anos. Alguns sonhos ganharam asas tão grandes que se perderam no imenso azul das expectativas e estão a voar tão alto que, duvido, aterrissem um dia. Outros, fiz questão de construir pistas largas e de comprimento confortável para que chegassem ao seu destino, que nem sempre ou necessariamente era até a mim. E alguns poucos sonhos, ainda cultivo com cuidado, como quem se agarra ao fio frágil de uma pipa colorida, deixando que voe solta, apenas pra não dar chance ao desencantamento.

Há dez anos (ou mais?) conheci pessoalmente algumas das muitas Artemísias, amigas que me acompanham desde então, inclusive aqui neste espaço. Durante esses dez anos fui a Fortaleza conhecer Eduardo (e Julia também!) e o abracei com o carinho de amigos de infância. Fiz amigos novos e continuei cultivando amigos de décadas. E se perdi alguns afetos foi por conta da reciclagem nata da vida que aproxima ou afasta caminhos à nossa revelia, mas -- como nada é por acaso -- guarda o sentido dos desencontros em seu código secreto.

Nunca fui muito amiga da permanência nem das retrospectivas, mas posso afirmar que dentre as muitas mudanças a que me atrevi e que a vida promoveu nestes dez anos, poucas coisas se mantêm e mantenho com frescor e alegria: os amigos, escrever para o Crônica do Dia e exercitar a inconstância -- esta última talvez seja a responsável pela sensação de estar sempre chegando atrasada. Vai ver é por isso mesmo que, em várias situações da vida, eu me adiante por medo de ser tomada por decisões tardias. O que, definitivamente, não é o caso aqui e agora, vide meu atraso de quase um mês para a festa dos dez anos. Me desculpo e me conforto com uma boa dose de indulgência: afinal o que são alguns dias diante de uma década? E depois, sei que vocês hão de concordar comigo: festa boa é a que não tem hora pra acabar...

A propósito, ninguém vai abrir outra garrafa de champagne?

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segunda-feira, 28 de julho de 2008

...MAS AGORA VAMOS >> Albir José Inácio da Silva

Lá não deve ser pior que aqui. Ou não sairíamos daqui pra lá. Ou não promoveríamos a mudança. O que incomoda então?

Desde que abandonou o nomadismo, o homem passou a sofrer com os deslocamentos. Conheço pessoas que se emocionam ao falar da casa antiga. Não estou falando dos que foram obrigados a sair. Dos que foram expulsos. Dos exilados. Estes provavelmente nunca conseguiram sair. Ficaram lá sem poder estar, e é por isso que sofrem.

Falo dos que quiseram sair. Foram para lugares onde queriam ficar. Falo dos que ficaram felizes com a casa nova, mas, em algum momento, são alcançados por uma espécie de saudade – uma chuva morna de que não se consegue fugir e que encharca a alma. Não é saudade de um lugar. É saudade de um quando que aconteceu naquele lugar.

E quando ainda se está saindo, o que é que se sente? A saudade pode ser antecipada?

Aqui cheguei no que já não existe e vi crescerem paredes e cômodos.

Aqui às vezes não coube em mim de solidão humana, mesmo cercado de carinho.

Aqui corujamos o crescimento de filhos especiais. Vimos risos em boquinhas desdentadas e choros convulsos e dramáticos sem nenhuma lágrima mas com muita pirraça. Aqui vimos sucederem-se uniformes e cadernos, e transformarem-se caligrafias. Daqui os vimos sair para a primeira aula na faculdade e para o primeiro dia de trabalho. E descobrimos que não nos pertenciam. Aqui recebemos a surpresa de ser consolados por quem até então consoláramos, e aprendemos a tocar a casa a oito mãos.

Daqui saímos algumas vezes para nos despedir pela última vez daqueles que aqui não voltariam mais.

Cada parede, cada cor e cada móvel tem uma história. História que segue, que evolui para outras cenas, mas que já olha para trás.

Não há queixas. Vamos juntos, vamos felizes, vamos crescendo. Mas daqui a pouco estas portas serão fechadas por nós pela última vez. Continuaremos a nos ver todos os dias, mas não nos veremos mais aqui.

Aqui é um tempo que fica. Fecha-se um ciclo.

Aqui voltarei nostálgico ao passar pelas ruas próximas.

Aqui voltaremos em reminiscências que nos apertarão a garganta e acelerarão o peito.

Mas agora vamos.

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domingo, 27 de julho de 2008

DISPOSITOR >> Eduardo Loureiro Jr.


Meu caro amigo Fabiano,

Ela se encostou no dispositor de bandejas do self-service do Ministério do Planejamento, Bloco C, subsolo. Eu mostro a cobra e mato a pau. Não é assim o ditado? Ah, meu amigo, do jeito que ela encostou no dispositor foi mesmo para esquecer o ditado, perder a concentração, tirar um zero, escrever relançe com pendurado Ç, atrassão com sibilante SS, goxto com excitado X. Porque ela não encostou no dispositor como quem se esforça para pegar a colher da bandeja que está do outro lado, que o infeliz da outra fila deixou quase inacessível para quem está do lado de cá. Não, se fosse isso, meu caro amigo, eu não me viraria para nossa querida amiga Célia e diria: "Olha ali uma aeronave no pátio". E Célia continuaria a pensar que aviões só pousam em aeroportos.

Mas para o bem de Célia, para o meu próprio bem naquele instante luminoso, para o seu bem, meu caro amigo, que há tempos não recebia uma descriçãozinha, e para o bem de toda a humanidade - sim, de toda a humanidade porque o mundo se salva num instante como esse -, para o bem de tantos foi que ela encostou no dispositor não de frente, como às vezes acontece, mas de lado, apoiando no metal prateado aquele delicioso pedaço do corpo da mulher que se encontra entre a coxa e a bunda.

Bastaria isso, meu caro amigo, para eu encerrar com discrição a descrição. Porque você tem imaginação suficiente para preencher os detalhes, para penetrar na pequena brecha umedecida aberta por essa imagem e gozar e fazer gozar. Sua imaginação seria certamente capaz de orgasmos múltiplos. Então não é por você, meu caro, mas por mim. Porque minha memória é fraca. Fraqueza no presente - agora mesmo já me escapam os detalhes da cena que me proponho a descrever - e no passado - se não lhe escrevo, se não a descrevo, corro o risco de um dia nem lembrar que a vi ali, encostada no dispositor de bandejas do self-service. Escrevo, portanto, como quem coloca um lembrete para si mesmo na porta da geladeira.

Você pode pensar que estou inventando, que, depois de tanto tempo sem descrições, isto é um trote, um artifício para dar-lhe um presente, despertar-lhe uma alegria, inspirar-lhe uma transgressão. Afinal, não pode haver verdade em uma mulher se encostar lateralmente no dispositor de bandejas. Isso ficará ainda pior quando eu lhe disser que não havia nenhum motivo aparente para que ela procedesse daquela maneira. Ela não estava atendendo a nenhuma ligação urgente no celular. Ela não estava retirando nenhum objeto indesejado da roupa. Ela não estava aguardando a reposição de alimentos em uma bandeja. Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que só havia um motivo plausível para gesto tão deslocado: ela se encostou no dispositor para posar pra mim, para me fazer especular sobre como uma mulher grande daquelas cabia nos dois milímetros - agora três milímetros - de minha pupila cada vez mais aberta. Sim, ela parou ali para mim. Estranho como se a lua cheia piscasse para um caminhante distraído. Como se o mar bravio se aquietasse porque um banhista ingênuo resolveu boiar.

Summer - Giuseppe ArcimboldoEla, encostada, lembrou-me daquele artista plástico que desenhava rostos compondo-os com frutas. Talvez fosse ele mesmo o responsável: já falecido, resolvera vagar pela Terra, compondo pessoas e alimentos não mais em telas, e sim em self-services. Pois os óculos dela, de aros redondos e vermelhos, lembravam rubras e deliciosas rodelas de tomate. Seu cabelo, entre preto e castanho, eram longas e brilhantes berinjelas. E seu rosto claro era um delicado e rosê purê de batatas. O pescoço, os braços, as curvas, os recheios, eram frutas ainda para mim desconhecidas, talvez do Paquistão, de Bornéu, da Guatemala.

Ela não estava ali para comer - não trazia prato na mão -, mas para ser degustada: com os olhos, como se convencionou provar as obras de arte. Mas juro-lhe, meu caro amigo, que se o segurança do subsolo do ministério se distraísse por um momento, eu estenderia o dedo para tocá-la e saber pela minha pele da textura daquela tela.

E então, da mesma forma que pousou, ela despousou. Como quem desfaz a pose após a fotografia, e já parece ser outra pessoa. Despousado daquela imagem, desposado por ela, meu olhar casou com o olhar da mulher. Casamento de dois segundos. O divórcio mais rápido e definitivo da história da humanidade. Eu pagando a conta do encantamento. Ela fazendo de conta que pagava a conta do self-service.

Eu ainda não sabia que a descreveria. Ela ainda não sabia, e talvez nunca saiba, que você, meu caro amigo, ao encontrar uma aeronave pela Esplanada dos Ministérios, procurará nela, feito uma dona-de-casa exigente que vai à feira, os traços mais perfeitos de tomates, berinjelas e batatas.

O abraço, aquecido por potentes turbinas,

É do ar do
P á t i o




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sábado, 26 de julho de 2008

MITOS MODERNOS [Sandra Paes]


Anda vagando por aí, em nome do budismo, da Cabala, do apocalipse, da expansão da democracia e sua liberdade de expressão, do uso da internet e tantas outras correntes, uma propaganda sobre o poder do pensamento.

Acabo de ver mais um desses programas de variedades espalhando mais uma vez a mensagem de que o que se pensa, se cria e se materializa - mesmo que não se queira isso.

Me pego no som da dúvida: hummmm... será?

Você vigia sua mente? Tem um instrumento próprio pra fiscalizar aonde vão seus pensamentos diante de tanta pressão de informações e regras circulando? Não creio nisso também, não.

Por exemplo: diante de uma greve dos Correios, quem deixou de se preocupar com a correspondência? Quem de fato ficou totalmente tranqüilo diante das contas que não chegavam, das encomendas presas em algum depósito, ou qualquer outra mensagem engarrafada por conta de mensageiros paralisados?

Quem, diante de um engarrafamento no seu dia-a-dia, não pensa no que vai acontecer com seu atraso no trabalho, nas conseqüências das reuniões não iniciadas na hora? No filho esperando na porta do colégio, no atraso das tarefas domésticas por conta da paralisação de qualquer coisa?

Fazer o quê? Vigiar a mente e comandar: “Fica quieta! Tá tudo sob controle! Seu filho não está ansioso te esperando, as contas já foram pagas e você não precisa se preocupar com juros extras ou multas novas, as encomendas já chegaram e a clientela já está usufruindo dos produtos”.

Em milhares de pessoas diante de tais circunstâncias, quem de fato pensa no já solucionado? Se assim fosse, não seria preciso prece, nem promessas pra santos, nem telefones celulares pra dar o último recado, e não seria preciso balanço de conta bancária todo mês.

Sim ou não?

Fato, parece ser que diante das pressões geradas por circunstâncias que desconhecemos, os avatares da nova era - da força da mente como árvore do desejo -, colocam tudo no bom uso da mente. Se você pensar positivo, tudo já está resolvido ou feito.

É isso mesmo? Vejamos... Os jornais de televisão são os primeiros a acionar os alarmes e as sonoras formas de alerta diante de dramas: acidente na pista gera trânsito infernal; mais um assalto fazendo vitimas fatais; inflação toma conta dos alimentos e você precisa planejar melhor os gastos domésticos; fuga de prisioneiros alarma população da cidade tal; policiais matam mais tantos em tiroteios... E por aí vai...

E o meu pensamento é que deve responder a isso com GPS especial, economista genial, psiquiatra de plantão e cardiologista portátil, além, é claro, de babás infláveis e supereficientes pra tomar conta das crianças hiperativas e estressadas por não saberem esperar os pais que não podem estar em casa disponíveis só pra elas.

Que pretensão a mais tenho que carregar pra depositar na minha mente o poder de acabar com todo e qualquer drama, ou congestões aparentemente ilusórias, do mundo da terceira dimensão? Sim, por que agora tem mais esse mito por aí... “Nada disso existe, trata-se de uma ilusão dessa dimensão onde você está e você pode dissolvê-la.”

Aha! Que mágica!

Ooohhhhhmmmm! E está tudo pago! Oooohhhhhmmmm! Comida na mesa, crianças limpas e calmas com os deveres de escola já feitos, marido chegando na hora pro jantar, de bom humor e pronto pra me ouvir e fazer amor cheio de paixão.

Mais um Ooohhhhhmmmm! e já estou de férias na Capadócia, passeando de balão e tomando banho de águas minerais turquesa... Mais um Ooohhhhhmmmm! e nem estou mais aqui nessa dimensão escrevendo sobre isso.


Imagens: Transparency, Francis Picabia; Woman With Binoculars In Road At Eye/Earth, Jude Maceren

Sandra Paes vive nos EUA
Nakedness

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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Allegro ma non troppo >> Leonardo Marona


A primeira sensação que tive quando me desgarrei da família foi a de ter o cérebro se desmanchando em pequenas partes, as idéias se perdendo na gosma resultante. Não é uma cena muito bonita, nem tampouco lamentável, mas era poética o suficiente para uma pessoa parcialmente ridícula, como no fim qualquer outra.

E diziam que eu deveria sofrer, se quisesse escrever algo que prestasse. Mas eu só pensava nas glândulas cedendo, na epifania causada pelas letras tornando-se vagas e as células murchando, no desconsolo sem medida que vem da aceitação da verdade: seu cérebro já não mais está.

Pois eu sofro! E me coloco a sofrer. Porque sinto alguma coisa profunda e portanto patológica, que jogo no bolo das vaidades e junto a elas desmereço como algo superficial, mas está lá, me olhando sem olhos, mesmo que burilada ela está lá, ela que é meu berço e minha cruz.

De onde poderei mais esperar por adversidades? Da janela sem cortina apenas uma estudante de flauta transversa sem o menor talento, que chega a emocionar. Se os românticos hoje são extraterrestres de si mesmos, de um planeta que habitam e transformaram em piche, por causa da maldição de Strindberg, do sujeito que se suicida involuntariamente por pensar em coisas grandes demais, me sentia um homem oculto, dentro de uma pocilga onde varejeiras intermináveis chupam as feridas do Todopoderoso em cada um de nós. Agradecia por estar vivo. E na dúvida sobre que tipo de raiva, acariciava os gatos.

É mesmo algo bem ridículo, alguém pode pensar, mas se até hoje são encenadas peças de quatrocentos anos é porque pouco temos a dizer sobre a evolução da espécie. Alguns matam em nome de Deus, outros para matá-lo, para livrar-nos dele, para sê-lo, a grande piada. Me sinto magro, os ossos puxam e não sei se devo comer. Que estranho fenômeno será esse, da gente sugar até o talo, sem ganhar nada? As palavras me pesam, é melhor parar assim, sem avisar.


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quarta-feira, 23 de julho de 2008

CONFISSÕES DAS MULHERES DE 30 >> Carla Dias >>

Na quarta passada, fui ao Teatro Folha, aqui em São Paulo, para assistir à peça Confissões das Mulheres de 30. Fui completamente desinformada, a convite de uma amiga que gosta muito da série da qual três das atrizes do espetáculo fazem parte, a Mothern.

Eu não sabia, por exemplo, que Domingos Oliveira, incentivado por Priscilla Rozembaum e algumas de suas amigas que estavam na faixa dos 30, decidiu escrever este texto inspirado no sucesso de “Confissões de Adolescente”, de Maria Mariana, que transformou seus diários em livro que, posteriormente, foi adaptado para o teatro e se tornou um dos mais queridos seriados brasileiro dos anos 90.

Domingos de Morais deu forma teatral às conversas e às experiências íntimas que as atrizes colocavam no papel. Confissões das Mulheres de 30 é, como ele mesmo define, teatro depoimento. Também é comédia feita para quem sabe rir de si mesmo, quando as coisas andam bagunçadas por dentro.

Se em “Confissões de Adolescente” eram abordados temas que falavam diretamente aos jovens e acenavam aos pais formas de compreensão do universo dos filhos, em Confissões das Mulheres de 30 as três personagens, interpretadas por Camila Raffanti, Juliana Araripe e Melissa Vettore, se embrenham em um universo que cabe bem na alma da maioria das mulheres. As dúvidas sobre o que acontecerá a seguir, quando já se tem um passado e o futuro foi encurtado. A sensação de estar no meio do caminho, mas sem a menor idéia sobre o destino. Ser quem? E, claro, o amor... O homem, a busca pelo par ideal que, fiquem sabendo garotos, não precisa ser perfeito, mas sim honesto.



E tudo isso com um toque cômico que não sacaneia as encanações dessas mulheres que somos nós, mas sim cria um vínculo entre o público e as personagens.

O cenário simples, a iluminação bem executada nas transições, o figurino que, assim como o texto indica, mostra os humores da mulher que vive de cara com as transformações físicas e emocionais. O relógio que, de biológico, passa a ser somente o contador da duração de um casamento que já não tem fôlego para seguir adiante.

Mudar, adaptar-se, ser a solteira, a casada, a divorciada, a mãe, a libidinosa, a viciada em terapia... Se durante o espetáculo as gargalhadas pipocam, há também momentos criados para as reflexões catárticas. São sutis, mas estão lá, principalmente quando as atrizes deixam o palco e vão para o mezanino do teatro. É como se fosse a consciência dando conta do que vemos no palco, indicando que as mulheres de 30 são frágeis, mas nem por isso são derrotadas. Elas lutam, diariamente, em busca da compreensão sobre quem são e o que realmente desejam. E obviamente essa jornada é bem insana.

Confissões das Mulheres de 30 não é um espetáculo apenas para mulheres. Ao contrário, os homens, principalmente aqueles que adoram dizer que não entendem o universo feminino, poderão entender, de vez, que esse não é um universo para ser compreendido. É um improviso digno das big bands de jazz. É um cortejo, a bateria de escola de samba, a chuva caindo num fim de tarde de sábado. É inesperado, pungente e, definitivamente, atraente.

Confissões das Mulheres de 30 está em cartaz há 15 anos e, creio eu, ainda vá chegar e passar dos seus 30... Assim como muitas mulheres.




CONFISSÕES DAS MULHERES DE 30
Dramaturgia: Domingos Oliveira
Com Camila Raffanti, Juliana Araripe e Melissa Vettore
Direção: Fernanda D’Umbra
Supervisão: Eduardo Wotzik
Textos originais de Clarice Niskier, Priscilla Rozenbaum, Domingos Oliveira, Dino Menasche, Lenita Plonczinkski, Dedina Bernadelli, Cacá Mourthé, Clarice Derzié e Maitê Proença.
Figurino: Marina Reis
Cenário: Valdy Lopes JN.
Iluminação: Marcelo Montenegro


Local: Teatro Folha
Temporada: Até 14 de agosto
Horário: Quarta e quinta, às 21h
Ingressos: R$ 30
Duração: 60 minutos
Classificação etária: 14 anos



www.carladias.com




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domingo, 20 de julho de 2008

UM POUQUINHO >> Eduardo Loureiro Jr.

Ubira/PicasaWeb"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
(João, o Rosa)

Quando eu era criança, e meus pais discutiam, eu me fechava no quarto em busca do calado. Na adolescência, tentava abafar os gritos colocando o volume no máximo. Hoje eu busco o silêncio da música que não grita.

Sento sob o sol, na grama, sobre o orvalho da manhã, e deixo a luz lavar meu frio com seu calor. Aviso que estou ali, cheguei, pronto. Já posso ouvir o canto dos passarinhos. Estou no ponto onde a gente se toca. Pele de gente também pode ser aconchego de sol. Voz de gente também pode ser canção de passarinho.

Existe o caminho da borda e o caminho do meio. Ao redor, se corre. Dentro, se caminha — se camazinha —, pisando de leve nos lençóis da natureza. O córrego escorre sem ter pressa e vai dar num lago com ritmo de tartarugas. Vai dar. Dá. A gente precisa saber certa coisa antes de dar. Uma coisa certa só: dar é já ter recebido — transbordar pra dentro, onde o outro está, quem recebe.

Gastar o olhar feito quem gasta os dentes na pipoca: afiando. Poupar o guardanapo pra poder lamber os dedos. Cobrir de fluidos beijos as pontas desses delicados filamentos. Amar a Si — mesmo. Sentir o amor preenchendo.

Chegar até as cercas. E rir dos farpados. Flagrar os beija-flores amando desescondido, sussurando em fragrantes ouvidos, "Qual é teu nome, flor? Faze de mim o que eu sou." Errar até o mel feito cego no claro, honrar a retidão que há no curvo. Com o coração quentar o sol pra que ele alcance o meio-dia. Chegou, enfim chegou, a hora em que tudo que ouço é poesia.

Lavada a roupa suja — pernas pra que te quero —, estender: braços pra quem me quer. Ser gostoso de pegar, ser bonito de se ver. Olhar a voz, ouvir o cheiro, inspirar a cor. Tocar o bom, o bobo do cordial tambor. Pendurar-se na varanda do lábio sem palavras. Viver com horas desmarcadas.

E só levar consigo o que não puder deixar.







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PRESENTE! >> Felipe Holder

Passei minha vida chegando atrasado em todo canto. Na minha primeira escola, antes do início das aulas, os alunos formavam fila para cantar o Hino Nacional. Isso por volta das sete da manhã. Eu passei cinco anos nessa escola e não me lembro de ter cantado o Hino mais de três vezes.

Na segunda escola não se cantava o Hino Nacional, mas havia um coordenador pra lá de exigente, que carimbava a caderneta de quem ousasse chegar atrasado. O carimbo era como um cartão amarelo: três carimbos, uma suspensão automática. Não fui suspenso muitas vezes, porque tinha o cuidado de sempre tentar driblar o coordenador. Quando chegava atrasado, eu passava de fininho pelo corredor e sacudia a bolsa pela janela da sala. Sempre tinha um amigo pra segurar a bolsa do outro lado. E um professor desligado que não via nada. Às vezes não dava certo. Como no dia em que dei de cara com o coordenador assim que cheguei ao colégio, com a cara ainda inchada de sono. "Isso é hora, senhor Felipe?" Eu disse a verdade: dormi no ônibus e perdi a parada. "Não é desculpa. Me dê sua caderneta pra carimbar o atraso". Aí eu menti: disse que tinha esquecido a caderneta em casa, pois tinha trocado de bolsa por causa da aula de Educação Física. "Esqueceu? E o que é isso no seu bolso?" Era a caderneta. Terceiro carimbo, suspensão automática. Sem direito a recurso nem julgamento.

No trabalho, difícil chegar na hora. Por isso saio tarde sempre que é necessário. Mas nem sempre isso resolve. Atrasos são atrasos, às vezes não dá pra compensar. Já cheguei atrasado em jogo do Náutico, imagine você. O resultado? 1x0, gol marcado aos 5 minutos de jogo, claro. Gol que eu não vi. Nem no dia seguinte, pois quando liguei a TV o programa de esportes já tinha acabado. Antigamente, quando a gente podia ficar no cinema depois que a sessão acabava, eu tinha o hábito de chegar atrasado e ver o início do filme na sessão seguinte. Sem brincadeira. Ainda hoje vivo me atrasando até na hora de dormir. Ela chega, eu não. Às vezes o sono não vem, às vezes faço de conta que ele não veio, mas o fato é que nunca durmo na hora. Estou sempre atrasado.

O Crônica do Dia fez dez anos e eu, como sempre, cheguei atrasado para a festa. Não havia mais ninguém, nem um colega de turma, nem bolo, nem velas. Ainda bem que aqui não tem carimbo na caderneta, senão eu viveria eternamente suspenso.

Cheguei atrasado mais uma vez, justamente no dia do aniversário de dez anos. Mas cheguei. Não estava aqui no começo da festa, mas pelo menos cheguei antes do final. A tempo de responder bem alto à chamada do professor Eduardo:

— Felipe?

— Chegueeei! PRESENTE!

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sábado, 19 de julho de 2008

DESORIENTAÇÕES [Sandra Paes]


Ontem acordei com uns números na cabeça. Loto? Nao, eram apenas três e me parecia mais alguma referência de latitude, longitude, algo que apontasse para algum lugar no mundo. Ou eu assim quis interpretar. Aproveito a curiosidade: onde está o Atlas de astrologia? Tempo que não consulto isso... Por onde começar? Talvez a latitude... Abro, viro páginas e aparece no mapa: Iraque! Nãhh, não pode ser... Me recuso a focalizar a mente nesse lugar tão controverso e as letras começaram a embaralhar e a sumir de foco...

Ando desorientada até dentro de casa. Chego na cozinha e não sei o que fui fazer lá. Outro dia, me perdi dentro do supermercado; olhava para os corredores, tentava ler as placas e conferir os produtos pra localizar... o que mesmo? O que fui comprar lá, afinal? O que estou fazendo aqui com esse carrinho na mão?

Houve uma época em que fazia mapas de cabeça; em dois segundos localizava cidades, planetas em suas casas, aspectos e tal. Morava dentro de mim um astrofísico com astrolábio e tudo.

Compras? Sempre soube onde achar o que em que prateleira, e imagine, me perder na própria cozinha? A ordem e seqüência das coisas é algo claro demais. Por isso cozinhar é mais do que natural - brota naturalmente a combinação dos sabores e temperos e sei exatamente a ordem de por tudo.

Sabia... Já não sei mais... Pude constatar isso facilmente tentando fazer uma carne aux fines herbs avec french beans. Parecia uma eternidade achar as coisas. E sal? Já pus na carne? Talvez? E se não? Basta provar, mas não é bem isso... é a desorientação: mais um item a ser notado.

Enfim... final do dia... convite pro churrasco. Pretexto pra um encontro de novas pessoas, outras associações. Chega por e-mail a pergunta: “Você vai? Quero te ver lá!”

E eu me pego relutante... Ai, ai ai, dirigir no final da tarde, pouca luz, lugar novo. Houve uma época que qualquer aventura era motivo de pôr o pé na estrada... Descobertas! Oba! Agora, me flagro relutante... O que é isso?

Respondo que vou fazer o que puder pra ir. E assim tomo banho, procuro algo pra vestir e pronto. Como? Já se passaram quase duas horas? Eu nem vi. Mais uma desorientação. Sempre fiquei pronta em 15 minutos no máximo. Dessa vez, nem percebi. Por via das duvidas, anoto o endereço num papel, assim fica mais fácil ou assim parece ser quando se quer se acercar de “segurança”: em caso de esquecimento, pega-se no bolso o papel e pronto.

Não me dei por satisfeita. Pego o celular e ligo o GPS. Digito o endereço e espero o resultado - assim vai parecer mais fácil... Qual o quê... Depois de rodar algum tempo, percebo que o que leio na tela não corresponde ao que leio nas placas. Será?

Quanto tempo já se passou? Já está anoitecendo, ficando mais difícil ler placas... Mas espera aí? Esse passo aqui me manda de volta pra onde eu estava... Mas como?

Melhor ligar pra alguém.

“- Alô? Como está tudo aí?”

“- A comida tá ótima. A noite tá linda, e tem algumas pessoas... Onde você está? Ouvindo música?"

- Estou no carro.

- Mas em que rua?

- 441 North com...

- Não sei onde é isso... Espera aí que vou passar pra dona da casa...”

Não tive tempo pra dizer mais nada. A dona da casa faz a mesma pergunta, mas a essa altura já não estou mais na mesma rua. Ela pede que eu pegue a Palmetto Norte. E eu respondo que essa rua tem apenas leste e oeste e não sabia como pegar norte ou sul.

Percebo de imediato que falamos línguas geográficas diferentes. Me lembro das orientações dadas no Brasil onde os pontos de referência são uma padaria do “Seu Joaquim” ou o supermercado X. Se você não sabe como localizar isso, não sabe nada.

E foi como me senti. De repente tudo ficou complicado. Agradeço e decido voltar pra casa. Começo a revisar a motivação da saída, do jantar, e não encontro na minha cabeça. Lugar complicado onde tudo começou..

Toca o celular de novo. Era minha amiga perguntando se eu já havia me localizado; eu disse que não... Não conseguira entender os sinais que a dona da casa dera.

Decepcionada ela diz: “Como não?” E repete as mesmas informações. Percebo novamente minha desorientação, e descubro que nada adiantaria explicar nesse momento. E digo: “- Estou com dificuldades...”

- Mas você não tem GPS?

- Sim, mas estou lenta e tá complicado ver o GPS e as placas das ruas ao mesmo tempo... Não estou dando conta...Vou pra casa... Sinto muito...”

E ela , com voz caída, diz: “- Está bem! A gente se fala outra hora então.”

Afinal, chego em casa - um lugar que ainda parece conhecido e reconhecível. E pra que tudo isso? Conseqüência do stroke que vivi há três semanas atrás. Ninguém soube, ninguém viu, ninguém avalia. Terremotos internos tiram sua identidade, reviram seus sonhos de cabeça pra baixo, rasgam os mapas que você pensa que conhece e esfrega na sua cara que oriente e ocidente é apenas coisas dos homens nessa Terra dividida em pedacinhos, que depois foram colonizados, que depois passaram a pertencer a um povo, a uma colônia, a um grupo qualquer... E com os anos, foram ganhando nomes e mais nomes, e números, muitos números, e diferentes donos , tudo provisório, mas é assim mesmo, porque a seqüência das coisas é feita assim.

Se o cérebro não reconhece, o que existe onde? Lugares, horas, acontecimentos. Latitudes e longitudes... Que números são esses?
Tudo de novo? E eu tendo que dizer meus números pra me saber socialmente incluída, historicamente pertinente, politicamente qualquer coisa, sexualmente orientada, culturalmente atualizada, profissionalmente realizada, uma cidadã... O que mais?

“Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul”- diria a canção. Mas o céu de hoje está nublado e aqui dentro também só tem nuvens.


Imagens: Hand with Compass, Robin Bartholick; Sundial, Huge Carrot; Eye in the Sky, Huge Carrot

Sandra Paes vive nos EUA
Nakedness

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sexta-feira, 18 de julho de 2008

Uma cena como outra qualquer >> Leonardo Marona

É só dobrar a Marquês de Olinda com os pêlos do braço eriçados porque você está ouvindo Nick Drake cantando what would happen in the morning when the world it get so crowded that you can’t look at your window in the morning e isso te emociona de uma forma patética então o peito infla, os pés parecem muitos, mas basta dobrar e olhar para debaixo do viaduto que você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer de cada dia num lugar onde estão todos à espreita, prontos para correr ou te enfiar uma faca pelas costas, e basta olhar, não com muita atenção, para o viaduto em frente à saudosa Rua Marquês de Olinda, provavelmente em homenagem a um saudoso vigarista, e você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer, roupas gastas balançando ao vento sobre pedaços de coisas ainda misteriosas e cerca de oito meninas de rua, já acima dos seus quinze anos e com corpos fortes como os daquele tipo de cão de corrida, você verá cerca de oito dessas meninas sem moral muito bem definida com garrafas de plástico com cola de sapateiro nas mãos, rindo enquanto outras duas se dão socos aleatoriamente, como numa rinha de galo, algumas já sem forças, mas ainda bondosas, tentam apartar a briga e têm igualmente os cabelos puxados e as cabeças arremessadas ao chão, e de repente outra mulher, puro osso, mais velha, se aproxima e segura uma das meninas-lutadoras pelo braço e não há mais tempo para ver a cena, é preciso seguir em frente quase como um fluxo mecânico, e na seqüência há um policial entediado ouvindo lorotas de um velho vendedor de flores que à noite trafica discretamente cocaína, e além dele existem homens que não se vêem lavando vidros sobre os prédios que se envergonhariam das tramóias que escondem, se pudessem, mas não podemos então seguimos, e estamos atrasados para um compromisso de vida ou morte, ao lado um senhor que teria sido um belíssimo Duque de Winchester raspa freneticamente com uma tampa de garrafa a tampa do esgoto municipal, com uma gana de torcer os dedos e pingar a testa ele raspa olhando fixamente para a inutilidade do seu esforço, ele não tem nenhuma sinfonia para ouvir, amigos com quem debater futilidades da vida comum, ele perdeu os filhos e os netos, ele raspa porque não agüenta mais, e isso não é nada de novo, uma cena como outra qualquer e dois garotos metidos a espertos entram na loja de conveniências para roubar balas de fruta e eles sabem que podem ser pegos, mas a vida é um velho oeste ilimitado, então resta seguir e tentar absorver o mínimo, uma freira conversando com um bêbado, as flores da tarde ainda não nascidas, mas alguns já velhos demais esperam impávidos e eu me sinto velho e uso a mesma calça há oito anos, uma excelente calça, eu penso, e isso me enche de confiança, então se começa a estalar os dedos porque talvez seja aquela música muito bonita que John Lennon fez para o filho, life is what happens to you while you’re busy making other plans, e aquilo me parece mais uma vez extremamente enigmático, mas não há tempo para mais nada, resta apenas entrar no edifício, desmarcar o compromisso o qual já se perdeu, sentar e escrever sobre algo que já não é mais meu, e é de quem quiser.


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quarta-feira, 16 de julho de 2008

MEXERICA, AMOR E VESTIDOS >>Carla Dias>>

Minha mãe sempre trabalhou. Ainda criança, foi pra roça ajudar os seus pais, assim como os outros filhos deles.

A primeira lembrança concreta que tenho da minha mãe não remete à época em que ainda era carregada no colo por ela. Na verdade, a lembrança mais antiga é de vê-la sentada na porta de casa, descascando cana para eu, meus irmãos e primos chuparmos; ou fazendo bonecas de sabugo de milho para as meninas brincarem.

No terreno, nessa época, havia somente três casas. A dos meus avós na frente, a minha no meio e da minha tia nos fundos. Tínhamos plantados, no quintal, pés de cana, milho, mexerica, chuchu. Minha mãe sempre adorou cultivar... Ela sempre teve proximidade com a terra. E cuidava muito bem das plantas e das flores.

Minha mãe foi costureira. Varou noites trabalhando para cumprir prazos. Lembro-me que nossa sala se transformava em oficina de costura. Mas isso continuou, mesmo depois de ela mudar de emprego. Minha mãe gostava de criar coisas... Gostava de costurar.

Crianças, eu e minhas irmãs e irmão usávamos roupas de segunda mão que ganhávamos de familiares e amigos. E não sei por que, mas posso não me lembrar de pessoas da época da minha adolescência, mas me lembro de adorar usar vestido e calças compridas ao mesmo tempo... E os longos casacos de lã da minha mãe. Obviamente, isso não me tornou a menina mais charmosa da escola.

Uma vez, eu e minha irmã mais velha não tínhamos vestido para ir à Festa Junina da escola. Iríamos participar da quadrilha e o dinheiro era curto. Minha mãe não teve dúvidas: fez os vestidos da cortina da sala. E ao contrário do que qualquer um possa pensar, ficaram lindos os vestidos; ficamos felizes com eles. As roupas e bolsas mais bacanas que tive foram feitas pela minha mãe.

Continuo não gostando de entrar em lojas para comprar roupas. Se entrar em uma livraria ou em uma loja de discos, até mesmo na locadora de vídeos, esqueça-me. Mas em lojas de roupas eu entro e saio e não experimento o que compro.

Minha mãe gosta de ajudar pessoas, o que surpreende aqueles que a acham brava. O que seria de nós se não fosse a opção de olharmos o outro mais de perto, não? Porque, apesar do ar grave e das palavras nem sempre dóceis, ela é das mais justas mulheres.

Vieram-me tais lembranças ao conversar com minha mãe sobre a aposentadoria dela. Em outubro ela completará 60 anos de idade e está ansiosa por poder se mudar para o interior de São Paulo, onde quer um pedacinho de terra onde plantar e ter o que colher. Quer aproveitar a sombra das árvores, o vento fazendo as folhas cantarem, o silêncio da noite.

Neste futuro se espelha um descanso merecido. Dona Alzira tem cuidado de tantos e há tanto tempo; lutado batalhas de quebrar muitos ao meio, que merece cuidar de si, através daquilo que aprecia.




Minha mãe é das raras pessoas, meus caros. Ensinou a mim e aos meus irmãos da amarelinha à responsabilidade pelas nossas escolhas. Sei que é um papel que qualquer mãe deve desempenhar, mas na prática, sabemos que não é bem assim.

Além do mais, ela faz o melhor café que eu poderia experimentar.


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domingo, 13 de julho de 2008

O LUGAR DO CORAÇÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

Sora/CorbisPara meu amigo do peito, aniversariante do dia, Fabiano dos Santos

Ocorreu de eu saber que não tenho coração. O doutor pediu uns exames. No raio X, havia algo estranho. O estranho é que não havia algo: o coração. Mais estranho ainda — segundo o doutor — é que eu continuava vivo.

Como eu estivesse desempregado à época, aceitei o que o doutor ofereceu:

— Hotel, restaurante e lavanderia. Vamos viajar pelo Brasil apresentando o seu caso.

Eu fui. Com todos dizendo que eu deveria ser mesmo sem coração para abandonar assim a família.

E eu virei atração nacional, fiquei bem de vida, embora nem todo hotel fosse cinco estrelas, nem toda comida fosse caseira e nem toda roupa fosse bem passada.

Único no Brasil, a inveja espreitava. E de vez em quando aparecia um engraçadinho:

— Dizem que eu também sou sem coração. Seu doutor, faça o favor de bater meu raio X.

O doutor, um homem bom, a princípio fazia o exame. Depois o doutor, um homem prático, começou a desafiar:

— Faço de graça, mas só se você não tiver mesmo coração. Se aparecer o danado no seu exame, você paga é triplicado.

Isso diminuiu a vontade de muita gente de se certificar se era mesmo tão sem coração quanto parecia. Mas apareceu um:

— Doutor, eu sinto uma coisa muito estranha no peito. Deve ser falta de coração.

— O problema pode não ser de coração, e sim de falta de juízo.

— Mas faça o exame, doutor.

— Se tiver um coração aí dentro, você vai me pagar o triplo.

— Tá certo, doutor. Eu quero mesmo é saber.

Feito o exame a surpresa:

— Olha, o senhor não precisa pagar, não.

— Então eu estava certo, doutor? Não tenho mesmo coração.

— Você tem coração até demais: são dois. Olhe aqui.

E o homem viu que o aperto era falta de espaço. Lá estavam dois punhos fechados dentro do seu peito.

— Uns com tanto, outros com tão pouco — pensei em voz alta.

— É mesmo — rebateu o homem. — Doutor, faça um transplante. Dê meu coração que é demais para esse amigo que tem de menos.

O doutor, que já estava planejando percorrer o Brasil com duas atrações em vez de uma só, tentou desconversar:

— Não é assim tão simples, vocês hão de convir que é preciso avaliar compatibilidade cardiovascular, envergadura do peito, cor e textura do sangue, ascendência milenar, fatores astrológicos, mandamentos espirituais e desígnios divinos.

— Você já ganhou muito dinheiro às minhas custas, doutor — eu intervim. — Agora é hora de retribuir: aceite a sugestão desse homem.

O doutor, que era mesmo um bom homem, iniciou os exames e pasmou com os resultados:

— Mas esse coração aí que está no peito dele é, na verdade, seu.

— Como assim, doutor? — perguntamos ao mesmo tempo.

— Tamanho, tipo sanguíneo, DNA... tudo combina. Agora eu quero é saber como foi que seu coração foi parar dentro do peito dele.

— Deixemos a curiosidade pra lá. Se o coração é dele, eu devolvo.

— E se é meu mesmo, eu recebo.

— Se é assim, eu faço o transplante.

Feita a operação, voltei para a minha cidade e família. E trouxe junto meu amigo, o guardião dos meus sentimentos. Quando ele sente saudade do dele meu coração, eu encosto meu punho fechado bem no meio do seu peito.



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sábado, 12 de julho de 2008

FUTURO [Ana Coutinho]


Não sei se é um sinal, a idade, ou se sou algum tipo de profetiza moderna, uma escolhida, como Buda ou algo assim, fato é que me vejo o tempo todo pensando – e adivinhando - o futuro da humanidade, nossos ganhos e, principalmente, nossas perdas. É, de certo não sou nenhum Buda, talvez uma balzaquiana nostálgica e romântica, no máximo.

Adivinho, minuto a minuto, as frases que serão ditas no futuro. De repente, no meio de um dia comum a imagem me vem à mente: nós, no futuro, num tempo com menos paredes e mais medos, explicando para os nossos descendentes coisas tontas como: “Meu filho, antigamente, láááá pelos idos de 2008, existia nas ruas, telefones públicos aos quais chamávamos orelhão.” O neto olhará aterrorizado: “Como assim, vó? Era uma grande orelha?” “De certa forma”, eu responderei, velhinha: “Era um telefone que ficava no meio da rua, nas calçadas, em esquinas. Primeiro, meu bem, usávamos uma ficha telefônica, era como uma moeda que depositávamos no telefone e, assim, fazíamos a ligação. “O que é moeda, vó?” O menino me olhando com olhos curiosos.

“Não importa... Depois houve um tempo em que utilizávamos cartão, e, inserindo o cartão no telefone ele continha um valor com o qual podíamos ligar para as pessoas, entendeu?” O garoto talvez se assuste. Talvez ache excelente um telefone no meio da rua. Para que mesmo é que temos celulares se os telefones podiam estar fincados na rua? “Vó, vó, que idéia boa, vamos lançar isso de novo, um telefone na rua, ninguém mais precisará de celular!” Será difícil convencer o pequeno rebento que a idéia não é boa?

Ou, como contar às próximas gerações que em um outro tempo existiam pessoas gordas? Sim, porque com essa onda de redução de estômago, lipos e afins, é óbvio que os gordos desaparecerão. Seremos uma nação de beldades, todos magérrimos e lindos, se é que o lindo de lá ainda vai ser o lindo daqui. Talvez os que estiverem já na metade desse século que se inicia, veja em um livro antigo, ou em telas transparentes que surgirão nas ruas, em alguma enciclopédia qualquer, a imagem de um gordo. Quem sabe do Faustão ou da Claudia Gimenez, ela mesma já é uma das últimas de sua espécie. O homem do futuro tomará um susto: “O que é isso, um homem grávido?” Haverá algum de nós, para explicar que não? “Não é bem assim, as pessoas comiam coisas deliciosas e engordavam, ficavam pesadas e, muitas vezes, absolutamente felizes... Mas daí vieram as cirurgias. Ah! elas também Eliminaram do mundo a miopia... Os óculos de grau já estão em extinção, os pobres.”

Talvez seja complicado explicar que usávamos essas coisas no rosto porque nem todo mundo nascia enxergando perfeitamente. Quem sabe os óculos escuros se perpetuem para servir como exemplo de uma época longínqua. Porque as coisas hão de desaparecer...

Ou, se não formos nem tão à frente assim no tempo, hoje mesmo, já há representantes da próxima geração que não conhecem milho de pipoca, nem telefone de disco, muito menos o disco mesmo, de vinil. A propósito, os discos de vinil são para nós o que serão os Cds para os próximos. Os adolescentes de 2030 irão ouvir dizer que, um dia, houve CD. “Como assim?”, perguntarão confusos. Há de haver alguém que diga que CD era um objeto redondo e grande (sim, o pequeno de hoje é o grande de amanhã) que usávamos para ouvir música. Como eles usam o I-pod e os I-coisas que vierem a ser criados até lá e dos quais seremos absolutamente dependentes. E como seremos dependentes...

A dependência que temos hoje, do celular, será a mesma que teremos de coisas como o GPS, por exemplo. Quando formos velhos, em uma mesa de bar (esses devem ser eternos) iremos papear dizendo: “Como pode... Um dia termos vivido sem GPS?” - um dirá ao outro, entre cervejas (ou sucos orgânicos?) “Como chegávamos aos lugares, como nos encontrávamos, como saíamos de casa sem GPS?” Será um espanto que, um dia, tenham existido guias de ruas, esses azuis, que já andam meio desaparecidos por aí...

O futuro, dizem, deve ser caótico com relação aos problemas climáticos. Talvez expliquemos para os mais jovens que houve no mundo uma época em que o ano era dividido em 4 estações, ou pelo menos diremos que elas existiam de fato. “Em julho, meu bem, fazia frio no Brasil!”, diremos, velhinhos, encurvados e calorentos, lá pra 2060...

O tempo há de nos pregar muitas peças. Não teremos mais pêlos, porque eles, desde que as cavernas não foram mais habitadas, também perderam a sua função. Talvez não tenhamos mais pequenos prazeres, talvez descobriremos novos, e grandes. Se alguém me vir por aí, passando dos 100 daqui a uns 70 anos, abriremos de novo esse relato tolo, e, entre uma pílula e outra, conversaremos desse tempo de hoje que, muito velozmente, nos escapa das mãos.

Imagens: Woman Holding a Crystal Ball, Roy Botterell; Bookworm, Angie Hill; Hands Holding Prism, J. James

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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Vitângela >> Leonardo Marona

"Pobre Boris Vian, considerado extremamente contemporâneo". Foi o que ela disse e eu não sabia ainda quem era Vian, mas anotei num papel. Eu era um romântico à carteirinha. Primeiro a negação, depois a precipitação, o sonho com a morte e, por fim, o refúgio, o esquecimento ponderado da existência, o largar-a-deus, o morrer-aos-poucos infalível.

Andávamos e colhíamos cacau numa planície. "Isso não é cacau, isso é comida de hospício", ela dizia, abrindo um casco cheio de cabelos ao meio e enfiando o sumo branco na boca. Escorria pelo queixo. A provocação exata para um desconhecido, em meio a uma tensão sexual inevitável, é deixar algo escorrer pelo queixo. Assim inventamos a paixão – e não era lua cheia. Pobre Boris Vian.

Existe um prazer mórbido na boa vontade. A gente dá o que não tem e recebe o que não pode receber. A verdade é que meu negócio principal eram frases de efeito. "Respostinha", era como ela me chamava.

Andávamos de mãos dadas, entrelaçando os dedos. Engraçado que, andando assim, ela parecia mais nova, e eu via manchas na minha pele um dia curtida de enganos bons.

Eu tinha na época uma fala empolada e, obviamente, ambições poéticas, o que já era ridículo por si só, fora o cacau no Aterro do Flamengo em pleno meio-dia, lendo tal personagem ultra-humano de Tchekhov – ela uma atriz em progresso – o que não era só um absurdo geográfico, mas entre nós ainda havia uma toalha de mesa estampada e, com esforço, colibris se desmanchando em preces orientais, manchas de vinho, poemas sobre ópio.

Ela era o meu messias. Faltava a barba e a tendência a túnica. Tomava remédios potentes e aparecia com as gengivas em sangue às quatro horas da madrugada. Isso era literário.

"Você vive uma vida literária", dizia meu pai, um jornalista. Eu pensava: "E se eu dissesse a ele: você vive uma vida jornalística, o que seria?" De fato não era nada. Ele não entenderia e mudaria de assunto, ou esperaria um minuto, para dizer: "Tem coisas que você não precisa de um psicólogo para saber que são ruins".

Eu era um escritor e não estamos falando aqui de qualidade literária, mas que diabo de vida meu pai queria que eu tivesse, não fosse uma vida literária, eu sendo um escritor, semente do meu fruto podre e único?

Era a vida que eu tinha e muitas vezes ela se desvencilhava de mim de modo que eu ficava solto numa rinha de galo, com os olhos vendados. Quando acontecia dela se desvencilhar eu começava a complicar as coisas, intelectualizar tudo para não ter que lidar com nenhuma novidade.

A perversão era um crime. Me lembro que por anos meu pai, figura importante para um filho sem mãe, dizia: "A culpa é uma coisa fundamental". E ele falava calmamente, ele era extremamente sólido e consistente, profundamente arraigado, mas sabia rir de si próprio. Um sujeito emotivo que, de alguma forma, teve a delicadeza abusada e preferiu apenas me deixar passar, vendo à distância. E eu também não tentei muito, apenas disse muitas vezes "te amo". Mas dizemos isso apenas quando não temos o que dizer.

Mas por que falei do meu pai? É preciso ter um fio. Diz a escola e, afinal, precisamos das regras para quem sabe publicar. Rasgar a pele falsa é muito mais difícil. Tento fazer isso e sinto fome. Lembro que o nome dela era mistura do nome do pai com o nome da mãe. Vitângela.

Cacau, pois então. Quem conhece o cacau sabe do que estou falando. Só há uma pessoa que conhece o cacau – é aquela que o esmaga. Hoje ela se chama Vitângela. Dorme pouco, engloba tudo, tem o pé grande – Boris Vian, uma fraude – e, mesmo que eu queira, não cabe numa página, mas é tarde, e meu nome é mais difícil.


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quarta-feira, 9 de julho de 2008

ANJOS POR ACASO >> Carla Dias >>


Quando se nasce e de nascido experimenta-se a gana por vida. E a curva indica perigo ou já aponta o acidente. Quando se nasce assim, desse jeito um tanto quanto desmedido, vem logo o rótulo e gruda na cara da gente. Mas quem disse que queremos abrandar a dor e costurar as feridas?

Não buscamos cicatrizes, veja bem... Queremos mais é que não haja corte. Então, que tal fazer a corte a essa paz que não tem rótulo como este que foi grudado na cara da gente?

Porque quando se nasce cuspido, sabe? Caindo em qualquer canto da vida e lambuzando-se de abandonos. Quando se nasce assim, logo nos cravam as tachas nas mãos e crucificam nosso futuro. Não que queiramos pular nossa infância, caindo logo de cara no futuro das responsabilidades e ilusões adultas... Queremos sim celebrá-la até que, na idade adulta, nesse futuro mais catártico do que brincante, nós possamos sorrir sem as fendas que nos causaram as tristezas pirracentas.

Entende o que digo?

Espalharam por aí e por milênios, que é preciso doer o diabo para compreender a lição. Carecemos mesmo do dolente aprendizado? Porque também sorrindo aprendemos o afeto. E apesar da compreensão sobre sermos distraídos quando embalados pela felicidade, queremos mesmo sangrar para lidarmos com futuras alegrias?

Quando se nasce assim, em qualquer lugar, sem laços que acolham ou abraços que acalmem, muros altíssimos vêm de brinde. Alguns de nós, espertos que só, aprendemos a ficar em cima deles, observando o movimento. Outros não têm tanta sorte, e dão de querer derrubar os ditos. Passam a vida tentando transpassá-los. Poucos alcançam este objetivo.

Você me ensinou a duvidar da sorte e confiar nos bons ventos. Tirou de mim o absolutismo, essa certeza falseada. Senti-me livre... E eu que nasci às avessas, comprometida com as profundezas dos sentimentos, devo-lhe o exorcismo de um rótulo e outro; de um abismo e outro. Devo-lhe a ousadia do meu desejo, não de ficar em cima do muro ou socá-lo até ferir as mãos, mas sim o de me reinventar com asas.

E o mais tocante disso tudo é que não precisou muito. Bastou que acreditasse na minha existência; que me chamasse pelo nome, concedendo-me identidade... Que escutasse o que eu tinha a dizer.

Quando se nasce assim...

Vou fazer uma dobradura e colocar no pires, junto a sua xícara de café quente. Nesse papel cor de sol, haja o que houver, perdurará meu sentimento de gratidão. Sou grata a você por ser quem é, porque quando se nasce embalado pelo desconforto das máscaras, a honestidade do olhar conquista não só a alma da gente, mas também parte da nossa ideologia. E nos dá fôlego. E nos alimenta de capacidade para seguir adiante.

Pessoas também podem ser anjos por acaso.

Imagens: do filme Asas do Desejo, de Wim Wenders.

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segunda-feira, 7 de julho de 2008

JULHO DE 2018 >> Albir José Inácio da Silva

A página principal do site Crônica do Dia apresenta menus, banners, ícones e pop-ups que se misturam, aparecem e desaparecem, facilitando o acesso dos leitores. Os antigos diriam que a diagramação é um tanto caótica, mas olhos acostumados à revolução da informática transitam sem dificuldade pelas chamadas para dezenas de textos, notícias e outras informações.

Suspensas as negociações após novo bombardeio israelense. Crônica do Dia comemora vinte anos. Sonda espacial envia novas imagens de Plutão. Paula Pimenta emociona com carta à Paula de 2008. Metrô para Niterói tem inauguração prevista para dezembro. Carla Dias conduz o leitor num passeio musical pelos ritmos da alma. Candidato republicano obtém maioria com suspeita de fraude em Arkansas e Minnesota. Eduardo Loureiro fala sobre o lançamento do livro Crônica do Dia, uma coletânea representativa dos vinte anos do site. Trânsito no Rio: rodízio de placas não produz o resultado esperado. Marisa Nascimento fala de sua ligação com o Crônica do Dia, primeiro como leitora e depois como cronista. Comunidade Européia rejeita nova proposta do Mercosul. Pedro Cardoso nos leva nas asas da nostalgia até seus vinte anos. Playboy tem edição especial em julho com mulher graviola. Anna Christina fala dos últimos vinte anos com açúcar, afeto e chocolate. Bush se defende: não havia armas nucleares no Iraque, mas poderia haver. Débora Botcher faz acreditar que vale a pena viver mais muitos anos. Após dez anos Fluminense chega outra vez à final da Libertadores. Sandra Paes canta bolero em homenagem às duas últimas décadas. Três mulheres já estão na disputa pelo Palácio do Planalto.

E prossegue o século XXI, jovem ainda, entre crônicas e notícias, bombas e atentados, exploração e desigualdade, misturando dor e beleza, poesia e lamento, medo e encantamento. E o simples prosseguir já é motivo de comemoração. Comemoremos. É tempo de contar o tempo.

E como o tempo é segunda-feira, a exemplo dos outros cronistas, eu também preciso falar dos vinte anos do Crônica do Dia. Falar de como foi enriquecedora a convivência com escritores e leitores. Relembrar a indicação de Cláudia, a Letti, e a calorosa recepção há dez anos. Dizer como pude fazer amigos, refletir e me emocionar durante esse tempo.

Mas, por precaução, como o futuro é incerto e traiçoeiro, melhor antecipar um pouco essa fala. Para garantia de que seja dito, melhor que se diga logo. Uns dez anos antes.

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domingo, 6 de julho de 2008

MEUS FILHOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Não tenho filhos.

Ainda.

Perdi a única chance que tive de tê-los até agora. E aguardo uma nova oportunidade.

Mas tudo que queremos muito se realiza quase que automaticamente, embora não da maneira como pensamos. O que me leva a admitir que a vida, o destino, o tempo... essa coisa que vai nos acontecendo sem prestarmos muita atenção, me trouxe dois filhos.


O primeiro é uma menina, que eu chamo de Linda Julia, sobrinha de minha querida, ex, falecida e saudosa Déa. Para Linda Julia compus uma canção que diz assim:


Quem me traz uma menina linda?
Se for canhota, melhor ainda.
Sapeca e sorridente,
amiga da fada do dente.
Quem me traz uma menina chique
— mesmo que pegue uma bronquite —,
que adormeça ouvindo histórias
e me vença com sua memória?
Alguém com quem ninguém possa:
me dê um susto com um beijo nas costas;
que tenha idéias mas com trabalho.
Ticha, Ticho, tichu, baralho.

Esta é a Julia, Linda Julia.

Quem me traz uma menina esperta
que já acorde tirando meleca,
que se esconda sob o lençol
e com cheirinho de chulezol?
Quem me traz uma menina atenta
e avoada feito borboleta,
que não desista sem antes tentar
e que adore me enrolar?
Aguém que todo mundo curta
— Bregueço, Boboca, Jujuba,
Mô Fia, Bombom, Bimbinha.
Sol da noite, lua do dia.

Esta é a Julia, Linda Julia.



O segundo filho é este site, o Crônica do Dia, para o qual nunca escrevi nenhum poema, canção ou crônica, embora ele também merecesse. Ele é feito o irmão do filho pródigo: tudo que tenho é dele, atualizado todo domingo num novo texto.

Por uma dessas coincidências ou sincronicidades, meus dois filhos têm agora 10 anos. Julia fez aniversário dia 25 de maio, o Crônica do Dia aniversariou em 1º de julho.

Se Linda Julia tem uma mãe — e uma tia-mãe, e uma avó-mãe — o Crônica do Dia também tem a sua: Carla Dias.
Se Linda Julia comenta que a introdução à peça de teatro noh "está uma explicação muito longa e chata", o Crônica do Dia vai tocando a vida com leveza, sem se achar fazendo Literatura com l maiúsculo. Se Linda Julia aproveita o seu novo direito de andar no banco da frente do carro, o Crônica do Dia também usufrui do reconhecimento desta e das demais crônicas da semana. Se Linda Julia tem alternado entre aulas de hipismo, aikidô, flauta, balé, ginástica olímpica, inglês... o Crônica do Dia varia estilos em cada cronista diário: o humor gentilmente abusado de Felipe; a elegância da prosa do Albir; as divertidas sacadas cotidianas do Maurício; a beleza de fotos e de letras de Paula e de Claudia, que escrevem feito sereias seduzindo nosso ouvido; o sereno de sentimento que a Carla generosamente, e sem falta, pinga em nosso juízo; a humildade despretensiosa da Chris, com crônicas boas de pegar feito areia da praia; o vigor caleidoscópico das cenas do Léo; a conversa gostosa ao pé do ouvido da Cris; os relacionamentos revistos, revirados e comprendidos por Debora e pelas artemísias; e, finalmente, eu, Eduardo, pescando palavras pra fritar pra vocês.

Linda Julia e Crônica do Dia são crianças, menina e menino. Bons de brincar. Bons de cuidar. E dez anos são — realmente — só o começo.



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sábado, 5 de julho de 2008

ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS [Sandra Paes]


Muito bom acordar com o som do bolero na cabeça. O ritmo envolvente me deixa na preguiça e na onda suave e quente de hormônios que falam por mim:- “sem eu ver teu rosto, sem olhar seus olhos, sem beijar teus lábios... (...) foi tão grande a pena que sentiu minh'alma...”

Pulo na cama tentando reter a última imagem do sonho que escapa furtivamente como o tempo e esse tiquetaque silencioso de meu coração desesperado. Quero o resto da letra, quero recordar o que foi isso, quero rever esses dez anos...

Dez anos?! Sério?

Não sou boa em contabilidade de tempo, nem de contas, é claro. Aliás, nos últimos dez anos fiquei farta de tantos números, de toda essa forçada onda “modernosa” de nos pôr a aprender economês. Detesto essa língua, detesto essa quase obrigatoriedade de vigiar em nome do social, em nome da cristandade, em nome da cidadania, em nome do que julgam ser democracia e seus derivados intoxicantes, porque nada fica claro, nada é de fato transparente.

Dez anos de jogo que não escolhi, dez anos de roleta em torno do progresso que não me comove nem me move. Dez anos de tentativa de acerto em nome do povo que continua a se multiplicar sem eira nem beira, apostando no futuro e nada vendo das dez horas da manhã ou da noite.

Minha alma ainda sente pena - pena de ter perdido o primeiro amor, pena de ver a Terra revirada e os homens perdidos por aí tentando se encontrar, nas curvas de cimento e fumaças várias. Minha alma nada sabe de dessincronia e nem quer aprender...

Vou ao bolero. Melhor buscar o velho disco na voz de Gal - assim, quem sabe, esses dez anos passam com melhores memórias. Afinal, a poesia traz o que há de melhor do primeiro amor: a tonteira do novo que tira o chão, o ar, a identidade, o rumo e deixa um vazio danado de bom pra ser preenchido. E a gente não se queixa, nem sabe disso. Também não sabe mais nada...

E aí a alma fica marcada pra sempre. O grau de tonteira fica lá, registrado que nem um vírus tipo H, e mais: essa primeira marca deixa a gente com duas reações: buscar de novo a mesma emoção - quase sempre em vão -, ou fugir dela na tentativa de preservar a primeira memória. Será?

É preciso passar dez anos pra se rever nossas marcas indeléveis? Ou simplesmente nossas memórias deles? Penso que os sinais estão codificados em nós por emoções, sentidos físicos e sentimentos, e qualquer combinação de dois ou mais aciona uma vivência ou uma memória.

Agora, quanto à vida que se passou ao nosso redor, na história da comunidade, no registro feito pelos jornais, nos assuntos ditos os da “moda”, sei não... Eu não me lembro o nome do deputado que elegi há dez anos, nem o vereador, muito menos o síndico do meu prédio, e não tenho a menor idéia de quanto paguei de imposto. Sei que reclamei na época, sei que não fizeram o que era certo com meu dinheiro, e sei que os EUA continuavam ditando as regras do jogo econômico, moral, político e bélico, e que o Brasil sonhava com autonomia, mais distribuição de renda, mais valor da moeda, mais construção de estradas e melhores casas pra todos.

O sonho continua, o concretizar do sonho anda tão próximo de se materializar quanto o bolero que me acordou e me fez sair da cama rumo à cozinha, à cata de um café pra ouvir uma música, que me fala de coisas que só minha alma conhece o código, e tão bem, que guarda em segredo até de mim mesma.

Era o que me faltava: ”descobrir” que não tenho acesso também ao que se passou em dez anos. A seletividade da memória fica sujeita apenas a essa melodia que não pára de tocar na minha cabeça. Você tem isso também?

"(...) Ao recordar que tu foste meu primeiro amor... Recordo junto a uma fonte nos encontramos..."

Ceús, fonte hoje em dia virou sinônimo de renda ou falta de... Que pobreza! As pessoas passaram a ver as outras em função de sua fonte de renda, de seus dotes apostos - siliconados -, de seus lábios feitos com botox, e todo um glamour comprado na estética. O lugar de posso, devo ou quero, base de toda ética, foi substituído por “flats” e imagens virtuais, e lembranças de “o resto desse romance só sabe Deus” ficou apenas na canção que danço porque gosto muito desses "Assim se passaram dez anos..."

Imagens: George Raft Dancing, Bettmann (Detalhe da Foto); Eye with Clocks, Corbis; Roses Floating on Water Fountain, Hugh Sitton


Nakedness
Sandra Paes vive nos EUA.

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RESUMO DOURADO [Debora Bottcher]


Não pretendo que esse seja um texto triste, mas quando falo de dez anos, não posso omitir que exatamente na manhã de 05 de Julho de 1998 eu enterrava meu pai depois de dois anos de batalha contra um câncer. Foi a maior dor que já senti...

Mas foi também há dez anos - em Maio - que conheci meu segundo marido e aprendi de amor, cumplicidade e plenitude, numa relação que perdura com as mesmas bases, renovando-se a cada dia, a cada ano.

Nos últimos dez anos me reinventei: mudei de profissão e me instalei naquele canto de mim que sempre quis ser dona do próprio negócio. Foi preciso quebrar minhas barreiras de acomodação e a eterna inclinação ao pessimismo, para ousar num território desconhecido. A aventura tem rendido realização e prazer, e ainda me permite conciliar a metade de mim que pertence ao mundo das Letras para continuar escrevendo - não tanto, vocês sabem, mas ainda assim com a honra de integrar esse
espaço, onde primeiramente cheguei como leitora voraz.

Também arquivei o projeto de ser Mãe, descobrindo que Maternidade se faz de muitas e diferentes formas, e que não é preciso parir para se ver dentro desse cenário. Com cinco enteados - herdados de dois casamentos anteriores de meu marido -, eu sou o 'sonho de consumo' de muitas mulheres: sou avó - postiça, é verdade, mas isso não tem a menor importância, creiam-me - de quatro crianças adoráveis sem ter tido filhos. Além do que, contrariando a imagem distorcida que atualmente se imputa às madrastas, descobri que uma mulher pode amar os filhos de outra com uma intensidade singular, e o melhor: sem os embates inerentes às relações entre pais e filhos, porque tal condição nos dá mais leveza, um olhar mais complacente, sem cobranças nem pré-julgamentos.

Nos últimos dez anos consegui fazer as pazes com a minha mãe, quebrando o círculo vicioso de distância e mágoa, e com o perdão mútuo vamos traçando uma nova linha de ligação.

Confirmei minha alma cigana e, em dez anos, mudei seis vezes de casa, cada vez reconstruindo um mesmo lar num novo teto - sempre mais bonito, mais aconchegante, mais acolhedor.

Fiz 40 anos - e isso não causou nenhum estardalhaço em mim -, engordei, emagreci, engordei de novo (e ainda não emagreci!), adoeci, me curei. Passei por crises existenciais, emocionais, pessoais: sobrevivi a todas - refazendo-me, renascendo, recomeçando. Chorei - mais do que gostaria, não posso negar -, mas também sorri e ri muito.

Acima de tudo, vivi intensamente, pois foram anos de transição, superação, confirmação, de descobertas e conquistas, de realizações. Talvez tenham sido meus anos dourados e eles me calçam para os anos futuros com esperança, cada vez mais liberdade de expressão, menos peso e, espero, tanta ou mais alegria. Que venham, então, os próximos muitos dez anos - para todos nós!

Imagens: Travesseiro, Autor Desconhecido; Dressmaker's Notebook, A. Inden; Tempo, Flavia e Helena

Expressões Letradas

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sexta-feira, 4 de julho de 2008

DEZ ANOS ESTA NOITE >> Fernando de Morais


Não tenho memória exata do instante em que, pela primeira vez, suspendi o passo, olhei para baixo (ou para o alto) e pensei: "lá se vão dez anos..."

Suponho que esse pensamento tenha aos poucos dado lugar a este outro: "mas.. como me foi acontecer isso?" A dúvida talvez explique o passo interrompido no susto, como quem disfarça um flagrante ou, pior, descobre uma doença incurável. Na presença do tempo, súbita e ignorada, é impossível não agir como quem desperta ao fim da viagem, o ônibus vazio, e onde estão malas? Onde quer que você esteja, o futuro há sempre de flagrá-lo em desalinho, a baba escorrendo, a braguilha desabotoada.

E é justamente aí que nos socorre a frase: "olha lá, meu camarada, que já se vão dez anos". Mas a verdade, a verdade dura, é que ano algum se foi, pois só então é que terá chegado. Sob efeito dessa presença, talvez lhe ocorra a pergunta: "com quem estava falando, afinal?"

A questão é particularmente difícil para quem os anos não conduziram de volta a Ítaca ou não mostraram lado de lá das muralhas sagradas. Dez anos são uma vida, como dez são os mandamentos, dez as cordas da lira do salmista, dez as cortinas do tarbenáculo. Mas por que dez anos?

O número dez encerra a série infinita dos inteiros. O que vem a seguir você não sabe, mas já sabe do que se trata. O que vem em seguida é você mesmo, em você mesmo transformado. Por isso, para saber com quem se fala, e ter presente a sua figura, é preciso erguer um brinde - "dez anos lá se vão!" - todas as noites.

Pois aquele que suspende o passo, olha para o alto e confessa para si mesmo, enxerga da vida a imagem simultânea, a forma acabada, instante miraculosamente subtraído ao fluxo. E escuta, da carranca que o encara, o diálogo Daquele Que É com aquele que fala:

— Força é mudares!

— "Força é mudares...", ecoa o verso nu de um torso mudo. Fazer de si o que sonhares. Será sempre a oração noturna... da memória, um açoite: dez anos esta noite.

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Dez Anos (bebe da água) >> Leonardo Marona

Dez Anos é um senhor de chapéu de feltro, com tempo de pensar. Por quanto tempo passamos Dez Anos? Por quanto tempo dissemos “é tempo de pensar?” E depois pensamos. E passamos despercebidos pelas lesmas e serafins. Há quantos anos o último tombo intencionado? Lembrar da velha agulha, que aponta as idéias e também não perdoa, que assassina os próprios filhos em nome da compaixão.

Intelectualizar o que não se pode saber, saber o que não se pode intelectualizar. Quem tiver essa dicotomia presente no sangue e corrente nos erros terá o mundo sempre aberto e perigoso, mesmo escondido em casa, com chapéu de feltro, como Dez Anos. Dez Anos passou dez anos à janela. Ser a própria janela dos anos, moldura fictícia. Voltar a falar e, então, voltar a falar. Mas qual será o momento em que os nervos darão respaldo à prece?

O quase tombo dessa espécie de filho, é disso que Dez Anos fala à janela. A falta de conclusão sobre antigas lapidações, as córneas muitas vezes latejando em desespero burro, o lado áspero da flexão dos cotovelos sobre o pano gasto, é disso que fala Dez Anos em ruminação catártica.

Talvez também de um beijo fugaz e uma corrida para casa. Que casa? Talvez o estampado coração de quem vacila. Mas onde coração, onde amor, onde consciência? Fiódor irreparável no mais novo milênio, Cáucaso no Egito, Ramsés na Sibéria, ouvindo alto o que banhado em sangue é sussurrado. Anjo no reformatório, assassino de barba rala, o que nunca se aproxima, sempre recebe, o amante tolo, o equivocado das frases entrecortadas, o jubiloso desafio de morrer de si só, o não comparável arrebatamento por algo que mordeu e foge. Dez Anos tem um tempo para pensar no que não foi. Ao dobrar determinada esquina, Dez Anos significa o mundo que ficou aquém daquela esquina. O trágico dilema, o medo da morte e o afeto entre amantes, Dez Anos são pedaços espalhados pelo chão, à procura dos óculos, nenhum pássaro ao redor, que lembre o trecho de uma sinfonia russa.

Mas Dez Anos também não está morto e diz do alto da sua montanha de plástico: Bebe da água, meu amor, cede amor ao terminador de frases. Bebe da água, diz o título, que não é veneno e não é desse planeta, que é sem estilo, quase torto, sem cadência. Dez Anos é quase um personagem com garrafa de rum na mão caída e perda óssea no maxilar, batom escuro. Dez Anos usa o charme dos esquecidos, aquece o peito dos decapitados. Esquece o resto, Dez Anos, solta os suspensórios e enrola o teu cigarro de bolso – leva contigo as chaves mais nulas. Mas Dez Anos também levanta a pergunta:

E quando estiver seca a fonte, pagos os anos com pele solta, o que será então de Dez Anos, com os anos nas mãos como areia, o rosto feito lápide, o amor só das minhocas?


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quinta-feira, 3 de julho de 2008

PRESTÍGIO [Anna Christina Saeta de Aguiar]


No dicionário, o verbo prestigiar é definido, quando transitivo direto e pronominal, como "conferir prestígio a algo ou alguém". Já quando como transitivo direto, prestigiar é entendido como valorizar alguém ou algum evento, com sua presença.

Depois de tantos meses sem escrever, uma amiga perguntou se eu não sairia do meu recolhimento para prestigiar os dez anos do Crônica do Dia. Eu respondi que, infelizmente, não seria possível.


Porque não teria lógica eu vir aqui "prestigiar" o Crônica do Dia, quando na verdade eu é que sou prestigiada por ter o privilégio de participar deste que - falo sem medo, sem timidez, sem qualquer hesitação - é o mais agradável, o mais organizado, o mais honesto e bem freqüentado veículo para novos autores na internet.


Conheci o Crônica do Dia há coisa de sete, oito anos. Nessa época eu estava me embrenhando no mundo, até então desconhecido para mim, da literatura virtual. E ler gente como a gente escrevendo é uma coisa louca. Sei lá. Parece que é fácil escrever. Parece também que todo mundo escreve. Todo mundo, até eu? Nunca antes tinha escrito, quer dizer, tinha escrito uma meia dúzia de textos, estimulada que estava pelo que vinha lendo, mas nunca escrevi como as pessoas escrevem.


E daí o convite para escrever para o Crônica do Dia. Dividir páginas com a profundidade de Carla, com a juventude e o frescor da Paula, com o talento puro do Eduardo, com a maturidade e a sabedoria da Débora, com a leveza do Maurício, com a criatividade e as sacadas geniais de todos os escritores que já passaram e que continuam passando pelo Crônica... não é mole, não. É assustador, é... prestígio.


Prestígio, que também é nome de doce, pura delícia, chocolate com côco, o preto no branco formando um sonho de cores, sabores, texturas, todos opostos e perfeitos quando unidos. E o Crônica é exatamente isso: uma combinação deliciosa de pessoas, estilos diferentes, crônicas e fantasias, contos e histórias. Diariamente. Há dez anos!


Só posso agradecê-los, portanto, por me prestigiarem ao permitir que eu lhes dê os parabéns assim, aqui, misturando-me a vocês. Os primeiros dez anos foram ótimos! Que venham os próximos.



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