terça-feira, 29 de abril de 2008

>> QUASARES >> Carla Dias

Eu me assombro não só comigo mesma ao retaliar mágoas e tentar calar avarias. Assombro-me com as refutações escaldantes que se propagam nesse eternamente de rótulos e sustos.

Sinto muito, meu caro, mas em mim moram vírgulas deslocadas, assimetrias inconvenientes; a minha voz cala e consente, mas nem sempre onde você deseja. É sempre num pouco antes... Num depois de agora.

Não visto as máscaras da sua preferência, mas se permitir posso me fantasiar de quem sou e, de repente, quem sou lhe bastará justamente pelas temidas diferenças que você evita reconhecer.

Talvez eu seja quase o que você espera, e no quase os quasares se distraem, e nos atazanam pela distância que nos separa, apesar de colidirmos freqüentemente.

Eu me descabelo mesmo, meu caro, se me vejo na vitrine das mesmices. Se em você busco conforto, quiçá um naco de confronto que dê em fazer as pazes, saiba também que me intriga constatar que você não me sabe com profundidade como o sei.

Prestar atenção dói? Desvendar é proibido? Então, tenho vivido às malhas da dolência e aos refugos das proibições. Transgressora às avessas, catando cacos de carinho, verbalizando silêncios em poesia. Envidraçando desejos, como colecionador de figurinhas a serem coladas em álbuns que sei lá.

Tenho uma lista de querenças:

Eu quero um mundo que caiba na barriga de grávida da vida, a amante da fertilidade de idéias. Quero um mundo como o pensava com menos anos de idade, quando mesmo à espera de uma centelha de realização que fosse, eu era entretida pelo alento; quando eu aceitava, sem preguiça de buscar compreensões, as importâncias. E as traduzia ao bel prazer da imaginação, fazendo-as caber, deliciosamente, nas entrelinhas dos meus sonhos, transportando-as – com leveza descarada – para a realidade à qual pertenciam.

Quero um mundo embalado por roques, sambas, canções de ninar, assobios; e travessuras de crianças, claro! As travessuras das quais possamos rir de tranqüilidade; que sejam lúdicas e não trágicas como são as das crianças vitimadas pela violência. Educadas por ela.



Um mundo no qual o amor não seja distante, figurando somente na imaginação de criadores de novelas de televisão.


Que haja transgressores determinados a contrariar tal destino; panfletários desse amor que nasce de uma troca de olhar entre estranhos, nas plataformas das estações de metrô; daquele cultivado entre pais, filhos, avós, amigos. O amor pelo semelhante que, através das diferenças, alimenta a igualdade.

Do amor que contempla pequenos e preciosos gestos que descambam em grandes feitos.

Um mundo no qual não dediquem ao amor a autoria de crimes; que em nome de Deus - numa tentativa de mudar a rota da culpa - não sejam praticados atos de intolerância.

Eu quero um mundo de silêncio quebrado pelo choro de felicidade; de reencontro, de catarse e de atrevimento, pois viver requer um tanto dele.

E saiba, meu caro, perco o fôlego fácil: quando nasce uma idéia promissora sobre pendurar em asas de anjo para ganhar uma viagem ao adiante. Ou pelos suspiros... Da criança ao cair no sono; do alívio em saber de quem se esperava notícias; dos amantes entretidos num abraço.

Suspiros me fazem perder o fôlego.


Imagens: Maurício Elóy>>http://lojasdecanelaartesvisuais.blogspot.com


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domingo, 27 de abril de 2008

MANUAL DA PROPRIETÁRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Randy Faris/CorbisEssa semana uma conhecida (que eu tomava por beata) falou que tinha uma lista de homens casados, todos sempre disponíveis: bastava estender a mão e pegar. Veio-me a imagem dela percorrendo corredores de um supermercado com homens expostos nas gôndolas, e ela os pegando com a mão e colocando no carrinho. Eu me lamentei, dizendo que nós, homens, estávamos virando objeto de consumo, e tudo que ela me respondeu, sem nem tremer, foi: "Fica triste não. Fomos e somos objetos de consumo bem antes de vocês."

Ocorreu-me então, dado o inevitável fenômeno, providenciar ao menos um pequeno guia para nossas compradoras, um manual da proprietária. Espero que seja útil e que possa minorar possíveis danos ao produto e melhorar o aproveitamento por parte do cliente.

*

INTRODUÇÃO
O homem que você acaba de escolher é um produto dos padrões de qualidade da Natureza do Brasil. Obtenha o máximo aproveitamento do seu homem. Para tanto, basta consultar e seguir criteriosamente as instruções deste manual.

A Natureza do Brasil reserva-se o direito de introduzir quaisquer alterações nos seus produtos e equipamentos, a qualquer tempo, sem incorrer em qualquer obrigação.

1. ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS
Alimentação: vitamina (leite de soja, banana, mamão, aveia, linhaça), tapioca, bolacha de água e sal, geléia, baião-de-dois, carne de sol, paçoca, cajuína, pão integral, queijo coalho.

Potência: nível médio. Não funciona por mais de três horas seguidas, independente do tipo de trabalho, precisando de reposição energética em forma de descanso, preferencialmente numa rede.

Sistema de escapamento: funcionamento diário pela manhã. Eventualmente à tarde e à noite, sempre tendo um livro, revista ou palavra-cruzada à mão.

2. IDENTIFICAÇÃO
O homem possui seu nome numa carteira de identidade, mas não convém chamá-lo pelo nome inteiro, que é longo. Adquirida alguma familiaridade com o produto, pode-se chamá-lo por um apelido, desde que carinhoso.

3. INSTRUMENTOS
O homem adquirido trata-se de um homem normal, padrão, destacando-se apenas os olhos (de cor variável) e as mãos (extra macias, à diferença das demais mãos masculinas). É provável entretanto que outras diferenças sejam percebidas com o uso. E a Natureza do Brasil sempre equipa seus produtos com alguns brindes, pequenos tesouros, que cabe à proprietária encontrar.

4. FUNCIONAMENTO
Convém pedir, nunca mandar. O homem funciona melhor em ambientes com poucas pessoas e em que haja predomínio de música sobre conversa. É muito sensível ao toque, podendo surgir alterações de forma e volume. Desliga-se automaticamente por volta das 22h, voltando a ligar às 6h do dia seguinte. Convém também programar um desligamento preventivo de 13 a 14h da tarde.

5. CUIDADOS COM A APARÊNCIA
Aconselha-se passar-lhe a mão pelos cabelos ondulados e assanhados, bem como corrigir um ou dois pêlos da sobrancelha sempre que necessário. Para manter o brilho do sorriso, recomenda-se carinho, leveza e bem-querer.

6. SISTEMA ELÉTRICO
Dotado de intensa eletricidade mental, o produto adquirido pode aquecer demasiadamente a cabeça ao pensar em uma ou várias idéias ao mesmo tempo. Entretanto, convém não tentar desligá-lo abruptamente neste momento nem interrompê-lo com outros assuntos de menor potencial criativo. Recomenda-se silêncio ou, no máximo, uma escuta atenta expressa em pequenas e pausadas perguntas.

7. CONSERVAÇÃO
O homem é auto-limpante, pelo menos em linhas gerais. Para uma limpeza mais profunda, é aconselhável uma esponja com bastante sabonete líquido passada pela própria proprietária com uma das mãos enquanto a outra mão faz o polimento das superfícies.

O produto sofre desgastes constantes nas costas e nos pés, sendo altamente recomendável massagens diárias nessas áreas. O fabricante não se responsabiliza pela depreciação do produto caso essa recomendação não seja observada à risca.

8. GARANTIA
Observadas rigorosamente todas as indicações desse manual, a garantia é bem dizer eterna, com grandes chances do produto ter uma expectativa de vida maior do que a da própria proprietária. De todo modo, visto que o homem conta com um sistema de reprodução, convém fazer uso dele, gerando filhos que hão de renovar o produto.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE
A Natureza do Brasil, orgulhosa de sempre produzir homens adaptados às suas proprietárias, portanto de caráter singular, adverte contra o risco de inveja e outros sentimentos menos nobres de potenciais clientes que ainda não são proprietárias de seus próprios homens.

*

É, pegar na prateleira é fácil, minha conhecida. Difícil é manter o produto em bom estado.

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sábado, 26 de abril de 2008

CONTRADIÇÕES DO AMOR [Debora Bottcher]


Ele já não era tão jovem quanto se podia supor, nem tão velho quanto parecia. Tinha o olhar vago, distante, que tentava entrever além do alcance qualquer coisa que ninguém compreendia. Dificilmente sorria: mantinha os lábios cerrados, falava pouco e, quando o fazia, a voz soava mais como um murmúrio, sussurro dolorido quebrando a harmonia.

Vivia ali há muito tempo... Fumava cachimbo e podia ser visto todas as tardes amparado na janela, admirando o crepúsculo, o vazio imenso ao seu encalço.

Eventualmente contava histórias aos mais jovens e ela, por inúmeras vezes, viu-se sentada nas escadas do prédio onde moravam, absorta em suas palavras tristes que raramente vestiam-se de alguma satisfação. Momentânea: instantes em que a brevidade deixava divisar um minúsculo brilho.

Ele se movia pelos vales da dor e da saudade com suave maestria. Conhecedor das sensações que abatem nossas almas de forma definitiva, aquele era um território pelo qual ele passeava sem dificuldades.

Era um homem só e isso a intrigava: a solidão inerente, uma imposição ingrata a si mesmo. Um dia, questionou. Ele a olhou longa e silenciosamente, agonia e amargura brincando em seu semblante.

Depois, vagarosamente, repetiu a história que todas as tardes contava aos ventos.

Na imensidão de um tempo em que ele ainda pouco sabia da vida, assistira seu destino ser traçado por outras pessoas. Ele se perdia de suas emoções, nunca sabia exatamente o fundo de seus desejos, e via a interminável rotina do inevitável se abater sobre os dias. Tudo corria num ritmo frenético demais e ele acabava por acatar decisões das quais sequer tinha participado.

Teve um filho, seu maior legado: a pureza verdadeira, expressão real das coisas importantes.

O Universo ditava as leis e ele as seguia, quase autômato, até que repentinamente seu interior se rebelou: havia muita coisa ainda a descobrir, muito a desvendar... Sua alma começou a trilhar os abismos obscuros da ansiedade negra. Ele precisava de algo a que se agarrar.

Partiu, cheio de culpa, causando estardalhaços, mas finalmente capaz de andar com as próprias pernas, fazer suas próprias escolhas.

A vida lhe doía, lhe fez entrever o precipício do medo, do desejo de voltar para a segurança que conhecia, mas ao mesmo tempo, um oculto mágico estava por trás da porta, e tal como criança, era preciso correr o risco de simplesmente girar a chave a abri-la. E quando o fez, a magia se instalou.

Conheceu os segredos do mundo e cruzou o portal da vida de muitas mulheres. E dentre tantas, uma.

Assustou-se. Ela chegara mansa demais, sem qualquer alarde, nenhum ruído, sem exigências. Trazia o riso franco, a risada gostosa, generosidade e carinho sem limites. Chegou semeando o aconchego das noites na palma das mãos, silêncio e alegria tal como ele jamais julgou alcançável. Temeroso da descoberta, apavorado com as possibilidades de sofrimentos infundados, a afastou de sua vida. Nunca soube explicar por que fizera isso...

Quando deu por si, tentou, em vão, retomar o curso que havia se rompido com traição e mentira. Mas ela, recolhida em sua mágoa, pôs fim ao que realmente podia ter mudado suas vidas.

Continuaram amigos e cada vez que a encontrava servia apenas para fazê-lo constatar o inevitável: ela era a mulher que ele esperara, procurara, buscara desde sempre imaginando jamais existir, e era amargo saber que a perdera no insuperável abandono de seus erros.

Teve outras mulheres, muitas. Contudo, nunca mais soube o que era plenitude, e ao compreender o invisível, desistiu. Desistiu de si mesmo, dela e de tudo o mais. Apenas seu ofício e seu filho importaram por longos anos.

Agora vivia a mercê das esperas, uma esperança remota de que a imensidão do tempo mudasse o que a juventude e suas apaixonadas reações não foram capazes de transformar.

Há muito não tinha notícias daquela mulher, mas imaginava-a perdida em suas lembranças, e talvez sua memória o alcançasse. Ela o havia amado - ele não tinha dúvida. Por isso, permanecia no mesmo lugar: para o caso dela voltar. Até lá, silêncio, saudade e solidão seriam seus companheiros...

Uma lágrima quente rolou pela face clara da menina que o ouvia. As mãos que um dia acolheram e rejeitaram o amor, tocaram seu rosto num gesto delicado e a voz rouca, num gemido sofrido, pediu que estivesse atenta para não deixá-lo escapar quando lhe interpelasse o caminho. A voz da sabedoria, na tarde infinita que morria dentro da noite, contava que isso acontece uma única vez...

Expressões Letradas

Imagens: French Singer and Composer Singer Guy Beart, Jacques Haillot; Couple Sitting on Rock, Ant Strack; Heart Shaped Leaves in Stream, So Hing-Keung

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sexta-feira, 25 de abril de 2008

AQUILO >> Leonardo Marona

agora, depois de um tempo sem escrever nada, sinto falta do que antes não era, uma cama quem sabe desfeita, um carinho perdido numa estrofe simples, talvez pelo frio que percorre a espinha por dentro dos mais nobres clichês, aquele medo elástico, o amor como parábola que sai pela saída de emergência, é como se agora, depois de um tempo sem escrever nada, as andorinhas começassem a, finalmente, cair degoladas manchando meu lençol branco, um dia claro, como tais solos de guitarra quando Lou Reed está particularmente inspirado e entorpecido, e não é propriamente o amor, não a carne reflexiva de tantos espaços sem preenchimento, não são as tentativas no escuro, os chutes na parede pelo amor não concebido, as saudades que só falam para dentro, aquela pessoa cuja alma é teu escudo e tua lança, coisas assim, sem muito sentido mas fortes, talvez apenas uma lua cor-de-rosa, o sol nascente dos novos amantes, Nick Drake e um pouco de fé na vida, um cheiro de chá de avó por trás da porta, por debaixo dos lençóis ou mesmo dentro de um foguete, apontar para cima de olhos fechados enquanto se atrasam as trombetas do cataclismo, pensando agora em quem se deve e jamais voltará, "um amor corrompido" eles dirão, "uma doença social", mas agora, depois de um tempo sem escrever nada, isso é muito bom de sentir, e ao mesmo tempo sei que sou eu morrendo um pouco mais daquilo, daquele oco estático, que mantém tudo constante.


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quarta-feira, 23 de abril de 2008

QUEM ME OLHA SÓ >> Carla Dias >>

Todos nós temos uma série de canções para combinar com uma série de grandes acontecimentos, até com pequenos gestos, lembranças. Às vezes, nem são necessários os acontecimentos, e a canção se torna uma companheira de viagem, uma jornada de delírio dos bons, daqueles que nos levam aonde jamais iríamos a sós... Mas somente acompanhados por uma boa canção.

A primeira vez que ouvi essa canção, confesso que senti um arrepio. Primeiro, por causa da chamada dos metais que há na música. Depois, pela letra, interpretada a contento por uma voz que soube embelezar a melodia.

Já reguei quase todas as plantas
Já chorei sobre todo o jardim
Elas gostam da chuva que molha
Elas pensam que o sol é ruim

Roberto Frejat e Arnaldo Antunes traduziram, através de Quem Me Olha Só, algo que já sabemos, mas nem sempre engolimos: às vezes, gostar não é o suficiente, e se transborda, afoga a possibilidade de ser correspondido. Por mais belo que seja o amor que sentimos, ele pode não ter vez se for somente nosso.

Quando o sol nos meus olhos brilhava
Por amar minha flor tanto assim
Fui feliz sem saber que secava
A rosa e trazia o seu fim

Aprecio muito a languidez dessa canção, pois me faz sentir como se estivesse sempre a um passo de alcançar o sentimento; de tê-lo nas mãos, percebê-lo concreto. O êxtase provocado pela possibilidade, por este quase alcançar, leva-me pela mão até meu delírio próprio.

Hoje sente dó, quem me olha só
Entre flores, folhas e capim
Elas gostam da chuva que molha
Se alimentam do mal que há em mim

Quem Me Olha Só tem sido minha companheira de viagem há muitos anos. Foi lançada em 1987, integrando o disco Rock’n Geral do Barão Vermelho, e desde então sobrevive em minha biografia. Já não há situação, pessoa, gesto específico que a canção me faça encarar... Hoje ela é trilha sonora de mim. Às vezes eu dou gargalhadas, em outras choro; em outras ainda chuto portas, escutando essa música.

Hoje sente dó, quem me olha só
Eu tenho o espinho do carinho
Hoje sente dó quem me olha sozinho

Uma canção pode dizer o que jamais verbalizaríamos, como deixa claro o personagem de John Cusack, Rob Gordon, no filme Alta Fidelidade (High Fidelity/2000), ao explicar a importância de se gravar uma coletânea de canções para alguém.

Quem Me Olha Só já acompanhou a criação de alguns dos meus poemas e contos. Já apertei muitas vezes o replay para ela e a senti de várias formas, de acordo com o que trazia em mim a cada vez que a escutava. Também já toquei essa música, desejando conhecer melhor a sua arquitetura.

Enfim, hoje é dia de QUEM ME OLHA SÓ.


Encontro entre Barão Vermelho e Ed Motta no Prêmio Multishow de Música Brasileira, em 1998.


Imagem: Jander Minesso >>http://www.flickr.com/photos/tantofaz


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domingo, 20 de abril de 2008

PARA A CIDADE AMADA >> Eduardo Loureiro Jr.


Eu levo Graça e Ceiça,
Lara, Lorenas, Karina.
Levo Iluska, levo Sheila.
Nelas, levo Teresina.

Levo Ivana e Suely.
Francisca, Oziane, Lila.
Glórias, Valéria, Bonfim...
Nelas, levo Teresina.

Levo Marinalva, Hostiza,
Desterro e Teresinha.
Socorro, Marlinda, Ozita.
Nelas, levo Teresina.

Levo Dona Rosa e Lourdes.
Lúcia, Gisele e Zenilda.
Levo Joanas e Bete.
Nelas, levo Teresina.

Levo Teresa, a Ana,
Levo Teresa, a Cristina.
Larissa, Sônia, Renatas.
Nelas, levo Teresina.

Levo Luciana e Mônica,
Aracele e Regina.
Ruth, Patrícias e Hadassa.
Nelas, levo Teresina.

Levo Beatriz, Rebeca,
Fabrícia, Taline e Virgínia.
Elizabeth e Érica.
Nelas, levo Teresina.

Levo Antônia e Andréa.
Neli, Shirlene e Jovina.
Levo Conceição, Albenes.
Nelas, levo Teresina.

Levo Pollyana e Carlas.
Rachel, Onádia e Marisa.
Helena, Lia e Poti.
Nelas, levo Teresina.

Eu levo Vilma e Frayla.
Lucélia, Cleide, Honorina.
Levo Lídia e Roberta.
Nelas, levo Teresina.

Levo Jandira e Marlene.
Levo Rachael e Marina.
Ana Célia e Tatiana.
Nelas, levo Teresina.

Levo Joelcy e Nati.
Levo Alyne e Naíza.
Sara, Kelly e Ana Maria.
Nelas, levo Teresina.

Levo Nazildes e filhas
— uma delas conhecida.
Levo Eduarda, Maria.
Nelas, levo Teresina.

Levo Tess e Tarciana,
Maria Andréia e Dilma.
Levo Mara, levo Nuvens.
Nelas, levo Teresina.

Levo Luciana, a Lua.
Levo chuva e neblina.
Levo enchente, tempestade.
Nelas, levo Teresina.

Levo Maria Isabel,
Amparo e cajuína
Levo manga, flor canela.
Nelas, levo Teresina.

Levo mulheres que passam,
— tornando curva a retina —
e também as que me olham.
Nelas, levo Teresina.

Eu levo as que esqueci
de colocar nestas rimas.
Memória tem seus segredos.
Nela, levo Teresina.

Levo feito Arimatéia.
Feito Lelê e Edilson.
Tércio, Léo e Otacílio.
Motinha, João e Lenilson.

Levo feito Marioni,
Kelson, Pedro e Gilberto.
Feito Pádua, Zé Augusto,
Zé Maria e Valdeck.

Eu levo feito Givaldo,
Luiz, Franciscos e Fábio.
Manoel, Claudio e Douglas.
Assis, Duarte, Tiago.

Levo feito Atualpa.
Washington e Gildásio.
Feito Rogério e Sinésio.
Juracy e Luís Carlos.

Levo feito Alan e Eric.
Davis, Betinho e Lúcio.
Feito Seu Zé e Zé Paulo,
Almeida e seus filhos muitos.

Levo feito Artur e Braitner.
Johnson, Carvilho, Camilo.
Feito Lucas e Jaylson.
Clécio, Zé Nunes, Danilo.

Levo feito Osmar e Thompson.
Gilmar, Antônio e Nonato.
Feito Rafael e Robert.
Roberto, Alonso, Nivaldo.

Levo feito Tchou e Paulo,
Daniel e Flaviano.
Felipes e Irineu.
Me perdoem os que eu não chamo.

Eu levo feito relâmpago,
feito um riu e outro ri,
feito trovão e caju,
Parnaíba e Poti.

Eu levo feito bambu.
Feito o frei Serafim.
Feito Cabeça-de-cuia
Feito Vavá, meus afins...

Levo feito Mestre Antônio
de Pádua, de Teresina,
um jeito de olhar as coisas
feito quem as ilumina.

Levo feito quem eu era,
mas só pra fins de poesia.
Levo mesmo é quem eu sou,
refeito por Teresina.



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sábado, 19 de abril de 2008

QUANDO DESCANSARÁ ISABELLA? [Maria Rita Lemos]


Fiquei sabendo, como quase todo mundo ficou, da morte de Isabella, a criança que foi jogada do sexto andar de um prédio em São Paulo. Ou não foi jogada, foi “desovada”? Ninguém sabe, e quem sabe não diz. São apenas suposições. O que se sabe é que havia sangue em vários lugares, e que Isabella apresentava marcas típicas de quem foi machucada, antes de ser jogada ou “desovada”.

Fiquei pensando em como alguém pode pegar uma criança de apenas 5 anos, maltratar, asfixiar e depois atirar pela janela do apartamento. Nem sendo psicóloga, que tem por mister estudar o comportamento humano, nem assim fica fácil entender essa
crueldade. O que dói muito é saber quanta gente está ganhando dinheiro e/ou prestígio com essa tragédia, desde a mídia em geral até as mães das amiguinhas de Isabella, que nunca pensaram que estariam na TV, dando entrevista... a professora, os vizinhos, o porteiro do prédio, de repente todo mundo tem algo para dizer sobre a menina, tanta gente sabe alguma coisa, ou não sabe de nada, mas assim mesmo aparece na grande mídia. E Isabella não ganha cachê algum por isso. Talvez, e isso é só uma parte do mistério, não consiga nem mesmo descansar em paz.

Não estamos nesse mundo para julgar ninguém, nem apontar dedos acusadores para quem quer que seja, mas as dúvidas persistem: se não tinham, de fato, nada contra quem estava preso, por que estavam detidos o pai e a madrasta de Isabella? Se o delegado tem que prender, e por isso é delegado, e por isso essas duas personagens importantes na vida da menina foram presas, por que não foram presos os que compraram tapioca com cartão coorporativo, por isso, em última análise, com dinheiro público? Ah, sim, porque é diferente de matar. Políticos são diferentes dos demais seres humanos, e podem, talvez, matar a esperança do pobre povo brasileiro sem que nada lhes aconteça, é a mensagem que nos passa.

Não estou, com isso, tentando dizer que o pai de Isabella fez essa barbaridade, ou sua madrasta, ou algum desafeto seu ou do seu avô... longe de mim julgar, já por isso declinei, há muitos anos, convites que me foram feitos para ser jurada. Estava apenas pensando alto, intoxicada que fui, todos esses dias, com tantas notícias sobre Isabella - bastava ligar a TV ou abrir um jornal e lá estava ela, sorrindo sempre, dentinhos ainda de leite, talvez, sem ao menos suspeitar que seria atriz, pouco tempo depois, de uma tragédia macabra, cujos personagens são apenas presumidos.

Fiquei pensando em quantas Isabellas existirão, atiradas pela janela, abandonadas em cestos de lixo, jogadas em represas, Isabellas ou Joões, nesse mundão de meu Deus, ou aqui, mesmo, pertinho, nesse nosso Brasil, tão querido quanto sofrido.

Dias antes do caso Isabella, vimos nas mesmas TVs a menina de 12 anos, de Goiânia, encontrada presa e torturada barbaramente pela “tia” Sílvia, que já fizera o mesmo com cinco crianças, anteriormente. Apenas uma delas teve coragem de denunciar ao
fato à mãe biológica, que não acreditou, achando que sua filha estava inventando tudo. Agora, mamãe, agora que sua filha esteja, talvez, descrente de toda a humanidade, pois quem ela mais confiava não acreditou nela, agora você acredita que era verdade? Pois é, mamãe, era verdade. Sua filhinha foi torturada, como Isabella foi morta, e não teve ainda tempo de descansar.

O padre apareceu na missa de sétimo dia, mais de oitocentas pessoas que estavam na igreja também, o promotor apareceu, o juiz, os advogados, a madrasta, o pai, a mãe biológica. Vendeu-se muito jornal por conta disto, os anunciantes correram, repórteres correram também, porque afinal o pão deles é o nosso circo, ainda que trágico, horrível, impensável. A verdade é que, infelizmente, nossos monstros moram entre nós, estão no meio de nós. Muitas vezes dentro de nossa casa.

No frigir dos ovos, quem vai sentir a falta de Isabella, mesmo depois que a notícia já não for notícia, são aqueles que verdadeiramente a amavam, e não apenas fizeram manchetes de sua tragédia ou choraram em sua missa. Só nesses corações a menina deixará um vazio, porque, para o resto de nós, será apenas mais uma, engrossando as estatísticas.

O que eu realmente espero é que Isabella descanse em paz. E ela não descansará enquanto for manchete de jornais. Ela não descansará enquanto houver outras crianças esperando, nos beirais das janelas, nas margens dos riachos e lagos, aguardando que se faça alguma coisa por essa gente insana, chamados de monstros, mas que podia muito bem ser um de nós, chamados sadios. O que Isabella espera, o que esperamos, é que as razões que levam a gestos desse tipo, trágicos e fatais, sejam exterminadas.

Que os monstros que habitam entre nós morram de fome, porque não serão mais alimentados pelo ódio e pelo descontrole, crônico ou agudo. Enquanto houver uma única
criança espancada, enquanto houver gestos de covardia, motivados por gente doente, de dor, de sofrimento, de miséria, de desesperança, de ódio, outras Isabellas estarão à espera do vazio e da morte. Que vença o bem, ainda que tarde. E que
Isabella descanse em paz.

Imagem: Revista Veja, Edição de 16 de Abril de 2008

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DIVAGAÇÕES [Debora Bottcher]


Muito tarde e ela não conseguia dormir. Na penumbra do quarto, divisada pela luz distante da rua, ela observava através das sombras uma estranha saudade, sorrateira, caminhando silenciosa sobre o tapete macio... Azul, vermelho, branco, de todas as cores... De uma só cor, porém, o vulto que atravessava seu pensamento, sua alma fria.

Não havia fantasmas ao redor, nenhum som - exceto os reflexos de seus medos nas paredes claras e o barulho inquietante de um coração que desejava parar de bater.

Madrugada... Avançava rumo ao raiar do dia, ignorando seu desespero, a inquietação: amanhecia como ontem e sempre... Passado e futuro um só tempo, o presente estancado na memória.

Quis perguntar muita coisa, mas sua voz emudeceu diante da ausência de sons que gritava por quietude. Calar-se...

Muitas vezes se sentiu só, mas nunca como naquela noite. Pairava no ar uma estranha sombra, um vazio que ela pensava não mais lhe pertencer.

Tentou desesperadamente agarrar-se às lembranças de um tempo não muito distante - talvez há menos de meia hora -, mas lhe escapavam os momentos felizes, o sorriso daquele homem tão amado, sua risada ecoando ao seu lado...

A felicidade que se perdia não queria mais ser resgatada. Em seu interior ardia a sensação incômoda de ter perdido o fio da meada da trilha onde se haviam iniciado os caminhos do fim e de novo ela estava para ser lançada ao seu abismo particular.

De certa forma, descobriu, com algum alívio, que já estava preparada para isso. Era como se no fundo de si uma voz estivesse sempre lhe acalentando, carinhosamente lhe sussurrando que aquele tempo de alegria ia se despedir, lhe abandonar, devolver-lhe para o seu antigo e conhecido lugar...

Percebeu-se sem nenhuma certeza: quem saberia se se afastava de si ou se para si retornava? Desejou adormecer, mas o sono não vinha e ela soube que estava perdida novamente num precipício raso demais até para morrer...

Então sentou-se na varanda, no sereno cálido sob estrelas de uma noite fria, tentando não mais pensar. Recomeçar... Soa muito tarde, mas ainda dá tempo...

Amanhã... Depois... Talvez sempre...

Expressões Letradas

Imagens: Woman with Red Carpet, Freyda Miller; Cheerful Young Couple Lying Down, RF Corbis; Woman with Hair Blowingin Nighttime Breeze, Vicky Emptage

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Sonhos de um Monge >> Leonardo Marona

Este texto será mais bem absorvido se lido ao som do piano de Thelonious Monk – Ou de Deus.

1. Monk’s Dream:

Uma rodada de dados – “Willie ‘The Lion’ Smith é a cabeça do meu pau!” –, ele grita quebrando uma garrafa na cabeça de Joe “Gordo” Postanza, o dono da banca – então ele ergue as calças e se manda pela janela. Um tiro lhe trespassa o colarinho da camisa. Consegue ainda salvar o trompete. Cai em cima de uma montanha de lixo. O lixo se espalha pelo chão. Nosso homem agora deve mais de 50 mangos e por isso não pode morrer. Tosse. Sangra a palma da mão. Um mendigo se acorda, deitado no chão (parecia sonhar): “Meu irmão, por que não dá o fora?”. Nosso homem leva a mão ao chapéu de feltro de duas bandas largas. Impressionante como é fácil substituir as tradicionais palavras de contato. Agora ele grita para o mundo da rua dos esgotos abertos – com o mesmo primeiro movimento põe tudo a perder, toda convenção – na direção de uma sacada. Então essa mulher – aparição perfumada – grita de volta mais alto, com a voz muito esganiçada. Diz as coisas mais terríveis. Mais um homem se apaixona. Bate na porta. Esmurra. Tosse. Sangra a palma da mão. Tateia os bolsos. Num deles acha uma pétala de rosa. Abre as duas mãos e olha dentro de cada uma. Uma pétala de rosa numa, sangue coalhado noutra. Bate na porta. Olha de novo para as próprias mãos. São tão parecidos, pétala, sangue... Ninguém mais atende suplícios e ele se deita no corredor, onde acorda sem roupas, a pétala ao lado, e sem um rim, o rim ruim, suturado, com um bilhete escrito: “Seu rim segue amanhã pela manhã para a Costa do Marfim”.

2. Body & Soul:

Tudo começa com um homem entrando num prédio feito de tijolos. Passa por duas meninas e um sujeito. Uma das meninas esfrega a língua na orelha do sujeito. A outra fica ali parada, olhando sob disfarce, segurando o queixo. O homem passa por ela. Olham-se. Ele vira para trás depois que passa. Ela ainda está olhando, com o pescoço virado e um beiço mordiscando o outro. O homem tropeça numa quina e cai de peito no chão. O casal pára de se beijar e começa a rir. O homem se vira, já não sabe mais como rir. Dói seu maxilar. Abriu um corte no queixo. Sangra sem medida. Levanta-se, um joelho ralado sangra também. O casal ri e ri, constrangido, mas de cara cheia. A menina que sobra (menina perdida, bondosa, excluída, sem ovários) fecha os beiços (o homem lanhado bate os joelhos com as mãos, pingos de suor lhe escorrem pela face) e uma lágrima lhe escorre pelo pescoço. O homem reconhece nela uma bondade débil, constrangedora, e faz um sorriso insosso. O tempo diminui sua marcha, como quando acontece a paixão. Um sorriso e uma lágrima. E não estaria ali o resumo do sentido? O homem sobe para casa de elevador. Mora no sétimo andar. Sai e vê o elevador descer até o térreo. Ele olha por um tempo para o mostrador do elevador. Primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto... Ele espera. Um carro freia bruscamente na rua. De um basculante através do vão central do edifício, mesmo andar, uma gorda bate as cinzas no cinzeiro, veias cinzentas estateladas nas dobras das pernas, ela corta um pão francês em três fatias e conversa com um marido imaginário na pele de um corsário turco. Na vitrola, em eco, através dos corredores do edifício, escuta-se a bateria de Shadow Wilson como um coração inchado, recém morto. O homem vira a chave de casa e olha para trás. Três policiais aparecem com um mandato de prisão por porte de entorpecentes. O homem olha para o seu melhor amigo, sentado aplicado estendido no sofá do apartamento vizinho. É o maior pianista que já se viu. Seu vizinho. Na porta. A porta escancarada. Cheio de gênio e droga.

3. Bright Mississipi:

Um saloon, é óbvio, em Clarksdale, com porta vai-e-vem. Lá dentro toca uma jazz band. Banjo, realejo, gaita, guirlandas presas nos sapatos, piano, pa-go-de. “Não é fácil fazer os acordes parecerem certos”, resmunga o pianista, depois de um gole pelo gargalo, com a mão apoiada na cauda do piano. Homens falam alto, comem almôndegas com molho de tomate e entornam eggnogs. Apenas negros, menos o atendente, um negro mestiço misturado com italiano, chamado Lou Padovani. Lá fora os brancos já voltaram para suas teses e causas. É a chamada “hora dos animais noturnos”. Outros homens, no balcão, tomam cerveja de trigo e falam sobre a chegada da chuva e as plantações de algodão. Suspensórios soltos. Seria um ano bom. Um pouco de serragem cobre o lugar de modo que os negros ficam mais claros e tudo parece mais claro do que realmente é. O rapaz da gaita de repente tomba e cai de boca no chão, as pernas por cima das costas. Os homens todos se levantam e riem e batem palmas e os pés no chão. Um homem sobe numa das mesas. Lá fora tudo que céu azul é sul. Outro alucinado puxa uma faca, disfarçado pela sombra clara formada pela poeira humana. Dois homens gritam “Whá-da-hell!”. A banda pára de tocar. Não se sabe ainda de onde vem o sangue. Até que um negro de bigode ralo corre em direção à congestão da porta e outro, um pouco mais gordo, de cavanhaque, tomba com um rasgão debaixo da orelha, sorrindo com os olhos arregalados. Alguém enfia uma ficha na juke box: Boogie Chillen. Arrastam o homem morto dali. Dois ou três sinais-da-cruz. Um amém. Nenhuma igreja em volta. Os negros voltam a girar os olhos por trás das suas canecas, desconfiados, esperando pela chuva. Amanhã será a mesma coisa.

4. Five spots blues:

Não conheço ninguém. Essa é, realmente, uma decisão difícil de tomar sozinho. Aqui ao lado existe um cara gritando que “ano que vem tem que votar no Fulano, não tem coisa melhor”, enquanto eu e essa menina, que deve ser muito boa de cama, defendemos que o dever político deve ser voluntário, sem remuneração, sem salário, sem sigilo. Ela bebe mais rápido que eu. O prédio é oco por dentro e sólido por fora, como o resto do mundo. É difícil ouvir o coração bater quando... Ali estou eu. Essa menina se inflama, limpa coisas, faz pães para todos, se vê no direito, bate o garfo no prato, “camaradas, comida!”, fala com muito controle sobre coisas incontroláveis. Isso me encanta. Ela brinca com o erro do comprometimento caricato. Uma hora as cervejas todas estão quentes, a polícia chega de repente, mas eu estou preso ao parapeito. Um sujeito se aproxima de mim. Acha que sou o tipo que dá boas respostas. Pergunta: “O que você acha que tem do lado de lá?”. Respondo a ele: “Um monte de gente perguntando o que tem do lado de cá”. O sujeito chora debruçado ao parapeito. Andar muito alto. Os carros rodam lá embaixo, como pequenas Sylvias Plath. Ele me agarra pelo pescoço: “Minha prima se suicidou daqui!”. Fico mamando minha cerveja: “Por favor, se for fazer isso, espere eu sair”. “Você não gosta da altura?”. “Acho que bicho sem asa tem que ficar no chão”. Naquela noite vi uma estrela de cinco pontas pintada em laranja por uma menina chamada Mercedes Callaghan. A estrela apontava para o sul. A silhueta se formava sob uma palheta de cores. Sinto-me estúpido. Confundo a orla de Ipanema com a Lagoa de Marapendi e, até aí, está tudo bem. Vejo a linha da montanha muito distante e penso nas linhas da mulher que me amasse. Não posso suar porque tenho um curativo na testa, logo acima do olho esquerdo, que vai me deixar um quelóide quando sarar.

5. Bolivar Blues:

Este é um camarada que anda assobiando, com as chaves na mão, procurando mulheres pelas ruas. Não consigo imaginar outra coisa senão seis latas de cerveja dentro de um papel pardo, cigarros de filtro amarelo, cabelos penteados para trás, dentes azuis de vinho. Ele não se lembra onde deixou seu Plymouth 61, mas lembra que foi num areal, local proibido. Achou uma mulher para se casar e duas para se divertir, no caminho de trás para frente que fez três vezes até encontrar o buraco onde enfiar a chave. E isso não tem nenhuma ambivalência, fora a lua, as estrelas, o céu, o reflexo dela nos braços de outro através da parede de vidro, o vinho quente, quer dançar comigo? Não, diz o poste. Sim, diz a calçada.

6. Just a Gigolo:

Ou conta dinheiro ou bate na porta ou limpa a orelha com a unha comprida do dedo mindinho. Lembrava de coisas como o pêlo macio colado ao lombo de um cavalo de madeira num dia muito frio numa casa arquitetada em estilo bávaro em alguma cidade da Região das Hortênsias. Passava a mão nos pêlos do cavalo de madeira. Sua mãe sorria. Seu pai batia fotos. Acenava com seu casaco quadriculado de jeans. “O que teria acontecido nesse meio tempo”, pensa alto enquanto batem à porta. Mas antes que alguma coisa caia no chão ou ele responda, a porta se abre, ele recebe uma saraivada de chumbo. Ainda sobra tempo, sempre sobra algum. Ele ajeita o chapéu coco, mete as mãos nos bolsos à procura de algo, sem saber com os dentes sujos se ri ou se chora ou se apenas... Então serve um copo de stinger e outro de bicarbonato. Faz o sinal da cruz, o chapéu no chão.

7. Bye-Ya:

De repente alegre, de repente triste, de repente sozinho. Os passos não dizem mais do que tropeços e sorrisos conseqüentes. Ele segue atrás dela. Olha no fundo do seu Martini Bianco. Ela não está ali também. Isso o revolta. Que patético um homem negro, meio mulato, quase pálido, sem religião, de lábios quebradiços e cheios, procurando moedas no chão com as calças pelo meio das panturrilhas. Passa por uma barraca indiana onde um indiano limpa os olhos com um pano cor-de-passado (círculo de luz enfumaçado pela gordura indiana, bocas trêmulas soltando vapores de cansaço). O indiano cheira azedo, suor nas sobrancelhas, ele todo evapora junto. Nosso homem levanta as calças, que agora cobrem os sapatos. Bate a camisa amarrotada, metade para fora das calças, mau hálito entre os dedos, lanhadas de unha na base do queixo, nenhuma lágrima, desculpa, cara de susto ou respaldo etílico. Escolhe um frango tandoori, que na verdade é duro mesmo. Um mango chutney vem de uma compota inesperada, na mesma hora em que um cão vadio passa lhe abanando o rabo, com a língua de fora. O indiano olha, enxota o canino: “Da próxima vez vira lingüiça!”. O cliente joga um pedaço de tandoori nem tão duro para o cão. O cão pára, cheira, vai embora. O rádio continua tocando e o mundo inteiro espera.


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quarta-feira, 16 de abril de 2008

REFLEXÕES >> Carla Dias >>

Ao nascermos, mil e tantas possibilidades se aproximam de nós; cortejam nosso futuro. Para uma e outra oferecemos um sorriso, ainda sendo descoberto sorriso, porque não sabemos o que ele é. Apenas o sentimos benevolente, reconfortante, assim como é dolente a sensação de não conseguirmos verbalizar desconfortos.

Vamos aprendendo brincadeiras, enquanto burilamos descobertas mais profundas. Dói o dente, ele cai. Mãe conta sobre a fada dos dentes. Medo! E se ela se apaixonar pelo Bicho-papão? Pai paquera a bola de futebol, diz que ela será para a infância do filho, mas quê? Ela já é lua nos sonhos dele e se o filho chutá-la, ela irá parar no céu e não mais voltará, porque vai se sentir em casa. O pai vai chorar até!

No meio da jornada, o coração aprende o sentido do som dos tambores antes mesmo de percussionistas terem aulas com os mestres. É um tamborilar natural... A taquicardia da pressa pelos apaixonamentos. Os olhares se abraçam, as mãos se atrapalham, a voz falha e diz tanto ao cometer o silêncio, que embriaga de frescor a alma da gente.

Há, então, a constante desse equilíbrio: esperas. Já mencionei, e mais de uma vez, que as esperas me fascinam. E durante a gestação delas, precedendo as chegadas, há um movimento terno e languido; um preparo para o que ou quem virá. Uma tranqüilidade levada.

Num certo momento, necessitamos com requintes de urgência. E esse tipo de necessidade tem lá suas desavenças com a realidade; leva-nos a confabular, intimamente, com os revezes da ilusão. Então, necessitamos de amparo, de que nos digam que tudo ficará bem; que nos descrevam a rota, apontem no mapa aonde chegaremos se... Essa é a fase da bipolaridade emocional, quando preparamos o terreno da nossa alma para anjos e demônios, camas juntinhas, para que eles tagarelem como fazíamos com nossas irmãs e irmãos, quando pequenos.

Ficamos mais próximos dos precipícios.

Há tempo para compreensões, como a de que amar nem sempre é fácil... Que facilidades são itens de loteria, e que quase sempre não são benéficas. Ainda assim, sentir que vale o risco de cultivar amor, ateando compreensão no que não estimamos em nós mesmos: o corpo, o jeito, a voz. A incapacidade de aceitarmos que o amor é o benquerer que transcende rótulos, ultrapassa obstáculos e sobrevive apenas se alicerçado em compreensões. O amor que constrói enxerga ao avesso... De dentro pra fora.

Durante a vida, aprendemos um tanto e o desaprendemos com freqüência. Nossas intenções são frágeis, submissas, parturientes constantes de piedades. Mas também reverberamos alegrias, nos fartamos de contentamento! E se, às vezes, cambaleamos, chegamos mesmo a tocar o fundo falso desse fim que não é fim, mas sim a necessidade urgente de recomeço, é porque só saboreamos nossa existência ao regalo das experiências.

Quando estáticos somos um nada sem intenção de preenchimento. Somos vazios que só.


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segunda-feira, 14 de abril de 2008

CANÇÕES, ESTÉTICA E NOSTALGIA >> Albir José Inácio da Silva

Já não ando distinguindo bem o que gosto por gosto mesmo do que gosto por nostalgia. Como me habituei a freqüentar certo tipo de música, as pessoas dizem que não gosto disto ou daquilo. E lembro-me de que realmente não gostava, mas agora não tenho mais certeza. Se me enternece uma canção, já não sei se é por suas qualidades intrínsecas ou porque suas asas me transportam a um terno momento da vida. Mas nem sempre foi assim. As certezas foram me abandonando na medida em que eu procurava por elas.

Comecei gostando da música que ouvia na infância. Sertanejo, Gonzagão, Ângela Maria, Caubi, Emilinha e quem já não me lembro mais.

Passei a ignorá-los quando vieram Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Wanderléa e demais alistados da jovem-guarda.

Não conheci a bossa-nova, que na época era muito erudita pros meus ouvidos.

Num dado momento, umas aulinhas de inglês no ginasial, a repressão desencadeada contra a cultura nacional e a conseqüente abertura das rádios às nações “amigas” me fizeram adorar qualquer coisa que, cantada, eu não entendesse. Ouvi rádios, comprei discos e copiei letras que não entendia, mas desejava. Os Beatles já se separavam quando eu comecei a ouvi-los, a decorar suas músicas e a sonhar com Londres e Nova Iorque. Isso me fez renegar tudo que se cantasse em português, com exceção de uns hinos religiosos por compromisso de salvação e medo do inferno.

A universidade chegou abruptamente trazendo política, MPB e finalmente a bossa-nova. E agora eu odiava sertanejo, jovem-guarda, ufanismo e tudo que não fosse em bom português, acometido que fora por uma ziquizira que me empolava toda vez que ouvia qualquer coisa que lembrasse a fala ianque. Dessa vez nem os hinos se salvaram porque o inferno era a ditadura. A própria bossa-nova perigava de excomunhão porque, não suficientemente engajada, falava de amor, de sol, de mar e de outras veleidades. Por fim, coloquei sob suspeita a MPB porque nem sempre se mostrava combativa. Eu me emocionava às vezes com umas coisas melosas e tristes, mas, passada a fraqueza, avaliava a perda de tempo revolucionário. Cantei, então, só Vandré e a Internacional. Não cantei carnaval porque, junto com futebol, era ópio do povo. É bem verdade que tive várias recaídas, e acabava cantando alegria, paz e amor e hare krishna.

A ditadura começava a dar sinais de cansaço e eu desistia das armas que nunca empunhei porque já tinham sido presas juntamente com seus portadores. Também porque trabalhava de dia e estudava de noite e só com isso já ficava muito cansado. Agora eu cantava de novo bossa-nova, sol e mar, areia e beijinhos. Também já me permitia cantar o amor da MPB e não só o lamento e a indignação. Até umas frases em inglês eu desafinava meio sem graça. Viva a arte – eu dizia - porque a fome, a miséria e a exploração vão continuar existindo, e como disso já não dá mais conta a religião - viva a arte!

De súbito me achei sabendo de estética. E ficava veemente dizendo que isso era bom e aquilo ruim. Seletivo e exigente, sabia do que gostava e por que gostava. O bom e o ruim eram dogmáticos. Eu não sabia nada de música e poesia, mas estética era uma verdade absoluta que a mim fora revelada.

Depois a vida teve a paciência de me constranger a alguma humildade. Já gosto porque gosto e não mais por um milhão de arrogantes motivos que tenha de declinar. Estou em paz. Consigo ouvir com gosto tudo aquilo que ao longo da vida fui gostando ou detestando. Mas, repito, quando me emociona uma música já não sei se é por senso estético ou por nostalgia.

Quem sabe a estética engloba a nostalgia? Ou quem sabe a estética me englobe também, leitor, e eu fique feliz mesmo sem saber de nada? Quem sabe o gostar me basta?

Quem sabe, por favor, diga-me!

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domingo, 13 de abril de 2008

DESCANSANDO EM MOVIMENTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Um barulho repentino em meu ouvido esquerdo. Olho para o lado e vejo uma bicicleta e dois corpos caídos ao lado da avenida: uma máquina, um homem e uma criança. Eu, um homem sentado em frente a uma máquina e assustado feito uma criança: barulho e imagem. As coisas paradas têm uma dramaticidade que dá medo.

O pai se levanta, a bicicleta ainda caída, e ajuda a menina:

— Isso acontece, filha.

Levanta agora a bicicleta — de correia fora da catraca — e continua:

— Foi só um pouco de areia na pista molhada.

O pai ajeita na catraca a correia, a filha retira do corpo a areia. Os dois seguem seu movimento.

http://www.flickr.com/photos/gaiavani/
Nem barulho no meu ouvido, nem drama na minha mente. Lembro de minha sobrinha — por que não dizer "filha"? — e meus olhos ficam nublados de saudade.

Quando passa um caminhão, a madeira leve da cabine da lan house treme, e eu a seguro com os joelhos de minhas pernas abertas. Caminhei dois ou três quilômetros até aqui. No centro de Parnaíba, uma brecha para o mundo: mensagens dos amigos, mensagens dela... motivos, movimentos de saudade.

Uma crônica por fazer, um banho por tomar, uma estrada a percorrer, uma cidade pra voltar, gente pra abraçar e beijar.

Penso em fazer literatura, e só me vêm estas palavras de um recém-adolescente descobrindo o mundo. O mundo dentro do mundo dentro do mundo dentro do mundo. Não, isso era no tempo em que eu pensava que tudo era difícil. Agora é assim: o mundo fora do mundo fora do mundo fora do mundo. As coisas são tão fáceis que assustam: há sempre uma lan house, um caminho, um veículo, uma cidade, uma pessoa, um amor... UM. A vida se dá pra gente de presente. O embrulho é só pra divertir, embelezar, ver com a imaginação antes do objetivo olhar.

O pai e sua filha já vão longe. Ele pedalando com mais cuidado pela segurança de sua menina, ou talvez esquecido: já passou, já passou. Ela contando pra mãe, que fica preocupada; talvez mais tarde conte pras amigas, feito uma aventura e seus perigos, enquanto as palavras de seu pai cozinham guardadas no silêncio do seu coração: "Acontece, filha. Foi a areia na estrada molhada."

Foi, em meu olho, um cisco. E aconteceu uma lágrima.

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sábado, 12 de abril de 2008

PENSAMENTOS [Debora Bottcher]


Ele se senta para escrever, esvaziar a alma, soltar as amarras e as amarguras... Pensa em muitas coisas... A Morte... Senhora absoluta que passeia em sua vida, rondando, todo tempo à espreita... A Vida... Estrada muitas vezes sem sentido, caminho sem direção, atalhos que não levam a nenhum lugar...

Acha complicado viver... Sente seu peito carregado de dor, meio que suspenso no passado, envolto em névoas, no submundo do destino...

Pensa num poço... Alguém lhe disse que os poços são encantados e que suas águas, lá no fundo, são azuis - embora pareçam negras... É a magia da luz - explicaram.

Vasculha os jardins... Sempre gostou deles. Houve um tempo em que pensou em ser jardineiro, cultivador da terra. As flores são a expressão mais pura da delicadeza. Lembra de uma rosa cor de pêssego... Ama as matas: verdes, densas, escuras, revelam segredos, guardam a sensualidade, escondem mistérios...

Ele gosta das tempestades - ventos enfurecidos arrastando a calma. Pensa nas despedidas: alguém que ama está prestes a partir e ele ainda não aprendeu a conviver com as perdas. Ela arruma as malas, faz planos, sorri feliz da novidade que a espera... E sua melancolia aumenta... Ele tenta segurar o tempo, parar o ritmo das horas, conter os minutos... Inútil: essa sucessão de momentos não pode, nunca, ser estancada.

Agora pensa em escrever sobre o Amor, mas nada lhe vem à mente, exceto a sensação de que seu amor se perde numa viagem qualquer pelo universo, em busca de horizontes nos quais ele não faz parte do cenário.

Ele é um homem bonito e a alegria já lhe povoou os dias. Mas agora está apaixonado por uma mulher que é metade Bruxa e metade Fada; metade Vida e metade Morte; metade Sedução e metade Pureza; metade Humana metade Anjo. Uma mulher que se divide em muitas e cavalga o mundo sem criar vínculos, sem fixar espaços, nem alimentar esperanças. Avisa logo que chega que está de partida para que não se crie ilusões a respeito dela.

Contudo, o coração é um caçador sem limites e pensa que pode quebrar todas as barreiras quando envolvido por sentimentos nobres. Entende que a grandeza da verdade do amor pode superar a dor e continuar acalentando o sonho, muito embora ele se mostre desprovido de se tornar real. Ele se deixou levar: aquela mulher sem intenção o seduziu, o fez cativo dela, o tomou inteiro para si sem desejar.

Gostou da descoberta e apesar de, agora, sentir-se imerso num buraco de lama - e, em breve, de solidão -, ainda acredita que essa foi a maior descoberta que fez para si mesmo: um diamante raro, polido, feito cristal. Que importava que partisse se ficaria guardada consigo até o fim de seus dias? Porque se preocupava com o fato de que nunca mais lhe visse os olhos se poderia contemplá-los em todos os mares? Que diferença se os ventos levassem para longe seus cabelos dourados se em qualquer plantação de trigo estariam presentes?

Seu desespero começava a amenizar-se: sua voz interior lhe contava que aquela mulher era sua prisioneira sem o saber. Ela podia pensar que partia, mas enganava-se - porque ficava. Estava cravada em sua pele, em suas entranhas e era sua mesmo que se perdesse nas distâncias.

Ele sorriu... E surpreendeu-se ao sentir-se mais leve. Os pensamentos são nuvens mágicas de conclusões dispersas...

Expressões Letradas
Imagens: On the Verge, Ben Roberts; Saudade, Radyr Gonçalves

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quinta-feira, 10 de abril de 2008

Pai e filho conversam sobre a morte >> Leonardo Marona

- Quando você morrer eu morro.
- Não.
- Sim, uma parte de mim.
- Não, nunca seremos tão íntimos quanto quando isso acontecer.
- Íntimos? Você num caixão... Íntimos?
- Sim, pense bem: de perto todo mundo é mais ou menos, de longe todo mundo é legal, morto todo mundo é do cacete. E de muito perto todo mundo é insuportável.

...

- Por que você não lavou a louça?
- Porque ainda estou comendo.
- Você poderia comer o dia inteiro.
- E você morreria por isso?
- Um dia, talvez, provavelmente.

...

- Você falando, parece que quer que eu morra.
- Você não. Mas eu já quis que duas pessoas morressem.
- Quem?
- Um sujeito que me roubou e outro que era pelego de uma greve que eu fiz.
- Mas você queria que eles morressem?
- Queria. Mas não podia matar nenhum deles. Então tive que esperar. Outro dia me ligaram: um de câncer no estômago, outro morto pela empregada doméstica, a facadas.

...

- Mais gente de bem mata ou mais gente de mal mata?
- Não existe gente assim.
- Como não?
- Todo mundo é meio mau. Alguns conseguem ser bons, sempre que têm um motivo. São os que chamamos de canalhas. Outros são ativistas, ou seja, malucos que lutam pela humanidade.
- Você é a favor das armas, então...
- Não exatamente. Tem um motivo pra você ser contra as armas: os crimes babacas. Sem armas, os crimes babacas diminuem. Esse seria um motivo. O único motivo na verdade.

...

- Mas você é contra...
- Do mesmo jeito que sou contra os babacas. Não acho a morte um absurdo.
- Eu acho. Morreria se você morresse.
- Mentira. Isso é desculpa pra não ter que viver.
- Morreria. Uma parte simbólica pelo menos.
- Você ficaria triste durante um tempo, sua vida mudaria, provavelmente pra melhor.
- Eu morreria.
- Então você morreria. E seríamos mais dois. Eu penso como os índios em relação à morte.
- Como eles pensam?
- A morte é tão importante quanto a vida. Talvez mais importante, porque é um elo eterno.
- Eu também acho isso. Por isso que, se você morresse, eu me mataria.
- Porque você acha a morte mais importante do que a vida.

...

- Eu te amo. É tudo.
- Eu também. E isso não é tudo.

E o guri então foi lavar a louça, disfarçando com o mindinho a lágrima da morte, que ria no canto da pia.


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quarta-feira, 9 de abril de 2008

2040 >> Carla Dias >>

Depois dos trinta, contemplar o futuro distante passa a ser mais freqüente. Eu e minhas amigas batemos longos papos a respeito, tentando alcançar uma idéia de onde e como estaremos em 2040, por exemplo. Lá seremos senhoras, algumas beirando os setenta anos de idade; outras já bem mais além.

Cada uma de nós tem uma visão sobre as velhinhas que seremos, evitando com empenho (e ginástica, alimentação saudável etc, planos que nem sempre conseguimos seguir) a possibilidade de não estarmos auto-suficientes nessa época que chegará.

Pensar na velhice não é tão aquém da rotina daqueles que já passaram dos trinta. Muitos buscam cuidar com mais afinco da saúde, “pra ser um velhinho saudável”. Então, nossas mães questionam como será esse ‘o que virá’ já que ainda não temos casa própria, um emprego daqueles que mãe sonha para suas crias e, claro, filhos. Não sobrinhos, filhos dos amigos... Nossos próprios filhos... Quem nos cuide quando voltarmos à infância.

Mas o que mais desejamos, não só eu e minhas amigas, mas creio que a maioria de nós, é ter alguém como aquele casal de velhinhos com o qual todos já cruzamos na rua; que apesar do tempo e, certamente, das discordâncias, das brigas calientes, tudo o que um relacionamento duradouro pode acarretar, conseguiram manter o carinho e o respeito. Conseguiram um equilíbrio que não sufoca o amor, não viola a amizade, não agride a cumplicidade.

Não somos românticas vendadas, meu caros. Na verdade, nossas almas receptivas e olhos abertos nos convencem de que prós e contras fazem parte da história de qualquer pessoa. Ninguém é perfeito. E amém!

Uma canção de Ceumar e Mathilda Kóvak pede: “Dai-me a graça/De viajar de graça/Por essa esfera afora/De virar uma linda senhora”... É isso! Queremos nos tornar lindas senhoras, afáveis e um pouco loucas, pois a loucura é um ótimo ingrediente para as ousadias que, nascidas na maioridade dos desejos, podem nos levar às mais intensas experiências.

Ainda que em 2040.


"Oração do Anjo", canção interpretada por Ceumar - 2008.


Um filme argentino - co-produção espanhola, dirigido por Marcos Carnevale, que também é um dos roteiristas - trouxe à tona essa minha contemplação de 2040. Diferente da maioria das comédias românticas, 'Elsa & Fred - Um Amor de Paixão' (Elsa y Fred – 2005) conta com protagonistas pra lá dos setenta anos de idade. E se vocês pensam logo em um filme uniforme, catequizado pelo teor dos aposentados pela vida, esqueçam!

Nesta trama, há uma Elsa completamente embevecida pela possibilidade de viver extremos; uma mentirosa compulsiva, que se vê na personagem de Anita Ekberg em La Doce Vita, de Frederico Fellini. Fred é um recém-viúvo, apático, hipocondríaco. Quando Elza passa a figurar em sua biografia, ele renasce, melhor, nasce, pois passa a experimentar sentimentos que jamais experimentara com sua esposa ou com qualquer outra pessoa.

Nem mesmo o fato de estar muito doente sossega a Elsa, belamente vivida por China Zorrilla. É justamente a energia dessa mulher casada à disposição de Fred (Manuel Alexandre) em participar de quem ela é que torna este um filme íntegro, já que sabemos que, para estarmos na companhia do outro, é preciso um trabalho mútuo de compreensão e aceitação.


Elsa & Fred trata o amor e a velhice com o amparo do afeto e as nuanças do bom humor.

Aquele casal de velhinhos que eu e minhas amigas observamos com esperança de alcançar tal alquimia, bem, talvez eles sejam mais intensos do que seus tranqüilos semblantes demonstram. Talvez eles vivam, no auge de suas vidas, o primeiro amor verdadeiro. E, diferente do que pensamos, tenham se encontrado em um recente ontem, não há décadas.

Do poema “Os ombros suportam o mundo"
de Carlos Drummond de Andrade

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

O que será que nos reserva esse tal de 2040?

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domingo, 6 de abril de 2008

LÁ É AQUI >> Eduardo Loureiro Jr.

jvc / flickr.com
O Brasil é homem. A mulher é Brasília.

Cai uma chuva fina, e eu tenho 30 minutos para escrever uma crônica. Crônicas falam de tempo, e o tempo está tão "saturado de agoras"... como dizia Walter Benjamim. Entre velhos e novos amigos, entre antigos e futuros projetos, eu me movimento. Feito um astronauta no vácuo: lento e desengonçado. Os dias explodem em possibilidades que eu tento controlar por meio de uma agenda.

Numa outra cidade, podemos ser outros. Os hábitos, mesmo os mais arraigados, sentem-se ameaçados. E se eu acordar mais cedo, ou mais tarde, do que de costume? E se eu experimentar essa fruta de nome estranho? E se eu arriscar caminhar por essa rua convidativa mesmo sem ter a certeza de que ela me levará aonde desejo?

Numa cidade nova, nós somos a novidade, o estrangeiro, mobilizamos a atenção das pessoas. O nosso passado não tem peso e pode ser contado de uma forma nova. A nossa história pode ter uma nova versão, uma versão mais verdadeira. Para os que são daqui, nós, que somos de fora, estamos nascendo agora. Se nos apresentarmos com um penteado diferente do lugar de origem, com uma roupa que pareceria exótica aos nossos conterrâneos, os habitantes do novo lugar simplesmente pensarão que sempre fomos diferentes e exóticos, logo não somos diferentes e exóticos: somos o que somos neste momento.

No princípio, as mulheres parecem reedições de nossas mulheres originais: esta aqui se parece com Andréa, aquela tem todo o jeito da Geórgia, não seria essa outra a Giovana que não vejo há 15 anos? Depois vamos percebendo que as mulheres daqui são também originais: uma beleza que a gente olha e reolha pra se certificar de que é mesmo bela e de que maneira é bela. E, num impulso, beijamo-lhe a mão, tranqüilos por saber que a veremos novamente, mesmo que seja incerta a data.

A chuva fina dessa crônica vai passando. Tão sem sentido quanto sua chegada. O tempo dessa crônica não é o tempo cronológico, mas o tempo meteorológico. Estado de nuvem na iminência do relâmpago e do trovão.

Brasília dá a impressão de ser maior do que o Brasil. Não é. A chuva fina tenta ser maior que a tempestade. Não é. E estas palavras tentam ser uma crônica. Não são. Tentativas de organizar um país, amansar a natureza e matar saudades em público.

Até domingo que vem.


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sábado, 5 de abril de 2008

HÁ VIDA DEPOIS DO CASAMENTO [Ana Coutinho]


Não faz muito tempo eu era criança, uma menina tola e comum. Como tantas outras, eu brincava e pensava no meu futuro. Pra mim, o grande ponto do meu futuro era quem seria meu marido.

Encostava no verde quando falava alguma palavra junto com alguém, contávamos as sílabas e, em seguida, via em qual letra do alfabeto caía aquele número. Era a letra de algum menino que pensava em mim. Quando via um avião ou uma mulher grávida, pensava em três meninos, separava-os nos dedos da mão e pedia que alguém escolhesse um dos dedos. O escolhido representava o menino que, claro, estava pensando em mim. As meninas apertavam as mãos e contavam as ruguinhas que apareciam na lateral, ao lado do dedo mindinho. O número de rugas correspondia ao número de filhos que teriam. Olhávamos quem tinha o dedo do meio do pé maior que o dedão: era porque ia mandar no marido. Na brincadeira de pular corda, cantávamos “Com-quem-você-pretende-se-casar: loiro, moreno, careca, cabeludo...” ; a parte da música que a menina errasse o pulo, pronto, era o tipo de homem com quem ela ia se casar.

Nâo sei se todas, mas eu passei boa parte da infância me dedicando a adivinhar com quem eu ia me casar. Digo com quem, porque uma menina não pensava SE ia se casar. Brincava de panelinhas, de cabeleireira, de Barbie e – claro – Ken; não tinha como não me casar e a vida para mim duraria até aí: O dia do meu casamento.

Depois? Bem... Depois era como se eu fosse morrer. Porque acabava tudo, eu pensava, tão tolamente. A vida duraria até eu casar, depois eu achava que tudo perderia a graça, porque já saberia se ele era loiro, moreno, careca ou cabeludo, já não teria sentido encostar no verde, ver aviões, e pouco importaria o tamanho do meu dedo do meio do pé. As respostas me seriam dadas assim que acordasse, de cada dia chato que eu viveria depois que eu casasse e a vida – claro – estaria pronta.

Eu concluía em silêncio: “Depois que a mulher casa, ela já sabe tudo o que vai acontecer na vida. Acabou a graça...” Eu era mesmo uma menina muito tola...

Hoje, adulta, casei e, diferentemente de tudo que pensei, a vida continuou após a noite de núpcias. Os dias se seguem e, embora não tenha mais graça ver um avião ou pular corda, a vida se mostrou muito maior que a minha pequena cabeça infantil podia pensar.


A vida acontece agora e eu queria que alguém tivesse me contado isso. Que alguém tivesse me dito que a vida adulta pode ser boa – ou infinitamente melhor - que a infância, por mais doce que ela tenha sido um dia. Eu desejo que alguém tivesse me dito que casar era só uma parte da vida, uma parte bacana, importante pra algumas mulheres, talvez não tão importante para outras, mas sempre uma parte.

Que a vida acontecia independente de você se casar ou não, independente de o seu marido ser loiro, ou moreno, ou careca, ou cabeludo. “O sol nascerá todos os dias e você encotrará mistérios e novidades a cada manhã, independente de o seu marido ser um príncipe ou não. A propósito, se você tiver sorte, ele não será” ; podiam ter me dito isso, né? Assim, simples, sem rodeios.

Não sei se teria feito diferença, porque, no final, o que contou foi o tempo e os dias que continuaram vindo quando eu já era adulta e sozinha, adulta e solteira, adulta e não mais tão preocupada com o fato de ter ou não marido. Acho que, essa descoberta, pra mim, foi uma libertação. A sensação de ser completa é só e quase tão prazerosa quanto a sensação de ser completa ao lado de alguém. A solidão, quem diria, pode ser um grande prêmio e só se aprende a viver junto, na minha opinião, depois que se aprende a viver só.

Aprendi na marra, com certa dor, mas hoje acho graça desse tempo. Acho graça e comemoro, a cada nova manhã, quando vejo ali, ao lado do meu amor, que a vida acontece mais e melhor, a cada novo dia que se vive (sim!) depois de casar.

Doce Rotina

Imagens: Young Girls in White Smiling, Claire Artman; Rapture, Helen Aponte; 50Years of Love, Trine Sirnes

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sexta-feira, 4 de abril de 2008

IRLANDA >> Leonardo Marona

Permita o céu que o leitor afoito e momentaneamente feroz com isto que está lendo encontre, sem se desorientar, seu caminho abrupto e selvagem, através dos pântanos desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois, a não ser que mantenha em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sustentada aqui, as emanações mortais deste livro lhe embeberão a alma como a água ao açúcar. (“Os Cantos de Maldoror” - primeiro parágrafo - de Isidore Ducasse, O Conde de Lautréamont).

E ainda assim falaremos. Não resta dúvida. Diremos o que mais já não tivermos. E será o suficiente por enquanto. No mais lavaremos o chão de olhos arregalados. Esperaremos as sirenes distantes, plantaremos expectativas em terrenos assombrados, onde o silêncio é uma estaca. E qualquer um nos perguntará: “Nós quem, cara pálida?”

Nós ausentes de atenção. Nós dentaduras. Nós bigornas penduradas no pescoço. Além do mais, não sabemos afinal o que perguntar. Isso no fundo explicaria muito. Revelar a real ocupação das palavras, essas amantes públicas. Vocês já leram Wittgenstein? As coisas aquelas, das palavras serem importantes? Começo mal aqui. Aliás, existe algo de bom que possa começar bem?

Meu pensamento feito crônica seria algo sobre a genealogia dos começos impactantes. “Hoje, mamãe morreu”. “Sou um homem doente”. “Naquele tempo, com a barriga na miséria, eu vagava pelas ruas de Cristiânia, cidade singular, que deixa marca nas pessoas...”. “Aconteceu naquele louco verão em que Frankie tinha doze anos”. “Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo”. “Logo enfim vou estar bem morto apesar de tudo”. Porque, se não podemos estar certos sobre o fim, é preciso dizer que existem, sim, os bons começos. Russos, franceses, americanos, noruegueses, sem-pátria.

Mas isto é apenas uma crônica, um esperar pelos piscares singelos. E afinal não sou austro-húngaro, mas sinto falta. E afinal nem li tão bem Campos de Carvalho ou Gogol, e não sei de tantas loucuras ou aliterações. Graciliano a mim parece um tipo que te suga no escuro. Caio Fernando, um que te questiona sem te perguntar, com a mão na tua braguilha. Hemingway eu imagino carregado sempre, por assassinos. Henry Charles B. Jr., uma ligação por engano para alguém que se conhece há muito tempo.

E no fundo tudo está em Walter Franco, mas não se pode. As segundas opções reverberam. Os retardatários se aproximam para apunhalar os jurados. E o que temos realmente? Pouco frio ou casa alguma. Onde exatamente se localiza o que chamamos de asma, de Kaspar Hauser, de Ter e Não Ter, de Montanha Mágica, de Subterrâneos, os melhores começos da história fictícia de toda a nossa excêntrica experiência humana?

Por que a morte de Tchekhov por inalação errônea? Querer algo que não seja algo além de tudo que todos os cárceres privados, uma vez antes apaziguados, caucasianos nômades nordestinos, os melhores, os que souberam morrer sem dizer adeus, porque eu não sei...

Além do que deveria ser uma crônica respeitosa, digna de comentário abençoado pela dádiva do Senhor Deus Aracnídeo. E já que não sou Rubem Braga nem me disfarcei com uma guerra, dou de punho a palavra aos meus amigos próprios: “Um bêbado que não vale nada”. Mas quem reconheceria, afinal, mais um sorriso honesto?

Para provar que é apenas uma crônica, e que uma crônica nada mais é que um resumo do tempo desperdiçado, transcrevo aos sobreviventes um papel escondido no bolso de ontem:

onde estará agora, que chove,
essa vontade inapta de morrer,
de trucidar-me vivo ao pálido,
que tanto compele a humanidade,
e ao mesmo tempo esse ímpeto
que devora o dom do perdão?

agora onde estará a insígnia
calcada em cada desatenção
sob a pele da ausência viva,
pura e simples, sem perdão?


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quarta-feira, 2 de abril de 2008

GENTE BOA NÃO ENTRA >> Carla Dias >>

Há alguns anos, eu escrevi um conto com mais diálogo do que jamais escrevera. Incluí este conto em um dos meus livros carinhosamente engavetados. E lá ele ficou: quietinho.

Um tempo depois eu o reli, numa das garimpadas que faço nos meus escritos, vez ou outra. Na época, a minha paixão pelo cinema andava pra lá de lancinante. Na verdade, eu andava lendo roteiros, porque queria aprender como chegar à tela com um texto. E então, este conto reapareceu, repleto de diálogos, timing certo para se tornar o que eu almejava: estudo sobre como conceber um roteiro.

Selecionei o tal e comecei a trabalhar nele. Das quinze páginas para mais de uma centena delas foi fácil. Aí vocês já podem ver que não consegui aprender a escrever roteiro, que estava mais para novela. Só que fui marcando como roteiro mesmo, estudando, fuçando, transformando, mas sem mexer no tema, que era o que realmente me encantava nele.

Essa viagem dura até hoje. O “Gente Boa Não Entra” ainda é material de trabalho para mim, e o conto nasceu em 2000! Eu que não sou de modificar demais os textos que escrevo, peguei este pra Cristo... E venho me esbaldando nessa vontade minha, leiga que só, de conceber um roteiro pra cinema. Mas é certo: o tema continua o mesmo.

A história gira em torno de três personagens: Bete, a figura de personalidade forte e ironia afiada que acumulou um punhado de ex... Gente boa que não entra em ambiente chique, mesmo sendo uma ex-moça rica. Jean, o moço rico que vive em função da tradição familiar, desatento ao que acontece no mundo afora, onde as pessoas experimentam e às vezes o gosto é amargo... Gente boa que não compreende que a vida é mais do que a confecção da grife de roupas esportivas que gere e nunca usa. E Marco, que prefere se transformar no poeta bêbado Henry, do filme baseado na vida de Charles Bukowski, o Barfly, a viver a própria vida, mas não tem dinheiro para a bebida, então se embriaga de água e faz de conta que está trançando as pernas... Gente boa que não sabe onde cabe sua própria voz, então busca a de outros.

Há algo em comum não somente entre eles, mas acredito que entre muitos de nós. Em algum momento da vida, alguém lhes disse: “Você é muito gente boa, mas não dá...”. Trocando em graúdos: gente boa não entra.

Assim como eles, tenho também minha coleção de portas na cara. Profissionais ou pessoais, todos lidamos com elas rotineiramente, pois fazem parte da vida. Porém, as que são oferecidas com esse agrado ofensivo que estabelece uma cortesia falseada ao tentar fazer acreditar que o outro é tão bom que é impossível compartilhar um trabalho ou uma história de vida com ele... Prefiro as ofensas.

Um dos diálogos de Bete expõe como ela lida com isso: “Eu me acostumei a ser boa companhia no mundo imaginário das pessoas, como se eu fosse um tipo de personagem de quadrinhos, sabe? E não tive coragem de mudar quem sou só para ter passe livre na vida dos outros. Sem contar que acho muito interessante, de uma maneira cruel até, aqueles que praticamente declaram que, no universo deles, gente boa não entra. Eu me habituei a isso, também... A ser essa gente boa sendo barrada.”

Minha crônica de hoje é apenas um resgate de uma reflexão que vem lá de não sei quando: perdemos muito tempo envolvidos com o desconforto que as diferenças podem causar, deixando de apreciá-las. Assistimos a reality shows, lemos revistas de fofocas, entre outras ferramentas para espiar o universo do outro; e nos deleitamos com os erros e os acertos deles, assim como invejamos a capacidade que têm de não temer o ridículo.

A maioria de nós reluta em trazer para as nossas vidas essas diferenças... Essas pessoas e suas diferenças. A maioria de nós quer uma ordem que, na realidade, não existe. Então, inventamos e depois reinventamos padrões de comportamento e passarelas, nas quais desfilamos toda imponência das certezas que temos, dos castelos que construímos, da vida protegida de vida que adquirimos. E damos fôlego à intolerância e ao preconceito, certos de que somos os melhores seres humanos que podemos ser.

A aceitação é um exercício diário, um fazer e refazer a curiosidade sobre a outra pessoa. E é uma das viagens mais gratificantes e, claro, para a qual também podemos ser convidados.

Afinal, gente boa não só entra, como também colabora com as mudanças pessoais de quem abre a porta. Então, que sejam mudanças para melhor. Que sejam várias portas sendo abertas... A diversidade sendo recebida.


Imagem: "Hide", de Jarek Puszko

www.carladias.com


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terça-feira, 1 de abril de 2008

HERÓIS >> Albir José Inácio da Silva

Tive muitos heróis desde que me lembro de mim. Antes mesmo de conhecer a palavra herói, já havia pessoas de quem eu reverenciava até o som da voz ou dos passos. Depois vieram os super-heróis em quadrinhos e lembro até de um radiofônico chamado Jerônimo – o herói do sertão.

Tenho me deslocado pela vida ao lado dos meus heróis em naves espaciais, cavalos baios e navios de guerra. Já freqüentei pódios com Senna, estádios com Pelé e palcos com John Lennon. Cruzei latinamérica com Che Guevara e participei, sob o olhar raivoso do segundo exército, de comícios no ABC.

Meu pai foi para mim uma espécie de figura mitológica que misturava anjo com herói. Depois descobri que gostava mais do homem que do mito. Mas ele foi sempre herói, mesmo sem os superpoderes.

Foram bons os meus heróis. Se não fiquei melhor não foi por culpa deles, mas da minha dificuldade em apreender-lhes a essência.

Embora o significado de heroísmo para mim tenha mudado ao longo dos anos, os heróis continuam presentes. Agora entendo que não nos é dado escolhê-los – eles se impõem. E influenciam a vida da gente de maneira inexorável. A de Maico também.

Maico é um garoto que acha que tem catorze anos, vive numa comunidade pobre da Baixada e também tem seus heróis. O maior deles: Fernandinho Beira-mar. Há outros, menores, que andam armados pela favela e não levam desaforo pra casa. Todos são violentos, porque para Maico herói é forte e forte é violento. Andam de carro ou de moto, freqüentam os lugares que querem, “arrastam” as garotas que escolhem. Ninguém, entretanto, se compara a Fernandinho. O aparato montado para o deslocamento de seu herói pelo país deixa o coração do menino aos pulos: “dá mole pra ver se ele não quebra geral”.

Maico nunca sai da quarta série, mas vai à escola de vez em quando para que sua mãe receba verbas assistenciais. Não acredita em escolas. Ninguém à sua volta acredita. Queria ser jogador de futebol ou cantor de funk, mas não joga bola nem canta nada. Anda cabisbaixo. Sabe que sua vida não vale muito pra ninguém. Nem sua morte. Mas tem seus heróis.

Os heróis de Maico me incomodam. Os meus lhe são indiferentes ou desconhecidos. Queria falar a ele sobre nossos heróis. Talvez pudesse afirmar, categórico, que seus heróis não são heróis. Um absurdo de lógica porque se são os heróis dele como podem não ser heróis. Talvez dissesse a ele que seus heróis não são bons como os meus. Outra grande bobagem porque se ele os escolheu heróis é porque são ótimos. Poderia dizer que sua avaliação está equivocada, mas não saberia explicar por que a minha avaliação é melhor que a dele.

Que boas razões apresento para que Maico faça o que não acredita e acredite no que não conhece? Que argumentos poderiam resgatá-lo de seus heróis, de sua apatia e de sua rota de colisão?

Só me ocorrem uns versos do Gonzaguinha, lá do início da carreira:

“Pra ganhar um fuscão no juízo final
e um diploma de bem comportado.
Você merece. Você merece.”

Mas acho que Maico retrucaria: “Ninguém merece!”

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