sábado, 29 de março de 2008

GRAFITEIROS [Ana Gonzalez]


É assim em muitas cidades. Andando por elas, nos deparamos com paredes sujas, cheias de rabiscos, linguagem obscura, símbolos enigmáticos, sem significação para nós, leigos no assunto. Muitas vezes, porém, tais rabiscos chegam a ser formas em representação de interessantes cenas e personagens.

Frente a essa manifestação cultural, podemos sentir indignação, revolta, tristeza, e até alegria, no caso dos grafites coloridos terem o condão de nos motivar. Emoções como essas sentidas por nós também podem estar em sua origem.

São, na verdade, a vida se marcando anonimamente nos espaços urbanos, atrás desses traços caóticos. Caóticos apenas para nós, bem entendido. Os responsáveis, participantes de turmas - gangs? -, com certeza, sabem o que estão fazendo, insistentemente sujando ou colorindo praças públicas, lugares insuspeitados de difícil acesso, o topo de prédios altos, gastando tintas, sprays, tempo, muitas vezes se colocando à mercê da autoridade pública.

E essa vida anônima, desrespeitosa e atrevida, agressiva, pede passagem. Não deixa por menos: entra pelos vazios e ocupa o que pode e até invade o que não pode. Numa comunicação muda e silenciosa. Presença marcante.

Com cores ou com gritos escuros, parcelas de letras, pedaços de gestos, formas e personagens, os grafiteiros estão lá. Ilustram os possíveis vazios, enchem de cores os muros e paredes. Em forte busca pela expressão, também fazem o bonito, nos presenteiam com a beleza. E acontecem assim – quase - ensaios artísticos, inaugurando estilos e uma estética original.

Dentre esses últimos, alguns já foram parar em exposições. Fenômeno mundial, em cidades de todos os tamanhos. De todos os tamanhos também a perplexidade de quem assiste à cidade como um teatro vivo. Acontecimentos são cenas, e pessoas, personagens. De qualquer forma, de todas as formas. Espécimes de arte anônima, paixão, ou revolta, ou tormento. Vida urbana de cor e dor.

Passante, dialogo com os autores que me tiram da rotina. Imagens e cores provocantes, em meio a movimentos distraídos. Novas ruas, praças, avenidas, viadutos e ruelas, que ganham outra representatividade. Tintas e sinais mal encobrindo a porta, o balaústre, as paredes - ou pedaços de paredes -, as colunas, as janelas.

Presenças, autores da cidade, e eu, cúmplice, que - ai – tem seu olhar conduzido em fantasias ou pesadelos, na criação de imaginações.

Imagens: Grafite em Valparaíso (Chile), Ana Gonzalez; Graffiti Artist, Tanya Constantine

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sexta-feira, 28 de março de 2008

Mais uma xícara de café antes que eu me vá >> Leonardo Marona


O homem entra com sua mulher nos braços. Eles sobem pela escada. O elevador não está ali na hora em que deveria estar. E um homem não tem paciência quando ama. Um homem não pode amar e ser esperto ao mesmo tempo também.

Ele despeja delicadamente o corpo de sua mulher no chão, em frente à porta. Ajeita a cabeça da mulher com carinho, gira a chave, torna a erguer o corpo dela sobre os ombros e os dois entram.

Deixa a mulher no sofá e vai até a cozinha.

- Ei - ele diz - você quer comer alguma coisa? Uma fruta pelo menos. Você deveria comer alguma coisa, babe, sabe... Foi uma longa noite... Nada? Bom, eu vou pegar uma.

Ele volta com os dentes fincados numa pêra. A mulher tem os olhos muito abertos, estalados, mas não estão com raiva. Ela não diz nada, hora alguma. Ela está no sofá com a cabeça caída para o lado. O homem vai até o som. You’re gonna make me lonesome when you go: Dylan.

Ele apóia exausto o corpo sobre o parapeito da janela e fica um tempo ali. Olhando para baixo com os cotovelos apoiados, enxuga saliva nos cantos da boca. Então volta.

- Sabe, querida, a noite está tão bonita hoje! Você viu?

Ele volta para a cozinha. Põe uma sopa para esquentar. Vai ao banheiro. Pega uma escova de cabelo. Volta à sala. Agacha-se diante do que chama de amor.

- Veja bem, criança – ele diz com charme e graciosidade - acho mesmo que você precisa comer alguma coisa. E não adianta ficar com essa cabeça assim de lado, essa cara de espanto. Não adianta birra. Vai te fazer bem uma sopinha, querida, vai sim.

Muito delicadamente ele pega a mão da mulher e a traz para junto do seu rosto. Fecha os olhos e fica um tempo passando a mão pelo rosto, de um modo forçado. A mulher continua com os olhos abertos e a cabeça virada para o outro lado. Ele pega a escova e passa suavemente pelos cabelos da mulher. De um lado para o outro.

- Você é linda de qualquer jeito...

O homem então se levanta e volta à cozinha. Desliga o fogão, serve um prato de sopa e dois copos de vinho, volta à sala. Primeiro com os copos, depois com a sopa.

Ele novamente se agacha. O prato de sopa na mão. A colher na outra.

- Ei, babe, por que esse desânimo, hein? Foi só uma briga, eu sei que foi só isso. Já passa... Olha, tente comer alguma coisa, sim? Eu sei que fui duro contigo. Casais brigam em todo o canto, o tempo inteiro... Não quer mesmo comer?

Ele mesmo leva então a colher à boca. Larga o prato e pega os copos. Bebe todo o seu vinho de uma só vez. Serve mais. Serve rápido demais e um pouco de vinho respinga no carpete.

- O vinho está fantástico! Você devia tomar um pouco...

Ele bebe novamente seu copo todo de uma só vez.

- Sabe, isso iria te reanimar... Ou pelo menos te dar sono... Você precisa descansar, bebê. Eu também preciso. Essas brigas me deixam exausto. Você não? Olha, beba um pouco disso aqui...

Leva o copo de vinho até a boca da mulher, que continua com a cabeça inclinada e a expressão entediada, distante, muda. Ele repousa o copo sobre a boca da mulher, a mão apoiando por baixo. A expressão facial da mulher é nula, mas a alguns poderia parecer que ela não gostaria de beber nada. Uma linha de vinho escorre pelo canto da boca da mulher até o chão.

O homem larga o copo e se levanta. A música terminou. Ele escuta por um momento o próprio coração bater dentro das têmporas como um sino fúnebre. O silêncio o deixa agitado e ele começa a andar pelo quarto, falando sozinho.

- Meu deus, preciso descansar...

Espreguiça, coça a cabeça, dá um giro nos olhos.

- Mas não vou te deixar aqui sozinha... Prometo que não vou...

Ele vai até o banheiro novamente. Volta. Olha mais um pouco pela janela. Volta até o sofá. A mulher com os olhos abertos, bem abertos, um risco de vinho no canto da boca. Ele se agacha novamente. Sobe por cima dela e lhe beija o pescoço exposto. Ela continua olhando bem aberto, por cima da cabeça dele. Ele beija o pescoço e depois a boca, a boca fechada. Então desce e beija os seios da mulher. Os seios estão acesos, excitados, são pequenos e murchos. Ele começa a chorar como quem sabe mais do que é capaz de entender.

- Desculpe, babe, desculpe por te fazer sofrer. Mas agora está tudo bem, eu estou aqui contigo. Vou ficar aqui.

Ele bebe mais vinho, muito mais vinho. Depois aperta a cabeça da mulher bem forte junto à sua. Tão forte que a boca da mulher se abre. Ele mete a língua dentro da boca aberta da mulher. Fica ali, dentro da garganta. Parte do vinho se mistura com saliva e escorre pelo pescoço dela. Depois ele se levanta. Começa a dar socos na própria cabeça, andando pelo quarto.

- Por que você não me ama mais, por que isso?

Ele anda e chora. Daí volta correndo e se mete entre as pernas da mulher, com a cabeça retesada sobre o ventre. Chora. Soluça. Isso dura cinco minutos. O choro, a mulher de boca e olhos bem abertos e o homem com a cabeça junto ao seu ventre.

Ele então levanta a cabeça com os olhos confusos e olha para os olhos bem abertos da mulher que ama e que não o ama mais.

Ele olha dentro dos olhos dela. Os olhos da mulher parecem não demonstrar qualquer compaixão ou sinal de perdão. Ele se irrita de repente e se levanta agoniado. O silêncio faz um barulho violento no ar. Ele troca o disco na vitrola. Everybody must give something back for something they get: Dylan.

Vai até a cozinha, esquenta um café velho, serve um pouco para si, pega uma faca. Larga a faca, bebe o café, pega a faca. Volta e se ajoelha diante da mulher, salivando. Um choro irreconhecível.

- Você me ama... Eu sei que me ama...

Ele se encolhe no chão. Parece doer. Parece teatro.

- DIZ QUE ME AMA AGORA! DIZ AGORA, SUA PUTA MESQUINHA! EU PRECISO DE VOCÊ AGORA!

Ele sacode as pernas da mulher e isso faz com que ela balance a cabeça e desarrume novamente os cabelos. Ele continua chorando como se tivesse dois espíritos brigando entre si dentro do corpo. A mulher então se entorta e cai, escorrega pelo sofá. Ele permanece de joelhos e com a faca na mão. A mulher cai de boca aberta e mais vinho escorre no carpete.

Ele deita com ela sobre o carpete. Fica de lado junto a ela. Vai até o seu ouvido. Diz baixo, vermelho, venoso.

- Eu te amo... Você consegue me ouvir? Não vou te deixar sozinha...

Ele então pega a faca, ergue acima da cabeça e, ao mesmo tempo em que grita, penetra o tórax da mulher. Ela não tem nenhuma reação. O corpo apenas saltita. A alma sem saber decola. Ele chora e enfia a faca doze vezes. Então larga a faca no chão e pega a escova de cabelo. Penteia pela última vez os cabelos da mulher. Ajeita seu corpo. Fecha sua blusa. Beija as feridas dela como se fossem as suas. Vai até a janela, que está fechada. Olha os carros lá embaixo com os cotovelos escorados, através do próprio reflexo no vidro.

Então ele dá a volta e anda em descompasso pela sala, esfregando as mãos vermelhas uma na outra. Num ímpeto, corre e pula pela janela ainda fechada, atrás daquilo que se perdeu para sempre no seu coração.

Como as canções de amor, ele erra. Cai sobre um toldo e sobrevive. O disco continua tocando. But to live outside the law you must be honest: Dylan.

Sangue e vinho se misturam. A polícia chega. O homem era um artista famoso, agora uma fratura exposta na altura do joelho. Os repórteres meio que brotam da paisagem como formigas africanas.


Nos jornais, acusam Bob Dylan por incitar a violência nas pessoas. O novo disco de Bob Dylan fatura milhões e atinge o topo das paradas de sucesso. Um disco só com músicas de amor.


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quarta-feira, 26 de março de 2008

PALCOS DE SAMPA >> Carla Dias >>

Quando vim para a capital de São Paulo, em 1995, sabia que seria uma mudança para a intensidade. Santo André, minha cidade natal e onde morei até os 25 anos de idade, era mais pacata culturalmente, na época, mas somente no que se referia a espaços culturais e bares, pois nela e nos seus arredores, no ABC Paulista, surgiam compositores, instrumentistas e intérpretes, e muitos deles eram inquestionavelmente talentosos. Faltavam palcos, mas não quem fosse capaz de garantir uma boa apresentação sobre eles.


Élio Camalle interpreta a canção “ Caso”. Compositor, violonista e cantor que muito admiro – www.camalle.com.

Eu não ouço rádio, então ando meio por fora do que anda acontecendo por aí, comercialmente falando, mas conheço as tendências e os artistas com seus sucessos relâmpagos, não só do Brasil, mas de outros países. Continuo a buscar um diferencial na música que me proponho a apreciar. Não consigo usufruir de uma música que não mexa comigo pela sua letra ou sua parte instrumental; se der sorte, pela combinação de ambas.


Bocato – um dos mais peculiares trombonistas do cenário da música instrumental. Também já tocou com diversos artistas, entre eles Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rita Lee e Ney Matogrosso.

Chegam em São Paulo artistas de todos os cantos do país. Há muitos espaços para apresentarem os seus trabalhos, mas a concorrência é acirrada. Justamente nessa diversidade é que mora a riqueza cultural da cidade, que não é feita somente de grandes casas de espetáculo. Nos bares e centros culturais dos bairros é onde boa parte da mágica acontece. Nas salas de estar desses artistas nascem grandes idéias, entre um cafezinho e outro, e que se transformam em espetáculos inspiradores.


Virgínia Rosa no videoclipe Amado Samba, de Luísa Maita, do seu novo CD Samba a Dois. Uma intérprete que canta compositores brasileiros com graça e presença - www.virginiarosa.com.br.

Tenho sorte de poder estar próxima desses compositores, instrumentistas e intérpretes. Cada qual, através das suas percepções, enriquece esse pedacinho do Brasil que é São Paulo. Tenho sorte, também, por conhecer pessoalmente estes que citei nesta crônica. São pessoas que admiro, por quem torço e que desfilam pelos palcos de Sampa.


Robson Fernandes no palco do SESC Pompéia, apresentando-se no Encontro Nacional de Harmonica 2007. Talentoso gaitista que vem fazendo um belo trabalho - www.robsonfernandes.com.

Eu quis mostrar um pouquinho do que acontece aqui em São Paulo na área musical. Porém, há muito que se mostrar e vou preparar crônicas específicas a respeito desses artistas. Espero que, dessa forma, vocês possam conhecer melhor o que vejo de perto e admiro mais a cada dia... A cada show... A cada café na companhia dos amigos.


Kléber Albuquerque canta “Manjedoura”, de sua autoria. Meu conterrâneo; compositor-poeta dos mais inspirados - www.kleberalbuquerque.com.br.


www.carladias.com



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domingo, 23 de março de 2008

EXCESSO E FALTA >> Eduardo Loureiro Jr.

http://www.flickr.com/photos/jadydangel/2072700090/
Sei que deveria estar escrevendo sobre Páscoa e ressurreição, mas às vezes — muitas vezes — a vida ressurge quando e de onde menos se espera.

Esta é uma crônica sobre amor e trabalho — assuntos que interessam a qualquer leitor sério. Como deve haver algum leitor não muito sério do outro lado da tela, devo deixar claro que é também uma crônica sobre sexo e dinheiro.

Aviso, entretanto, aos apressadinhos, aos que sofrem de leiturização precoce, que essa crônica tem suas preliminares, que há romance, sedução, que eu não vou direto ao ponto G do leitor. Há que se ralar para obter o justo salário ou arriscar para colher o rendimento pela leitura desta crônica; há que se labutar.

*

Todos nós temos nossos redutos de fantasia, áreas da vida que experimentamos apenas na imaginação. Vivê-las de verdade, ao vivo, em carne e cores, parece impossível ou pelo menos pouco provável. Então criamos nosso próprio filminho interior em que tudo dá certo, em que milagres acontecem. Em algumas de minhas fantasias, eu me vejo sendo entrevistado. Deve haver em mim qualquer desejo de ter minhas opiniões ouvidas, de ser consultado sobre assuntos do maior interesse e relevância como, por exemplo, a possibilidade de extração de cola da raiz dos pentelhos. (Calma, sério e pudico leitor, eu tenho que manter a atenção do leitor não muito sério, nem que seja às custas do seu pudor e — acredite — também do meu.)

Assunto sobre o qual eu gostaria mesmo de ser entrevistado é o do desemprego. Há muitas pessoas desempregadas e nunca me perguntaram nada a respeito, logo eu, que tenho uma explicação muito simples para a situação e, como conseqüência inevitável, uma solução incrivelmente fácil...

Ninguém discordaria se alguém dissesse que o fato de haver ricos e pobres deve-se a uma má distribuição de renda. Se alguns têm pouco, é porque outros têm muito, muitíssimo; e quanto mais têm aqueles que têm muito, menos têm aqueles que têm pouco. É simples, é óbvio, ninguém discorda. Com o desemprego dá-se o mesmo. Se alguns não têm emprego, é porque outros o têm em excesso. Conheço gente que tem dois ou até três empregos de carteira assinada, sem contar os bicos. Qualquer médico que se preza tem pelo menos dois empregos, sem contar o consultório. Professor então... só não dá aula de madrugada porque ainda não inventaram plantão educacional, ensino 24 horas, aprendizagem night through.

Outra fonte de constante reclamação é a falta de homem — ou de mulher, dependendo daquele que reclama. Também com as relações, afetivas ou sexuais, dá-se o mesmo. Se tem gente sem, é porque tem gente com o seu e com o que poderia ser do outro. Sinceramente, ou meu leitor está chupando o dedo (entre uma reclamadinha e outra) ou então está administrando um latifúndio de amores. Ah, tudo bem, o meu leitor sério não se encaixa: está feliz com seu parceiro e com ele apenas; não reclama, não esbanja, só agradece a Deus. Ok, existe classe média em tudo. Mas o leitor — mesmo o sério — há de conhecer alguém, um amigo, ou pelo menos um inimigo, que está na penúria afetiva ou na fartura sexual.

A solução para a questão da renda parece simples: distribuição. Que o que tem muito divida o que tem com aqueles que têm pouco. Qualquer pessoa que não seja empresário ou milionário defende isso. A convicção da maioria faz empresários e milionários parecerem maus porque só pensam em lucrar e acumular, nunca em baratear ou dividir. O mesmo poderia valer para os empregos: quem tem mais de um poderia muito bem largar mão de um empregozinho em prol de um irmão desempregado. Mas aqui os que têm emprego são maioria, são os empregados/milionários do trabalho assalariado e não vão largar do osso, afinal precisam sobreviver, têm necessidades que precisam ser atendidas, têm filhos para criar, pais idosos para ajudar... A minoria desempregada vai ter mesmo que rebolar pra dar conta do pão de cada dia, porque os multi-empregados não vão baixar a guarda nem que morram de estresse.

Para os relacionamentos, não valeria a mesma lógica? Se o sujeito que tem três namoradas — uma fixa e duas de sobressalência —, liberasse as de sobressalência, isso não aumentaria as chances daquele tímido que nunca arranja ninguém. E se a esposa respeitável, dona-de-casa e mulher trabalhadora (quem sabe até com dois empregos), que tem um amante por luxo ou por necessidade de ser amada mesmo, largasse mão do amante, ou pelo menos do marido, isso não ajudaria a desencalhar alguma senhora que está beirando a meia-idade. Sim, eu sei que as mulheres de meia-idade não querem mais marido — me engana que eu gosto, mas, mesmo no meu engano, não há como deixar de ver que as que não querem marido são justamente as que estão acumulando amantes; ou seja, a mulher que não arranja um homem acaba resolvendo arranjar vários homens, piorando ainda mais a situação das pobres mulheres que se contentariam com um homenzinho só.

Até aqui, já devo ter ofendido uma meia dúzia de leitores sérios e um outro tanto de leitores não muito sérios. (Deve ser coisa dessa lua cheia.) E a forma que tenho de me desculpar é dizer que não acredito nessa distribuição assim tão pragmática do excesso para os que têm falta. Porque, afinal, onde está o ponto em que acaba a falta e começa o excesso? Voltemos à economia... A renda per capita do brasileiro é algo em torno de 12.000 reais anuais, ou 1.000 reais por mês. Isso é o que cada brasileiro ganharia se houvesse uma perfeita distribuição de renda, na base do "nem excesso nem falta", tudo igual para todos. Será que eu tenho algum leitor, sério ou não muito sério, que gosta da possibilidade de ganhar 1.000 reais por mês? Mesmo quem ganha um salário mínimo tem pretensões maiores. Então vai ser difícil distribuir uma renda que, além de tornar insatisfeito quem já ganha mais do isso, ainda não trará satisfação àqueles que ganham menos. Vamos... admitam, meus queridos leitores — pelo menos os de classe média — que com milzinho por mês não dá.

E se não dá para a renda, não dará para o emprego e, muito menos, para as relações. Contentar-se apenas com um trabalho e com um amor vai ser difícil para um bocado de gente. E então, qual a solução? Os leitores atentos, o sério e o não muito sério, agora estão juntos, me fitando com olhos de cobrança: "Você prometeu uma solução incrivelmente fácil. Onde está ela?" E eu só respiro aliviado porque sou escritor — e de ficção — mesmo que o leitor acredite piamente em tudo o que escrevo aos domingos. Como escritor, posso inventar uma solução incrivelmente fácil; e o leitor, se for crédulo, pode aceitar...

http://www.flickr.com/photos/classicperfection/1422210434/
Nem todo mundo usufrui de seus bens e de seus amores o tempo todo. Nem o milionário anda de jet ski vinte e quatro horas por dia nem o conquistador beija o dia inteiro. Em boa parte do tempo, nossas riquezas ficam paradas. Se tivéssemos a delicadeza não de dar tudo o que nos sobra, mas de pelo menos emprestar o que não estamos precisando naquele exato momento, multiplicaríamos renda e amores. Ao faminto, não faltaria o resto-de-ontem do rico, guardado na geladeira para o dia seguinte, que ficou para o dia seguinte, e para o seguinte, até que teve que ser jogado na lixeira. E aos tímidos e encalhados nunca faltariam o beijo e o abraço caridosos daquele ou daquela que tem namorado, mas que, naquele justo momento, está disponível.

Simples, não? Incrivelmente fácil.

Foi bom pra você, meu sério ou não tão sério, leitor?


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sábado, 22 de março de 2008

DEUS ME VÊ [Maria Rita Lemos]


Quando a semana começou, e me lembrei que era a Semana Santa, bateu saudade da infância. Bateu saudade do Colégio São José, do sagu da Irmã Benigna, saudade até da frustração porque a Irmã Gertrudes não me deixava jogar basquete, porque eu tinha que ser pianista, e esse esporte prejudicava as mãos. Creio que foi por aí que minha carreira esportiva foi abortada antes de nascer... como, infelizmente, a de pianista também, embora tenha durado por muitos anos, até a gravidez da primeira filha minha.Retifico: a de pianista está em “pause”, a de música jamais.

Focando novamente na Semana Santa, vamos lá. A cada vez que passo pelo Colégio São José, pressinto as janelas (ainda estão do mesmo jeito?) onde nossa juventude se pendurava, nos intervalos das aulas, para ver os meninos que, por sua vez, iam à Praça Luciano Esteves só para nos ver. Tínhamos, sempre, uma “olheira” na porta, porque se uma das Irmãs nos visse ali era um horror. E o fruto proibido era tão doce que cada menino que passasse por ali, por mais desengonçado que fosse, parecia, para nós, um Elvis Presley ou um Neil Sedaka, que na época não tinha Brad Pitt nem Tom Hanks. Não valia nem ser “feio mas sensual”, tinha que ser lindo mesmo. O palmo de rosto, bem diferente do que deseja agora a adolescência de minha neta, tinha que ser perfeito. E quem quiser saber quem eram esses caras, é porque nasceu bem depois de mim, então, que procure nas internets da vida. Mas, voltemos à Semana Santa, porque quando a gente senta aqui pra escrever tem que se policiar para não “viajar” demais - credo, vem tudo na cabeça, soltam-se os fantasmas todos...

Eu era menina e tinha muito medo do que estava escrito naquele muro, encostada ao qual eu ficava, todas as tardes, esperando papai me buscar. Não havia, nos anos aos que me refiro, essa profusão de vans escolares, nem mesmo ônibus circulares se viam, acho que estavam apenas começando. A cidade era pequena, e para ir do Colégio à Vila Paraíso, onde ficava minha casa, quinze minutos eram suficientes. Mas, para meu pai, significavam a estrada perigosa da liberdade, sabe-se Deus o que alguém com a minha idade e cabeça podia fazer ou pensar nesse trajeto! Por isso, papai me buscava todas as tardes, era uma pausa no Banco da qual ele não abria mão. E, enquanto ele não chegava, eu ficava olhando para a estátua gigante de São José com a mão no ombro de Jesus Menino, em frente ao muro onde, em letras garrafais, lia-se: “Deus Me Vê”.

Eu não gostava daquela frase, sentia-a como ameaçadora. Talvez, pelos arroubos juvenis, muitos dos quais eram considerados pecaminosos, eu pensasse nessa frase visualizando um Deus tremendo, vingativo e impiedoso, disposto a me castigar, e a todos quantos transgredissem seus mandamentos... Felizmente, hoje já não penso assim, embora continue não gostando da frase em questão e do que eu sentia, quando a lia.

“Deus me vê”, dizia o muro visto diariamente. Hoje, mais sábia e madura, consigo ver o olhar de Deus diferentemente, e é isso que me encanta. Como tanta coisa se modifica na maturidade da vida, também o olhar de Deus já não me martiriza com medo de punições. Muito pelo contrário.

Dia desses eu contemplava - porque ver é muito pouco -, meu neto sendo amamentado, e vez por outra ele parava de sugar e ficava fitando os olhos de minha filha, sua mãe. Ambos se olhavam, um olhar de gratidão, de saber serem amados um pelo outro, de confiança mútua. Creio que minha filha sentiu, naquele momento, que Deus estava olhando por ela.

Hoje, mais sábia, prefiro sentir que Deus não nos vê com aquele olhar que eu pensava aos oito ou nove anos, ameaçador e punitivo. Ele nos olha através de nossos próprios olhares para os outros. Ele nos vê com olhar de mãe para o bebê sendo amamentado, de quem sabe para quem não sabe ainda, de quem vai proteger a quem quer ser protegido.

Páscoa, com certeza, é isso: passagem de um olhar para outro, de uma forma de ver para outra, mais completa, mais madura. Eu vivo a Páscoa quando o “Deus Me Vê” do muro do Colégio já não é mais ameaçador, mas protetor como o colo de um pai, que me buscava todas as tardes, que eu esperava com a certeza de que viria. Um Deus Pai que virá, certamente, quando eu não sei, mas virá me buscar, e me olhará com amor, como me olha agora. Boa Páscoa a todos!

Recado: Carlos Chinelatto, amigo querido, obrigada pela forma como me vê. Você não é o único, mas está entre poucos. Beijos.

Imagens: Hands of God and Adam, Michelangelo; Detail of Ceiling, P. Deliss; Virgin and Child, Sassoferrato

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sexta-feira, 21 de março de 2008

"Mulher-Lobinho" >> Leonardo Marona


1. Morte e Danton

No final da peça Ele não sabia quem era Danton. Saiu um tanto confuso, pensando: “uma hora Danton é covarde... Outra hora é um bêbado... Depois vira uma puta! Outras três putas: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Então, de repente, Danton é um sujeito que diz: ‘hoje estive sentado na pedra do Arpoador fumando um cigarro. Fiquei ali olhando o mar... Pensei que eu não era nem uma gota daquele mar... E quantas gotas tem o mar! E eu me acho tão importante, tão importante... vocês não imaginam o quanto... Nossa que papo ridículo’”.

E esse foi o fim da morte de Danton. O começo do movimento da classe artística pelas veias venenosas do teatro do Sesc, Copacabana. Mulheres com muita maquiagem e pouca cor, mais a intensidade dos confusos e nenhum parafuso no lugar certo, o que, parece, sempre serviu às artes e aos psiquiatras para passarem as férias em Positano, bebendo bebidas fumacentas e ouvindo calipso. Mulheres para você se casar com elas e morrer dignamente, diariamente: embriagado, sentado, tendo tido (ou sonhado com) um ataque cardíaco na sua sacada de frente para o mar – numa mão um bilhete de despedida, “simplesmente não agüentei mais... boa sorte” – no apartamento, centro da sala, mais nenhum móvel, apenas uma muda de roupa – na outra mão uma rosa partida – sangue de festim que escorre pelo tapete de corda trançada e isso era tudo no que Ele conseguia pensar olhando aqueles rostos sorridentes que falavam sem parar de inventar emoções para um domingo meio ensabadado, enquanto subia as escadas do subsolo para o submundo que, apesar de sub, está ao nível do mar.

2. Noite de sexta-feira

A rua parecia um cenário mal desmontado. As pessoas não andavam, pareciam escorregar pelas calçadas, se escondiam de alguma coisa. Havia homens vendendo lingüiças fritas e corações de galinha feitos na brasa de uma lata de óleo. Não havia sorrisos nos rostos de mais ninguém.

Ele e Ela saíram do teatro para a rua e viram que o mundo de verdade era preto e branco, não menos bonito por isso, nem menos complexo, apenas tinha menos cores, as outras fomos nós que inventamos, e parece que até hoje insistimos na mesma invenção.

Sentaram-se para comer num restaurante mexicano, com uma “comida leve”, segundo Ela, o que a Ele pareceu uma contradição em termos. Ela pediu tacos com carne de sol e tomates picados embebidos no azeite. Ele pediu uma cerveja já que uma salvação sairia caro demais. Uma conhecida estava na mesa ao lado e acabaram se juntando, os três. A tal conhecida não tinha nada dentro dos olhos. Nem tristeza nem alegria. Nem uma pista. Seus ombros formavam um cabide torto numa armação parda de ossos. Bufava sem parar e acendia um cigarro no outro. Um sujeito tocava Djavan num violão e uma platéia apática devorava seus tacos e suas vidas enquanto sorria amarelo e olhava para baixo, ou para muitos lugares, sem enxergar nenhum.

- Parece que arrancaram o saco desse cara! – disse Ele irritado, batendo a lata de cerveja na mesa e esticando o pescoço, referindo-se ao sujeito que tocava Djavan.

- Estou exausta... Vou pra casa – emendou a conhecida entediada.

- Não quer ir dançar conosco? – disse Ela. – Nós vamos no Bukowski.

- O que é isso? – disse a conhecida, como se de fato não fizesse nenhuma questão de saber.

- Uma bodega que toca rock n’ roll – disse Ela.

Ele ficou pensando como era triste um sujeito que, depois de escrever alguns livros honestos e morrer dignamente de leucemia, se torna símbolo de tudo aquilo que mais desprezou em vida.

- Não gosto de bodegas – disse a conhecida.

- Você precisa de uma piroca, eu acho – disse Ele batendo a lata na mesa, ao som de “Flor de Liz”.

- E você precisa de uns tapas – disse a conhecida, jogando uns trocados na mesa e erguendo-se bruscamente, de modo que tropeçou e caiu de joelhos no chão.

Ela tentou levantar a tal conhecida, mas levou um tapa na cara. “Ei!”, gritou, “o que eu te fiz, cacete?!”. A conhecida apenas olhou para os lados, ficou parada um tempo, depois saiu assustada, na mesma hora em que o sujeito que assassinava Djavan fez uma pausa para um gargarejo. Eles riram e pagaram o que faltava da conta. “Vamos fazer uma pequena pausa agora”, disse o sujeito com o violão.

3. Conhaque


Ela tinha na bolsa um cigarro que ainda era ilegal, apesar de todo mundo usar e movimentar a maior parte da economia mundial, que também é ilegal assim como o cigarro, apesar de todo mundo usar também para movimentar suas contas poderosas nas Ilhas Caiman e suas instituições filantrópicas no Nepal, que também são ilegais, pura fachada, e poderíamos ficar a noite toda nessa lengalenga até chegar a conclusão de que o ser humano era ilegal e, por conseqüência, também eram as suas leis.

Eles decidiram que fumariam metade do cigarro no caminho e outra metade dentro do bar.

Uma e meia da manhã. Os olhos não permitiam que o mundo fosse bonito. Caixas empilhadas nas ruas. Mendigos se coçando debaixo de trapos. Grunhidos do inferno ecoavam dos cantos mais escuros. O barulho distante mas constante dos ratos mastigando as sobras do mundo. Sacos de lixo virados, empilhados como os mortos de uma guerra perdida. Gatos que jamais perdem a classe, mesmo famintos. Fiapos de macarrão. Líquidos escuros, pastosos, pessoas espalhadas pelo chão cheirando cola. Ninguém tem nada a oferecer. Ninguém se olha. Olham por cima dos ombros, para cima. Todos precisam de tempo para amar, mas ninguém sabe como procurar aquilo que não conhece. E o tempo exige amor demais para que você aprecie seu efeito físico.

Pararam na porta de um inferninho chamado “Bar Virgem Santa”. “Uma virgem para foder os pecadores”, Ele pensou, mas disse: “que merda, o bar fechou”. De fato, a grade estava puxada até em cima. Sobravam para os olhos apenas uma fresta de luz, por onde se via um grande tapete de carne arenosa, pendurado por dois ganchos no teto, e uma fileira de garrafas de vidro cheias de um líquido transparente, em cujo rótulo lia-se: “licor de alcaçuz”, sobre uma prateleira remendada com esparadrapos.

Vozes falavam em algum dialeto incompreensível dentro do bar. Ela se aproximou da grade e deu três pancadas no aço com a mão. As vozes pararam lá dentro.

- Vocês ainda podem me vender um conhaque? – disse Ela.

- Quem é você? – perguntou uma voz.

- Marisa – disse Ela. – Duas doses de Domecq, por gentileza – e estendeu uma nota de cinco reais na ponta dos pés.

- É três e cinqüenta a dose, Danuza – retorquiu a voz de dentro do bar.

Risadinhas. Ela entregou mais dois reais pela fresta, e disse:

- Marisa...

Duas mãos passaram dois copos de plástico cheios até a metade com um líquido cor de ferrugem, que também calhava de ter gosto de ferrugem e cheirava a álcool de cozinha. Eles brindaram antes de beber, mas isso não melhorou o gosto do líquido.

Na frente do Bar Bukowski, um homem muito magro, já bem calvo, muito curvado e amarelo, entrava no seu jipe Pajero acompanhado de uma loira imensa, com uns três membros originais no corpo.

- Pajero é carro de quem tem pau pequeno – Ele disse, e deu uma golada, pelo que precisou enrugar o cenho.

4. Intimidade

Ele falava para Ela sobre a tal conhecida entediada que estava com Eles no mexicano.

- Isso é muito estranho. Num dia você chupa o cu da mulher. No outro dia ela te trata cheia de formalidade... O que é a intimidade?

- É isso...

- Isso o quê?

- Você dizer esses absurdos e eu ter que ouvir. Isso é a intimidade.

Brindaram. Como os copos eram de plástico, ao se chocarem fizeram um barulho semelhante ao de uma barata sendo esmagada no asfalto, e um deles rachou.

5. Crianças

Na porta do bar havia dois seguranças, ambos massas exageradas e quadradas, um de bigode e sem cabelo, outro de cabelo e sem bigode, os dois parecidos com uma dupla de comediantes liquidados, com os pés escorados, cada um de um lado da porta, as mãos enfiadas nos bolsos. Ele e Ela observavam um pouco afastados, ouvindo as músicas que vinham lá de dentro do bar, nada muito prometedor: Franz Ferdinand, Blur, Cure, Nine Inch Nails, em suma, nada que um velho safado fosse gostar de ouvir. Ele olhou para Ela.

- Essa música é uma merda... Esse DJ é um merda. Acho que vou me apresentar ao dono quando entrarmos... Posso escolher músicas melhor do que esse cara.

Mais um brutamontes saiu pela porta de entrada e se juntou aos outros dois. Este, um sujeito de camisa preta muito apertada. Sustentava um tipo físico que de longe pode parecer sólido, mas é pura banha. Um taxista estacionou o carro na frente da entrada e saiu do carro, se juntando aos três.

Começou então uma conversa amigável entre os quatro, quando a massa de bigode perguntou ao gordo que pode parecer forte à certa distância se ele já não tinha usado a mesma camisa preta na noite anterior. O gordo hesitou e os outros imediatamente começaram a rir e se bater como animais no cio. As risadas eram risadas infantis, no entanto, do tipo que você não imagina vindo de um senhor de bigode. Em sua defesa, rindo, o gordo deu um tremendo tapa na nuca da massa de bigode e este olhou para ele com a língua entre os dentes, o segurou pelas duas pernas e os dois foram ao chão, rindo muito, vermelhos de muito trago e tapa. Os outros dois assobiavam batendo palmas, enquanto os amigos descarregavam sua energia rolando no chão sujo às duas da madrugada. Ela olhou para Ele.

- Parecem duas crianças.

- Coloque quatro homens juntos e você tem uma guerra – disse Ele – ou muitas risadas. Agora coloque quatro idiotas juntos e você tem um jardim de infância, ou um manicômio.

6. Mentira

Logo na entrada, Ele e Ela viram que o bar estava vazio e isso sim, parecia bem real. Eles subiram então ao segundo piso. Encontraram muitas mesas e cadeiras vazias e uma menina de cabelos alaranjados como um fogo pálido, sentada com a cara mergulhada numa poça de saliva. No balcão estavam o dono do estabelecimento, um garotão loiro com cara de assustado e as sobrancelhas muito juntas, olhos levemente enviesados, mais a mulher do garotão, uns dez anos mais velha que ele, loira também, sem muito tempero mas com muito decote, os peitos murchos mas uns belos olhos, cabelos engordurados puxados para trás, além de um sujeito já bastante embriagado, que se apoiava no balcão com as duas mãos e enfiava a cabeça quase na cara dos seus interlocutores para lhes falar algo sobre a empresa de desodorizadores da qual era sócio-proprietário. A empresa vinha crescendo no mercado. O sujeito gritava sem necessidade e falava cuspindo. O garotão raramente dizia palavra e, quando dizia, dizia olhando para cima. Suspiro de um Romeu de quinta. A mulher do garotão era com quem um cliente deveria falar – e também um chato – e era ela quem conversava sobre desodorizadores com o bêbado. O bêbado tinha um aerosol na mão.

- Bom Ar é concorrente! – ele gritava. – Vocês tem que usar o Gleid, que é onde trabalho... Esse sim, neutraliza primeiro, depois dá o toque de lavanda, baunilha, flores do campo... Sabe, estamos crescendo no mercado.

Ele pegou o cardápio. Nada era muito barato. Nada como seria na Los Angeles dos anos 50. No final do cardápio aparecia escrito: “Para os Bukowskianos”. Ele deu uma checada: “vodca, rum, tequila, conhaque, uísque, vinho e suco de tomate”. Ela chegou perto Dele.

- Nossa! Alguém bebe isso e ainda consegue ficar de pé?

- Não. É mentira...

7. Coisa Rara

Voltaram ao andar de baixo. Ele se dirigiu ao balcão e Ela foi dançar. No balcão havia um sujeito que sempre esteve ali no balcão. Um sujeito muito forte da cintura para cima, mas com pernas de vareta, o que mostra que na verdade ele não é forte, mas sim um balão moldado. Você mede a força de um homem pelo tamanho do seu antebraço, pela circunferência do seu pescoço e, claro, olhando para os seus olhos. Os exageradamente fortes, normalmente, têm pernas finas e olhos pequenos, porque usam esteróides mas trabalham apenas braços, costas e peitoral, abandonando as pernas às portas da verdade. Era o caso do grandalhão do balcão. No entanto, ele usava uma camisa clara muito justa, além dos cabelos empapados com gel, num topete infame.

Em frente ao homem havia um casal, no outro lado do balcão. Um outro sujeito do mesmo feitio, bem forte nos braços, ombros e peitoral, portanto, com uma camisa muito apertada, mas mirrado da cintura para baixo, com bastante gel nos cabelos. O que diferenciava o segundo forte do primeiro forte eram apenas duas enormes costeletas no segundo. A mulher ao lado do de costeletas era muito bonita, cheirosa, cabelos alisados, brilhosa, sobrancelhas milimétricas, e não havia nada nela que pudesse despertar qualquer interesse, pois não havia nada nela que você já não estivesse cansado de ver nas revistas. Ainda por cima mascava chiclete com a boca aberta. Se insinuava para o homem de camisa apertada, no lado de dentro do balcão. Estava acompanhada pelo de costeletas e camisa apertada, no lado de fora. Mas o de costeletas também olhava para o de camisa apertada no lado de dentro do balcão. Conversavam com muita intimidade, a mão de um discretamente sobre a mão do outro. A mulher perfeita e sem graça tentava desesperadamente seduzir o rapaz situado no lado de dentro do balcão. E isso era mais arriscado, afinal, não era o seu homem. Mas este, por sua vez, não dava a menor trela. Então ela tentava seduzir seu próprio homem, o que não tinha lá muita graça, mas era mais garantido. Entretanto, ele também não lhe dava a menor trela. Permanecia conversando casualmente e sendo alisado pelo de camisa apertada por detrás do balcão.

O mais ridículo era que os dois faziam isso tudo de maneira muito séria e máscula, num estilo village people defasado, ou seja: eram bibas, sim, mas não podiam afrescalhar.

Ele concluiu que era raro dois homens conseguirem enganar uma mulher daquela maneira descarada, mas depois viu que aquela não era uma mulher em que se pudesse basear uma conclusão.

8. Mulher-Lobinho

No meio da noite, depois de algumas caipirinhas quentes, feitas por um sujeito que já tinha saído no tapa com dois clientes àquela noite, Ele se perdeu Dela e se recostou na parede, flertando.

A clientela era composta basicamente por bêbados retirados dos contos do escritor que dava nome ao bar. Bichas enrustidas, sapatões encrenqueiros, e era basicamente isso. O bar já estava lotado, de modo que não demorou muito para que uma garota encachaçada se aproximasse Dele, com uma lata de cerveja na mão.

Ele a olhou rapidamente, mas naquela escuridão qualquer olhar seria um erro. Ficaram assim, virados para frente, mamando suas latas de cerveja, recostados à parede. Certa hora a lata Dele terminou, então Ele a jogou no chão e a amassou com a sola do pé. A menina prontamente lhe entregou sua própria lata, sem dizer nada, e continuou olhando para frente como um boneco de marionete japonês. Ele deu um grande gole na cerveja e se virou para ela, que não olhou para Ele.

Ela tinha os cabelos escuros e lambidos, usava um vestido meio fora de estação e um chapeuzinho desses de festa de aniversário para crianças, feito com cartolina. Estava com uma língua-de-sogra na boca. Parecia resignada ou completamente biruta, ou os dois, combinação bastante comum. Ele achava que beberia a lata inteira sem que ela desse por nada quando, de repente, ela o pegou pela mão e o arrastou até o balcão do bar. Chegando ali, se virou para Ele e lhe deu um beijo na boca, muito melado e com cheiro de vômito velho. Não se olharam imediatamente depois.

- É seu aniversário? – Ele perguntou depois de um minuto ou dois sem falarem nada.

- Um amigo...

- Você não parece muito contente...

- Na verdade não vim pelo aniversário. Vim porque queria comer alguém.

Ele sorriu. A menina parecia decidida, apesar de indisposta. Então Ele viu através da luz de néon do balcão que ela tinha as gengivas muito grossas. Lhe cobriam os dentes quase por completo. Serviria de qualquer forma.

- Eu sirvo? – disse Ele.

- Claro – disse ela. E foram para a casa Dele.

Quando deitaram na cama, ela parecia desacordada. Ele já tinha achado estranho seu comportamento no caminho: parando de posto em posto para mijar e voltando com uma nova garrafa de cerveja. Fumava demais. Viu que era gorda como um pernil. Não havia mais o que fazer a não ser continuar em frente e terminar o mais rápido possível, de preferência sem escoriações. Mas quando Ele viu toda aquela carne esparramada na sua cama, com os olhos fechados e um sorriso suicida, pensou: “Onde vim parar?”. Então viu que era Seu Próprio quarto, apesar de não reconhecê-Lo imediatamente. As paredes dançavam. Ou talvez fosse a Sua cabeça. A menina não cheirava nada bem, reparou. Nem sabia muito bem o que fazer. Apenas permanecia esparramada com os olhos fechados e aquele barrigão fofo para cima. Arrancou o vestido da guria com certa violência, para ver se isso estimulava nela qualquer reação voluntária. Nada aconteceu. Passou então à calcinha, quase uma rede de pescar mexilhões. Mãe de todos os deuses, o cheiro que sentiu! Sempre pensando que não havia o que fazer a não ser seguir em frente, arriou a calcinha, prendeu a respiração e deu de cara com um absorvente coagulado de sangue. Foi quando a menina deu por si e puxou com muita força a calcinha de volta até a cintura.

- Você devia ter me dito – Ele disse. – Mas não tem problema.

- EU é que sei se tem ou não tem problema – ela disse num tom professoral, ou de uma puta cara.

- Tudo bem – Ele disse. – Você joga gamão?

Foi então que ela começou a chorar e chutar a cama, com as perninhas roliças soltas no ar. Ele a segurou com força e ela parou, mas seus olhos continuaram como se fossem independentes do resto do corpo.

- Ei, era só uma brincadeira!

Subitamente ela se tornou carinhosa, de forma um pouco compulsiva: colou-se ao corpo Dele, Lhe entrelaçou as costas com as pernas numa chave e quase Lhe arrancou uma orelha com os dentes. Talvez porque estivesse muito bêbado, Ele ficou excitado. Abriu as pernas da mulher e arrancou sua calcinha à força. Foi quando tudo ficou escuro e apenas se ouviam os murmúrios de choro da mulher: um choro de humilhação. Tentando não se abalar com aquilo, apesar de já bastante nauseado, Ele começou a apalpar no escuro, mas não encontrou nenhum espaço para entrar ali. “Então era isso o tempo todo”, Ele pensou.

Os pêlos vaginais muito negros e enrolados se ligavam aos da virilha e cheiravam muito mal, esquecidos pelo tempo em desuso. Depois de alguns minutos com a mão ali, finalmente encontrou os grandes lábios que, conforme reparou, eram grandes de fato. Mas a essa altura já estava com o pau flácido como uma centopéia.

Dormiu sobre a mulher. Acordou no dia seguinte com os urros espumantes do pai da moça ecoando pelo seu telefone celular.

- Pai... Não, pai! Pai... Eu tô aqui na Cíntia, pai – dizia a moça, com um sorriso desesperado.

- VOCÊ NÃO MINTA PARA MIM! – rosnava o pai no outro lado da linha, com a voz semelhante a um apresentador de telejornal embriagado.

Ao fundo ainda era possível ouvir o pranto teatral da mãe, que chorava muito alto com a voz esganiçada.

- EU LIGUEI JÁ PARA A CÍNTIA! E JÁ LIGUEI PARA O IML INCLUSIVE, SE VOCÊ QUER SABER! E O QUE VOCÊ PENSA DISSO? - vociferou o pai sem deixá-la responder.

A cama estava molhada e o cheiro lembrava a morte, mesmo que Ele não soubesse como poderia fazer tal associação, já que nunca havia morrido. Depois de desligar o telefone, ficaram ambos deitados olhando para o teto e a menina soluçava. Como alguém de quem foi tragada a alma, ela se levantou, e Ele acompanhou a moça até o elevador. O elevador chegou e Ele deu um beijo na testa da moça, como quem quer dizer: “tudo bem, não se preocupe”. Ela entendeu o recado e despejou mais algumas lágrimas, como querendo dizer “perdão”.

Semanas depois, Ele cruzou com a mulher num bar, acompanhada de várias amigas. Olhou para ela mas, antes que pudesse acenar, ela virou a cara e saiu de lado puxando as amigas, que riam como maritacas em período de reprodução. Mais um caso de amor desperdiçado...

Ele sentou com a noite triste sobre a banqueta e permaneceu lá, contando palitos de dente, pensando no caso que havia criado e no amor assassinado – nada Lhe vindo à cabeça a não ser o total desperdício das vidas solitárias. Então pediu mais uma dose barata de morte líquida reciclável e evitou chorar, sem conseguir.


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quarta-feira, 19 de março de 2008

POEMAS NEM TÃO TARDIOS >> Carla Dias >>

Há algumas semanas, eu conversava com uma aluna de bateria aqui da escola, a Julia. Falávamos sobre assuntos gerais, principalmente a música. Não sei como nossa conversa foi parar na literatura, mas chegou lá.

Comentei com ela que escrevo contos, crônicas, poemas e romances; que num mundo gracioso e receptivo sou escritora, mas que na realidade apenas tenho urgência em escrever.

Foi então que a Julia me falou do seu avô poeta... Eu tive um avô poeta, o paterno. Na verdade, Sr. Aureliano, carinhosamente tratado como Seu Lili - e Vô Lili para nós, os netos - escrevia belíssimas cartas e as enviava lá de Poços de Caldas, Minas Gerais, para Santo André, São Paulo. Eu e minhas irmãs esperávamos por essas cartas numa ansiedade que só. Na época, meu irmão ainda não estava conosco.

Mas voltando ao avô da Julia... Eu que sempre estou disposta a ler o que me cai na mão, perguntei se não poderia ler alguns poemas dele. E ela me explicou que o avô adora escrever, que mesmo informalmente distribuía sua poesia, principalmente entre os familiares. E disse que sim, traria algo dele para eu ler.

Outro comentário que ela fez eu só alcancei mesmo quando ela chegou na escola com um livro e me entregou. Era presente, livro do avô. O título me levou longe, longe, mas antes de desfiar comentários a respeito, apresento-lhes, nessa crônica, o Vô da Julia: Sr. Claudio Navarra.

Poemas Tardios, o livro, traz na contracapa palavras que sintetizam o que a Julia comentara comigo. Lá está escrito “Com a obra Poemas Tardios, o autor se despede do Mundo da criação poética. Permanecer como degustador também é gratificante”.

Durante a minha vida, até este momento em que digito letrinhas e formo palavras para esta crônica, escrever um livro sempre foi a conclusão de um ciclo e o fôlego para começar o próximo. Não importa a demora, se em dias, meses ou anos este início se apresentará, mas eu sei que ele está adiante... Diante de mim. Há conforto neste pensamento.

Mesmo sem ter lido um só poema do poeta que se despede, senti-me enfaticamente triste. Certos fins me entristecem. Porém, ao me deixar guiar pelas páginas do livro, percebi que essa despedida é diferente daquela que idealizei... Há um quê nesse poeta de gratidão por tudo que a poesia lhe proporcionou. Então, a tristeza deu lugar à admiração.

Poemas Tardios é um livro de interesses e muitos deles cabem bem na poesia de Claudio Navarra. O porquê do livro, o tema de fechamento de um ciclo que não será aberto novamente, porque o autor “já atingiu uma idade avançada”, como reza o prefácio, agora tem outro sentido para mim. Passado o susto do fim que introduz ao começo da leitura, depois de conhecer os poemas tardios, posso dizer que o poeta, o Vô da Julia, que já desenhou para as capas de outras obras dele; assoprou alguns inícios na minha alma. E se não há eternidade neste gesto, opto por viver completamente enganada sobre a vida, e a sabedoria que ela alimenta. Para mim, os inícios flertam com os pontos finais.

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Clique aqui e leia alguns poemas do livro Poemas Tardios, de Claudio Navarra.


www.carladias.com



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segunda-feira, 17 de março de 2008

SALA DE AULA >> Albir José Inácio da Silva

Ao contrário do que tenho ouvido dos alunos de hoje, a sala de aula sempre representou para mim um encantamento: a presença de pessoas tão diferentes, atentas umas, distraídas outras, algumas sorridentes, outras sérias, as que falam alto, as que nem falam; as relações que se desenvolvem timidamente a princípio, por olhares, por sorrisos, por gestos de cortesia; todos concentrados no que acontece a frente, nas palavras e gestos do professor, mas também prestando atenção nos outros. Muitos vão se transformar em amigos, outros nem tanto, e outros ainda serão indiferentes. Mas todos têm potencial. A sala de aula é uma possibilidade de convivência que de outra forma não se teria. Há uma necessidade de se estar ali, mas há também a inafastável emoção do encontro.

Apesar do desenvolvimento tecnológico nas comunicações, as possibilidades de encontro e de convivência diminuem para o humano moderno. Conversa-se com o colega do lado pelo computador. As pessoas trabalham juntas, mas passam semanas sem se ver ou se falar pessoalmente. Nadao contra s avanços da comunicação. Também já não consigo viver sem celular e sem e-mail. Como diz Gilberto Gil sobre as viagens à lua, “confesso que estou contente também”. A questão é quando pessoas de todas as idades dizem que se pudessem não pisariam mais na escola. Algumas até estudiosas e bem informadas, reclamam da exigência de presença nas turmas, porque preferiam estudar sozinhas e comparecer apenas para as provas. Outras até gostam da Universidade, quer dizer, gostam do pátio, da cantina, do bar em frente, mas não da sala de aula. Essas pessoas se esquecem do que esse espaço já lhes proporcionou. Acho muito difícil que não tenham amigos ou pelo menos boas lembranças da época em que eram obrigadas a freqüentar as aulas. Aquele mau encarado que depois virou melhor amigo. O sorridente do primeiro dia que ficou esnobe no decorrer do ano. Ou o riquinho que passou a freqüentar o barraco do colega na favela para brincar. Uma caixa de surpresas, a sala de aula.

Claro que as pessoas vão juntas ao bar ou às festas, mas aí encontram os seus iguais. Fazem uma seleção de companhia que, embora muito agradável, não é tão enriquecedora. Na sala de aula não podemos escolher os colegas, temos de conviver com todos. Um pouco como acontece com as disciplinas. Imagine se pudéssemos evitar esta ou aquela matéria de que não gostamos. Quantos de nós não teriam descartado matemática, ou história, ou até o estudo do próprio idioma, com sérios prejuízos para a formação? A sala de aula tem essa riqueza, não nos permite escolher. Essa imposição muitas vezes nos reserva os encontros mais importantes de nossas vidas. Ali aprendemos muito mais coisas do que supomos e ganhamos muito mais do que conhecimento e diplomas.

Não acredito em bons velhos tempos. Cada época tem a sua beleza e as suas dificuldades, e a humanidade marcha sempre, por bem ou por mal. Apesar das dificuldades da escola e da baixa qualidade do ensino público, existe atualmente uma oferta maior de vagas e possibilidades mais concretas de se estudar. Mas temo hoje pelo futuro da classe, porque se os alunos ainda estão presentes, seus corações, parece, já pararam de freqüentá-la.

Não o meu. Ainda hoje, quando entro numa sala para fazer um curso e vejo pessoas trocando tímidos olhares e sorrisos, não consigo deixar de sentir alguma emoção. É nostalgia de um tempo que não volta, mas que deixou marcas. Boas marcas.

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domingo, 16 de março de 2008

OS TRÊS DO 16 >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu estava no que hoje se chama puberdade, mas que na época era só meninice mesmo. Entre os super-heróis, eu não queria a força do Super-Homem, contentava-me em possuir a discrição do Homem Invisível... e naquele quarto em que ela estava, eu entrava descalço, com todo o cuidado para não produzir nenhum som que me denunciasse. Ela estava na rede, olhos fechados. Eu deitava na cama e ficava observando. O tempo parava, preso no silêncio e no encantamento. Ela abria os olhos, mas não me via; colocava os óculos — inúteis — e continuava sem me ver. Ainda sem se levantar da rede, e mesmo sem se virar, ela estendia a mão direita para a mala que ficava ao lado — coisas de hóspede que estava só de passagem. Da mala ela retirava um pente, marrom, daqueles que também poderia servir como prendedor de cabelo — não havia o que retocar em seus cabelos lindos, lisos, inelinháveis. Eu aproveitava minha invisibilidade para assistir àquele ritual de delicadeza e graça. Guardado o pente, ela passava lentamente suas mãos finas sobre o vestido para se certificar de que não estava amassado — ela estava sempre pronta, sempre arrumada. Para finalizar o ritual, ela tomava em suas mãos uma lata de alumínio e a balançava. Sim, havia algo dentro, e isso a deixava tranqüila. Logo que alguém chegasse, ela poderia oferecer biscoitos de maisena. Se ela soubesse que eu estava ali, me ofereceria quantos eu quisesse. Mas ela não podia me ver. Ela era cega.

*

Da primeira vez que eu a vi, ela estava sentada no degrau do meio de uma escada que ficava como que suspensa do lado de fora da parede. No topo daquele prédio de dois andares, havia uma pequena torre. A escada era azul, e ela parecia uma princesa inteligente e ousada o suficiente para escapar da torre em que fora presa por um monstro qualquer e sentar-se no degrau do meio da escada. Fomos apresentados dias depois: seu nome estava cheio de canções que eu não era capaz de ouvir na época. Eu era tímido de ouvidos e de tudo mais — incapaz de chegar até ela, iniciar uma conversa e abrir espaço para aquele começo de encantamento. Eu estudava na cela nº 9 do pátio interno. Eu lia Marcel Proust e sublinhava as longas lindas linhas que ele havia escrito há tanto tempo. A cela nº 9 era de porta e quase-janela: combogós. Ela passou frente à porta e, naquele pedacinho de segundo, as longas lindas linhas curvas dela me fizeram tirar os olhos do livro. Mesmo sem parar, ela também percebeu que eu estava ali e, quando passou em frente aos combogós, virou o rosto em minha direção e sorriu — meu mundo se abrindo como se fosse uma marionete dos lábios dela. Dias depois, eu, que só escrevia poemas curtos, entreguei-lhe seis páginas — O Sorriso —, o maior poema que escrevi até hoje. Meses, cartões, encontros depois, nós cantávamos Cajuína. Nós "éramos olharmo-nos intacta retina" e, quando a letra da música terminou, nós começamos a improvisar palavras de nosso próprio sentimento. E ainda hoje é difícil acreditar que nós nunca tenhamos nos dado o final feliz de um beijo.

*

Não costumo fazer canções para desconhecidos, então é de supor que já nos conhecíamos. mesmo que eu não tivesse memória de seu rosto. Ali, na penumbra — seu corpo deitado em sono e sua mente ocupada em sonhos — seus braços e pernas se mexiam. Um movimento por vezes brusco, feito luta; outras vezes, fluido feito dança. Luz em cada gesto. No meu olho, uma lágrima deslizava: frio na barriga de topo de tobogã. Emoção colorida e invisível: infravermelha, ultravioleta; eu vendo só o arco-íris que levava até, e que trazia: a canção, esse pote de ouro em pó e luz. E na letra da canção a que eu ia, e que me vinha, eu pedia que um daqueles gestos de sono e sonho tocasse a canção: "pega com a mão esse tesouro em minha voz".


Clique no play (>>) para ouvir a canção.

*

Minha bisavó, meu grande amor platônico e meu sobrinho nasceram num dia 16 de março. Minha bisavó já fechou os olhos pela última vez. Meu amor platônico deixou-se aprisionar novamente na torre... e ainda não saiu. Meu sobrinho, em seu primeiro aniversário, sorri e enfia os dedos em minha boca.



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sábado, 15 de março de 2008

A SURPRESA DA AMIZADE [Ana Coutinho]


Talvez seja a lei da atração, talvez seja merecimento, talvez seja o acaso ou a sorte mesmo, fato é que a vida sempre foi absolutamente generosa comigo. Todos os dias, por anos a fio, recebo presentes grandiosos da vida. Alegrias furtivas, pessoas excelentes, acontecimentos melhores ainda, trabalho, saúde, família, um amor de verdade, tá tudo aqui, dentro da minha doce rotina... Tempo bom, tempo melhor, outro médio, mas a vida me sorri na maior parte dos dias e eu tento sorrir de volta a ela e aos meus, quase todo o tempo também.

No entanto, de todos esses presentes que recebo, talvez o mais precioso e surpreendente deles, sejam os meus amigos.

A dedicação e a lealdade de uma amizade, seja ela nova ou antiga, me surpreende, incesantemente, todos os dias.

O meu marido me dá amor e carinho incondicinalmente. Dele recebo um tanto de minha força e de minha alegria, mas a ele retribuo com aquilo que tenho de melhor (e, vez ou outra, de pior) mas, embora essa seja uma relação de amor e dedicação, nós nos prometemos isso. Nós precisamos disso, nós combinamos isso, assinamos isso e, portanto, cumprimos, com alegria aquilo que sonhamos juntos para construirmos - também juntos - a vida que queremos para ambos.

Mas os amigos? Eles não. Eles não me prometeram nada, não assinaram nada, não formalizaram nada e sequer houve qualquer tipo de ritual que nos unisse pela vida toda. Eles estão aí, atendendo os meus telefonemas, respondendo meus emails, me oferecendo uma pizza, por nada. Por absolutamente nada. Para que um dia, quem sabe, eu lhes dedique a mesma atenção de volta. Ou talvez não, porque eu posso sumir e nunca lhes retribuir a o carinho e a ajuda que tive e tenho, sempre, de qualquer um de meus amigos.

Ter amigos é uma coisa tão natural que sequer notamos, sequer percebemos ou valorizamos. Mas eu não me acostumo. Não canso de surpreender-me assistindo quando alguém, que a princípio é um estranho, dedica aos meus problemas e aos meus anseios tanto do seu tempo, de sua atenção e carinho, sem nenhuma explicação aparente, que não seja simplesmente amizade.

Amizade... Essa coisa sem muita lógica, que é mais uma nobreza de espírito, um altruísmo, um otimismo, uma esperança no outro, uma fé nas pessoas, uma crença tão rara que me encanta, a cada novo dia. A cada telefonema, a cada e-mail respondido, a cada palavra de apoio...

Gostaria um dia de dizer a eles da minha surpresa e da minha angústia. Sim, porque ter amigos como os que eu tenho também causa uma permanente angústia, soterrada em algum canto de quem sabe que nunca - nunca - conseguirá retribuir-lhes à altura. Vivo, embora grata, com uma permanente sensação de ser ingrata. Uma permanente sensação de falta, como se sempre faltasse algo por fazer ou por dizer, para que eles soubessem, enfim, o quanto os reconheço e os amo, também incondicionalmente.

Por isso, talvez, escrevo esse texto. Por isso, proclamo ao mundo a minha sorte. Talvez por isso me esforce para ser feliz, ainda nos momentos em que a generosidade vacila e, sobretudo por isso, digo obrigada tantas vezes quanto puder, mas sei que ainda não é suficiente.

No final do dia, quando ponho a cabeça no travesseiro, agradeço pela minha vida, pelo meu amor, pela minha família e, acima de tudo, pelas minhas escolhas. Se hoje, beirando os 30 anos questiono o emprego que escolhi ou o tipo de vida que levo, numa coisa acertei - e essa são os meus amigos. Se fossem as minhas escolhas erradas, meu trabalho e minhas maiores dores que tivessem trazido as pessoas que me rodeiam, todas elas, eu viveria uma vez mais para sentir a pequena angústia e a grande alegria que só quem tem verdadeiros amigos pode se dar ao luxo de sentir.

Doce Rotina

Imagens: Friends Lying on Grass, Sam Diephuis; Friends Relaxing at the Beach, Dirk Lidner; Senior Friends, Ted Levine

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OS MITOS NOS DIZEM ONDE ESTAMOS [Heloisa Reis]


"Chapeuzinho Vermelho" é sempre a primeira estória que me vem à lembrança quando penso em estórias infantis. Com certeza foi a que mais significados me sugeriu quando a ouvi pela primeira vez, algumas décadas atrás.

Mas sua idade vai ainda além, no passado...


Os irmãos Grimm, em 1812, escreveram "Rotkäpchen" numa versão própria de um conto oral nascido na região dos Pirineus e do Tirol, e alguns de seus elementos básicos foram encontrados ainda em contos do Japão, Coréia e China.

Em seu trabalho de compilação dos contos infantis ouviram o relato oral da huguenote francesa Jeanette Hassenpflug sobre o conto "Le Chaperon Rouge" - de Charles Perrault, escrito em 1697. Outra de sua fonte foi a peça com o mesmo tema "Leben und Tod des kleinen Rotkäppchens: eine Tragödie", escrita em 1800 pelo escritor romântico alemão Ludwig Tieck, que foi quem introduziu em sua versão o personagem caçador que salva Chapeuzinho e a vovó.

É um conto rico de emoções, suspense e várias possibilidades de final. Até os próprios Grimm oferecem a versão alternativa da reação da vovó que salva-se e à neta, sem a interferência de nenhum homem, introduzindo a idéia da emancipação feminina - aliás presente na versão italiana inicial.

Contudo o que realmente se salva nesse enredo são as muitas particularidades e aspectos humanos que aborda: laços de família, a questão da obediência ou desobediência aos pais, a iniciação à independência, a adolescência feminina, a sexualidade e o estupro, a ordem social contra o heroísmo feminino e masculino, morte e renascimento, e até mesmo canibalismo.

Houve até um movimento nas escolas americanas no sentido de colocar o conto numa espécie de lista negra devido a seu conteúdo de cunho fortemente sexual, embora Grimm tenha diminuído muito essa faceta, mais presente nas versões anteriores.

Agora me vêm à mente algumas perguntas: onde estão as vovós contemporâneas, tão importantes figuras para contar esse conto diretamente nos ouvidos de suas netinhas, fascinando-as com o tom de ameaça das perguntas sobre os olhos, o nariz e a boca... tão grandes?


Onde fica a oportunidade de captar a essência mítica de questões como o que é certo e o que é errado, o que é a preservação da integridade, onde fica a prudência como virtude?


Sim, é preciso contar a estória, manter o mito, pois a natureza humana conserva-se igual à daqueles tempos, até hoje. O lobo exerce ainda seu fascínio e Chapeuzinho mora na alma de toda menininha que sempre teima em querer levar os doces para a vovó - e não pela estrada do rio...

Imagens: Original do livro de Charles Perrault, por Gustave Dore; Little Red Riding Hood, Emma Rian

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quarta-feira, 12 de março de 2008

GIRÂNDOLA >> Carla Dias >>

Percebo na idade das perdas os motivos claros e constantes das minhas buscas.

Não desisti das estradas a perder de vista, dos horizontes açoitados por pores-do-sol. Continuo a economizar tempo para gastar essas fichas em outros lugares; naquelas lonjuras nas quais uns e outros jamais ousariam estar. Às vezes, essas lonjuras estão no mapa e me levam a outros estados, outros países; levam-me aos impessoais quartos de hotéis, onde remôo desejo de voltar para casa, mas sem saber ao certo se meu destino de volta é o meu lugar... O meu lar. Outras vezes, elas fazem parte da geografia da minha imaginação.

É realmente curioso como o tempo nos aborda. Diferente do que pregam os entendidos, os filósofos, cientistas, pais, políticos; é preciso viver o tempo para compreender que jamais saberemos como ele passará para cada um de nós. No fim das contas, estamos sempre à mercê dos mistérios.

Notei, ainda há pouco, que não engravidei de filhos; as crianças não correm pela sala, não me endoidecem com tombos ou encantam com as brincadeiras... Não há gargalhadas delas aqui, nem seu choro que sempre é sofrido, porque dói desejar colo e não recebê-lo a contento da necessidade. Não há herdeiros para as histórias preferidas, ou para passar adiante a tradição da minha infância: bolinhos e chá em dia de chuva, os pés sendo massageados pelas mãos que oferecem conforto; as meias que foram esquentadas a ferro para enganar o inverno.

Não engravidei de filhos, mas sempre me inspirou a vida essa criação. Minha mãe me ensinou a ser filha; minhas irmãs e irmão me ensinaram a ser irmã; meus sobrinhos me ensinaram a ser mãe e, para as travessuras e chamegos, tia. E eu sempre disposta a aprender, como se mais do que elaborar a própria biografia, eu estivesse preenchendo o vazio com o qual todos nós nascemos.

Então, eu engravidei de tantas possibilidades, restando-me dar vida à arte para ser quem sou e em quem me transformo, constantemente; torcendo para que eu faça sentido a alguém mais que não somente – e fragilmente - a mim mesma. Porque a arte me ensinou a ser humana, e minha humanidade gosta de companhia, apesar de também apreciar algumas facetas da solidão.

Volto ao vazio... Preenchê-lo requer um jeito que nem sei se realmente tenho. Nesse balaio, incluo todos os que eu aprendi a amar. E ao prestar atenção no que me levou a esses apaixonamentos... As sutilezas: gestos, palavras soltas, um olhar, a presença na hora certa, mas sem consciência dessa importância. Minutos de silêncio a contemplar ruas e multidões; e a versão breve da imensidão dos desertos. Também lá estão as decepções e as mágoas, delineando fragilidades na minha existência. E a tristeza: a morte de um amigo, dos irmãos; o despreparo ao lidar com o desafeto (há como se preparar para recebê-lo?)... A distância, apesar de estar ao lado. Quando é preciso ser tão somente o observador das fatalidades: o impotente.

Falo sobre mim, mas e você? O que o cerca ostensivamente e difere de quem você é neste agora? E o que, apesar de disfarçar tão bem, você deseja conhecer melhor? O que há de belo e não está ao seu alcance, mas ainda assim é importante, porque o faz pensar em chegar a algum lugar, justo quando dizem que você não sabe mais dar passos adiante?

Confesso que me interesso pelas prisões: a moça que se permite amargurar porque não cabe num padrão de beleza, então nem um ou outro se dedica a conhecer o belo que ela traz dentro de si. O moço que revira mágoa por não ser capaz de cuidar de si mesmo, trabalhar num emprego decente, conquistar seu espaço. A criança de olhar apagado, adulto, que já sabe declamar necessidades de rua. As prisões existem e cada um de nós escolhe em qual delas passará algum tempo. E o segredo está em nos apossarmos da liberdade, antes que as prisões nos sufoquem. E nos definam.

Exorcismos são necessários.

Imagem: www.freedigitalphotos.net


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domingo, 9 de março de 2008

MIL E UM DIAS DA MULHER >> Eduardo Loureiro Jr.

Andy Kingsbury/Corbis.comQuando eu nasci, um anjo mulher, desses de longos cabelos, disse: "Vai, Eduardo, amar e ser amado". E deu-me minha mãe Mazé, que havia sido dada à minha Vó Izolda, e esta à minha bisavó Encarnadinha.

Quando eu era bebezinho, minha mãe estudava com suas colegas de faculdade em nossa casa. Com minha mãe, além das amigas, vieram as tias, as primas, e depois mais primas e as irmãs. No mundo em que eu cresci, as mulheres eram as estrelas e nós, os homens, éramos os satélites: coadjuvantes.

Depois vieram as professoras, as médicas, as terapeutas, as amigas: sempre em maior quantidade que os homens. (Até minhas grandes amizades masculinas têm uma sensibilidade e afabilidade que não seria demasiado qualificar de "femininas".) Para onde eu fosse, sempre havia uma grande mulher: uma anfitriã amorosa, uma conselheira sábia.

Ainda hoje, se mudo de cidade, o que me aparece? Mulheres. Numa nova sala de aula, o que vejo? Mulheres. Um grupo de pesquisa? Mulheres. Um estúdio de TV? Mulheres. Estarão elas em todos os lugares ou sou eu que as procuro?

Tive dois casamentos. Um que pode parecer longo — 10 anos —, mas que eu prolongaria indefinidamente com prazer. O outro casamento foi curto — 2 meses —, mas o guardo com a intensidade dos infinitos. A essas duas mulheres, eu poderia chamar de deusas. (Ao próprio Deus, só chamo Deus por hábito, e para não me tomarem por maluco — vontade que tenho é chamá-lo Deusa.)

Minhas namoradas, e mesmo meus amores platônicos, não as tenho como criaturas terrenas, por isso às vezes as nomeio de Nuvens, Sereia, Lua... Em quase todos os meus relacionamentos, me pergunto: "Mas o que foi mesmo que esses seres especiais viram em mim?"

Quanto às minhas amigas queridas, não podem ser outra coisa senão as mais variadas manifestações daquele anjo mulher original. São elas a quem amo, e por elas é que sou amado no cumprimento do meu profetizado destino.

Em minha distorcida lógica masculina, parecia muita pobreza — muita desconsideração — que, dos 365 dias do ano, apenas um fosse dedicado à mulher. Que sociedade é essa que dedica um único dia a quem se poderia dedicar — por mérito e com prazer — toda uma vida? Mas elas — as mulheres — gostam dessa humilde lembrança, e multiplicam as alegrias e homenagens desse dia em tantos dias que — arrisco dizer — o ano delas deve ter mil e uma noites.

Ah, por que falo tanto? Por que me perco em excessivas palavras? Se "do luar não há mais nada a dizer a não ser que a gente precisa ver o luar", da mulher não há mais nada a dizer a não ser que a gente precisa ver e ouvir e beijar e cheirar e abraçar e admirar... a mulher.

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sábado, 8 de março de 2008

MULHERES [Sandra Paes]


Sou uma delas.Vivo cercada delas. Mães, filhas, amigas, vizinhas, amantes, amadas, desamadas, cansadas, perdidas, trôpegas e, por vezes, sem saber quem são…

Tocam-me o coração, me fazem rir muitas vezes, trazem-me vincos novos na face e dores pelas curvas de meu próprio corpo. Sofro com as dores nos seios de todas que temem perdê-los para o câncer, para o tempo, para o espelho.

Não consigo deixá-las na mão, entregues à própria sorte ou ao próprio azar. Até porque vislumbro aquelas que se arrastam pelos seus homens - ou pensam que assim os têm.

Espero por longos tempos ao telefone por suas falas tantas vezes bêbadas e sem rumo, tanto quanto suas vidas, assoberbadas de tarefas, preocupações e tantos desejos jamais vistos e saciados.

Contemplo todos seus volteios em torno de suas insônias e buscas pelo amado que nem sempre acorda a tempo de lhes cobrir o anseio.

E nas minhas próprias noites insones, sinto seus uivos carentes e doadores ao mesmo tempo, em todos os confins desse planeta, que também é fêmea, que também sangra e que também recebe tantos tratos, bons e maus.

Por elas, venho devotando preces e pedidos vários, horas de devoção e atenção desmedidas por que assim sinto e sei que elas merecem viver e não vivem.

E seja no carro, ao longo da estrada, no cansaço ao carregar as compras do supermercado e ainda sorrindo ao preparar o jantar para a família ou os que habitam sob o mesmo teto, seja como for, estou ali, presente, atenta e silenciosa, na maioria das vezes, apenas como testemunha que sou de minha própria condição de mulher e cúmplice.

Há que se devotar um pouco mais de amor a todas nós, um pouco mais de lirismo, um pouco mais de poesia também.

Onde está quem nos prepara o jantar com surpresa e requinte? Onde está quem nos atende ao telefone com um alô doce e um sorriso nos lábios apenas por nos saber do outro lado da linha? Onde está quem nos afaga o cabelo apenas pela felicidade de tocar nossa beleza sem um arranjo por detrás querendo barganhar algo? Onde está quem nos lê o pensamento e nos saca das aflições a que nem sempre nós mesmas temos acesso?

E por nos saber assim, forte, frágil e entregue, as louvo, as amo incondicionalmente, e me incluo nessa lista infindável das que sabem tudo sobre a vida, porque retém o segredo no seu core, no seu útero.

Que a Deusa que habita em nós se regozige hoje numa data promissora de renascimento de nosso melhor.

Santè! Salud! Saúde! Chears
!

Olhe-se no espelho e saúde-se. Mais do que ninguém, você merece!

Nakedness

Imagens: Smiling Woman, Patrik Giardino; Smiling Woman Drinking Coffee, Tom Grill; Spirit Departing Wiccan Body, Floris Leeuwnberg

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DIA INTERNACIONAL DA MULHER [Monica Bonfim]


Oi, prazer, meu nome é Mônica, brasileira, advogada, solteira aos 47 anos e feliz, feliz. Sou um membro útil da sociedade, respeitada no meu meio de trabalho, uma boa profissional, amiga dos meus amigos e até de quem tenta me prejudicar. Além disso, para melhorar a coisa, sou bonita e razoavelmente inteligente e culta.

Porque abri uma crônica sobre o Dia Internacional da Mulher com tal declaração? Porque é importante, muito importante.

Há pouco tempo atrás deparei-me com um sujeito que não consegue entender meu lugar no mundo: mulher que não casa e não tem marido, para ele é uma frustrada sem valor. Mulher trabalha é para ajudar o marido, desde que não atrapalhe no andamento da casa e do cuidado com os filhos. Mulher solteira que trabalha é porque é solteira e está “passando o tempo e se sustentando” enquanto o marido não chega.

Caiu de páraquedas na minha vida fazendo promessas de casamento, de vida a dois. Considerou ele que prometendo tais coisas — que diga-se a bem da verdade, tinha intenção de cumprir — comprava minha eterna submissão às suas vontades. Sob sua ótica retrógrada e distorcida, uma mulher de 47 anos solteira ser-lhe-ia eternamente grata por ele tê-la salvado do apodo de “solteirona”.

Hoje é Dia Internacional da Mulher e, embora eu não seja muito de datas e comemorações, vou dizer a vocês que esse ano eu vou comemorar: comemorar que já temos escolhas, que já podemos escolher... PODEMOS ESCOLHER! Podemos ser donas de casa, se quisermos; trabalhadoras, se quisermos; putas, se quisermos; oprimidas, se quisermos; dondocas, se quisermos. E aquelas que não podem ainda escolher, já são alvo de atenção, por não terem escolhas. Até o silêncio, hoje já faz algum barulho.

Já há lugares e meios onde um indivíduo que pensa o que pensou o sujeito do começo do texto não é sequer levado a sério. Onde a atitude dele é considerada um desrespeito tão grande que ele é considerado doente e desequilibrado.

Hoje é Dia Internacional da Mulher. Meu nome é Mônica, sou solteira, advogada, tenho 47 anos e sou feliz, feliz. Fechei ontem dois acordos complexos, que advogados homens tentaram por anos e não conseguiram; meus amigos me ligaram para ir jantar fora; estou em pé sobre meus próprios pés e feliz... porque posso escolher.

P.S. O sujeito? FALA SÉRIO!!! Ainda está pensando nele?

Imagens: Lawyers, Moodboard/Corbis; Woman in Food Preparation Training Facility, William Taufic; Woman Washing her Face, Moodboard/Corbis

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sexta-feira, 7 de março de 2008

O vinco afetivo de Virgínia Morse >> Leonardo Marona


Duas doses para além do amor perplexo, que teve as pernas amputadas, ela espera pelo reflexo da própria sorte diluída, no fundo falso da cartola sem retorno, onde as almas sensíveis desaparecem e retomam o centro catatônico de uma questão aparentemente crassa, mas complexa: loira escura, nuca de avelã, gosto de farmácia, unhas dos pés carregadas de pecados incompletos, exame pré-natal garantido por pontas de agulhas filicidas, fios grossos de cabelo espalhados pelo calcanhar descascado de veias. A fatiota do major confinada de ácaros atrás do baú – tomado de cupins por dentro como certos corações infantilizados pela desconfiança e pelas rugas, que se tornam cinzentos e inchados de pus, tal qual o crânio do major reconstituído aos pés de tias com unhas de águia e salmos fora de moda em forma de sobrancelhas, crânio guardado para os vermes dentro da madeira. Major mesmo cuja fatiota provoca nela bolhas de gás no cérebro – impossibilitado de fantasias sonoras. Fantasmas proletários sujos de graxa reivindicam outra dose, que sai tremida das lembranças oleosas: aquário escaninho de prazeres líquidos anis inadequados para a satisfação de cada pétala pedregosa, de cada cílio postiço embalado pelo piano mecânico ao fundo do inverno dos percevejos fanáticos. Tarde demais para perder, cedo demais para escolher. Só as taças vazias marcadas de batom sabem o que significa o sentimento de ausência: esse vinco enfezado de belezas rarefeitas que a faz manequim de veludo e deusa do além.


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quarta-feira, 5 de março de 2008

DESPEDIDA >> Carla Dias >>


Hoje compreendo, aquém da teoria, o significado de pessoas que somente passam por nós... Nunca ficam. Ainda que promovendo uma verdadeira algazarra na alma da gente; mesmo desferindo seriedade aos sentimentos que despertam na gente, estão de passagem. Experimentei desses rituais de passagem várias vezes, mas sempre foram em doses sutis, com pessoas que, apesar de deixarem em mim após sua partida o vazio, provedor da saudade, da lembrança, da nostalgia, não se embrenharam em minha biografia de forma a despertarem a falta dolente. Houve sempre o toque lúdico, de menina que ganha presente e, ao perdê-lo, fica chorosa por um tempo. Que vez ou outra relembra esse momento, mas a melancolia passa.

Essa despedida não... Essa é dolorida mesmo.

Não imaginamos, no começo das nossas vidas, que teremos de dizer adeus às pessoas. Não esperamos isso ao nos relacionarmos com elas. Confesso que sou das que levam muito tempo quando se trata de sentimento. Demoro para compreender, mas me dedico a isso... A chegar ao máximo da compreensão sobre o outro. Então, apego-me às peculiaridades... O tom da voz a dizer determinadas palavras, os gestos, os desejos por detrás dos desejos. Esse é meu jeito de querer bem.

Há alguns anos, conheci uma pessoa muito bacana. Ficamos amigas, mas daquelas que deixam o papo leve e suave para trás. Gostávamos de nos aprofundar no que sentíamos. Vigiávamos nosso dentro com atenção redobrada. Falávamos banalidades para descansar dessas profundezas, mas voltávamos em seguida, fôlego retomado, prontas para perscrutar labirintos. Sempre foi uma amizade entre duas pessoas habituadas a escrever pela urgência em dizer o sentir. Aliás, eu adorava ler os romances que ela escrevia. Apreciava a forma como ela se valia das palavras para dizer os sentimentos.

Naquela época, não conseguia imaginar minha biografia sem aquela amizade. Era essencial que pudéssemos trocar as cartas escritas em folhas e folhas de caderno universitário. Morávamos no mesmo estado, mas não na mesma cidade. Era fundamental que pudéssemos contar uma com a outra quando tínhamos de dizer coisas que, se disséssemos a outras pessoas, elas não compreenderiam com a intensidade que necessitávamos ver no outro ao recebê-las. E era grata a liberdade que tínhamos para comentar nossos amores e desamores; celebrar o nascimento e chorar o desbotamento dos afetos.

É dessa amizade que me despeço, depois de insistir durante muito tempo em mantê-la em aberto. Mesmo ciente do que poderia tê-la sugado a vitalidade para prosseguir - a mudança de cenário das nossas vidas -, eu tentei reanimá-la por acreditar que valia a pena. Ainda acredito nisso, mas a minha companheira de viagem não. Um direito dela que, agora, decidi, definitivamente, respeitar.

Sempre me atrapalhei em bifurcações.

Compreendo hoje, com mais clareza, que a função de algumas pessoas é passar pelas nossas vidas apenas para provar ou relembrar importâncias. Cada um de nós, quase sempre sem perceber, desempenha este papel em algum momento. Espero que amizades como essa tenham nascido durante essas passagens; que algumas tenham decidido ficar: o desejo de seguir adiante em forma de aprendizado.

Então, ponto final requisitado. Ponto final aceito, depois de muito espernear, meus caros. E um punhado de desejos abençoados para a minha amiga de delírios e vontades; de músicas preferidas, dos almoços à beira dos nossos sonhos. Que o futuro seja amável e reserve a ela a mágica que almeja. E que ela saiba que a demora em dizer adeus se deu porque levo sempre tempo demais para partir. E porque, para mim, dizer adeus a nossa amizade foi como aceitar a morte... A morte que reza a carta do tarô. Que aponta o fim de um ciclo, onde é necessário abandonar para renascer.

Renasçamos, então, cada qual no lugar que nos cabe. A vida afiada. A felicidade e sabedoria presentes.

Então, adeus.

Imagem >> www.freedigitalphotos.net




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