domingo, 29 de junho de 2008

A PÁ LAVRA >> Eduardo Loureiro Jr.

Annalisa Shepherd"Penetra surdamente no reino das palavras."
(Drummond)


Você conhece o poder das palavras. De salvar uma alma penada das penas de outras palavras. De cavar sepulturas. De alçar às alturas. De ajoelhar. De fazer chorar: de dor, de alegria. O poder da coberta e o de desnudar. De mover as pessoas. De parar as pessoas. De impedir as pessoas. De tudo o que há, podem as palavras. E podem — ainda — de tudo o que não há, mas que se possa imaginar.

Conhecendo o poder das palavras, a gente tenta se apoderar. Qual a palavra que abre? — Abracadabra. Qual a palavra que voa? — Pirlimpimpim. Qual a palavra que encerra? — Chega! Qual a palavra que entrega? — Adeus. Qual a palavra que leva? — Inté. Qual a palavra que pede? — Perdão. Qual a palavra que toca? — Vem... E por vezes acertamos a palavra e o desejo, e sentimo-lhe a firmeza como se o poder fosse nosso.

Mas a palavra vem de antes do nosso corpo. "No princípio era o verbo", e não a carne. Nós fomos feitos da palavra — não a fazemos. Quando pensamos que a empregamos corretamente, estamos é sendo usados por ela. Ou — pelo mais — sendo UM com a palavra. "O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa vem dos lábios do Senhor." (Provérbios 16:1)

Então — humildes — em cada coisa tentamos apenas — a penas — ser a boca da palavra cujo poder nos evoca. E torcemos para que em meio àquilo tudo, àquele tanto de palavras, alguma haja que alivie o nosso coração e também a corda-ação do outro. Sem o certo poder de produzirmos o efeito desejado, resta-nos a esperança de que a terra que a pá lavra seja um bom terreno para os nossos sonhos.



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sexta-feira, 27 de junho de 2008

mais uma tarde entre a vida e a morte >> Leonardo Marona

era início de verão,
toda hora parecia meio-dia.
eu estava desempregado,
sem namorada, sem saco,
sem dinheiro obviamente.

meus amigos haviam viajado,
eles foram para muito longe,
e mesmo os que estavam perto,
acenavam de cima dos navios.

mesmo assim era de manhã,
uma dessas manhãs de verão,
e o tempo estava quente demais,
mas eu andava escutando Lou Reed,
chutando pequenas pedras,
assobiando para as garças,
enquanto nos cantos mais escuros
pessoas pediam esmolas,
pessoas sem pernas, sem olhos,
pessoas falavam sozinhas no calor,
sem amor, sem afeto, largadas,
mas eu sabia que era preciso
continuar andando e, se possível,
ainda tentar mostrar um mínimo
de alegria por não ser ainda
a minha vez.

Lou Reed falava sobre piranhas e travestis
que rodavam pela Western com Hollywood,
onde, um dia, certo poeta bagaceiro viveu.
Lou Reed falava também sobre garotos ricos
que virariam padres, sobre cartas de tarô
e muitas mulheres que falavam demais.
de alguma forma ele me ajudava a seguir.

a mim restava continuar andando,
entregar dois filmes na locadora,
pagar por eles já que eu não havia
morrido ainda.

um era Laurence Olivier: Hamlet.
o outro era um filme médio, com um final terrível,
do Bob Rafelson, com Bruce Dern e Jack Nicholson.

a felicidade custava algumas músicas
piratas e 16 pratas, em notas de papel.

entreguei os filmes, a menina da locadora
era magra e tinha bafo, mas foi simpática
e, afinal, é bom que nem todo mundo
tenha que ser perfeito e precise
de uma causa.

saio da locadora dentro de uma redoma
que anda sempre que eu também ando.
entro num bar e peço uma cerveja.

o dinheiro está no fim, portanto, foda-se.
mortos passam andando com pressa e,
de algum jeito estranho, isso é bom:
apenas sentar no meio-fio do inferno
e simplesmente sorrir.

ao meu lado há uma senhora de cabelo duro,
cerca de cinqüenta anos e um longo passado,
provavelmente de abortos e bêbados injustos.

ela usa um vestido colorido,
moda na solidão dos tempos.
a paisagem parecia derreter.
tarde demais, terça-feira nula.

a mulher ao meu lado joga todo
seu dinheiro fora em caça-níqueis,
cocas-colas de vidro e promessas,
no que talvez um dia tenha sido
alguém que está perdida
mas de certa forma mantém
um pouco de ternura – e não sabe.

aquela mulher apodrecida,
aquela alma esburacada,
aquelas apostas jamais ganhas,
aquele despejo de ternura,
mais Lou Reed e uma cerveja,
e ainda por cima Henry Miller
– suas ondas assassinas na mochila –
adeus Laurence Olivier, adeus Hamlet!
– chega de tantos conflitos e crânios.

aquela mulher que fuma sem parar
– eu sei, alguns de nós sabemos –
o quanto ela chora e choramos todos
e alguns não choram, mas sangram dentro,
e não temos empregos, foram-se os amigos,
dentro dos bolsos uma notificação de despejo,
a última carta de uma fêmea: “te amo, adeus”.

pessoas assim, como era aquela mulher,
a quem os mortos olham como perdidas,
tem às vezes a missão de salvar meu dia.

eu não a conheço.
provavelmente para ela
eu seria apenas mais um
bêbado vil e injusto.

mesmo assim a amo
e preciso dela tanto
quanto deste poema,
que não é nada, mas
é meu e de todos nós,
como o dia seguinte.

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

NA TEORIA TODOS SOMOS PRÁTICOS >> Carla Dias >>

Há dias em que perguntas simples, e que merecem respostas objetivas, caem na vida da gente como se fossem chamarizes para desabafos ou delírios.

Ontem uma amiga me perguntou como eu estava, e ao invés de responder “tudo bem” ou “mais ou menos”, contei a ela uma historinha:

Eu... Nada. Estou confinada no meu mundo imaginário, onde os cobertores são quentinhos e o vinho substitui a água. Onde o pianista, que também arranha um violão, compõe ao lado de onde escrevo meus livros. Há quarto de hóspedes na casa, para receber os amigos, assim como canecas em louça coloridas para servi-los com café ou chá.

Sim...Eu ADORO canecas em louça!

Continuando...

Fico pensando se, valendo a previsão que um amigo fez para mim, há alguns anos, dia desses eu não entrarei nesse universo fictício e interessante e ficarei por lá mesmo... Maluca de tudo e, finalmente, feliz.

Hoje, outra amiga caiu na besteira de perguntar como eu estava:

Com um mau humor intruso que só... Onde já se viu mau humor invadir o dia da gente desse jeito!

O mau humor passou, depois de dois minutos e pouco de conversa.

No fundo, eu até gosto de dar respostas prontas: tudo bem, obrigada... Melhor é impossível (isso me lembra Jack Nicholson e Helen Hunt no filme) e etc e tal. Mas confesso que gosto muito mais de esticar respostas, em dias mais inspirados, claro.

Então, cuidado com as perguntas que me fazem...

Mesmo durante as conversas, eu acabo pegando as malas da doidice e viajando no assunto... Basta me dar corda.

Dia desses, um amigo estava baixo astral, cansado da rotina, dizendo que a vida andava chata. Passamos um tempão tentando encontrar algo que o faria feliz, mas nada! Pior do que estar triste é não saber o que poderia lhe fazer feliz, e ainda não estar no ponto de usufruir dos benefícios dos antidepressivos.

Então, eu inventei uma nova profissão pra ele:

Colecionador de histórias verídicas... Isso lhe dará um bom futuro, depois de conseguir um repertório bacana de intromissões na vida dos outros. Pense bem: você pode ser promovido a contador de histórias alheias e se aposentar como um ícone da arte de ouvir o que as outras pessoas têm a dizer e transmitir essas informações, sem ser rotulado, cruel e erroneamente, de fofoqueiro.

Bom, ao menos ele deu boas gargalhadas.

Semana passada, uma prima chorosa reclamava que não encontrava alguém bacana com quem se casar e ter filhos. Foi um chororô de cortar o coração. Ela até disse que achava que não era digna disso!

Enfim, eu já tinha esgotado as frases feitas e alguns provérbios e ela continuava naquela tristeza toda. Então, disse a ela que encontraria alguém, porque ela merecia... E mais! Que eu faria a produção do casamento dela.

Comecei a fazer os planos. O coração na mão e a imaginação a mil.

Há dias, também, em que conversas difíceis merecem um pouco de inventividade. Despertar em uma pessoa a esperança e o desejo de seguir adiante pode ser fácil. Complicado é que essa pessoa, ciente do que se passa com ela, deve alimentar disposição para encarar as suas batalhas pessoais.

Agora, com licença, mas vou tomar um café na minha caneca em louça... E ouvir um pianista imaginário tocar uma canção que ainda não foi composta.


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terça-feira, 24 de junho de 2008

21A -- Paula Pimenta

Ontem de manhã, bem de manhã mesmo, 7h pra ser mais exata, eu já estava dentro de um avião tentando chegar à minha cadeira de sempre. Toda vez que eu viajo, eu escolho a 21A, que fica ao lado de uma janela, que não é muito na frente, nem muito pra trás, e que muitas vezes vem acompanhada da sorte de ninguém comprar suas ‘irmãs’ 21B e 21C, e eu posso viajar bem tranqüila, sem ficar encostando no cotovelo de ninguém e sem ter que agüentar ronco na minha orelha (porque sempre tem muito dorminhoco nos vôos de 7h da manhã).

Só que aí, quando eu sobrevivi àquela fila de gente que fica espremendo coisas dentro dos bagageiros sem a menor consideração por quem tem que esperar em pé até que eles resolvam a vida, e consegui chegar ao meu querido número 21A, tinha uma menina de uns 16 anos sentada BEM no meu assento. Eu - que já estava com paciência zero por causa de: a) ter acordado às 5:30h pra pegar o dito vôo, b) ser segunda-feira, c) ter acabado de despedir do meu namorado e com toda a tristeza do mundo no coração - coloquei a minha passagem na frente dela (que por sinal estava dormindo encostada na MINHA janela) e perguntei: "O seu é o 21A??", ao que ela abriu os olhos como se fosse a coisa mais normal do mundo roubar o lugar dos outros e falou: "Não, é o 21C. Troca comigo?"

Me diga, você aí, que está lendo esta crônica-desabafo. 7h da manhã. Você ainda não comeu nada, além de um Trident. Aquele vôo vai te levar para uma distância de 15 dias do seu namorado. Você quase não dormiu. Você tem uma semana de muito trabalho pela frente. Tudo que você quer é uma janelinha de avião pra lembrar que pelo menos acima das nuvens o horizonte é sempre azul... e vem uma folgadinha pedir pra você trocar com ela a janela que você comprou desde antes dela nascer! O que você responderia?

O que eu respondi - aliás, o que a minha timidez respondeu - foi um baixinho: "Troco..", com vontade de chorar e de sentar a mão na cara da menina ao mesmo tempo. Só que, paralelamente a isso, tinha uma daquelas tais pessoas sem-noção socando a mala no bagageiro e impedindo que eu me sentasse na 21C, e durante os três segundos que isso durou, eu olhei de novo pra menina cara-de-pau olhando toda contente pela minha EX-janelinha, e - em um ímpeto de coragem - enfiei de novo a passagem na frente dela e falei: "Aqui... é que eu passo mal se eu não for na janela!"

Ela levantou na mesma hora, com uma expressão meio assustada, enojada e emburrada ao mesmo tempo e devolveu o meu lugar. E eu ainda pisei no pé da amiguinha dela, da 21B, que nem se deu ao trabalho de dar licença para que eu pudesse entrar.

Eu acho que se eu fosse mais vezes impetuosa assim, minha vida seria mais fácil e feliz. E com certeza menos gente tiraria vantagem da minha timidez. Mas pelo que eu sei de mim, outro impulso como esse só daqui a uns 10 anos... ou da próxima vez que alguém tentar roubar a 21A de mim!


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domingo, 22 de junho de 2008

UM A MAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Ana Cotta Há um quarto a mais na casa. Uma suíte onde não se pensava haver nada. Um guarda-roupa, uma cama, uma estante e um banheiro comprido e espaçoso. Um quarto de hóspedes sem hóspedes que pode ser usado pelo dono da casa.

Há um canto a mais no ar. Um som onde só havia silêncio e barulho. Uma nota, uma melodia, um arranjo e uma canção de letra delicada. Uma música procurando o seu ouvinte.

Há um pensamento a mais na mente. Uma idéia onde só havia oposição. Uma palavra, uma expressão, um sentido e uma história desmemorada e conhecida. Uma vida contando seu rumo.

Há um sorriso a mais na cara. Uma alegria onde só havia dentes. Uma brecha, uma abertura, uma expansão e uma fé capaz de mover a si mesmo. Um encontro de si consigo.

Há um tempo a mais, um sonho a mais, um milagre a mais, um detalhe a mais... de tudo um pouco a mais guardado entre as dobras do que se vê.

E há o espanto — libertador — desses achados.

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sábado, 21 de junho de 2008

AGENDAS ROTINEIRAS [Sandra Paes]


Parece redundância. Talvez seja. Se é pra estar na lista do que fazer, parece óbvio que é pra seguir uma certa rotina. Mas há certas coisas e atos que se tornam incorporados, e, não sei que parte do corpo ou do cérebro dita suas normas, mas todo mundo parece seguir sem pestanejar.

O mais chato e irritante é ter que ouvir o de sempre: “Eu estou apenas fazendo meu trabalho.” Aí é que mora o perigo. Não sei quando foi que inventaram a escravidão do trabalho como forma de conquistar a liberdade. E com isso se justificam os cortadores de árvores, os matadouros de aves e vacas e porcos, os cortadores de gramas e podadores de árvores naturais, os construtores compulsivos com seus cimentos e tijolos empilhados, os policiais de ronda que espancam as pessoas em nome de manter uma possível ordem, as faxineiras domésticas que arrastam os moveis e passam o aspirador de pó com o rádio ligado às tantas - mesmo que tenha alguém em casa de cama, não suportando barulho -, os garçons e catadores de pratos das mesas que o fazem sem pensar, mesmo antes de se terminar o jantar servido, etc.

E assim vou enumerando essa massa de “gente” que se justifica ser humano, cumpridores dos deveres, vendedoras de seu tempo de vida em nome do salário pra consumir mais coisas e mais matérias, sem pensar se de fato é preciso.

E mais alguns carros são lançados na cidade, todas com seus pilotos automáticos, atrás de uma fila, indo para o trabalho - cumprindo suas agendas. E tome mais poluição, mais venenos em todos os sistemas, mais desequilíbrios nas cidades, nas casas, nas relações todas, até a total sacudida do planeta.

E segue-se o rumo “natural” das coisas que é apenas a falta de senso. Já nem digo mais que seja bom ou ruim, mas algum senso.

O “eu não quero nem saber porque tenho mais o que fazer” virou um jargão altamente aceito e justificável diante de toda e qualquer omissão. Não se pára mais pra ver o custo benefício de nada. Sacrifica-se mais alguma coisa, mais uma hora, mais um diálogo, mais uma presença, mais uma refeição decente e natural, em nome do correr pra matar um leão. E todo mundo achando isso o máximo. Seguir a agenda, cumprir a rotina - parece coisa de ronda de soldado de plantão que nem sabe o que está fazendo na guerra, e porque está lá, mas está cumprindo seu dever.

Eu fico aparvalhada, catatônica quase, diante da constatação desse programa destrutivo que degrada toda a espécie e a condena à extinção e a todas as outras. A ambição do fazer, o correr atrás de algo, o ter que fazer por fazer, virou mais do que um hábito ou um ato de sobrevivência: trata-se de uma endemia coletiva, que nada soluciona. Não acaba com a fome do planeta, não apazigüa os ânimos de nenhum ser respirante, não traz nenhum bem efetivo pra ninguém em nenhum lugar, apenas implementa a fome de ganhar, de investir em mais ilusões pra tentar saciar o vazio que consome internamente cada um e por isso há que se ocupar o tempo com qualquer coisa pra não encarar a terrível forma de escolher o próprio destino.


Escolhas... Quem está escolhendo o que diante do fato de cumprir as agendas e as rotinas? Quem ousa quebrar com seus próprios vícios pra escutar o grito silencioso de alguma virtude?


Os dias passaram a correr mais rápido, parecem seguir o ritmo acelerado da fome insaciável de tantos de ter mais uma graninha pra comprar mais uma bugiganga. E por que as horas se escasseiam, há que tomar pilulas mais, vitaminas a mais, ginásticas a mais, pra continuar a manter a corrida desenfreada em busca de alcançar o pique que é o portal pra destruição de todos nós.

Soube recentemente que falta apenas quatro anos pra grande virada... Do jeito que vamos, a Terra nos vai paralizar a todos, para sua grande sacudida no final de 2012.

Enquanto isso... Ooooohhhhhmmmmm!


Imagens: Desk Covered in Sticky Notes, Kate Mitchell; Dressmaker's Notebook, A. Inden

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Enquanto Juca lia Fausto Wolff no jornal >> Leonardo Marona

Juca e Dato durante certa manhã de frio, enroscados debaixo de cobertas já não tão limpas, no chão da sala com cozinha embutida.

As mãos vermelhas e quebradiças refugiadas em xícaras com café forte e amargo. A chuva estala as janelas e é tão difícil se ver livre da poeira quanto do passado. Os jornais estão espalhados pela sala, com marcas antigas de copos de vinho e pontas de cigarro – algum amor perdido em noites sem sono.

Dato veste apenas meias de lã acinzentadas e uma cueca samba-canção esgarçada. Está fora de forma, de modo que ostenta mamas salientes, mas ainda tem belas coxas e se orgulha delas.

Juca corta as unhas do pé numa bacia e fuma um cigarro ao mesmo tempo. Com os cabelos presos em coque por uma caneta de cinqüenta centavos, bate as cinzas no tapete “do tipo polaco” e funga com o nariz entupido por causa da alergia ao pêlo do gato. O jornal dobrado no chão duro de tábua corrida não representa nenhum aconchego.

- Outro dia me chamaram de reacionária porque eu disse que era bom a gente abrir os olhos com a Amazônia - diz Juca olhando para o jornal, cortando as unhas e tragando sem parar. – Antes que ela vire um parque aquático americano.

Dato apenas olha e não diz nada. Odeia cigarros e quem os fuma, com exceção de Juca. Em alguns momentos. Não neste. Depois estica a coluna com os braços para cima. Sente-se feliz porque ainda consegue ver as linhas das costelas através da pele. Relaxa novamente. Então olha para suas mamas enrugadas: o tempo não dá trégua a qualquer tipo de boa intenção.

No rádio, a mulher tem uma voz nasalada e levemente devassa. Um pouco fora de sintonia, diz:

A seguir, concerto número 1 para piano de Brahms, pela Orquestra Filarmônica de Israel, com regência de Zubin Mehta e Radu Lupu ao piano.

- Radu, quem? – pergunta Juca esticando o jornal.

- Um solista – diz Dato calçando um pé do sapato.

- Sim, mas um pianista havaiano?

- Como você sabe?

- Pelo nome... Lupu... Deve ser nativo.

- É romeno.

- Eu achava que Lupu era doença crônica...

- Lupus.

- Pois é...

- Ataca principalmente mulheres brancas.

- O que causa?

- Inflamação no corpo, nas juntas, no couro cabeludo... Uma doença africana.

- Mas Lupus não é também a marca de meia? – diz Juca lixando o calcanhar.

- Lupo – diz Dato.

- Pois é...

Então Dato levanta e mistura mais conhaque com café. Cueca branca de braguilha aberta. Cabelo amassado na cabeça desproporcional. O rosto vincado por dias e dias de dobras de travesseiro e chuva fina. Barba demais, o pescoço tomado. Meias cinzentas, de algodão.

- Por acaso você pensa que é Samuel Spade? – diz Juca recolhendo unhas do chão.

- Só se você fosse uma daquelas putinhas com piteira na boca – diz Dato calçando o outro sapato.

- E digamos que eu seja, ou digamos que eu possa vir a ser uma putinha...

- Então neste caso, minha querida, eu sou, sim, o Samuel Spade.

Beijos no sofá. A um incomoda o mau hálito do outro. Não reclamam, mas, em compensação, também não fecham os olhos. A chuva aplaude do lado de fora. As folhas nas árvores se agarram, riem e choram. A gravação de Brahms é tão antiga que faz o mundo inteiro chiar na arranhadura da vitrola feita de madeira e ouro forjado. É quarta-feira, Dia da Independência, mas parece domingo e todos estão presos de alguma forma, a maioria sem saber.

Dato ama Juca que ama Dato que ouve há anos que Juca o ama e diz há anos que ama Juca e pensa há anos que se a ama tanto não deveria precisar dizer tanto que ama Juca. Mas às vezes são ditas tantas coisas que não sobra tempo para o amor. E mesmo no céu não há fogos de artifício em lugar nenhum.


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quarta-feira, 18 de junho de 2008

CONTINUO SEM SABER DE MIM >> Carla Dias

Estava nessa correria, tropecei, caí, levantei, sacudi a poeira e dei a volta pela sala, procurando bugigangas que arquivo na alma, enquanto falava com as paredes, reiterando o mantra: essa não sou eu.

Não sou a pessoa que encontro a cada manhã, o olhar enevoado, a rotina desprovida daqueles gracejos usuais, provocados pela vontade de pensá-la colorida; a rotina lírica, atrevida.

A ousadia me dispensou há tempos, pois até mesmo ela tem de se alimentar. E ando dando de comer a ela somente as raspas, os restos, a letargia. As esperas vãs.

Hoje um estranho me pediu informação sobre ônibus e, do nada, disse para eu não cortar mais os cabelos. Será que ele enxergou do lado contrário do espelho, alcançando o quando eu parecia mais certa, cabendo em mim, ainda que descabida de tudo? E, certamente, mais descabelada...

Dei a informação sobre o ônibus e ignorei os cabelos.

Antes que me esqueça de esclarecer: não era apenas sobre ônibus pra Lapa e cabelos cortados. O estranho disse que era recado de Iemanjá. E eu sorri da ironia... O que desejaria a rainha do mar de uma pessoa que mantém os pés no concreto há tanto tempo?

Há pessoas sensíveis nessas ruas e, às vezes, encontro alguma que me faz re-experimentar o passado e o trampolim para o futuro; desvendar delícias no presente. E a confusão amarga, mas depois se torna agridoce.

Estava zanzando, rodopiando sem destino pelo quarto. Sambei tristezas ancestrais; distraí mágoas com meio-sorrisos. Invadi o passado e trouxe de volta as lembranças de mim, quando pensava no amanhã como ele fosse um milagre certeiro: acordar, enxergar, tocar, experimentar.

No meu dentro, a rotina ainda tem seus momentos de excentricidade: flerta com distâncias, embarga mágoas; tem amor arisco, doce, tresloucado. Nessa rotina, os sabores se misturam, os perfumes também.

Assopro samambaias, balelas me inspiram verdades. E clamo para que precipícios cuspam frenesis e eu possa colhê-los feito buquê de noiva que foi lançado. Quero noivar com indecências, das que apimentam amor à beira da mesmice.

Meus erros me fortalecem, mas também me levam a ensimesmar. E lá no mais profundo de mim, necessito de gritos, tambores alucinados, noites a sós com as promessas de realização sendo cumpridas.

Há uma de mim que vive meu fora, e ela é cética, prática, medrosa. Há uma de mim que vive meu dentro, e ela não é, porque se transforma constantemente, com a mesma euforia dos sentimentos. Elas se sentam, lado a lado, parecem irmãs, mas brigam pela minha alma. E é justamente essa uma de mim, a que nasce dessa disputa, que busco reconquistar, porque ela tem flores nos cabelos, esperança no coração, música na alma, poesia nas veias.

A miscelânea de sensações me faz doer o estômago, ao mesmo tempo em que me acalma: ainda tenho jeito.


Joss Stone - Right to be wrong

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domingo, 15 de junho de 2008

AO VIVO >> Eduardo Loureiro Jr.

Autor não identificado. Fonte: http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=49785668Tem coisas que é melhor ao vivo. Tomar sorvete, por exemplo. Não deve ser bom tomar sorvete no passado. A lembrança de tomar sorvete, mesmo que muito prazerosa, perde para uma nova oportunidade de meter os lábios no frio ardor de um açaí com menta ou de um tapioca com milho verde. O mesmo vale para tudo que é alimentação. Vá lá que um Proust da vida consegue tirar leite de pedra, quer dizer, leite de madeleine, mas é coisa para poucos: aqueles que vivem mais na imaginação do que no corpo.

Já outras coisas parecem estranhas no aqui e no agora: literatura, por exemplo. Todos os dias eu pego um ou dois ou três livros para ler e não fico pensando "e se eu estivesse do lado do autor na hora em que ele estivesse escrevendo?" Talvez eu nem tivesse paciência: "Vamos lá, cara, escreve logo, não tenho todo o tempo do mundo", "o quê?! Você vai ao banheiro?! Mas justo agora, na melhor parte do livro", "Não acredito, você voltou do banheiro mas nem lavou as mãos e vai meter esses dedinhos sujos no teclado?"... É, acho que nem minha admiração por Fernando Pessoa resistiria a esse choque de realidade.

Então o que acontece quando a gente faz ao vivo uma coisa que não deveria ser ao vivo? Ou, por outro lado, o que acontece quando a gente usufrui posteriormente de uma coisa que deveria ter sido desfrutada no presente? Como tomar um sorvete sem ser ao vivo? Como fazer sexo sem ser no calor deste momento? Como abraçar o filho ou a sobrinha em outro tempo que não o agora? Ah, o tempo, esse assunto intrometido...

E se essa própria oposição for uma ilusão? E se não houver coisas que ficam melhor agora ou no passado? E se não houver diferença entre o sorvete que se toma com a boca e o sorvete que se lembra ter tomado — com a memória? E se além desses dois sorvetes — que são um único — ainda acrescentarmos um terceiro sorvete, o sorvete futuro que continuamente nos chama para prolongar a experiência, para vivermos um novo presente? Então em toda a nossa vida tomaríamos um único grande e variado sorvete, pintado com diversas cores e feito de múltiplos sabores.

Com a literatura, algo parecido pode acontecer. Este texto, escrito no presente e compartilhado com algumas pessoas capazes de se conectar por meio da internet, é também o tempo futuro do texto que foi anunciado há alguns dias, e é o passado do texto que estará disponível para futuros leitores. Para os que o lerão no futuro, será um texto comum, feito qualquer outro texto. Ou não. Eles também podem imaginar que o texto que lêem foi escrito um dia, e que houve pessoas assistindo à sua tecitura. Eles ainda podem unificar os tempos: o passado da escritura, o presente da leitura e o futuro da possibilidade de ver um novo texto sendo escrito ao vivo. Para os que lêem agora, letra por letra, fica talvez a sensação de que o passado não existe. Mas é estranho supor a sensação dos que estão lendo agora quando seria muito mais simples perguntar diretamente a eles o que eles estão sentindo... O que vocês sentem, tão caladinhos que não digitam nada na janela de chat?

É, o escritor não está pronto. Ele é o Mágico de Oz: parece grandioso, mas é um anãozinho oculto em uma engrenagem de ilusão. O truque do escritor baseia-se justamente nisso: na certeza de que o leitor chegará com horas, dias, anos de atraso. O escritor chega primeiro e arma o cenário, o palco da fantasia; ele tem o controle. Ao vivo, não. Ao vivo, o escritor dá tempo ao leitor quando pára pra pensar na continuidade do texto. E, nesse tempo, o leitor pensa e imagina soluções literárias mais felizes do que aquelas que o escritor conseguirá efetivamente concretizar.

A leitura a posteriori parece pronta, inevitável. A escrita ao vivo é uma tempestade de idéias, e todos se acham no direito — e têm realmente o direito — de pensar em melhores palavras, frases e parágrafos do que aqueles que o escritor realizou.

Mas os começos são mesmo assim — tímidos, desajeitados —, feito um novo sabor de sorvete que nos faz produzir caretas, feito o sexo de novos amantes que pede ajustes, feito o abraço — ainda com certos pudores — em um novo amigo.

Talvez um dia escrever ao vivo seja o natural, e a leitura posterior seja apenas um vício de memória. Talvez um dia, ainda um pouco mais além, o pensamento seja ao vivo e possamos todos ler os pensamentos uns dos outros: literatura feita de vento para a qual a gente pode treinar adivinhando o formato das nuvens. Ao vivo, claro. E, de preferência, ao ar livre. Mania besta essa da literatura de ser produzida em ambientes fechados.

P.S. — Este texto foi escrito ao vivo entre 10 e 11h de domingo, 15 de junho de 2008. O autor agradece a todos que compareceram online e partilharam com ele essa experiência.


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sábado, 14 de junho de 2008

POIS NÃO, SENHORA! [Sandra Paes]


Não faz muito tempo que me dei conta que tinha virado senhora! Aos olhos dos outros, é claro... De repente, voce percebe que as pessoas passam a lhe dizer, a toda hora, a sra. aqui, a sra deseja, pois não, senhora!.

Ganhei um status novo. E diante disso, confesso, fiquei sem saber como me comportar. Um sentimento muito parecido como o de quando fui “comunicada” que tinha virado “mocinha”.

Minha consciência, minha percepção, nunca foram muito ligadas ao espelho ou na visão do outro... Costumava - e ainda é assim - ser mais ligada nos meus próprios sentimentos ou emoções, ou o que se passa dentro de mim como sinal prioritário de tudo. Coisas como a intuição, o conforto ou não dos músculos, da respiração, da batida cardíaca, da temperatura da pele e o desassossego das vísceras.

Daí que essa coisa como: - Nossa, como você está bonita! Ou, o que você tem usado nos cabelos, ou você perdeu peso!, ficou sempre por conta do olhar do outro mesmo. No máximo, me ligo na reação vibracional que posso sentir, mesmo quando de costas, quando um pensamento, olhar ou comentário é feito a meu respeito. Sempre senti quando minha energia se deslocava em função de uma ou mais pessoas, mesmo à longa distância. Agora, esse conceito de “mocinha, mulher, senhora” começou a bater mais forte em mim.

Dei pra notar que não me sinto atraída para certos programas sociais. Entre outras coisas, conversas sobre “dates” ou encontros casuais, ou não, as aspirações adolescentes e tal, nunca foram muito meu forte, e agora então, nem pensar... E quando ocorre um galanteio, me pego por dentro no mesmo estado “esquisito” de “virei mocinha”.

Engraçado tudo isso por que, pra mim, de fato, não tem uma fronteira marcada por princípios físicos ou hormonais. Viro criança em casa ou com outras crianças, me sinto envelhecida quando tenho dores não justificáveis aparentemente, sinto preguiça do mesmo jeito que sentia quando adolescente e tinha tanta coisa pela frente pra fazer, mas confesso, que o poder de “get up and go” que me arrastava pra aventuras sem que nem pra que, se deslocou.

Os espaços de iniciações tribais sempre foram muito estranhos pra mim. Me lembro do espanto diante da contemplação que as “mulheres” da família vinham tecendo em torno da festa de debutante.

Hoje, quando alguém fala ”meu filho acabou de passar pelo barmitizva" “, entendo um pouco melhor essa coisa toda, e vejo com olhos de cumplicidade o garoto que ainda é um garoto mas ”foi inciado” ao ato de ser homem.

E de repente, não mais que de repente, eu ouço na cadeira do cabeleireiro: - Engraçado seu cabelo... Atrás está todo preto, agora a raiz na frente tá todo branco... Que cor você quer pôr pra cobrir isso? E eu que não costumo olhar o espelho, muito menos pra ver a cabeça por detrás, fiquei curiosa com essa informação a mais: o tal do - Pois não, senhora! começou a ter lugar.

Respirei fundo e pedi um espelho pra ver a cabeça. - Gostei!, respondi!Quero cortar curtinho e deixar os brancos ganharem seu lugar... Quero ser a senhora que se manifesta!

A cabeleireira retruca no ato: - Mas você é muito jovem pra ficar com todos esses brancos!

E de novo lá vem a questão: Ser ou não ser senhora?! E aí? Fica o quê? Mudar o guarda-roupa? O jeito de sentar, de falar, de sorrir? Como é esse ritual nessa nova era?

Estou ensaiando - depois de deixar os brancos à mostra, e toda a mecha prateada que cobre o lado esquerdo da cabeça, lugar mais usado ultimamente, visto que o cérebro parece meio carregado nessa área. Será que é isso mesmo?

Who cares? Comecei a prestar atenção nas senhoras e senhores. Mulheres, em geral, pintam os cabelos, fazem plástica, dobram a maquiagem, reformam o guarda-roupa e tal; já os homens, não parecem dar muita trela, e começo a ver atores grisalhos, o bonito ”salt and pepper” de muitos, e o estilo “não estou nem aí pra essa coisa de entrar em outra idade e tal..

Me sinto uma nova debutante, por incrível que pareça. Comentei com uma amiga que não me vê há mais de ano que resolvi assumir os brancos e que provavelmente não me reconheceria por isso. Ficou muda do outro lado e depois da pausa acrescentou: - Hora dessas você muda de ideia!

E cá estou eu com meus botões: - será? Preciso achar um lugar mais confortável pra minha senhora, ou preciso encontrá-la e reconhecê-la, e mapear essa idade? Céus! Não sei como fazer isso... Nem sei o que é isso, mas percebo os olhares de censura, literalmente, aos meus prateados cabelos. Parece que todos me querem com ares de anos 40 ou pelo menos que eu não fique com ares de terceira idade.

Quanta bobagem! Mas está ai....

Imagens: Face of Redhead, Adrianna Williams; Blue-Eyed Woman, Véronique Beranger; Grayhaired Woman, Rick Gomez

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quarta-feira, 11 de junho de 2008

VAI QUE... >> Carla Dias >>

Vai que o mundo desabe, justo hoje, sobre nossas cabeças desprotegidas. Um chapéu, então, flores e cores, decoração de jardins nessas nossas cabeças que, mesmo quando ocas, deitam no colo dos amores e pensam melhor. Pensam com afeto.

Vamos logo pôr as roupas no varal, a comida no fogo; vamos preparar com antecedência os preparativos com hora marcada, aniquilando a certeza de que o tempo é o do relógio e conduzido pelos prendados. Vamos pregar uma peça no tempo, porque ele, meus caros, é um doido varrido. Merece um carnaval de horas desembestadas.

E dá-me cá tua mão, então! Vamos cultivar um enlace, ainda que seja no susto, nos valendo do que Vinicius disse em seu poema: “eu te peço perdão por te amar de repente / embora o meu amor seja velha canção nos teus ouvidos”... E cantarolar sentimentos nessa antecipação romântica. Vamos endoidecer de vez de amor dos sinceros, que é para que o fim seja um começo dos mais inspirados; e tropecem os minutos diante dos beijos trocados, nos arrabaldes dos desfechos.

Mesmo que engasgue, que o corpo trema numa dança desengonçada: diga. O que pertence ao teu sentimento, diga num repente, numa bossa, num rap, numa poesia. Desembuche que é pra não deixar as querenças interrompidas. Diga com a nudez oferecida pela urgência dos segundos.

Vai que hoje esse mundo, numa receita sem medidas, faça de nós gatos e sapatos e nos ensine, na alegoria das suas idas e vindas, a superarmos o medo. E desabe sobre nossas cabeças as idéias, das que ao invés de pôr abaixo o mundo - e por serem nascidas no colo do afeto –, construam um tempo sem tempo para as declarações de amor, para as festas às sextas-feiras; para descansar o olhar no horizonte, para uma política mais justa, para a tolerância. E para as gargalhadas que, dizem por aí, fazem bem à saúde.


Imagem: Jander Minesso >> http://www.flickr.com/photos/tantofaz

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domingo, 8 de junho de 2008

NOTÍCIA PRÉ-DATADA >> Eduardo Loureiro Jr.

Mauricio SimonettiDaqui a dois dias, a cidade de Recife se encaminhará até o aeroporto dela mesma e embarcará num avião rumo a Montreal. Irão com ela o estádio dos Aflitos, a praia de Boa Viagem, o Bar do Cabo, o Instituto Brennand e o Parque da Jaqueira. Irão também o maltado, o siri-mole e o guaiamum gigante; o mesmo valendo para o frevo e para o maracatu. Tudo irá na bagagem de um senhor de nome Felipe Holder, que terá que pagar excesso de bagagem. Quem quiser ir a Recife, de terça-feira em diante, terá que comprar passagem para Montreal. Os geógrafos, de plantão, já começaram a redesenhar os mapas do Brasil e do Canadá. Os sismólogos alertam para a possibilidade quase certa de fortes tremores no dia 10 de junho. Os meteorologistas prevêem muita chuva, inclusive salgada. Fiéis de todas as religiões já estão reunidos em vigília, pedindo a Deus que não aconteça um novo dilúvio e que a mudança aconteça com o mínimo de transtornos. Os demais veículos de comunicação estão evitando divulgar a notícia por temerem comoção e pânico públicos, mas o Jornal da Saudade, edição de terça-feira — sempre disponível no domingo à noite —, não pôde silenciar. (Não, não temos como antecipar o resultado da mega-sena acumulada porque o sorteio só acontecerá na quarta-feira e esse é um jornal de terça-feira, esqueceu?) Boa viagem, Recife! E, senhor Felipe Holder, quando retornar traga Recife de volta com você.

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sábado, 7 de junho de 2008

EXERCÍCIO NO ESPELHO [Maria Rita Lemos]


Quando meu professor de literatura pediu para que fizéssemos esse exercício, na frente do espelho, tão despidos(as) como chegamos ao mundo, fiquei preocupada. Seria um encontro difícil, meu corpo de agora e meu corpo de antes. Enfim, o exercício tinha que ser feito até sábado, próxima aula de redação.

Vamos lá. Nua, na frente do espelho grande do quarto. As vozes vieram chegando, bem de dentro, a princípio sussurrando: “Vim para me despedir. Mas tenho, antes, coisas para lhe dizer” – foi a voz grave e séria do corpo que eu via circundando o meu, figura embaçada e nebulosa. Era uma espécie de auréola, que me envolvia toda. Uma sombra bem mais larga que eu, ao redor de mim mesma.

“Que é que você fez dos trinta quilos a mais, que eram seu corpo, ou melhor, o meu, ou o nosso corpo, há dois anos atrás?” o tom da voz era de censura.
“ Sei lá”, respondi. Agora era minha voz, minha boca. Eu via a articulação dos lábios, que não havia quando a sombra é quem falava. “Talvez tenham derretido para fazer sabão, talvez tenha entrado numa espécie de limbo adiposo... sei lá, sei é que não os quero mais, aqueles quilos em excesso pesavam-me muito”...


“Até que você não era tão feia assim...” a voz insistia. Quem sabe meu alter ego, minha sombra, meu passado.

“Feia eu não era, eu sei, mas estava pesada, sentia-me mal. Era difícil levantar-me com agilidade. Eu morria de medo de ficar entalada em alguma catraca de ônibus. Queria usar lingerie sensual, mas nada havia do meu tamanho. Por que será que todo mundo acha que gorda tem que dormir de camisola de florzinha, sem glamur nenhum?”

“Isso é verdade... (risos)... Lembra quando você foi ao motel e não cabiam duas pessoas na mesma banheira de hidro? Alguém tinha que sair, para a outra pessoa entrar... foi engraçado..” – era a voz, maldosa, lembrando coisas que eu queria esquecer. Eu morria de vergonha, e disse isso, bem alto, no espelho. Eu morria de vergonha.

“Vergonha, você? Deixa de ser cínica, mulher... com tudo o que você já fez na vida, quer dizer que tem vergonha?”

Comecei a me alterar. A moça educada no Colégio de freiras foi chegando, aos poucos.

“Cínica por que? Por que acha que eu não tenho direito a ter vergonha?”Era a culpa, pondo o velho olho de fora. A sombra sabia, ela sabia tudo de mim.

“Isso sem falar que acabaram-se as cervejinhas que você tomava falando da vida, das crianças, do tempo e do vento...agora é só uma brejinha de vez em quando, que até esquenta, uma latinha para a noite toda, é só o que cabe...”

Implacável, a sombra prosseguiu, para minha angústia: “Não importa, só vim mesmo me despedir. Você me mutilou, me cortou sem avisar, me despediu sem aviso prévio. Agora pague o preço, com suas blusinhas tamanho médio, ridícula, usando as roupas de sua neta... esqueceu quantos anos tem? Mas antes de partir, quero lhe dizer algo: metade de você já se foi, metade da vida também, aliás, mais da metade. Você sabe disso, não sabe?”

“Sei. Ninguém me deixa esquecer”. Minha voz estava reduzida a um fio.

“Vou sair de vez de sua vida. Deixo-a com a barriga costurada, o estômago reduzido. Deixo metade de você inteira, mas espero que conserve essa metade. E que não perca nem um único grama de sua essência...”

“E por que eu perderia?”

“Sei lá, de repente pode perder. Cuidado, mulher, cuidado para não perder sua inteira ternura, sua ternura antiga e inteira”.

Agora era a voz que estava mais macia, despedindo-se de mim. “Não perca aquele jeito de gostar dos outros, de chorar em todas as despedidas... isso a cirurgia não tirou de você... ou tirou?”

“Não tirou. Estou certa de que não, já tive despedidas depois e chorei igualzinho.”

“Também não grampearam sua vontade de música, o seu cheiro de terra molhada e de bolo de laranja saindo do forno, não é?”

“Acho que não...” – e agora eu sentia meu “outro eu” como uma amiga, uma velha amiga conversando comigo”...

“Foi bom, tá vendo, nem ficamos de mal. Adeus, mulher teimosa”...


“Adeus, pedaço exilado de mim... - e eu ri para o espelho – nem lhe peço que volte sempre... aliás, não quero mesmo que volte. Vá embora para sempre, amiga, você já não me pertence mais...” – e agora eu ria, abertamente.

Enquanto isso, a sombra à minha volta fundiu-se, no espelho, à minha figura nua e solitária. Foi assim que eu fiquei, despida, no espelho grande do quarto de meu filho. Toda a cena durou uns cinco minutos, se tanto. Mas foi uma linda e intensa despedida.

Imagens: Mirror, Brooke Fasani, Contemplating Beauty, Larry Williams, Woman Looking at Reflection, Elisa Lazo de Valdez

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sexta-feira, 6 de junho de 2008

Plantação de Cenouras >> Leonardo Marona

Talvez fosse um poeta voltando a pé para casa, passando pela Cidade Baixa, cogitando entrar num cinema de freqüência quase exclusivamente homossexual, talvez porque lhe atraísse o muro escuro de tijolos, talvez porque estivesse perto de enlouquecer, ou muitas coisas juntas, as quais chamamos nenhuma.

Em sendo um poeta libertino, talvez tenha gastado a tarde enterrado numa poltrona vitoriana empoeirada no fundo de um sebo, a boca numa cigarrilha, as pernas trêmulas, lendo uma antologia poética de Bertolt Brecht aos pigarros, forjando a coqueluche. E o que talvez fosse um poeta voltando a pé para casa talvez já não fosse mais um poeta. Enfraquecido pela própria peste, deslizou por sua sombra entre ruelas e pensou em que momento poderia ter se equivocado tão irreversivelmente. Mas não conseguiu chegar a nenhuma conclusão quanto a isso.

Ao sair da livraria, depois de horas procurando um começo para o texto que tinha na cabeça, envergonhado por não ter como comprar o que gostaria e ainda mais frustrado ao pensar que este talvez não fosse realmente um começo razoável, seguiu se arrastando, metade por gosto metade por desalento.

Fazia calor finalmente em Porto Alegre. Depois de quase dois meses de perambulação desordenada por dentro dos seus próprios botões, as solas dos sapatos, já bem gastas, não sabiam mais diferenciar norte e sul. Mas, resquício de bom-senso, o poeta resolveu abortar a idéia de assistir ao filme e reparou que havia um boteco logo ali, ao lado do cinema. Um daqueles por trás de grades enferrujadas, semblantes coalhados pelo esquecimento.

Então ele entrou e sentou olhando insistentemente para os lados. Nenhum motivo especial para isso, apenas marcando território.

O ambiente do bar era desolador, foi o que mais atraiu o poeta. Era o tipo de lugar que parece te olhar, depois de se queimar com o café, e pedir: “Por favor, estimado senhor, sei que não sou muito, mas o lugar é ao menos bastante arejado e o preço é módico, portanto sente-se, por caridade”. Era como o próprio poeta diante das portas, sempre pedindo com vergonha.

Por identificação disse a si mesmo, olhando o reboco descolado no teto: “Tudo bem, meu chapa, entendo a sua situação... O tempo não tem sido razoável como nenhum de nós e, afinal, vou te dar essa colher de chá”.

- Com licença, tu disseste alguma coisa?

E com a segunda pessoa do singular veio uma garçonete de unhas vermelhas descascadas e um pano de prato encardido sobre o ombro. Era loira. Sim, nenhuma dúvida quanto a isso, nenhuma gota de tinta também, penugem sutil sobre os antebraços e, de resto, toda sobrancelhas e cílios. Vinha com certeza da fronteira uruguaia. Era loira toda a vida, e por isso o poeta tinha vindo de tão longe: para ter sua existência redimida por uma loira assim. Uma penca de filhos com os cocurutos platinados, sardas para todo lado, mãos calosas de colher raízes, um vasto campo e o jazz libertino dos curupiras. Ela era a carne do sonho dele.

“Vamos lá, seu idiota”, disse o poeta mentalmente, “diga algo inteligente, mostre a ela o seu potencial, tire da mochila as cartas a um jovem poeta, fale um pouco sobre Rilke, de modo assim corriqueiro, chame a atenção dela com algum sotaque inesperado, não pigarreie, pelo amor de deus não gagueje, dê a ela aquele sorriso premeditado de meia-boca, faça como Philip Marlowe, mas se mexa de uma vez!”

- Não, nada – foi o que ele disse.

- Mas tu não queres nada? Nada de beber, nada de comer?

- Ah, sim... é claro... que cabeça... o calor... quente demais hoje, não?

Ela apenas ficou olhando. Seus olhos eram dardos de fogo, seus cílios, ponteiros de relógio.

- Claro, desculpe – ele disse. – Uma cerveja então, por gentileza.

Ela virou as costas com um sorrisinho na boca de como quem pensa: Mais um perfeito imbecil.

Não havia como culpá-la. Com um mês e meio na cidade ele pouco falava, e era como se tivesse desaprendido os mais simples movimentos do convívio social. Estava sentado numa mesa dessas de beira de piscina, com cadeiras vermelhas de plástico duro e marcas de cigarro. Ao seu lado esquerdo havia um sujeito muito magro com os cabelos desgrenhados na altura das orelhas muito amplas, pescoço como o de um jabuti e um aspecto enlouquecido. Quatro garrafas de cerveja vazias e uma a caminho sobre a mesa. Ria sozinho e falava consigo mesmo coisas sem sentido, como: “Esta é uma canção portuguesa: A Sedução da Boneca de Pano”. Mexia sem parar as pernas, a cabeça de um lado para o outro, como se um esquilo tivesse entrado em suas calças. “Pobre homem”, pensou o poeta, “provavelmente abandonado por uma vigarista ordinária a quem deu uma aliança e um bicho de pelúcia, e ela o largou sozinho, só com uma muda de roupas, e se mandou para sempre com um caminhoneiro de unhas sujas. Acontece aos montes, todos os dias. Pobre homem, como tantos homens, como todos os dias, aos montes, todos mudos, pois ninguém agüenta enxugar sua melancolia, porque é a melancolia de todo o mundo”.

A cerveja chegou sem que o poeta pudesse olhar para o rosto da menina loira – mas reparou que tinha aparelho nos dentes pelo reflexo do sol poente na prata – e essa aparente discrição até pode tê-la agradado, mas a ele agoniava profundamente. Ela deu meia-volta e ele ficou estatelado na cadeira. Os solados emborrachados das sapatilhas dela provocavam gritos de terror no chão envernizado. O poeta então olhou o reflexo do seu próprio rosto na garrafa de vidro marrom: também tinha o aspecto enlouquecido de um sujeito abandonado. Bebeu o primeiro copo mais rápido que de costume e então começou a chorar sem chamar atenção.

Do outro lado, quase colado à mesa do poeta, havia um casal de meninas, uma gorda de camisa larga e outra magra de membros graúdos, cabelos postiços esticados, roupas sugestivas, um tipo a quem você não confiaria nem mesmo a chave da sua própria prisão. Junto a elas estava um rapaz de corpo avantajado mas arruinado, sobrancelha rasgada, que parecia sofrer de alguma negligência cromossômica, pois não conseguia em hipótese alguma fechar a boca. Eles falavam sem parar sobre a inutilidade de seus empregos num banco e numa loja de rações – o poeta não soube distinguir quem trabalhava onde. Ao mesmo tempo, planejavam um lugar onde beber assim que saíssem dali.

Pouco atrás do louco abandonado pela vigarista ordinária, que partia para sua sexta garrafa em auto-afirmação psicótica, havia um sujeitinho miúdo de nariz desmedido, como uma caricatura assinada por um bêbado sem talento algum para o pincel. Camisa de botão bem frouxa e tênis esfolado, na terceira garrafa. Bebia sozinho e lia o jornal, alheio a tudo. Parecia preparado para a luta, porque não dava a mínima, e isso é estar preparado. Depois largou o jornal e abriu um livro velho, meio úmido e amarelado, então começou a ler. O cheiro que o livro trouxe entranhado em suas páginas era detestável, de causar náuseas, mas náuseas iam bem com clima do momento. Lima Barreto, Alvarez de Azevedo, Fagundes Varela... Não havia como saber. Que sujeito! Então se virou para a garçonete loira e pediu uma cerveja: completamente gago, babava sobre as palavras na mesa, um olho de vidro. Mas, de uma maneira ou de outra, era bom estar ali.

O poeta então resolveu gastar todo o seu dinheiro em bebida, depois de perceber que Lili Marlene, famosa cantora alemã que trazia as cervejas enquanto datilografava o chão e usava aparelho dentário, tinha mais duas irmãs como ela, só que menores, respeitando uma escala geométrica.

A menor era a única aparentemente não conformada com os semblantes de toda a sorte de vagabundos e regionalistas que paravam para tomar um trago e saíam como quem não havia entrado. Ela olhava para o poeta com um misto de frieza e curiosidade. Tinha lábios leporinos, seus dentes pontiagudos castigavam a tampa da esferográfica.

A outra, como acontece com freqüência em famílias de muitos irmãos, havia saído errada. Tinha as mesmas características físicas das irmãs, mas todas exageradas nos lugares errados. Não falava muito, concordâncias monossilábicas, mas o poeta reparou quando ela disse à irmã mais velha que lhe doíam as glândulas no pescoço.

Depois da quinta cerveja o poeta perdeu um pouco o senso do ridículo e segurou a mão da mais velha. A mão era fria como o orgasmo quando ultrapassa a nuca. Ela olhou para ele. Não parecia assustada.

- Mas uma ceva? – perguntou mecanicamente.

- Você gosta de poesia? – ele disse, obviamente sem raciocinar.

Ela riu para um lado, riu para o outro, depois parou de rir e olhou para ele outra vez.

- Talvez eu goste de poesia – ela disse – mas não gosto de poeta – então voltou a rir, tirou a mão de baixo da mão dele e parou de rir em seguida.

- Mas são os poetas que fazem as poesias – ele disse. Imaginou que aquilo pudesse ter algum tipo de efeito avassalador. Que fosse uma espécie de jogo de esconder.

- Tudo bem, você é poeta?

- E dos grandes!

- Então escreva um poema.

- Não é assim.

- Não é assim o quê?

- Que se faz um poema... Nada a ver com obrigação.

Um sujeito que parecia ser o pai das três irmãs loiras apareceu de repente com uma cerveja nova e, com os olhos, fez a menina correr para trás do balcão.

- Mais alguma coisa ou vais pagar a conta? – ele disse.

- Vou beber primeiro, depois pago a conta – disse o poeta.

O homem velho parecia um lençol flutuante, se virou e foi embora.

“Fui desmoralizado injustamente”, pensou o poeta, e permaneceu imóvel na cadeira com os braços formando um triângulo sobre a mesa. É claro que aquela conversa de “sou poeta” tinha ido longe demais. Mas Porto Alegre também era longe demais. Tirou um caderno da mochila, lambeu a ponta do lápis e começou a rabiscar uma Ode à Lavradora Alemã:

Te amo como a sola ama a pista de dança
Te amo como o violino ama uma sinfonia
Mas teus ouvidos só entendem a melodia
De coisas que as metáforas não alcançam..

A cerveja certamente lhe havia subido à cabeça, mas era como se, desde o princípio, ele esperasse pela confirmação, ou pelo menos por um álibi satisfatório, de que poderia perder completamente o pudor.

Levantou vagarosamente, mas com firmeza, depois lembrou que deveria fazer o gestual de um grande poeta, então ajeitou a coluna e seguiu até o banheiro. No caminho encarou o provável patriarca, que tinha um bigode obtuso e havia comido miúdos há pouco tempo.

Ele apenas encarou o poeta de volta e lambeu um lado do bigode. As irmãs mais novas trocavam risadinhas à mesa. A mais velha, Lili Marlene, aguardava com tédio em pose de calendário o correr dos acontecimentos. Escorada no balcão. Pé de unhas descascadas sobre o joelho da perna oposta.

Na cabine do banheiro o poeta pôde ouvir uma gaita texana enquanto separava pedras de pergaminhos em busca de palavras para um discurso infalível que lhe servisse de saída triunfal e recuperasse sua honra ofendida. De repente uma dor lancinante na barriga o enrugou diante da latrina. Iria ao médico no dia seguinte. A boca seca escamosa, consulta marcada, placas na língua. Mas no momento vivia uma espécie de duelo mítico.

Jogou uma nota de dez na frente do velho e disse:

- Tira os 10% da menina.

Logo depois se arrependeu. Devia ter dito “moça”.

O velho olhou para ele com o rabo do olho. Parecia o mago Panoramix. Apanhou o dinheiro e devolveu um real à mesa com desleixo, como se o tivesse testando. O poeta precisou então aumentar o tom de voz.

- ESCUTA AQUI...

- Não trabalhamos com gorjeta. Se quiser, entregue o senhor a ela.

Aquilo tinha sido legal, ser chamado de senhor. De modo que o poeta acenou com a cabeça e se virou para as duas meninas, que pararam imediatamente de cochichar e se viraram também. Uma delas encheu as mãos com as próprias tranças, a outra saiu correndo para o banheiro com a alegação de que seu nariz sangrava. A mais velha, não se sabe como, havia desaparecido. O poeta olhou portanto para a mais nova de todas. Tinha as sobrancelhas unidas, que serviam seus olhos com dissimulação sutil.

- Lá de onde eu venho as pessoas pagam 10% da refeição para quem os serve bem.

- Mas você não comeu nem mesmo um pastel.

Era um ponto de vista legítimo.

- De qualquer forma, fique com o dinheiro.

E o poeta deixou a nota na mesa sobre os quatro versos. Saiu do bar olhando para o chão.

“Nem um pastel, nem um pastelzinho!”, pensava. “Que belo malandro, com esse papo de lá na cidade grande... Muito bom! Só não pude ouvir as palmas. De qualquer forma, fique com o dinheiro... Nem mesmo capaz de dar o dinheiro na mão! Pensou na certa ter sido tomada por uma prostituta”.

Metido em sua capa pesada, tornou-se automaticamente um personagem de Gogol. Fuzilava a calçada com passos enfurecidos, totalmente afetado pelo álcool, como se tivesse bebido por cinco homens. Ziguezagueava pela quadra do Colégio Militar, pensando no sorriso triste que se dá para um amor ao qual não se pode obedecer. A rua estava totalmente escura, a lua com sinusite, os carros pareciam manchas com dor de cabeça, perdidos em cores de um quadro feito com falsas lágrimas impressionistas.

Em dado momento o poeta começou a sentir o corpo desmaiar, golfando em seguida nas próprias calças um líquido ralo. Então um garoto de máscara negra surgiu na sua frente, outro maior atrás: vasta queimadura no pescoço.

- Te estouro a barriga! – disse o primeiro, muito baixo e com raiva.

Segurava algo escuro dentro da escuridão, o que escurecia a compreensão da coisa toda. Mas o poeta tinha a cabeça noutro lugar. E disse em tom de sussurro para seu próprio coração – o olhar despedaçado:

- De qualquer forma... Fique com o dinheiro.

***

Sentia muito frio quando olhou seu dedão do pé. Precisava cortar as unhas. Era noite funda. Atrás da cabeça, concreto. Muito frio. Sem camisa, sem sapatos... Calça? Sim. Mancha pastosa na barriga. Pensamento suave. Uma sensação gelatinosa de perda dos sentidos. Pensamento nuvem. Tosse para dentro. O frio leve de um suspiro. Líquidos metálicos, chafariz de garganta. Mas que lindo tom de vermelho! Uma dançarina de tango... Era noite, não havia pássaros, mas havia sinfonia. Um farol de trânsito mudando de cor, latrocínio lunar, fios de alta tensão e, em meio à tensão, minutos escorriam pelo meio-fio. Pensamento asa. Um baile, sapatos alternados na janela, um colo, bochechas lisas, pássaros silvestres, dois dentes grandes enrolados numa gaze, cabelos negros na escova, olhos simples, uma plantação de cenouras, dedos, calos, cabelos de prata... Um sopro.


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quarta-feira, 4 de junho de 2008

MEU CORAÇÃO >> Carla Dias >>

Meu coração goza de paixões subalternas. Ele bate o cansaço, o behind beat exausto; trafega há muitos quilômetros de querenças indigestas, curvando-se ao comando dos fados.

E se sente acuado, esse meu coração, ele que sempre foi da catarse nem tão de repente: arpões. Caiu derruído sob a guarda dos menestréis da tristeza; lambendo a língua do amargor como fosse o amante. A saudade vaiando sua coragem retrógrada. Indisposta.

Deu de digerir solstícios num jeito infante de praticar sustos; o assobio vem sei lá de onde, o berro intrigado, o desfalcar quimeras ao cantá-las nos panos das mágoas.

Um cancioneiro revirado por lamúrias, esse tal, que arranha lembranças em busca de abrigo.

Meu coração anda aliciando labirintos, submergindo a necessidade frenética de apreciar singelezas; colecionando negativas e grunhindo malfeitos.

Em tempo algum, esse meu coração foi tão dolente. E soa, no vazio que o consome, essa canção distraída sobre sonhos desgastados; desejos esquecidos. Uma ária sobre apegos.

Meu coração deu de ficar calado, num canto. Ele anda ensimesmado, batendo ao ritmo da conveniência alheia; trança as pernas quando tenta fugir da rotina das imposições e se atrapalha todo. Míngua a própria capacidade de construir, como fosse bandido numa história sem eira nem beira.

Por favor, desculpem meu coração descarado, mas ele é de cortejar a indecente sofreguidão quando a dita aparece. É que não sabe bater em falso... Prefere os falsetes; e desenganado das emoções, jaz numa canção sertaneja; o lamento a parodiar faltas.

Meu coração não está no lugar certo, e reverbera a falta do mapa para orientar a jornada de reconhecimento do lar. Anda é arrastando solidão feito chinelos – barulho estrangeiro na madrugada - sem saber se sucumbe ou se reinventa.

Às vezes, ele pára só para contemplar a inexistência, mas apaixonado que é pela esperança, agarra-se ao fôlego e à urgência de re-experimentar a vida...

Como nos dias em que, atrevido, batia ao ritmo de um tango desvairado.

Meu coração anda com a saudade a tiracolo; o futuro a lhe botar um medo andarilho.


Imagem: Paul Paladin

www.carladias.com

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