sábado, 31 de maio de 2008

CIDADE ENCANTADA [Debora Bottcher]


Do alto de uma montanha, na varanda do chalé de madeira, eles olhavam a cidade imersa no vale. Sorriram, encapuzados até o pescoço por conta do frio. Fazia algum tempo tinham ido viver ali. Lá embaixo, os movimentos do vilarejo revelavam uma manhã de sábado acolhedora embora a temperatura permanecesse baixa.

A vida por ali é tranqüila. O lugar está sempre repleto de viajantes, pessoas que vêm quase sempre sem a menor intenção de ficar.

Casas de chocolates, perfumes, vinhos e especiarias figuram o cartão de visitas para receber esses que perambulavam pelas ruas estreitas, de pedras, cercadas pelo vento cortante.

Rodeada de montes, chamaram-na Monte Verde e ela se fez verde de verdade: verde de esperança, de chegadas, partidas, idas e voltas intermináveis em busca de origens, mistérios, sonhos, carinhos. Alguns encontram o que desejam: somente esses criam raízes.

Por todos os espaços, fornalhas são expostas alimentadas pela lenha seca que aquece os ossos e as almas. Dizem que fantasmas caminham pelas alamedas na noite escura. Que o lugar é envolvido por criaturas errantes e perdidas que ali viveram suas chagas, dores e mágoas. Contam que o frio que percorre cada canto vem de uma legião de mortos que habita todos os poros. Pelas fendas de suas vestes negras eles observam os transeuntes e lhe impõem a sensação gelada do abismo.

Contudo, o que realmente se observa são pessoas envolvidas pela magia e receptividade de um povo tão turista quanto esses de passagem. Tudo ali é um pouco irreal, parecendo-se com uma cidade de bonecas criada por mãos afoitas e infantis na ânsia de brincar sentindo-se “gente grande”, governantes supremos, reis sem fronteiras...

Quem para ali se dirige vem em busca do aconchego e de uma paz repleta de carícias. O sorriso ostentado em rostos pálidos pela geleira de um inverno intenso acolhe os corações frígidos vindos de cidades distantes.

Não há luxo. Pelo vale inteiro, vê-se cabanas de madeira mogna, rústicas e aquecidas, camas encerradas em colchas de retalhos, tapetes antigos, pequenos quadros com fotos da paisagem nata, lareiras constantemente acesas.

Das frestas das janelas - que quase sempre estão fechadas -, pode-se ver a névoa que cobre o lugar nas manhãs claras que mesmo com sol a pino continuam frias.

Não é difícil estabelecer certa cumplicidade com o local. Soberana em sua tranqüilidade mansa, os viajantes se deliciam com a terra vermelha, a mata virgem e densa, o ruído silencioso das vozes baixas, a brisa gelada que convida ao abrigo humano. Caminham por entre as árvores que formam uma serra, trilhas feitas por seus próprios rastros em círculos que levam sempre ao ponto de partida. Chegar e partir sempre do mesmo lugar. Não há como se perder, exceto quando se embrenham dentro de si mesmos querendo descobrir o segredo que as estradas contém.

Sem praças ou coretos, na entrada divisa-se apenas um lago farto de garças. Essa é a natureza animal à vista. A restante, esconde-se no meio da floresta à espreita, à espera, à caça sem oferecer perigo.

Para se alcançar esse paraíso envolto em sombras e mágicas, um único acesso de solo batido que cruza alguma rodovia tumultuada. Muitos chegam até ali alheios do rumo que haviam definido. Outros, por indicação desses primeiros. Alguns, em busca de se encontrarem.

Esse era o caso de Ninna e Marco. Partiram de suas cidades e descobriram-se ali. Permaneceram no lugar e na vida um do outro. Agora, compartilhavam do amor e de algo que se misturava com o campo verde, os fantasmas da noite, as lareiras quentes, os silêncios das vozes, a cumplicidade do compartilhar...

Do chalé de madeira no alto da montanha, mais do que observar o deslizar calmo de uma forte corrente de elos que se interligam, eles podiam sentir a felicidade passeando nas ruas de pedras, nos perfumes suaves, nos sonhos mais doces que os doces que eram vendidos nas charmosas casas de chocolate do mundo todo...

Imagens: Trailing Pear on an Austrian Chalet, Adam Woolfitt; La Clusaz, Rhone Alpes, France, Hekimian Julien; Young Couple Drinking Hot Chocolate, Tim Pannell

Expressões Letradas

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sexta-feira, 30 de maio de 2008

POLARÓIDES >> Leonardo Marona

“25 anos” (poema para ser escrito aos 70)

eu passava
leite de aveia
nos bagos
para que tudo
estivesse muito
limpo caso algo
de inesperado
acontecesse.

e raramente
algo inesperado
me acontecia.
mas quando
por algum acaso
acontecia algo
os bagos estavam
sempre sujos.

“atriz”

as palavras,
se elas saem doloridas,
é a tinta negra que sangra
as frases como feridas.

pouco me adiantam
as palavras floridas
que desabrocham no ar:
pétalas amorfas
no mofo do armário.

prefiro um dedo direito
e uma intenção sinistra.

quero de ti
a palavra comida.
quero as palavras
pelos poros da página,
pelo meio da tua virilha.

quero enfim,
segundos antes das cortinas,
escrever aquilo que te cala.

“Ana C.”

a poesia,
se insiste,
quando cisma,
(instinto?)
é um passo
na direção
do abismo,
(infinito?)
ou então são
dois passos
e um colapso
(suicídio?)
nos casos
de poesia
mais rara,
(primitiva?)
ou então coice,
patada de pena.
porque as asas
(comprimidos?)
estão na cabeça
e não nas pedras
portuguesas.

“Augusto dos Anjos”

queria ter nascido Augusto dos Anjos
para compreender a sífilis parnasiana
que se antepõe e rói os nossos ossos.
queria ter nascido anjo para compreender
os vermes na essência da idéia positiva.
talvez fosse preciso essa maldição,
esse querer talvez um dia ter sido,
para que eu pudesse pensar em Augusto
– tão augusto, pobre Augusto! –
como ramificação do sumo de uma raça
na crucificação irrevogável do que passa –
e ainda somos todos a mesma quimera.

“Camus”

se não haverá fatalmente
ninguém para contar a história
do fim do nosso mundo,
então surge a pergunta:
“por que motivo cultivá-la?”

“decartiano”

no escuro da noite
onde não há perdão
permanece o amor.

somos um pedaço
do que não restou
no escuro da noite.

onde não há perdão
somos um pedaço.

do que não restou
permanece o amor.

“casal pula da ponte em nome do amor proibido”

cobrei dos teus olhos o que
não cobraria da tua alma.
lá fora o vento deságua,
fraco como as memórias.
restam apostas ganhas
perdidas nos bolsos.
estamos sozinhos
agora que somos
a cor da junção.
e isso é tudo:
você e eu.
e lá fora
peixes
azuis.

“Bergman”

agora será o fim,
mesmo que momentâneo,
da cientificidade do sentimento,
de tudo que for felicidade e tristeza.

fomos homens por milênios
felizes e tristes, cal de um tempo surdo.
recorremos sempre aos mesmos temas:
corações subjugados, almas que sangram.
e por ternura não fomos além da redundância.

cabe a nós agora
a tarefa difícil de dar um fim
a todos os temas de felicidade e tristeza:
obrigado, consciência, já cumpriu seu dever.

cabe a nós talvez
o sacrifício da juventude que ainda rasteja,
talvez o envelhecimento precoce do espírito,
para sentir a leveza do contínuo-renovável.

cabe a nós, por fim,
dar fim aos precipícios e ritos de passagem,
aos improváveis suicídios, às ilhas de ópio,
para dar início aos temas, sem reticências.

"Chet Baker"

é um sopro
de soldado ferido.
desordenado, árido,
silencioso, firme.

é um sopro
que se refugia
no presídio oco
da dor desmedida
no parto do som.

não são mais notas,
são sobrancelhas verticais
voltadas ao vértice
de contusões permanentes.

pois de ti a pobreza parideira
do ínfimo da maior entrega brota,
e enfim podemos, anti-vivos, ser.

é sempre tarde lacrimosa sob o seco
fatigado de um estúdio em cor sépia
quando tua silhueta me rasga de ecos.

tua corneta aponta:
segue a cadência...

(apóio meu ouvido na tua desatenção,
que circunda a vida com reticências
atrás das agulhas iludidas do perdão,
em busca da raiz das conseqüências).

e tua música irrompe,
com a minha falência.

“Clint Eastwood”

importante esperar pelo último minuto,
pela dor inexplicável que nos fará jus
à cruz que carregamos, invisível ferro,
que gela nas artérias e antecipa o tiro.

importante esperar pelo momento vazio
em que a dor trespassa então por pouco
e já não é mais dor, é tensão do mundo,
enxergar sem rédeas o terreno aberto.

não se colocar entre este e aquele século.
seguir sem nome (pois o nome na pele)
então engolir os séculos, regurgitar mais.

para remexer o caldo fundo sob a terra
aparentemente árida, de cerne difícil,
e só então cuspir fora o sumo – dar o tiro.

“Kerouac”

teu erro foi me fazer pular etapas
para chegar mais cedo à tua velhice
e sentar tranqüilo – desesperado –
outro bêbado genioso na cadeira de balanço
alisando um gato exultante da própria beleza.

teu erro foi me dar tanta certeza,
tão falha quanto a bravura dos covardes,
de que as coisas podem dar certo,
se estiverem de um lado e nós do outro.

teu erro foi talvez o meu aborto,
a geração depois da geração seguinte,
o buraco negro na camada de ozônio,
a carga triste de um movimento abjeto.

teu erro, por fim, foi meu remédio.
porque se não sou o que pude ser,
pelo menos ficou uma certa brisa,
uma esquina que permanece aberta.

ficaram bares enfumaçados, e a ilha.
ficaram cigarros pela metade, e foices.
por fim, a magia pálida de um grito,
de um abraço, de um soco no estômago,
de um vulto secreto no olho da noite.

“Murilo Mendes”

sei que não sou “nós”,
e não somos por eras.

simples e livre, falo,
mas por mim gaguejam
sob olhares eunucos.

lendo-te a mente, pergunto:

vale a poesia que seja
explicação explícita?

"Nara Leão"

um cantinho, Nara Leão
pros teus dentes de pijama,
pra tua fama de proveta.
Nara triste, Nara alheia,
Nara vem, me dá tua mão.

tão só na capa do disco,
de gravata borboleta.
Nara linda, Nara feia,
Nara calma, descabelada.

se a vida não for mesmo nada,
Nara, que será da tua voz pequenina
quando o barquinho naufragar?

Nara rindo, Nara exausta,
o leão de Nara dormindo
sozinho na beira do mar.

“Otelo”

querer o que não se pode dar.
querer tudo, demais, para sempre.
depois nunca mais querer nada.

querer nunca como se melhor não ouvir a voz.
rejeitar o que nos espelha à superfície
dos olhos nas estátuas decapitadas.
almejar pureza, forçar pureza como virtude.
mas que vagos poros pontuam os corpos sonâmbulos?
que hora exata de sede é essa: de se olhar no espelho
ao fim de uma noite de prevaricações?

e logo depois a náusea de ter sede alguma.
ter o que não é possível denominar.
apropriar-se em sangue das ofensas emudecidas.
a compaixão por aceitar a própria indiferença.
o enterro da semente não plantada.

"Zé Ramalho"

roubando castanhas
de um pote vulgar
no que amanhecem
morangos na mesa
em dadaísmo tardio.

e o pano imundo
do fim da festa
lembra a frase
daquela música
e um pouco mais,
além e para o lado
misterioso do nosso
conhecimento: é tarde.

baby, nossa relação
acaba assim, assim...
conte para as amigas.

aquelas simpáticas,
aquelas prestativas,
aquelas ordinárias...

conte para as amigas
que tudo, tudo foi mal.

conte que no vão
entre novos sentidos
repousa eterna escuridão
como enxame violento
sob o couro das horas.

talvez que ainda antes
de sepultada a beleza
estivesse num sorriso
rasgado de silêncios.

novas palavras
como gárgulas
salivando rosas.

“felicidade”

passo por ela,
ela olha para mim,
eu olho para ela,
ela olha para mim.

não nos conhecemos e
isso não nos importa.

por uma vez sorrimos
e seguimos em frente.

a alma ganha trégua
por uma vez mais.

“que tipo você faz?”

todos fazemos tipos.
eu faço o tipo indefeso
ou o tipo Woody Allen.
adoro o tipo Woody Allen.

sei que as mulheres gostam.
depois que descobri isso
me concentrei no tipo Woody Allen.

às vezes faço tipo Hemingway.
o problema do tipo Hemingway:
não é muito bom com as mulheres.
mas é ótimo com animais selvagens.
bem, algumas mulheres...

“o primeiro homem foi uma mulher”

só podia mesmo
se chamar
Safo
a poeta grega
cantora do amor
lírico
entre as fêmeas
na ilha grega de
Lesbos.

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

A PALAVRA DITA >> Carla Dias >>

A palavra dita, dizem por aí, tem um poder daqueles. Já me aconselharam a não dizer as palavras como se elas fossem gangorras num parquinho, porque há uma seriedade pungente na palavra dita. Não dá pra tripudiar com ela, não!

A palavra dita brinca de pular amarelinha em abismos, por isso, melhor mesmo é dizer amor numa combinação inspirada de adjetivos bem docinhos, que é para não azedar a palavra que sai bailando com a voz.

A palavra na boca pode amargar mais do que se escrita em carta de despedida, por exemplo. Se quiser dar uma palavra dita de presente, por favor, esmere-se em saber se a palavra tem cabimento. Sugiro que a deixe ecoar, várias vezes, na sua cachola, antes de botar a boca no trombone.

A palavra dita benquerença vem sempre acompanha de fôlego para superar situações difíceis.

Quando dita, a palavra fome provoca um barulho bem alto no estômago e um buraco daqueles na alma. É um esvaziamento... Por isso, às vezes a gente fica mudo, sentado na sala, as luzes apagadas, e quase desaparece.

Palavra dita tem força pra atrapalhar as idéias da gente, basta ser inesperada e sincera. A palavra dita sincera tem perfume de arco-íris desembocando no lago, onde pessoas colocam suas esperanças de aprender a nadar e chegar a algum lugar onde faça sentido quem se é.

Não sou da palavra dita... Não sei entoá-la ao gosto do meu coração. Na verdade, estou na fase em que começo a dizer, mas emudeço. Então, faço uma careta, deixo pra lá, quem sabe mais tarde que tarde não há de chegar.

A palavra dita tristeza compõe sonatas com as lágrimas da gente.

Ando mais preguiçosa do que nunca para dizer a palavra, mas acho que é medo de gastar saliva e dizer palavra que ninguém está a fim de ouvir. E a palavra dita, quando ignorada, fica dolente de um jeito miúdo; e não dá pra saber por que dói e nem curar. Ela fica lá, batucando mágoas, plantada num jardim de inseguranças.

A palavra dita noite pode garantir um amanhecer tão alegre quanto é a cara do girassol.

Poderia dizer a palavra, mas teria de ser da que evapora... Uma palavra que ficasse no pra sempre como fosse lembrança. A palavra fragrância, ofertório. Gosto de engolir a palavra que, se dita, desampara o sonho do outro.

Queria dizer a palavra lamento, mas sem lamentar tê-la dito. Que ela fosse a porta aberta, fim da distância entre mim e os outros; que tivesse o poder de atrair, não de forjar solidões. E que provocasse alvoroço, desarrumação, inquietudes dignas de recomeços.

A palavra morte carrega com ela pontos finais e vestidos pretos.

A palavra dita tem passado, presente e futuro. Quando conjugada aos verbos, sai berrando necessidades. Mas acontece de outra palavra dita lhe fazer companhia e amansar suas urgências.

Palavra dita fragmentada é aquela que diz mais do que reza o dicionário.

Aos pares, a palavra dita fica mais feliz e dá a luz a frases. Dia desses, uma frase dessas coube direitinho dentro do momento e soprou um sorriso no olhar do moço triste de carteirinha. Ele não soube de onde veio, mas agarrou uma gargalhada num abraço e rabiscou um poema no ar.

A palavra sossego dá sono quando dita na beirada do fim da tarde de inverno.

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domingo, 25 de maio de 2008

AMOSTRA GRÁTIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Randy Faris/CorbisMinha mãe nos dava presentes — a mim e a minha irmã — por profissão. Muitas vezes, ao chegar em casa, ela retirava de sua bolsa — branca como toda a sua roupa — umas caixinhas miúdas e coloridas. Eram pequenas pastas de dente ou escovas, fios dentais, líquidos coloridos e — se estivéssemos mesmo com sorte — alguns brindes, minúsculos brinquedos.

Quando cresci um pouco mais, eu soube que aqueles "presentes" eram amostras grátis dadas por representantes comerciais que queriam divulgar seus produtos para minha mãe, que era dentista.

Ao mesmo tempo em que nos trazia esses mimos vindos de pessoas que eu não conhecia, minha mãe advertia para que não aceitássemos — na escola ou na rua — coisa alguma que nos fosse oferecida por estranhos. Mais tarde eu descobriria que traficantes de drogas também distribuíam amostras grátis de seus "produtos" com o objetivo de viciar pessoas e conseguir novos clientes.

Lembrei disso porque ontem, ao tentar contratar um serviço de banda larga de internet, a atendente me informou que eu pagaria mensalidade reduzida nos três primeiros meses de contrato. E, refletindo um pouco mais, me ocorreu que essa prática da amostra grátis (ou com desconto) vai muito além do marketing. Ou você nunca reparou que os inícios têm uns agrados que aos poucos vão sumindo — mas sempre nos dando aquela sensação de que foi de repente?

Ocorreu-me mesmo que a paixão inicial nos relacionamentos, aquela que tentamos manter a todo custo mas que, invariavelmente acaba (ou pelo menos diminui) em alguns meses... ocorreu-me que essa paixão é uma espécie de amostra grátis do amor. Naquele início arrebatador, recebemos gratuitamente toda a felicidade do mundo — chegando ao ponto de perguntarmo-nos o que fizemos para merecer tanta coisa boa. Pouco a pouco toda a felicidade do mundo vai se transformando numa felicidade mais modesta: o tubinho de pasta esvazia, a escovinha de dentes desfia, o fio dental acaba e, dos líquidos coloridos, resta só o pequeno vidro transparente; até os brinquedinhos revelam-se frágeis, os carrinhos vão perdendo as rodinhas, as bonequinhas vão ficando sem olhos.

O que fazer?

Há quem peça mais. Mais não há. O tubo que há é grande, a escova é do tamanho padrão, o fio tem muitos metros mais de comprimento e os frascos não são nada franceses. Brinquedos? "Não fazem parte da nossa lista de produtos." Há quem se sinta enganado, indignado. "Eu, pagar por algo que já recebi de graça? Nunca!" Mas a verdade é que a amostra mostrou o que tinha de mostrar e a gratuidade gracejou a graça do produto. Se é bom, por que não pagar por ele? Por que não incluir no orçamento, reservar um dinheirinho pra ter de novo aquela felicidade?

Os representantes comerciais fazem a parte deles. Minha mãe fez a parte dela. A Vida, o Destino, Deus continuam fazendo sua parte, nos oferecendo gratuitas mostras de felicidade e alegria. Também temos que fazer nossa parte: botar a mão no bolso, sintonizar o ouvido na música, encostar o silêncio na paz, aprumar o pensamento na esperança, acordar o corpo no carinho, afinar o coração na paciência... ser gente grande e ganhar com nosso próprio valor a graça de ser mostrado ao que há de melhor.

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sábado, 24 de maio de 2008

DA MORTE E SUA BANALIDADE [Debora Bottcher]



“- O Rei morreu! / - Viva o novo Rei!” (Do Popular Inglês)

Três dias depois da morte da escritora Zélia Gattai, eu li que estavam abertas as inscrições para a cadeira dela na ABL.

A China ainda conta seus mortos no terremoto que dizimou cidades praticamente inteiras, mas há imagens por todo canto de homens numa função, digamos, meio fora de contexto para o momento: empenhando-se na restauração dos monumentos. Ao pé de suas escadas, descansam mochilas das milhares de crianças soterradas numa escola próxima.

Estou imaginando que a cadeira do senador Jefferson Péres, morto na manhã de ontem, demorará menos de três dias (úteis) para ser ocupada. Na segunda, talvez, por conta do final de semana.

É como as coisas são: a vida não pára e é urgente. Pra que se demorar em prantos desnecessários?

**********


Outro dia, fui carregada por uma prima para uma palestra espírita. No meio do sermão, o orador disse que fora convidado para integrar uma equipe que está escrevendo um livro na tentativa de responder as 100 maiores questões da humanidade. Informou que podíamos deixar nossas perguntas na urna colocada na entrada e continuou dizendo que a interrogação mais recorrente é “O que há depois da Morte?”. Pareceu-me que ele não sabia responder.

Na seqüência, fez uma brincadeira: “Tenho aqui em mãos uma passagem para Paris, outra para a Itália, uma para Londres, também para Nova Yorque, e uma para o Além.” Não havia voluntários para o último destino.

A atriz Julliane Moore, em entrevista na pré-estréia em Cannes do filme Blindness, que protagoniza, disse uma frase que me chamou a atenção: “Quanto mais envelhecemos, mais gostamos da vida.” Que o diga Zélia Gattai que, aos 91 anos, dias antes de ser encaminhada ao hospital para a cirurgia que desencadearia em sua morte um mês depois, disse ao filho que tinha medo de morrer.

É como as coisas são: uma hora a vida estanca e deixa de ser urgente – para nós.

**********

Mas a maioria de nós não pensa na morte, vamos combinar. Apesar de sabermos que todos, sem exceção, vamos nos deparar com a tal Sra., não ficamos elocubrando quando isso se dará – inclusive porque quem o faz pode ser encarado como depressivo, até louco!

Então a gente finge que não é com a gente – afinal, foi o outro que morreu, não eu. Por que é que eu vou perder tempo com isso?

Eu sei que esse é um assunto do qual ninguém gosta de tratar - Clarice Lispector diria que é uma gafe falar sobre isso! -, mas vem me incomodando (ainda mais) a banalidade com que a gente embala nossos mortos.

É tudo uma estatística: a bala perdida, os acidentes de trânsito (nunca vi tanta gente andando na contramão como agora!!!), o terremoto, o vulcão, os furacões, as doenças terminais. As pessoas viram um número para manchetes e planilhas, os governantes decretam luto de três dias, se a estatística é grande a população faz um minuto de silêncio – na China fizeram três! -, e seguimos em frente.

A mim parece que a vida está perdendo o valor. Antigamente – e nem precisa ir tão longe, basta caminhar uns cinqüenta, cem anos – a sociedade chorava seus mortos com mais sentimento, e se conformava menos com o ceifar da vida. Hoje, com tanta modernidade, com tanta evolução, morre-se aos solavancos e a gente acha tudo normal – se vacilar, nem se comove mais.

É como as coisas têm sido. Daí vou parodiar a própria Morte no livro A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak: “Os seres humanos me assombram."

Imagens: Black Face Out Of White Face, Wieslaw Rosocha; Capa do livro 'A Menina que Roubava Livros'

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sexta-feira, 23 de maio de 2008

POEMA >> Leonardo Marona

Um dia ou dois em frente ao poema. Um dia ou dois de negação e paz. Esquecer o poema, jogá-lo sob a carne das idéias. Para sonhá-lo durante as noites sem sono. Não tocá-lo! Vê-lo negro em capuz de prata, a foice longa, a face ossuda, se aproximando lento, arrastando tudo.

Mas ele continuará ali, “a superfície intata”, eu não diria exatamente sorrindo, ele quer te provocar, brincar com a tua paciência, ele quer manchar tua glória, deixar-te fraco, à mercê.

Não te zangues, deixa-o quieto, adula-o se puderes, mas tenhas sempre uma faca à mão.

O poema é afirmação de vida, mostra a vida equivalente à morte. Portanto, observe bem este poema ainda seminu, o lençol sobre as partes, o centro em sangue palpitante, a vergonha rarefeita, e por um dia ou dois veja, observe como dele não vem nada, como é surdo de silêncio o que palpita no cerne exato, pois é puro estado de passagem, a frieza do destino dilacerada em mar aberto.

Jamais será teu ou de qualquer um, por sua essência de promiscuidade e rebelião. Deve ir com qualquer um, cigano, um cigarro na ponta dos lábios, sempre o capuz de prata cobrindo seu verdadeiro mandante. Provavelmente sob chuva fina dessas que nos fazem pensar em filhos. Mas ele teve o ventre arrancado ao nascer, o poema, e ficará olhando, estripado, esperando que o tempo o cubra de terra.

E a chuva passará, haverá decerto algumas escoriações, alguns pássaros mortos cairão das árvores, haverá talvez uma súplica tardia, um tremor pneumônico, quanta tristeza haverá quando o derem como falecido?

Engraçado no fundo não ver o rosto do poema, mas enchê-lo com pás da nossa própria substância, tão certos de sua passagem mítica, e o medo que nos causa, um dia ou dois em frente ao poema, negar tudo e recolher para ficar em paz com o ritmo caótico dessa alegoria em movimento.

Portanto, não esperar dele o que seria possível agarrar com as próprias mãos. Ele é o bobo da corte, seu sexo híbrido, sua risada sórdida, vazante de vinho tinto, ervas e papoulas as correntes de Adão, as costas de vidro e as mentes venezianas, o rosto de ferro. Ele que não será amor, que não será afeto, e quem der a mão o levará, ele que é fácil e injeta nas veias químicas heterodoxas.

Pobre poema, seminu, incompleto, quase roxo de frio, sem poder olhar para os lados de tanto medo, porque antes era pântano, agora é seca, adquire-se dia-a-dia a riqueza frágil dos homens, todos prestes a se matar, e não existem mais espécies, vocês já viram formigas brigarem?

Quando quiser parar me avise, poema, e deixe-me em paz por mais alguns instantes, apenas olhando de fora para dentro, tal que até gosto dessas vírgulas pretensiosas, mas ainda te vejo mistificado e cansado com o peso, a terra dos séculos pobres demais para nós dois.


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quarta-feira, 21 de maio de 2008

DESCONEXÃO >> Carla Dias >>

Há alguns anos, li um livro que mexeu demais comigo. Depois de ler a última página, passei muito tempo sentada no sofá, sentindo aquela inquietude de quem não sabe o que fazer com aquilo.

Escrevi um conto.

Sou fã desse escritor. Li um livro famoso dele, mas este sobre o qual falo é outro, não tão famoso, mas ótimo.

Depois de ruminar essa inquietude, resolvi correr o risco e mandar o conto ao autor do livro. Enviei por e-mail, explicando como o conto nascera; comentando como fora importante ler o livro dele. Para minha surpresa, ele respondeu.

Fiquei muito feliz, não só por ele dizer que gostou do meu conto, mas porque é sempre muito bacana conversar com o autor de uma história que nos marca. E eu estava ávida por conversas literárias, por conhecer o nascedouro daquela idéia.

Talvez o tal escritor não tenha mesmo alcançado a importância dessa janela que abriu para mim. Empolguei-me com os meus próprios escritos, passei a escrever com mais freqüência, buscando a minha própria história.

Internet é um bicho estranho, ou somos bichos estranhos ao utilizá-la. A distância física que ela promove atiça a nossa imaginação, o que não é ruim, contanto que não a tornemos uma constante e sejamos escravizados pelas nossas deduções. Particularmente, acho que lido bem com ela... Deixo os personagens para os livros e as pessoas têm de mim o que penso e sou, caso desejem me conhecer.

Nas conversas por e-mail com o escritor, a origem da inspiração (ou piração), como surgiu a idéia sobre o livro, o fazer literário e a visão dele sobre a vida me interessava. Tanto que eu não queria que a nossa convivência saísse do mundo virtual, porque ali cabíamos numa boa troca de impressões. Porém, o escritor, moço que gosta do tête-à-tête, fez questão de um café. Eu relutei, mas chegou uma hora em que me senti nada educada, até porque o escritor morava no mesmo bairro que eu.

No dia do café, acordei sabendo... Não era a primeira vez que acontecia. Algumas pessoas que lêem meus escritos costumam somar a minha ligação com a literatura com o fato de eu ser produtora de eventos e baterista, e imaginar uma cara para isso. E não é a minha. Nunca é.

Apesar de ter adorado a oportunidade de conhecê-lo e o bate-papo, porque aproveitei para falar ainda mais sobre livros e afins, percebi, no momento em que cheguei na cafeteria, que não caberia mais nas intenções do escritor. Primeiro, porque já conheço as desculpas para quando desejamos nos desfazer da presença de uma pessoa, e reduzir um primeiro encontro com alguém com quem vem falando há algum tempo a vinte minutos, é uma delas. Depois, porque não era mais a leveza e a profundidade das conversas por e-mail que reinavam da parte dele. O cenário ficou desértico, ácido.

Eu não coube na expectativa do escritor.

Apesar de me sentir triste pelo rumo da prosa - pois eu buscava pelo escritor, pela aventura de interagir com a essência da história que me encantou, mas ele buscava em mim a pessoa dos e-mails, só que em outra embalagem - , ainda me lembro desse dia com carinho. O livro continua de cabeceira e já o reli algumas vezes, mas trocamos apenas um e-mail, depois daquele dia. E então o escritor me deletou do seu address book.

Que território perigoso é esse da internet, não? Não... Essa é uma ótima ferramenta para interagirmos uns com os outros. Os perigos moram nas idealizações que fazemos, sem considerarmos que, apesar de não serem como esperamos, as pessoas que encontramos nessa vida podem oferecer muito mais do que, erroneamente, prevêem as nossas expectativas.

Penso que teria dado uma boa amiga para esse escritor tão acostumado a ser admirado, paparicado, até. Digo isso levando em conta as nossas conversas por e-mail... Eu não o papariquei, mas sim, o admirava e ainda admiro.

Esta é uma conexão perdida. Eu fiquei com a minha história nem tão feliz nem tão triste, e ele com o esquecimento. Pois, certamente, se nos cruzarmos por aí, ele não me reconhecerá.

Mas sabe? Foi uma boa experiência... Outro capítulo da minha vida que me fez repensar sobre as buscas humanas e sobre prioridades. Uma das minhas é ser quem sou e deixar que os outros sejam eles mesmos.

Imagem: Sthepane Tougard

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segunda-feira, 19 de maio de 2008

PAI NOSSO QUE ESTÁS NA TERRA >> Albir José Inácio da Silva

Acho difícil esse negócio de ser pai. Difícil a ponto de pensar que, se tivesse trezentos filhos, no tricentésimo primeiro ainda não saberia o que fazer com ele.

Pais aparecem na história com atributos tão pesados que chegam a ser insuportáveis. São sempre generosos e prontos a se sacrificar. São juízes infalíveis, incapazes de cometer injustiças. São heróis nos gestos mais cotidianos. Sabem tudo e mais alguma coisa. Têm de cumprir sempre com louvor o papel de pais. Têm o dever de proteger os filhos muito mais do que os filhos querem ser protegidos, o que os torna sufocantes na proteção.

Por isso tanto nos repugna o pai que joga filha pela janela do edifício ou o que estupra filha presa num porão por vinte anos.

Mas, afastados os extremos, pais semideuses e pais semidemônios, sobramos nós, os comuns. Se por um lado nos arrepia o pensamento de qualquer violência contra nossos filhos, por outro, não temos grandes feitos paternos a ostentar.

Eu, por exemplo, nunca salvei meus filhos de incêndios ou de assassinatos. Não lutei guerras libertadoras. Não ganhei medalhas olímpicas. Não danço, não canto, sou completamente anônimo. Não tenho nenhuma dessas qualidades que permitem aos filhos saírem por aí se orgulhando em voz alta: meu pai fez isso ou fez aquilo.

Do meu pai ainda posso dizer que passou muita necessidade para que pudéssemos ter casa, comida e escola. Que se sacrificou quanto pôde pelos filhos, para que tivessem vida melhor. Eu não. Embora não tenha dinheiro, tenho emprego, salário e nunca vi ameaçados o teto, a comida e o agasalho dos meus filhos. Meus problemas financeiros são devidos muito mais à indisciplina, às armadilhas bancárias e creditórias, que a dramas como desemprego. Assim, não posso encher a boca para dizer: “criei meus filhos com sangue, suor e lágrimas!”.

As mães têm o crédito da gravidez, da barriga pesada, do parto doloroso, de nutrir o filho com o próprio corpo. Mas os pais, principalmente os comuns, estão ficando a cada dia mais obsoletos.

Verdade que às vezes ficamos umas noites sem dormir, acompanhando uma febre ou uma dor. Mas isso não é nada. Nem precisa ser pai. As pessoas fazem isso por amigos, por colegas e até por estranhos. É um dever de pai, mas não chega a ser um grande feito.

Antigamente pai sabia tudo, respondia a tudo, era sábio só por ser pai. Agora, com a internet, os filhos reúnem informações em minutos que os pais não conseguem amealhar durante a vida inteira. Quando o pai se arrisca a dar uma informação, mesmo sem ninguém pedir, alguém impiedosamente lhe entrega um desmentido que acabou de tirar da impressora. Resta mudar de assunto, ou até de ambiente.

Querendo cumprir bem o dever de proteção, partem os pais para uns conselhos sobre se alimentar bem, estudar muito, ler bastante, fazer exercícios físicos. Mas tudo isso meio sem convicção, meio sem “moral”, já que às vezes comem torresmos, às vezes têm preguiça, às vezes são descuidados, quase sempre conseguem ser chatos e quase nunca conseguem ser convincentes.

Resta aos pais comuns desistirem de ser heróis, desistir dos feitos notáveis. Aceitar que seus atos estão mais para ordinários que para heróicos. Contentar-se que os filhos descubram neles o humano, o contrário do herói, o Macunaíma cheio de boa vontade mesmo atrapalhado.

E já que é impossível a glória dos deuses, que haja pelo menos “paz na terra aos pais de boa vontade”, embora paz não seja exatamente o que se possa esperar da paternidade.

Os mais afortunados conseguiremos, quem sabe, um lugar na memória do coração dos filhos. Amém!

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domingo, 18 de maio de 2008

UM MÊS >> Eduardo Loureiro Jr.


Dentro de um mês, cabem vinte e oito dias. E até um pouco mais. Dentro de um mês, cabe a dança de uma lua meia, inteira, nova, cheia. Dentro de um mês, cabem semanas sem Anas, sem Anas. Dentro de um mês, cabe um salário, trabalho, trabalho, trabalho.

Dentro de um mês, cabe uma vez, e outras, e outra vez. Dentro de um mês, cabem a sorte e o revés. Dentro de um mês, cabem pessoas que eu nunca fui. Cabe luz, cabe luz, cabe luz. Dentro de um mês, cabem azuis: o cabimento de ser feliz.

Dentro de um mês, cabe o beijo de hora marcada. Primeiro, voraz. Cabe o amor de madrugada. Cabem namoro e namorada. Cabe uma cama do lado da rede. Cabe a sacada. De tenista, de artista, de casa.

Dentro de um mês, cabe a viagem, a despedida, a ida, a vinda, a lira, a lida, a vida. As outras vidas. Dentro de um mês, cabe o instante em que tudo está. Cabe o cego de olho aberto. Cabe o ego, o superego. Cabe o treco do troço trincando.

Dentro de um mês, cabe a voz, cabem vozes demais. Silêncio sibilante de sabiás. E serpentes. Cabe eu, cabe a gente, cabem as outras gentes. Cabem, cabem, cabem até não caber em nosso juízo o cabimento de tanto caber.

Dentro de um mês, cabe tanto que eu fico tonto de tanto mês. É tudo feito de novo ou é tudo a primeira vez? Dentro de um mês, dentro de um mês, dentro de um mês... cabe o acabamento pra gente morar de vez dentro do tempo, embaixo do tampo da mesa de centro que guarda as almofadas em que sentas e sento.

Dentro do mês, da cartola do mágico, da cautela do módico, da cachola do músico, da cartela do médico, da caixola do mímico, da chancela do mérito, eu tiro esta crônica para você.

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sábado, 17 de maio de 2008

DA LOUCURA INOCENTE [Debora Bottcher]


Ela rasgava suas próprias vestes e quando questionada, respondia que abria brechas para que seu corpo enxergasse. Dizia que as roupas a cegavam e tinha que evitar que alguém a machucasse.

Vestiam-na sempre com trajes surrados - dada a inutilidade de aprumá-la -, carinhosamente explicando que eram “defensores do sono”. Ela tinha medo de dormir. Contava que uma vez dormira e algo que morava em sua alma escura ficara acordado. Ela não cuidara de si e fora engolida por esse abismo.

Reclamava do frio mas era impossível aquecê-la: ela estava sempre gelada.

Em outra ocasião contou que descansava à beira de um lago numa floresta densa e os lobos vieram e roubaram sua filha... Pedia a todos que ficassem sempre alertas.

Uma vez falou sobre pontes num vale de fogo que lhe ardia a pele. Ela olhava para as chamas, distraída, e fora inteiramente queimada. Falava de barcos e de como gostava de olhá-los. Descrevia um rio que ninguém sabia onde era. Pedras formando cachoeiras, brisa fresca. O rio a olhava... Até que um dia fechou os olhos e as águas arrastaram uma parte dela. Não durma, era o seu conselho constante...

A casa na colina era toda branca. Nas janelas e portas, grades de ferro fundido. O silêncio predominava, exceto pelos sussurros de seus habitantes que conversavam sempre à meia voz, como quem conta segredos.

Ninguém sabia o nome daquela aparente menina que chegara ali trazida por um carro de luxo, num vestido claro de seda florida, havia quase cinco anos. O motorista dissera que a encontrara nas ruas, mas os que a receberam nunca acreditaram nessas palavras. Chamavam-na de Luz porque seus olhos tinham um tom diferente e oscilavam a cor. Ela tinha os cabelos dourados, sempre emaranhados porque nunca se penteava. Era bonita, muito embora sua beleza se perdesse nas sombras em que vivia mergulhada.

Sentava-se sobre a grama todas as tardes para namorar o pôr-do-sol. Em noites de Lua cheia, debruçava-se na janela trancada: permanecia ali até o amanhecer.

Falava pouco; entretanto, às vezes cantava e dançava no pátio. Fazia arranjos de flores e costurava, incansável, pequenas bonecas com os tecidos irregulares que cortava. Distribuía-os entre as outras mulheres como se fossem presentes, pequenos tesouros.

Raramente sorria, mas quando o fazia podia-se ver a pureza e delicadeza no gesto. Não era agressiva; contudo, quando a forçavam a se deitar, ela se debatia, chorava, soluçante. Ninguém compreendia...

Um dia, um rapaz chegara no lugar pedindo abrigo por uma noite. Ela estava sentada no jardim. Ficou olhando muito tempo para ele, que esperava. Ele também a olhava e seu pensamento vasculhava a razão pela qual ela estaria ali.

Aproximou-se. Ela lhe sorriu e contou suas repetidas histórias: as roupas rasgadas, o rio, as pontes, os lobos... Estar atento. Ele ouviu, muito paciente, e movido por repentina paixão tocou-lhe o rosto.

Percebeu-se relatando para aquela moça de olhos brilhantes suas dores e sofrimentos até aportar ali. Falou das noites em que dormira sob a luz da Lua, debaixo do manto suave da escuridão. Falou dos ventos cortantes: também ele sentia frio. Contou sobre os dias em que percorrera matas, sinuosas trilhas que pareciam levar a nenhum lugar. Perdera-se infinitas vezes... Mostrou a ela castelos, bichos, escadas, universos inteiros que se espalhavam no céu através das nuvens. Falou sobre os mares, descreveu a imensidão: ele gostava de velejar e construíra muitas jangadas para cruzar o oceano de um lado a outro. Seguia uma estrela, ele lhe disse sorrindo. Ela riu.

Viu-a aninhar-se em seus braços, criança em busca de afago. E quando voltaram dizendo que ele podia ficar, ele a tinha adormecida no gramado verde, numa tarde azul...

Imagens: Young Woman Standing at Window, Erica Shires; Saudade, Eärwen Tulcakelumë

Expressões Letradas

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quarta-feira, 14 de maio de 2008

PUSHING DAISIES >> Carla Dias >>

Eu ando romântica... As minhas amigas andam tão românticas quanto, assim como um par de amigos. Andamos nostálgicos, na verdade, trazendo para hoje a lembrança da época em que líamos contos de fadas, e havia príncipes e princesas... E vilões... E situações surreais.

Hoje, tiramos os contos de fadas da cartola e os transformamos em desejo... Os príncipes são bem parecidos com os moços que conhecemos, assim como as princesas com as moças, esquecendo os excessos de finais felizes e maldades de madrastas, claro. Mas não há matemática que dê jeito no resultado. Não podemos somar um + outro e fazer com que dê certo, sabe? Então, é apenas o desejo de que, em algum momento, as peças se encaixem.

Na minha vida, as coisas se misturam. Nem sempre a realidade reside onde deveria, ou o meu imaginário dá sossego na reunião do trabalho. Sou uma pessoa misturada que só, que permite que seus universos colidam e fica assistindo ao feito. Às vezes, isso me provoca uma sensação de bem-estar intraduzível; em outras, faz com que eu não tenha vontade de levantar da cama. Mas o que é inquestionável é que essa tendência à orgia emocional também me mantém capaz de lidar com a vida.

Livros me emocionam, assim como canções, filmes, e por aí vai. Permito que aquilo que aprecio lapide a pessoa que sou. Permito que entre e modifique o meu dentro. É por isso que vivo escrevendo sobre arte... A arte é minha companheira de viagem. Minha psicanalista. Ela me endoidece e também me cura.

Uma série de TV que estreou recentemente é que vem pontuando esse romantismo em mim. Pushing Daisies é comédia romântica em pílulas de 40 minutos e dividida em episódios. Tragicomédia, às vezes eu acho, porque tem esse quê platônico que desespera um pouco, mas é tanto benquerer que desarma o telespectador.

Ned (Lee Pace) descobriu, ainda criança, que ao tocar uma pessoa morta ela voltaria à vida, e que se a tocasse novamente, ela morreria e dessa vez sem volta. Um segundo toque em nada ajudaria.

Com o tempo, ele também se deu conta de outra peculiaridade sobre sua habilidade: ao tocar alguém morto e trazê-lo à vida, passado um minuto do feito, outro ser vivo morreria no lugar dessa pessoa.

Adulto, abriu uma loja especializada em tortas que levam frutas reavivadas por seu toque, o que as tornam ainda mais saborosas.

Um detetive particular, Emerson Cod (Chi McBride) descobre o segredo de Ned e o convence a se associar a ele. Então, Ned passa a ressuscitar mortos para descobrir quem os matou, assim ele e Emerson resolvem o os crimes e faturam as recompensas.Tudo seguia relativamente em paz, até que Ned teve de ressuscitar Charlotte “Chuck” Charles (Ana Friel), sua paixão de infância, e não teve coragem de tocá-la e devolvê-la à morte.

E há as presenças impagáveis de Olive Snook (Kristin Chenoweth), funcionária loja de tortas e apaixonada por Ned, e das tias de Chuck, Vivian (Ellen Greene) e Lily (Swoosie Kurtz), uma dupla de ex-nadadoras de nado sincronizado.

A narração de Jim Dale dá um toque especial à trama. Na verdade, ela nos guia como se estivéssemos lendo um livro.

O que há de mais fantástico em Pushing Daisies é o cenário que lembra muito as viagens de Tim Burton (Ed Wood/A Noiva-Cadáver) e o roteiro com diálogos bem construídos. Se por um lado a morte é vedete na história desses personagens, as cores, as situações extravagantes, os exageros, as feições são detalhes que tornam a trama sutil, de uma leveza agradável.

Afinal, como seria amar alguém e não poder tocá-lo? Como seria conviver com a idéia de que ao tocar aquele que se ama ele morreria na hora?

Chuck passa a viver com Ned na casa dele e a trabalhar na loja de tortas. A presença dela não só reaviva a paixão de infância, como também alimenta um amor bem peculiar. Sem poder se tocarem, Ned busca formas de compensar Chuck, como quando ela quase cai e ele se afasta ao invés de segurá-la... Outra pessoa o faz, e ele fica morrendo de ciúme do outro por tê-la tocado. Mas de uma forma muito bacana, ele não só arruma um jeito de segurá-la, em outro momento, mas também de dançar com ela.

O amor deles só não é platônico de tudo porque, quando criança, eles trocaram o primeiro beijo. É essa a lembrança que um tem do toque do outro. É essa inocência que bate de frente com as vontades adultas, os desejos de amantes.

Pushing Daisies nasceu da inspiração de Bryan Fuller, também criador de duas outras séries já canceladas, mas que eu adorava: Dead Like Me, que contava a história de uma jovem que morre e tem de se juntar a um grupo muito estranho ceifadores de almas; e Wonderfalls, no qual objetos inanimados criam vida e falam com a protagonista, até que ela resolva os problemas alheios. Em Wonderfalls, Lee Pace interpretava o irmão da protagonista. Bryan Fuller também é um dos roteiristas da série Heroes.

Sugiro aos que, ao lerem esta crônica, se sentiram tentados a embarcar nesse conto de fadas moderno, que se entreguem a este desejo. Nesse balaio de Pushing Daisies não há somente morte e recompensas em dinheiro... Há uma porta aberta para espiarmos, de perto e sem receio de nos sentirmos tolos, mas prontos para isso, a vida.


Pushing Daisies
Warner Channel
Horários
Quinta (21h00/00h00); sexta (13h00); domingo (21h00); segunda (01h00).

www.carladias.com

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terça-feira, 13 de maio de 2008

PRIORIDADE -- Paula Pimenta

"E por você eu largo tudo, carreira, dinheiro, canudo..."

Exagerado (Cazuza)


Na época da minha avó e até um pouco ainda na da minha mãe, as mulheres não trabalhavam. A elas, cabia apenas uma sina: casar. Nem precisavam ser bonitas, simpáticas, inteligentes, malhadas e bem-sucedidas profissionalmente, como precisamos ser hoje em dia, já que o destino delas já vinha meio traçado. Pra que escola, faculdade, pós e mestrado, se no dia seguinte ao casório elas já ganhavam um diploma fresquinho pra dependurar na parede? “Dona de casa, com louvor”.

Eu acho que o certo seria dona DA casa, já que era isso mesmo que elas eram. Sem as mulheres, o marido e os filhos não eram ninguém. Eram elas que faziam o café, o almoço, o jantar, que lavavam a roupa e a louça, que arrumavam as camas, que costuravam, bordavam e tricotavam. Eram elas as responsáveis pela educação dos filhos, por ensiná-los a não colocar os cotovelos na mesa, a ir embora da casa dos amigos na hora das refeições, a dizer com licença e por favor, a ter personalidade e atitude de gente decente, e o resultado disso eu até já escrevi em outra crônica.

O que eu quero dizer com isso tudo é que antigamente as mulheres não tinham muita escolha, a não ser seguir o marido. Se ele fosse convidado pra um mestrado do outro lado do mundo, onde ela não soubesse falar nenhuma palavra da língua local, problema dela, podia ir fazendo as malas (dela e da família inteira) e acompanhar, sem nenhuma reclamação, afinal, mais do que estado-civil, esposa era a sua profissão.

Hoje em dia, tudo mudou. As mulheres trabalham, não precisam ficar acompanhando nenhum caixeiro viajante por aí afora. Elas mesmas é que desbravam o mundo, que resolvem se mudar, que são convidadas para o mestrado no exterior. Elas têm construído carreiras de dar inveja e também estão derrubando os tabus das profissões consideradas masculinas.

Essa emancipação toda foi muito boa para a auto-estima e realização feminina, mas um novo problema foi criado por conta disso. E quando o marido/noivo/namorado precisa se mudar por causa do trabalho e a esposa/noiva/namorada tem um forte vínculo com seu próprio emprego? O que fazer? Largar o salário de dar inveja e tentar começar tudo de novo na cidade para onde ele vai, ou largar o moço e se casar com o emprego?

Outro dia ouvi uma história que me deixou meio triste. O rapaz foi transferido para alguma cidade perdida na fronteira do Acre com a Bolívia, e a namorada – ao ser convidada por ele para acompanhá-lo – não teve dúvidas em dizer que “para lá ela não ia, não”. Trocou o namorado pelo Rio de Janeiro. Não conheço os envolvidos, não sei se ela tinha um salário milionário, mas de uma coisa eu tenho certeza: ela não gostava muito desse cara.

Se realmente fosse louca pelo namorado, ela largava tudo. Largava a família, o emprego e as amigas. Largava o guarda-roupa, o shopping e o cabeleireiro. Se ela gostasse de verdade, se ela o amasse do fundo do coração, ela não priorizaria o trabalho. Sei que atualmente está bem mais difícil conseguir emprego do que namorado, mas se essa menina tivesse certeza de que aquele moço era o amor da vida dela, ela não teria deixado que ele fosse sem ela. Ela não teria aceitado ficar sem ele.

Emprego, quando a pessoa é boa na profissão, se arruma em qualquer lugar. Mas, pessoas que realmente contam em nossa vida, são muito poucas. As que se importam, que querem que você as acompanhe pela vida seja onde for, que fazem de tudo para que você esteja junto, que fazem questão da sua presença, essas se contam nos dedos.

Eu não abriria mão de um amor. Na situação da tal moça, nem pensaria duas vezes. Acho que ela não precisava ter jogado o namoro para o alto, apenas adiado um pouquinho os planos profissionais. No lugar dela, eu tentaria arrumar algum trabalho pra mim na mesma cidade que ele, mas se não desse, preencheria meu tempo de outra forma. Estudaria, malharia, escreveria, e não me importaria de viver um período como a minha avó, cuidando da casa, cozinhando, e até tendo um tempo pra aprender coisas novas... encararia aquilo como um estágio ou umas férias. Depois de um tempo, tenho certeza de que ele conseguiria uma transferência e eu poderia me reorganizar profissionalmente. Largar minha felicidade pela profissão? Jamais. Podem me chamar de antiquada, mas amor pra mim é prioridade.


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domingo, 11 de maio de 2008

O PRESENTE >> Eduardo Loureiro Jr.

Ah, mãe...
Eu queria lhe dar...
Um presente que eu tenho certeza
de que você iria gostar.

Não é conjunto de panelas — você mal sabe cozinhar, embora seja uma delícia o seu miojo, sem falar no seu arroz com ovo.

Não é perfume, tampouco, porque eu sempre preferi mesmo seu cheiro, aquele que fica guardado no seu lençol com o qual eu gostava de me enrolar inteiro — quando eu era criança e até depois de velho.

Não é flor nem rosa ainda, essas eu deixo pro pai, que é romântico bem mais, e entrega pétalas com rimas.

Não é nem poema — alimento, aroma e adorno de palavras — porque faz pouco tempo que eu cantava minha mãe, minha musa, minha música.

Bem que poderia ser esse clima, em que faz sol sem deixar de fazer frio, combinação perfeita de afetuosa luz e arrepiado carinho.

Ou então essa lua, que aqui é inclinada: uma cadeira de balanço na varanda das madrugadas.

Mas não, não é.

Nem posso ser eu, o meu corpo — o presente da presença — embrulhado em abraço e com beijo por etiqueta. Eu que estou sem barba, do jeito que você gosta, e de camisa amarela brilhante: ouro do peito às costas.

Ah, mãe...
O presente que eu queria lhe dar...
Com a certeza de que você iria gostar, estava aqui até um dia desses, guardado no coração e revelado no sorriso. Mas por um descuido — eu nem sei qual — descompassou no peito e escorregou do lábio; virou insensato sobressalto ou saliva ressecada num guardanapo.

Eu tinha cá comigo o presente perfeito, que você sempre quis. O presente que toda mãe pede em cada cuidado, carão, conselho e bênção: "Meu filho, seja feliz".

Ah, mãe, eu tinha minha felicidade aqui, tão certa, prontinha para lhe dar. Mas ela — bandoleira — saiu para passear.

E na falta de minha felicidade — esse presente sensacional que eu ainda vou lhe dar —, mãe, Mainha, por favor, aceite esse presente tão antigo e repetido: o meu desembrulhado, e usado, amor.


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TENSÃO PRÉ-MONTREAL >> Felipe Holder

Noites de insônia, programinha de contagem regressiva na tela do computador, dúvida, receio, indecisão. É a TPM, que — acredite — também atinge os homens. Há semanas eu venho sofrendo de Tensão Pré-Montreal.

Quem me conhece sabe o quanto eu sou apegado à minha cidade. Nunca me imaginei morando noutro lugar que não o Recife. E sempre disse isso pra todo mundo. Viver longe do Carnaval, do frevo, do maracatu, dos caboclinhos e do manguebit? Deixar pra lá o forró (o de verdade, por favor) e o São João? E o rio Capibaribe? E a praias de Boa Viagem, Porto de Galinhas, Serrambi? Ficar sem comer aquele siri-mole ao alho e óleo do Bar do Cabo, os caranguejos ao molho de coco do Guaiamum Gigante, os ensopadinhos de aratu e as agulhinhas fritas de Porto de Galinhas? Nem pensar. Passar sem os jogos do meu Náutico, logo agora que ele está na Série A pelo segundo ano consecutivo, depois de doze longos anos afastado? De jeito nenhum. Pior que tudo isso, só viver longe do meu pai e de minhas irmãs e sobrinhos. Não, de forma alguma, nem em pensamento!

Acontece que as coisas mudam. Há um ano realizei o meu sonho de ser pai, e agora tenho que pensar também no futuro do meu filho. Não posso mais pensar apenas no que é bom pra mim, mas devo pensar principalmente no que é melhor pra ele. E é por isso que em poucas semanas estarei partindo pra morar no Canadá, como imigrante. A cidade que escolhi? Montreal, aquela das Olimpíadas de 1976, que eu nunca pensei sequer em visitar.

Não vou em busca de dinheiro. Vou em busca de um lugar melhor para viver, onde possa ter um mínimo de segurança e onde as pessoas saibam o significado da palavra respeito — coisas difíceis de se encontrar no nosso país ultimamente. Pelo menos na minha cidade. E isso tem um preço: me afastar das coisas e das pessoas que gosto. Preço muito, muito alto.

Mas eu estava falando era da TPM. À medida em que a data da viagem se aproxima, ela aumenta. Checar todas as minhas coisas, separar o que levar, o que vai ficar e o que vou jogar fora... não é uma tarefa fácil. Tanto papel inútil que eu juntei (imagine só, eu tinha guardado o meu primeiro talão de cheques, de 1980!) que só olhar já me deixa cansado. E tem mais: separar CDs, DVDs, roupas, livros, fotos... tudo o que eu juntei nesses 46 anos... e fazer com que tudo caiba em apenas duas malas? É ou não é pra ficar com TPM?

O tempo é curto e há tanta coisa por fazer que não há como não ficar nervoso. Será que vai dar tempo de fazer tudo? Será que não vou esquecer de alguma coisa importante? E quando chegar lá?

Como vão ser os primeiros dias? Vou conseguir entender o francês “québecois”? E a ansiedade para escolher o melhor bairro para morar? Tem parque perto? E estação de metrô? Há alguma boa creche onde possa matricular meu filho? E como vai ser quando o tempo esfriar, daqui a alguns meses? Como vai ser quando fizer -20ºC? Só de pensar já sinto o frio: bem na barriga.

TPM é assim. Faz até a gente deixar de escrever. Ou escrever e achar que está horrível. Ou ainda pior: levar semanas pra escrever uma simples crônica e ainda assim não conseguir explicar direito o que é a tal tensão pré-Montreal. Quando ela passar, talvez eu consiga. Por enquanto vou tratar de combater a danada passando esses dias com a família e com os amigos. ;)

À bientôt, mes amis!

P.S.: Só pra constar: faltam

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sábado, 10 de maio de 2008

MÃES [Maria Rita Lemos]



Para mim, como para todas as mães, de barriga ou coração, qualquer dia do ano pode ser considerado dia das mães. Por razões que não precisam ser analisadas, no entanto, ficou convencionado que elas, as mães, seriam homenageadas sempre no segundo domingo de maio. Quando digo “homenageadas”, entenda-se, principalmente, “presenteadas”. Presente, aliás, que pode acompanhar a homenagem, ou pode vir isolado. Ou não vir, o importante é o abraço, o pensamento, a lembrança. O reconhecimento. Em meu pensar, porém, a autora da idéia do Dia das Mães* deveria ter escolhido duas datas: segundas e sextas feiras para lembrar alguns tipos de mães e sábados e domingos para outra categoria das mesmas.

Da segunda à sexta feira, sejam lembradas as mães dos bebês que aguardam nas filas dos hospitais, dos “postinhos”, enfim, da saúde pública pela bênção de uma consulta; as mães das crianças que acordam seus filhos, sob sol ou chuva, para deixá-los na creche ou na escola particular, e o som de seus beijos é igual, ao despedirem-se deles para enfrentar novo dia de trabalho, mal ou bem remunerado.

Homenagem seja dada, ainda, às mães que deixam seus filhos aos cuidados de outras mulheres, talvez mães também, para se dedicarem, das mais variadas formas, aos filhos alheios.

Peço a sua bênção, mães de crianças portadoras de necessidades especiais, que das segundas às sextas feiras da vida, por toda a vida talvez, aguardam o horário da saída de suas crianças nas clínicas e escolas especiais para tomarem-nas nos braços, loucas de amor que são por esses filhos lindos e especiais que lhes foram destinados, com certeza por puro merecimento mútuo. Mães que carregam esses filhos, crianças por dentro mas que são, por fora, muitas vezes pesados e adultos, levam-nos ao colo como se fossem plumas... e que não se cansam de esperar por cada gesto de progresso e aprendizagem, como se fossem diferentes milagres.

São tantas, as mães dos dias de semana, que nem me lembro de todas...

Aos sábados, lembro-me com respeito das mães de adolescentes, que esperam insones por toda a madrugada, aguardando o som maravilhoso da chave girando na fechadura ou do portão eletrônico sendo aberto, enfim seu filho chegando são e salvo para casa, resistiu mais uma vez à violência do mundo lá fora.

Aos domingos, em todos os domingos de Maio e dos outros onze meses, beijo as mãos das mães de filhos encarcerados, sejam adultos ou adolescentes -quase- crianças, seja nos presídios ou nas “Fundações Casa” da vida. Quero beijar as mãos dessas mães a quem a sociedade culpa, muitas vezes por desconhecimento, pelo comportamento de seus filhos. Mães que, entre segunda e sexta feira, preparam sobremesas e economizam para levar doces e cigarros para seu menino no domingo, que geralmente é dia de visita. Mães que se humilham, despindo-se para a revista, diante de outras mães estranhas a elas, barrigas que não são saradas, peitos caídos e murchos, tudo vale a pena para ter, por algum tempo apenas, seu filho perto de si.

Em todos os dias da semana, nos finais de semana também, há que pedir a Deus que envie sua força às mães sozinhas, persistência às mães fracas e doentes, do corpo ou da mente; sabedoria e paciência às mães que, como eu, enfrentam a saudade de seus filhos que estão distantes, para estudar, trabalhar ou, simplesmente, exercer suas escolhas.

Por todos os dias, suplico compaixão, enfim, para as mães adolescentes, quase meninas, assim como pelas mães de jornada tripla, como tantas.

Nesse Dia das Mães, peço a Deus que olhe com carinho por uma mulher que não está mais ao meu lado, mas cujo abraço eu relembro todos os dias. Uma mulher que, todas as noites orava por nós, seus cinco filhos, e todos os netos e netas que já havíamos lhe dado. Uma mulher como foi minha mãe, até aquela tarde sonolenta de outubro, quando, sem se despedir, talvez porque odiasse despedidas, ela partiu de repente, foi para o andar de cima, de onde não a vejo, mas sei que ela me vê. Era dia, aliás, quase noite; era a hora do anjo de uma quinta feira.

(Esta matéria foi adaptada do livro de minha autoria, “Minha Mãe de Cetim Verde”, Editora W/A Comunicações)
* Só por curiosidade, o Dia das Mães foi criado em 1872 pela americana Julia Ward Howe.
MARIA RITA LEMOS É PSICÓLOGA E TERAPEUTA FAMILIAR.

Imagens: Anne Geddes

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sexta-feira, 9 de maio de 2008

CURRICULUM VITAE >> Leonardo Marona

"A Troca da Roda"
Estou sentado á beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?
(Bertolt Brecht)
De fato, sugiro que as mães mantenham suas filhas longe de mim. Posso facilmente me apaixonar pela mãe. Tenho todas as péssimas qualidades de um romântico com crise de identidade. Alguns péssimos hábitos, como andar olhando as árvores e colher sorrisos desesperados de alguém que passe pela rua destilando intrigas. Ou mesmo um certo talento inato para ser arrebatado pelo mais miserável dos acontecimentos súbitos. Tenho a terrível habilidade de ler com os olhos as intenções das pessoas, tendo me equivocado em todas as oportunidades que exigiram certa disciplina, porque elas pareciam valer a pena mesmo assim. Bom lembrar: sou um eterno adolescente em questões emotivas, mas um ancião em questões práticas e de apego irrevogável. Do tipo disposto a atrasos debaixo de chuva perpendicular e longas conversas mudas através de óculos escuros com canudos sujos de batom. Sujeitinho que sou, muito suscetível às incertezas dos cílios e das bocas e das bordas das saias – joanetes inclusive. Minha alma é um cipreste impressionista esmagado por uma panturrilha neoclássica. Dormindo me sinto melhor, pois é quando posso estar com tudo o que me estimula a viver e morrer ao mesmo tempo. À noite certas tendências me afastam de um bom partido para qualquer coração necessitado de compaixão. Algo a ver com labaredas em idéias de pano. Algum comando diabólico me arquiteta com maquinações antecipadas de pseudo-reflexões que forjam movimentos e soluçam sustos através de atitudes impensadas, bem próximas do animalesco, e isso me mantém congruente apenas com meus pensamentos, poucas vezes sendo resultado de conversas apreciativas ou arroubos passionais. No entanto, o outro lado dessa tese inconcebível pelo ponto de vista intelectual promove arrebates instantâneos de ternura e compleição, tiros de flores a quem quer que me atravesse o caminho. Já me chamaram de anjo, já desejaram a minha morte, já me fizeram chorar de alegria e de pavor, já fui Judas, Barrabás, Nero, Salieri, já beijei dedo a dedo os pés do afeto, liquefeitos na fumaça de um incenso natural de corpos em chamas. Meu desejo é incontrolável e funciona feito uma bexiga. Pulsa pavorosamente quando está em estado de combustão. Enruga-se como uma bergamota chupada quando se extingue. Não posso controlá-lo ou agir como se pudesse, para agradar aparências espelhadas em arco-íris de contentamento e auto-avaliação. Não faço parte da análise histórica, não se pode ser sem ter sido. Me deixo levar como as folhas, do que resulta um certo aperfeiçoamento em aquaplanagem e uma leve tendência a vento. Sigo mulheres que são passos, sempre que chego já se tornaram em areia outra vez. Deixo elas fazerem de mim o que bem quiserem, desde que eu também queira. Com detestável perplexidade enrustida, desfaleço-me, finjo de morto, para me instalar nas pequenas dobraduras, onde não posso ser incomodado, e de onde observo melhor minhas próprias impossibilidades crônicas e meus planos de emergência mal-arquitetados: pára-quedas azuis de emergência entranhados com o perfume que vem do esfacelamento das pétalas inaptas para o pouso.


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quarta-feira, 7 de maio de 2008

PARA ONDE VOU QUANDO FUJO DE MIM >> Carla Dias >>

Veio-me a cena de quando visitei um amigo, há muitos anos. Foi a primeira vez que entrei na casa dele. Na época, eu era professora de bateria desse amigo que, além de ter talento para a música, era poeta e artista plástico... E era muito bom exercendo esses papéis.

Ele ficava no porão da casa e lá construiu um universo de cores, imagens e palavras. Lembro-me da sensação de êxtase ao ver aquele espaço intensificado pela arte dele. Lembro-me da alegria por ele ter optado por dividir isso comigo.

Meu amigo mantinha ali o seu lar e uma rota de fuga. Quando se cansava do mundo, e até de si mesmo, mergulhava naquele universo, e de lá só saía depois de muito revirar sentimentos. Às vezes, ele voltava inteiro da jornada, compreendendo situações, aceitando limitações. Em outras, voltava como quem não saiu do lugar.

Uma amiga deu o título de Para onde vou quando fujo de mim para uma série de fotografias de sua autoria. Artista plástica, jornalista, mãe de dois meninos lindos que só, a Carmen também me ofereceu, através desse título, um questionamento:

Para onde vou quando fujo de mim?

Meu amigo ia para seu porão encantado, mas eu também tinha lá minhas rotas de fuga. Com o tempo, elas foram mudando... As saídas ficaram ainda mais difíceis de encontrar, mas sempre vale o esforço e eu as alcanço. Reinvento-as sempre que empalidecem.

Quando fujo de mim, não vou pra Califórnia como o Led Zeppelin foi com a sua canção. Há uma década, eu costumava colocar a cadeira no quintal, madrugada alta, sentava-me com a cabeça apoiada, de jeito a ver o céu. As noites de inverno eram as preferidas para esse ritual de namorar estrelas. Anos depois, cortejar a lua pela janela; e então as longas caminhadas pela cidade. Contar telhados, traduzir jardins, desvendar olhares.

Quando fujo de mim vou parar na poesia das coisas, e sim, romantizo até doer, porque disso não dá pra fugir: sou uma romântica até de cara com a dolente melancolia. Vivo de reerguer sonhos de destroços; empinar esperanças. Vivo de confiar que o melhor há de chegar, portanto, é preciso arregalar os olhos para não perdê-lo de vista.

Para onde vou quando fujo de mim?

Para o meu dentro... Às vezes, perco-me por lá e passo dias a empurrar a realidade e a obedecer os acenos do relógio, a lista vigente de afazeres. Em outras, invento personagens... Dou-lhes nome, destino e identidade. Crio tempo para eles, fomes e sedes; sutis rebeldias e extravagantes ideais. Acampo na história deles que, apesar de ter muito da minha, é outra.

Esses lugares, sentimentos, sensações para onde vamos quando fugimos de nós mesmos, também nos definem. Fugir é bom, mas voltar é melhor ainda. Reencontrar quem somos e adicionar nessa existência o que aprendemos ao nos ausentarmos, é também dedicar a nós mesmos um tempo para tecer recomeços. Alimentar compreensões.


Imagens: Carmen Novo >> Para onde vou quando fujo de mim


www.carladias.com

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segunda-feira, 5 de maio de 2008

HIDROTERAPIA >> Albir José Inácio da Silva

O trânsito neste horário é sempre caótico mesmo, então não haveria novidade não fosse o dedão do pé latejando uma dor que se irradiava até o abdômen. A topada também não seria surpresa quando se está com pressa, se com o tropeção a agenda não tivesse emborcado numa água cuja procedência nem quis identificar.

O dia só começava.

Chegou mancando, cumprimentou com monossílabos e sem olhar para os colegas. Não tinha boa cara, o que provocou no ambiente um silêncio constrangido. Derrubou a cadeira com estrondo insuspeitado para aquele móvel tão pequeno. Sentou-se. Agora derrubou o celular que se espatifou em mais pedaços do que era de se esperar de um telefone. Os mais próximos depositaram calados os estilhaços sobre sua mesa. Chegou o café e ela o derrubou sobre uma planilha em que trabalhava há dias. Os colegas se entreolhavam. Ela respirava por suspiros que pareciam amplificados. Insistiu em fazer qualquer coisa e queimou a fonte do computador. Os minutos se arrastavam e ninguém ousava perguntar nada. Súbito, levantou-se. “Vou ao banco”, disse, esbarrando nas outras mesas. Preocupado, alguém ainda se ofereceu: “quer que eu vá com você? Já estava longe.

Entrou na loja de discos, escolheu um, pegou os fones e ficou de cara para a parede. Abriu a carteira, tirou um retrato e apertou “play”.

As lágrimas jorraram de trás dos óculos, lavaram o rosto e encharcaram o peito. Não soluçou nem se alterou sua respiração. Ouviu três vezes a mesma música.

Enxugou quanto pode o rosto e o peito com lenços de papel.

Recolocou o CD na capa e a capa na prateleira, sorriu para o moço do balcão e saiu.

Retocou o batom no elevador e estava de volta à sala em meia hora.

Tirou os óculos escuros e sorriu apertando os olhos inchados. “Tinha uma fila enorme, mas tava divertido...”, mentiu, sentando-se.

Todos ainda a olhavam imóveis quando uma lâmpada fluorescente se desprendeu do teto. O horror nos semblantes a fizeram olhar para cima, apenas a tempo de levantar-se, erguer as mãos e segurar acima da cabeça o cilindro que se precipitava. Flexionou os braços para amortecer o impacto e depositou suavemente o perigo frágil sobre a mesa.

Sorriu para o choque à sua volta e disse apenas: “quase!”

Naquela tarde, só ela conseguiu trabalhar.

E murmurava uma canção.

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sábado, 3 de maio de 2008

DA LOUCURA DO MUNDO [Ana Carolina Coutinho]


"O mundo está louco." Foi durante um almoço, que, de repente, meu colega de trabalho soltou essa pérola, tão comum, quase corriqueira. Ninguém deu muita bola pra ele e a conversa continou normal. Antes de dar outra garfada na salada, no entanto, ele murmurou mais uma vez: “Louco. O mundo está louco...”

Embora ninguém tenha notado a frase solta do meu conhecido, eu me ausentei daquela conversa banal por alguns segundos e me ative ao que ele dissera. O mundo está louco. Louco de pedra. Maluco, absurdo. O mundo, meus amigos, pirou. Isso me pareceu, de repente, a coisa mais sensata que ouvi nos últimos meses. A coisa mais sensata entre todas. Por um instante, me senti acolhida e compreendida por aquele colega de trabalho, cujo nome eu nem me lembro bem. Mas ele me compreendia. O mundo está louco.

Eu tentei dizer isso para o meu marido, alguns dias antes, mas ele não concordou. Estávamos no trânsito que pegamos quando voltamos do nosso trabalho e, depois de uma hora dentro do carro, quando ainda não estávamos nem na metade do caminho, eu murmurei: “Está tudo errado”. Ele não entendeu. Tentei explicar que não poderia ser certo ter uma multidão ali, aprisionada entre os carros, todos absolutamente parados, por mais de uma hora, passivos, sem que ninguém se rebelasse. Sem que ninguém saísse do carro aos berros, sem que ninguém subisse no capô, sem que ninguém, nenhum carro ao lado, estivesse se descabelando.

Meu marido achou que a louca era eu e iniciamos uma disucssão. Antes de chegarmos na metade da discussão, eu me pus a chorar... Chorei porque me senti, subitamente, incompreendida. Como poderia ser normal passar tanto da vida ali, entre os carros? Como não pedimos demissão, como não largamos tudo, como não vamos morar em uma casinha de sapê, na beira de qualquer rio? Ou então, que seja, como não vamos morar em uma árvore, na selva, como éramos antes, porque talvez fôssemos mais sentatos quando éramos gorilas?

Não, claro que não, porque isso é ser louca. A resposta estava clara, eu era louca porque eu, chorando pelas horas que perco no trânsito, sou a fora da curva, a estranha, a maluca, claro. O normal é aumentar o som, cantarolar, tavez xingar com os vidros fechados, nem sei. Nem tenho como saber, porque eu sou pirada, meus amigos. Louquinha. De pedra.

Depois aconteceu de novo, um dia desses, quando uma amiga me confidenciou que pôs botox. Na testa. Disse que é uma agulha fina, lá, direto na testa. E incha, dói, fica vermelho, roxo, nem lembro. Parei de ouvir em algum momento da conversa e refleti que minha amiga, tão querida pobrezinha, enlouquecera. Claro, só uma pessoa louca poderia se mutilar assim e, ainda por cima, pagar uma fortuna por isso. Minha amiga é jovem, linda, rica, mas é louca, a coitada. Eu não soube como dizer isso a ela, mas, em seguida, quando o restante das amigas começou a contar das plásticas, das agulhas, dos cortes, eu fiquei sem-graça e notei, mais uma vez, que eu era a louca.

Meu Deus, eu sou absolutamente louca. Sou louca de aturar a minha barriga molenga sem fazer nada contra isso. Sempre achei que barriga normal era barriga assim, meio salientezinha, como a natureza a fizera, oras. A natureza não produz barrigas chapadas, não. São os exercícios, os pesos, os remédios, as tesouras que as fazem. A natureza faz aquela barriguinha que, com o tempo, vai ficando curva, mole, barriga das loucas essa, né? Sim. Essa é a barriga das loucas, portanto, soy jo. Sou louca de comer um balde de M&M, sou louca de permitir, absolutamente passiva, que meus peitos caiam desenfreadamente. Sou louca, mais uma vez confirmei isso.

E depois ainda teve o caso da menina que os pais mataram - ou sei lá se mataram. Depois os loucos que ficam na frente do prédio deles, jogando pedras. Ah! não, louca sou eu que ainda penso que, quem sabe, os pais podem afinal não ter matado a própria filha.

E tem o padre que voou pendurado à balões, tem os políticos, tem o cara que teve filhos com a própria filha (foi isso mesmo?), tem os roubos, as mentiras, as traições, as crianças fazendo malabarismo nos sinais, meu Deus, como eu me sentia sozinha às vezes, até aquele momento. Até aquele momento em que um quase desconhecido trouxe a mim a frase que era um bálsamo. Era isso: o mundo está louco. Eu não, eu não. Eu estou livre, eu sou normal. Estou por fora, sou gordinha, enrugada, velha, estressada, mas, ai, ufa, sou normal. O mundo, esse sim, está louco. Piradão. Mundo-louco. Eu-normal.

Alguém aí me acompanha?

Doce Rotina

Imagens: Spirit of the Wood, Brand X; Mother Nature, Ladscapes Photography; Earth Cycle, Brand X.

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

LAVA >> Leonardo Marona

Barulho demais lá fora e tenho só essa boca banguela, essa vontade seca de sugar todas as etapas, esse medo terrível do apodrecimento das possibilidades. E esse cansaço. Os transtornos que as calçadas em dias de sol tremulante emanam me deixam aéreo. A paisagem se sobrepõe, e eu me dissolvo totalmente. Mas tenho medo. O medo não é matéria como o corpo. O medo é forma, existe antes das coisas. Por isso tenho medo. Medo é o ter. Mas e com relação às perguntas impossíveis? O que fazer com elas? Deixar de pensar? Guardá-las feito pergaminho? Mergulhar com vontade em tudo, como aconselhou certa escritora tetraplégica? O ícone de uma geração? O exemplo da conexão plena entre os elementos? O risco sem curva no céu estrelado? Existe, mas existir não é bem o verbo. Os verbos não são bem verbos, se usados como escudo. É o que fazemos. Usamos verbos como escudos, como abreviações de poder maquiavélico. Usamos os verbos sorrindo, com a boca sangrando. Mas, ouvindo agora a música barroca, vejo como lentamente bufa entre nós um ser ferido, se arrasta com classe o verbo, sua linha tênue entre sangue e lápide, tão perfeita quanto a fumaça do cigarro. Sua essência, essência dos filhos fortes. Porque não importa se o Homem criou o verbo. A ressonância do verbo saindo da boca do Homem e o efeito que ela provoca no ar, por mais que seja às vezes desequilibrado para o Homem, como podemos notar ao comprar o leite, isso nada tem a ver com o Homem. Tem mais relação com a fumaça do cigarro do que com o homem. Vejam! O homem se tornou minúsculo. E isso também não fui eu que fiz. Estava nalgum canto e eu o recolhi com descuido. Recolhi o “isso”. E eu repeti a ele as mesmas palavras: “morre assim, bem devagarinho”. E o que não dizemos um ao outro, quando nossas costas se encostam debaixo das cobertas? A música barroca... Talvez mais próxima da fumaça que nosso verbo quadrado, nosso verbo de aço, nosso verbo dia-a-dia. Por algum motivo estou vazio e sinto que posso continuar mais um pouco. Ninguém se importaria agora. Vejamos o que acontece se eu tentar. Um minuto ou dois para se tentar fechar os olhos, não esses, os outros, sim, os que olham dentro, ponha a mão, aí mesmo que eles ficam, agora os feche, agracie o próprio peito, não, não precisa ser com força, não deve chorar agora, a coisa chora por dentro de si, somos apenas mecanismo agora, sim, recoste o pescoço sobre o ombro, sim, sinta devagar o carinho da absolvição, a música barroca, obrigado Sr. Telemann, sinta quente esse ombro que tantas vezes suportou o peso vago do mundo, a acústica ressonante que nos traga como esgoto, suporte agora com leveza o mesmo ombro encharcado de tantas asfixias, traga para si toda a carga, amacie os pulmões delicadamente, como quem morre devagar, mas bem devagarinho mesmo, sem abrir os olhos, os olhos de dentro que eu digo, a força muda reticente do mundo sem invenção, do negro desconhecido que absorve o claro e cria as cores, não mergulhemos com violência, apenas repousemos o colo, e somos apenas fluido eterno agora, todos nós, que chegamos até o fim sem saber, e somos lava.


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