sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Minutos antes do primeiro passo >> Leonardo Marona

Sento-me de mãos vazias. Passo uma na outra. Continuam vazias. Olho para elas. Pasmo, passo uma na outra. Nada acontece. Aparentemente nada. Mas o que ainda podemos ver nas aparências? Levanto, sento, vou até a janela em passo acelerado, esperando ser de algum modo surpreendido. Faz um barulho surdo lá fora, constante, por dentro da terra. Sobre a terra nenhum carro, dilúvio, onça pintada. Volto a sentar-me. Essa frase ficaria bem melhor em Tchekhov. De qualquer maneira, ali estou, um rapazinho de estrutura média para baixa, ascendência talvez siciliana, na língua das ruas conhecido como atarracado, muitas idéias sobre questão nenhuma, mas existe ternura, existe o apoio na terceira haste, existe a pérola submersa revestida em lodo. Há que se perder a respiração em apnéia. A que se nadar bem ao fundo até perder a consciência. Até afundar placidamente, deslizar como deus na superfície intacta, deslizar como Carlos. Formigas voadoras de repente invadem o quarto. Existe harmonia e destruição entre elas. Me pergunto por que não conseguimos. Tenho ganas de escrever. Isso ficaria talvez bom em Hemingway. É tarde demais, mas parece que em algum lugar ulterior as coisas ainda estão em choque e tudo está em aberto. De novo à janela. É inútil. As formigas voadoras desistem e partem. O desprezo das formigas voadoras é irrevogável. Sim, há em cada um de nós esse tempo longínquo, um futuro raso que quase podemos tocar. Ele se aproxima de nós nas noites não tão frias, nas quais os corações enregelados perdem seus álibis. As cadeiras, o pó sobre a escrivaninha, o antigo sapo de pelúcia, tudo está ali há milênios insondáveis, me observando mineralmente enquanto muda de forma. Os olhos cheios de areia. Dormir já não se pode. Isso daria um péssimo Beckett. Pego o lápis, encaro o papel. O papel é muito grande e minhas mãos doem.


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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

ESPIRAL >> Carla Dias >>

Vivo nessa espiral a qual dedico um quê decifração. Nela aposento os medos, os diálogos engolidos no afã do desespero e as ilusões corriqueiras, pois elas o são de vez em quando. Sou uma pessoa de humanidade mancomunada com os arrabaldes do imaginário. Às vezes acredito que não existo em carne e osso e desconserto a realidade; dou até de ficar à espreita dos sonhos alheios, como se pudesse pegar carona nesses deslumbramentos tão avessos aos meus.

Eu viajo – como quem embarca em trem, navio, avião; pega asas emprestadas – através das páginas de um livro. Já me aborreci de jogar exemplar contra a parede, como se esbofeteasse o salafrário da história. E também já apaixonei pelas crianças, homens e mulheres que definiram suas biografias naquelas páginas; fascinei pelas tramas. Embarquei de mala e cuia. Acenei aos presentes: laços, pessoas e fantasmas.

Adoro as noites e descambo a observá-las sem medo. Permito-me orientar pelas estrelas, enquanto caminho rumo a sei lá onde. Já bebi de muitas noites, já me alimentei de luares. Já me ausentei da presença de outras pessoas, dos círculos sociais, assim, deixando o olhar fisgar lonjuras.

Caio nas graças dos que me desamparam como se fosse personagem de um dos filmes que jamais esquecerei. Mas há tanto a se saber sobre o outro que, quase sempre, deixo-me levar. Sem roteiro, às vezes acabo em novela; outras: monólogo. Acontece de o palco sumir de debaixo dos meus pés, e de eu cair sem amparo qualquer. Acontece raramente, mas acontece, de eu me espatifar em porém, levantar os olhos e ser recebida com possibilidades.

Não creio em afetos pela metade. Acredito que o afeto é um inteiro... Não há partes. Se estiver partido ao meio, aos pares, aos fragmentos, não é afeto. É outra coisa sentimento, mas não afeto.

Parto daqui tantas vezes em um mesmo dia que decidi não mais fazer contabilidade. Quando volto para passar férias na realidade, trago comigo agrados para aqueles aos quais dedico um amor que parece frágil, mas é dos honestos, dos que se reinventam, portanto tem lá o seu valor. Trago algumas versões da verdade, um punhado de sorrisos desmascarados. E também me conscientizo sobre o que entristece que é para derrubar prisões.

Perco-me facilmente pelos labirintos das melodias das canções e embrenho a mim em seu ritmo, que faísca pelas minhas mãos: batuco. Desaba até meus pés: danço. Refestela-se na minha alma: emociono-me. Não há gente que não tenha sua canção preferida de anteontem, ontem, quiçá hoje... Amanhã? Eu tenho mil e tantas canções preferidas espalhadas no meu dentro. Um mosaico de deslumbramentos e decepções. Um quarto escuro e silencioso no qual, de vez em quando, o sol assopra presença com a quentura de seus mistérios. O lume da presença.

Escorregando nessa espiral que não aponta chegada, vou colhendo felicidades, discutindo com as fragilidades, dissipando desentendimentos. Às vezes me sinto estrangeira nesse corpo, nesse cotidiano, mas quem já não se sentiu assim? Espero que muitos, a maioria. Como espero que as pessoas voltem a cultivar a paciência para conhecer o outro não só na realidade dos afazeres, mas no fantástico de suas almas.

Imagens: Leo Feltran >> www.feltran.com

www.carladias.com


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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Sem Controle >> Claudia Letti

"A vida se transforma rapidamente.
A vida muda num instante.
Você se senta para jantar, e aquela vida que você conhecia acaba de repente.
"
["O Ano do Pensamento Mágico" - Joan Didion, ed. Nova Fronteira, 224 págs.]

Há meses eu estou ensaiando pra comprar esse livro que, desde que bati o olho, tem chamado minha atenção. Não sei se são questionamentos da idade, e me perdoe o clichê -- que, aliás, me irritava profundamente quando eu era (mais) jovem --, mas a maturidade tem um poder desconcertante de dissipar fantasias. Isso tudo também me faz lembrar daquela frase famosa de um Beatle: "A vida é o que acontece enquanto você está fazendo planos". E sabe lá que planos fazia John Lennon enquanto caminhava para o Dakota sem saber da missa a metade. Seja como for, com o passar dos anos fui percebendo que a vida pode e muda num piscar de olhos e nem precisa de acontecimentos trágicos ou drásticos para tal. Um contratempo na sua chatice de rotina, que seja, e você se transforma num malabarista sem ensaio prévio. Ou isso ou a entrega dos pontos que, antes dos 90 anos, no mínimo, é melhor não alentar.

Queremos o controle, é fato. Queremos controlar nossos horários, a alimentação, o parceiro, os filhos, o trabalho, o saldo bancário e tudo que mais vier, com nosso apetite pela ordem estabelecida, mesmo que ela seja anárquica. Mas, não temos o controle de nada. Muito menos sobre a vida, essa incontrolável.

Você pensa que tem o controle da sua rotina até que estoura um cano qualquer e seu cotidiano é literalmente inundado por obras e transtornos levando, na enxurrada, o azul da sua conta bancária. Você não quer mais amar até que na virada da esquina, logo ali, você encontra alguém que o faz desejar amar de novo e o que é incontrolável: o faz desejar a entrega total. Daí acredita que seu amor é incondicional, e na virada da mesma esquina ou de uma outra, quem sabe, condiciona o seu amor à adrenalina de um olhar mais sedutor. Você faz um bolo delicioso para receber a família e um acidente doméstico transforma sua receita de felicidade num pesadelo. Você poupa o doce pra comer depois, saboreando a expectativa da primeira colherada e o telefone toca, anunciando qualquer coisa capaz de lhe de tirar o apetite. Lá se foi o doce, lá se foi o depois. Lá se foi sua receita de manter a vida em curtas rédeas.

Mas, longe de mim vestir indumentária de pessimista. É preciso falar dos descontroles felizes que nos atropelam. Desses atropelamentos ninguém quer escapar e ainda bem que também não temos o menor controle. Igualmente aqui, vale a regra de que não é preciso que seja "O" acontecimento. Não é preciso ganhar na loteria ou ser sorteado para um Cruzeiro pelas Ilhas Gregas. Pequenas coisas boas têm um poder maravilhoso de bagunçar nossa rotina. Carinhos, flores, uma comida gostosa, uma promoção, aumento de salário, uma paixão de tirar o fôlego, um amor maduro sendo renovado, o sorriso de um filho, uma manhã de praia e até, a gente bem sabe, o alívio de quitar uma dívida.

As coisas chatas e até alarmantes que o avançar da (minha) idade tem me feito reconhecer também servem, aleluia e amém, pra prestar atenção em outros clichês: a vida é agora, a felicidade é hoje e, muitas vezes, é inquilina de pequenos momentos.

Ninguém sabe o que você vai fazer ou o que acontecerá amanhã. E o que é mais desanimador e terrivelmente encantador é que você, provavelmente, será o maior interessado e o último a saber.

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

COISAS DE MÃO-MOLENGA >> Maurício Cintrão


As questões de trabalho me fizeram cruzar caminhos com os artistas do Instituto Mamulengo Social, aqui de São José dos Campos (SP). Originário da Companhia de Teatro Estranhos Mamulengos, dos anos 1990, ligada à Igreja Católica, o Instituto é uma ONG de sucesso no atendimento a crianças e adolescentes em situação social de risco.

Não sei se vocês sabem, mas o mamulengo é um boneco identificado com a cultura popular, usado há séculos no teatro de animação de bonecos, a partir de Pernambuco, mais especificamente de Olinda. Reza que chegou ao Brasil pelas mãos dos holandeses e ganhou esse nome porque é animado com mão-mole, mão-molenga, mão-molengo.

Pois foi conversando com o pessoal do Mamulengo Social que descobri: o mamulengo é um fenômeno cultural que se recria há séculos em vários pontos do país e não só no Nordeste. Aqui mesmo, no Cone Leste paulista, teria existido como manifestação cultural regional até bem pouco tempo atrás. Os cabeções de carnaval seriam prova disso.

Ainda vou pesquisar mais a respeito. O fato é que o teatro de bonecos no Sudeste exerceu forte influência em alguns segmentos de produtores da cultura popular. Foi animado por personagens que se notabilizaram com nomes próprios, como Briguelas, Casimiros-Cocos e Joões-Minhocas.

Bem, mas o motivo deste texto não é tanto a pesquisa histórica, e sim o meu espanto com o teatro de bonecos. Pode parecer estranho, mas esse universo se descortina para mim somente agora, depois de velho. Não que eu desconhecesse a arte da animação de bonecos. Os fantoches também me fascinaram quando era menino. Na adolescência, também fui encantado pelo Muppet Show.

A diferença é que nunca enxerguei a animação de bonecos assim. E o que é o “assim”? É uma maneira de entender a arte como instrumento transformador em sua essência. Não se trata de fazer bonequinhos bonitinhos que promovem gracinhas para as crianças.

O teatro de animação de bonecos é uma atividade complexa, com história, tradição e fundamento. Envolve não só texto, interpretação, cenografia e figurino, mas também a produção artesanal dos bonecos. Mais ainda, envolve a arte de dar vida a esses bonecos.

É fascinante descobrir que existe uma grande variedade de companhias dedicadas a essa arte aqui no Brasil, em vários pontos do país. O teatro de animação de bonecos mobiliza uma legião de criadores, produtores e técnicos. E apesar da TV, ainda é capaz de encantar milhares de espectadores (de todas as idades) em teatros, escolas e praças públicas.

Peço que dêem um desconto nessa empolgação toda. Por conta do meu filho Pedro, que completou seis meses na semana passada, ando meio obcecado com a releitura das coisas de criança. Afinal, estou revivendo muitos dos sonhos da minha infância, vários dos quais foram revisitados com os outros quatro filhos.

Enfim, meus amigos, acho que descobri uma nova e explosiva paixão. Coisa de mão-molenga.


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domingo, 24 de fevereiro de 2008

SEM COBRANÇAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Faça uma lista das coisas que as outras pessoas deveriam ter feito e não fizeram. Para começar, basta lembrar do dia de ontem: o que foi que seu marido, esposa, filhos, pai, mãe, amigos, empregados... deixaram de fazer, tornando sua vida mais desconfortável do que você desejaria. Anote num pedaço de papel ou apenas liste mentalmente.

Cynthia Hart Designer/Corbis

Pronto?

Se você conseguiu listar pelo menos uma coisa que alguém deveria ter feito, você está cobrando. Não importa se você não falou nada para a pessoa, você está cobrando. Não importa se você jamais daria conta de pensar nisso caso um cronista não lhe houvesse provocado; você está cobrando. A cobrança verbal é apenas uma exteriorização de uma cobrança que já existia internamente.

Talvez você pense que tem que cobrar mesmo, afinal o outro prometeu, ou se comprometeu, ou falou que ia fazer, ou, dada a função que está desempenhando (pai, mãe, filho, amigo, atendente de loja...), é responsabilidade dele fazê-lo. Sim, você pensa que as pessoas têm que fazer coisas em determinadas situações, e cobrá-las é até um bem que lhes presta porque está lembrando a elas seu real papel no mundo. Certo?

Certíssimo. Eu mesmo devo cobrar do leitor certas coisas que são inerentes à função de leitor, e que não ficaria bem para um leitor não fazê-las. A primeira delas é que o leitor leia o texto até o final; é o mínimo que se espera de um leitor. Depois, que o leitor procure no dicionário o significado de quaisquer palavras que não conheça ou sobre as quais tenha dúvida; sei que é uma tarefa desgastante, mas absolutamente necessária. Em seguida, é preciso que o leitor releia o texto várias vezes, já que a primeira leitura é apenas de reconhecimento, e as leituras seguintes é que realmente abrirão as portas do sentido do que está escrito; não fica bem para um leitor que quer se dar ao respeito que leia um texto uma única vez. Também é pedido do leitor que monte mentalmente o mapa ou a estrutura do texto; que o leitor saiba como o autor organizou as idéias é condição sine qua non para compreendê-las (sim, o leitor deve também procurar o significado de expressões em outras línguas em dicionários especializados). É fundamental ainda que o leitor nunca tire suas próprias e tresloucadas conclusões sobre aquilo que lê; o autor tinha uma mensagem, e leitor que se preza capta essa mensagem em toda a sua objetividade. E, acima de tudo, é dever de um leitor que, além da estrutura, perceba a alma do texto, as figuras de linguagem que o autor utiliza para expressar suas idéias. Por exemplo, o leitor que ainda não percebeu que este parágrafo é de caráter eminentemente irônico está correndo o risco de achar que este pobre autor realmente defende aquilo que está textualmente afirmando.

Agora o leitor faça-me o favor de pegar sua lista mental ou escrita de cobranças e rasgá-la ou apagá-la de seu juízo, principalmente se a lista incluir alguma cobrança a este cronista. Eu mesmo tratarei de desconsiderar a minha lista, dando ao leitor a liberdade de fazer o que bem quiser com o que lê de mim: sem obrigações, sem cobranças.

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sábado, 23 de fevereiro de 2008

SENTIR FALTA [Ana Coutinho]


Sentir falta, ao contrário do que dizem por aí, é diferente, muitíssmo diferente, de sentir saudades. Ah, sentir saudades... Sentir saudades é grandioso. Dor enorme que rasga por dentro dias seguidos, horas intermináveis, tempo infinito.

Sentir falta não. Sentir falta é pontual. Sentir falta é dor fina, dor de beliscão com unha, dor de anestesia de dentista. Sentir falta é mais específico. Sente-se falta do carinho antes de dormir, da implicância com o controle remoto, sente-se falta do jeito boboca que ele tinha de andar, se balançando todo. Sentir falta é mais egoísta, quase que material. Sentir falta do café dele, da bagunça dele, dos discos dele, do chinelo dele, sempre ali, jogado displicentemente na beira da cama. Sentir falta da camiseta velha dele que você podia usar... Ai, que falta faz essa camiseta... Sentir falta é pequeno, mas não menos doloroso.

Ou não dói uma unha encravada? Ou não dói um bife que a manicure tira? Ah, dói... e como. Talvez até mais que a dor da saudade.

A dor da saudade é grande. É infecção generalizada. É uma gripe daquelas, uma dengue hemorrágica, uma pneumonia. A saudade não te deixa respirar. Não te permite trabalhar, te faz faltar o ar. É dor das grandes que te derruba de tal forma que, de repente, por mais que esteja sol, faz um frio de rachar na sua casa e você pode jurar que nunca - nunca - sairá de novo de dentro do seu edredon, porque suas forças acabaram ali, naquele instante, e não há mais nenhum fiapo de vontade, sequer para amarar um tênis. Isso é saudade.

Saudade não é sempre de uma coisa específica. Pode até ser, mas normalmente saudade é plural. Saudades é dos dois. Saudades é de você mesma, com os olhos brilhando. Saudades do frio na barriga, saudades do começo, saudades da praia, saudades daquela festa ridícula, saudades dos foras que vocês davam juntos, dos preparativos para aquela viagem, saudades daquela viagem e da alegria de estar lá. Da expectativa de ir pra lá, da ansiedade, da enorme felicidade e graça, que só vocês conheceram...
Saudades de coisas efêmeras, saudades de fumaça que não se pega, não se toca e, talvez, nem tenha acontecido de fato.

Por isso, saudade pode ser inventada - falta não. Saudade é contínua, falta é curta. Saudade é pó, falta é pedra. Saudade é soco no estômago, falta é puxão de cabelo.
Falta é daquilo que não está ali, e que deveria estar. É a dor da cozinha intocada, da luz apagada, do controle remoto só seu. A falta está na rotina, nas pequenas coisas concretas do dia a dia. Ela é pontual, mas pode aparecer todos os dias. E todos os dias você sentirá a dor fina da picada de uma abelha quando notar, por exemplo, que o banheiro está arrumadíssimo e a pia ficou grande para os seus poucos perfumes. Lá está a dor da falta vindo de repente, tal qual um ladrão que te furta a bolsa... Ela vem e, como uma unha encravada, não te impede de trabalhar, de viver, até de se divertir. Mas avisa que está lá, latejando dentro do sapato bonito.

Você pode até ter se curado das saudades, mas, talvez, um dia, quando o chuveiro queimar, você vai sentir uma falta enorme dele, e de todas as soluções simples que ele tinha para problemas tão complexos como esse...

Talvez uma se cure antes da outra, talvez nenhuma das duas tenha cura. Ambas, no entanto, te trazem a sensação da angústia. Ambas acontecem apenas quando o objeto da saudade ou da falta, parece estar ali, na beirada da sua vida. Ambas te fazem esticar o braço com força, com toda a sua força, o máximo que pode, para alcançar aquilo que já não está mais ali, que é sombra, é marca d'água de powerpoint, e é por isso que dói.

Talvez essas duas dores só sumam de fato quando ele sair da beirada. Quando o desenho do rosto dele não for mais tão nítido na sua memória, quando o som da voz dele não for mais tão claro em teus ouvidos. A saudade e a falta, de formas diferentes, com dores distintas, clamam por aquilo que mais se teme. A única solução possível é a mais temida, e serve para as duas: o esquecimento.

Doce Rotina

Imagens: Mulher, Lara; Saudade, Serena; Saudade, Radyr Gonçalves

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

MARTA >> Leonardo Marona

Seu nome era Marta, escritora de longos romances e ensaios filosóficos acerca da existência humana, Marta, que certamente lia livros policiais de capa cor de rosa, Marta-Dorothy Parker-Clarice Lispector, Marta quase Ana C., dava para se perceber, ninguém chamado Marta pode ser outra coisa se não escritora ou atleta. Ela poderia ser os dois, estava na pista onde alguns dançavam em ritmo blow-up, se agarrando lascivamente com um camarada um tanto duvidoso. Era óbvio que para ela não passava de um consolo, algo a que se apegar por uns minutos. Marta dos cabelos curtos, franja seca, Marta despercebida de todo o seu próprio mistério, Marta, o mistério despercebido e fulminante da pronuncia de “Marta”, escritora certamente de contos e poesias e ainda por cima uma entusiasta, de certo, da grande literatura, autora de livros infantis sobre a morbidez, Marta dos pés grandes, pés de Marta sobre o chão, cuidado, Marta, com o samba, com o chão nas tuas costas, escorregando... Apenas um deslize e Marta retorna placidamente à sua posição de vestido colorido costurado junto ao corpo, seda chinesa e botas envernizadas estilo Nancy Sinatra, óculos de lente, um deles rachado, três graus e meio de miopia, a dança do coito e sexo jamais, meu deus, Marta, por que fui chegar perto de ti, escritora suicida, premiada, Jabuti e o escambau, apenas para dizer duas ou três bobagens, e te chamar de Mara?



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AH, OS AFETOS, SÃO OS AFETOS >>> Cristina Carneiro

Às vezes eu assisto televisão. De vez em quando, eu faço questão de assistir a um determinado programa, apesar de, volta e meia, esbravejar contra a TV. De verdade, eu tento assistir, diariamente, ao Recorte Cultural*. Até porque, a partir de que eu passei a morar sozinha, me senti obrigada a me apegar a muitas coisas, já que tem dias que o computador está chato, a concentração não está para leitura, não é sexta-feira, não tem ninguém esperando pro jantar, nem ninguém pra ligar, nem ligação pra receber. Eu careço reprimir minhas necessidades de conversar demais, conversar inclusive sobre meus novos métodos de lavar a roupa, de maneira que elas fiquem realmente limpas, cheirosas, não precisem de muito molho e não me matem de hérnia de disco.

Eis que decidi assistir aos “Queridos Amigos”. Nos últimos anos, desde “Um Só Coração”, nenhuma minissérie da Globo (é preciso admitir que, quando eles querem, fazem o que preste) me mantinha acordada, nem me despertava vontade de assistir de forma despedaçada, somente nas noites de insônia. Até que “Queridos Amigos”. Que passa tão tarde que preciso do despertador pra acordar na hora. Aí, assisto (até agora foram só quatro capítulos), sem pestanejar, com olhos marejados.

Tenho vontade de chorar por tudo. Pela vontade com que o povo daquele tempo vivia, pela paixão que eles tinham pela vida, pelo país, pela vontade deles de mudar o mundo (mesmo não sendo mais adolescentes**). Pela paixão que a Lena sente pelo Ivan. Mas, principalmente, porque é um grito por solidariedade, um grito por afetos e contra o individualismo. Tenho dó da minha geração, que cresceu tendo de dar certo, tendo de se dar bem e deixando a solidariedade em segundo plano, e o passar por cima dos outros, em primeiro. A inveja.

Veio a calhar essa série. Eu e meus amigos de angústia vínhamos buscando, de forma cada vez mais intensa, mil e uma teorias para a nossa angústia, que é uma angústia parecida com a do Léo, que tem tudo, pode ser tudo, mas não basta, quer os amigos de volta. Não basta a gente dar certo, ganhar um salário que pague as contas, viver confortavelmente, sem solidariedade, sem ter com quem compartilhar um desejo verdadeiro e coletivo. Um desejo que nos mova.

Eu marejo os olhos porque, hoje em dia, até insistir numa festa pra juntar um monte de gente diferente a gente não consegue. Por mais que todos os amigos do Léo tenham tomado rumos diferentes (alguns, rumos semelhantes, como o Ivan, o Tito e o Pedro, que trabalham numa revista chinfrim), eles têm uma luta em comum, que aconteceu no passado, que é doída, mas que é deles, um sentimento gêmeo.

Quem dera a minha geração tivesse uma luta em comum, mesmo que fosse velada. Mas não, cada um tem sua luta individual interna, e sai comendo pelas beiradas, pra ninguém ver, é a falta de solidariedade, falta de solidariedade de todas as formas, sentimental, intelectual. E a falta de afeto. E que lindo o Léo falando de afetos, são os afetos, os afetos. Quase não falamos em afetos.

Não é, propriamente, por saudosismo de um tempo que eu não vivi que eu vejo e marejo os olhos com “Queridos Amigos”, mas por querer mais afetos, mais solidariedade. Tirar o afeto um pouco de si, espalhar o afeto, explodir de afetos pelos amigos.

---

*Recorte Cultural, às 20h30, na TV Brasil.

** Vocês já repararam que quando os adolescentes estão naquela vontade de mudar o mundo, todo mundo chega pra dizer que é fase, que vai passar, e que tudo vai ficar bem?

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

PRESENTES >> Carla Dias >>

Desde que me conheço e desconheço por gente que presentear é quase um ritual. Não falo dos presentes sociais, às pessoas com as quais não tenho tanta intimidade. Falo sobre o presentear aquele que se ama e, por isso mesmo, a quem prestamos ainda mais atenção.

Já presenteei lua cheia num dia em que o outro estava precisando sumir do planeta terra. Às vezes, também é possível presentear com aquilo que ninguém possui, mas que pode alcançar com o olhar, com a alma, o significado da oferenda. Acontece até de estes serem os presentes mais significativos.

Certa vez, não era tão jovem, mas me deixei levar pela inocência da infância das amizades, e mandei a uma amiga um bombom todo enfeitado pelo correio. Claro que o pobrezinho chegou ao seu destino derretido que só e impossibilitado de ser devorado. Ainda hoje, quase duas décadas depois, eu e minha amiga ainda relembramos essa passagem com muito carinho e, claro, às gargalhadas! Portanto, posso dizer que esse presente-bombom ganhou a eternidade.

Na época do colégio, presenteei um amigo querido com um caderno brochura cheio de poemas que não foram escritos em outro lugar senão naquele presente. Durante muitos anos, eu fiquei sem saber desse amigo que reapareceu, recentemente. Outro dia, ele me escreveu e comentou que guarda este caderno até hoje.

Com outro amigo o café é sempre assunto. “Precisamos tomar aquele cafezinho”, é frase recorrente nas nossas conversas, porque representam os nossos bate-papos ao vivo e que são sempre muito agradáveis. E ele andou baixo astral... Impossibilitada de aparecer, recorri ao disque-motoboy e pedi que entregasse na casa dele um bolo para o café da tarde. Nem sempre é possível estar fisicamente no lugar onde deveríamos, mas isso não significa que não possamos fazer o melhor possível.

Prestar atenção àqueles que nos cercam e a quem dedicamos nosso afeto é essencial para lapidar a arte de presentear, que independe das datas do calendário. O filme preferido para um, o CD fora do catálogo para outro; presilha, livro, buquê de flores, perfume... O abraço na hora da necessidade por conforto, a companhia em plena solidão.

Também recebo presentes que, ainda que terminem, carrego para os dias que virão. O mais recente deles me levou ao circo pela primeira vez. Lembro-me, moleca de tudo, de me animar quando o circo estava na cidade. Havia um terreno enorme, ao lado do Jumbo Eletro Radiobrás (vocês lembram disso?) e todos os circos desembarcavam lá. Porém, nunca entrei, e nunca pensei em fazê-lo, até este presente.

Ganhei em junho de 2007 para o aniversário do mesmo ano e só o recebi no último domingo, 17 de fevereiro de 2008, lá no Parque Villa Lobos. Minhas amigas Rubia e Cris foram autoras deste presente e companheiras na hora de desembrulhá-lo. Para minha primeira vez no circo, nada como um espetáculo chamado Alegría, não? E foi a primeira vez que ganhei presente junto a 2.500 pessoas!

Presentear também pode significar apresentar ao outro um universo que ele desconhece. O Cirque Du Soleil foi um presente que levarei para sempre comigo; que despertou em mim um punhado de sensações boas e conclusões como a de que há muita gente por aí fazendo mais do que ser intolerante e cruel. Há dias para telejornais e outros para espetáculos de circo. E todo dia é dia de presentear.

E aproveito para mandar um presente para o Eduardo, pensando naquela coisa maluca que é a coragem: Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece (Nietzsche).

E acabei de ganhar outro presente: paciência, a ciência das esperas necessárias.





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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

MARGARINA EM EXTINÇÃO -- Paula Pimenta

Todos os dias, recebo em meu e-mail dezenas de textos encaminhados, todos manjados, antigos, mas que continuam circulando pela internet. Poucos me interessam, mas hoje recebi um que sempre que aparece no meu Outlook, eu não resisto a fazer uma nova leitura. Ele, juntamente com outros dois que eu também não deleto sem reler, trata de uma 'doença' da atualidade: a revolta feminina frente aos novos papéis que a mulher acumulou de umas décadas pra cá.

O primeiro desses e-mails (e o que eu mais gosto) se chama "Desabafo de uma mulher moderna". Nele, uma executiva se mostra insatisfeita com as feministas do passado por terem nos privado do direito de ser a "rainha do lar" e nos colocado na guerra que é a vida da mulher moderna.

O segundo se chama "Bunda Mole". Este é bem engraçado e fala da revanche de uma mulher que foi chamada de 'preguiçosa' pelo marido.

O terceiro deles - "Eu me rendo" - é sobre o dever que as mulheres atualmente têm de se equilibrar como dona de casa, trabalhadora, mãe, amante, e a incompatibilidade de exercer todas estas funções ao mesmo tempo.

Por coincidência, estou lendo um livro em inglês (Swapping lives - Jane Green), em que a diretora muito bem sucedida de uma revista de sucesso, que vive uma vida de glamour em Londres, sonha em trocar tudo por filhos, marido e uma vida no campo. Ou seja, a idéia de querer voltar no tempo não é privilégio das brasileiras.

Acho que esse assunto daria muito mais do que uma crônica. Na verdade, penso que parte dos problemas atuais do mundo têm base na emancipação feminina e em como as pessoas ainda não se adaptaram à ela.

Antigamente (e nem tão antigamente assim), como as mulheres não trabalhavam fora, tinham mais tempo para os filhos e com isso acompanhavam de perto a moldagem do caráter deles, interferiam, ensinavam... dessa forma as pessoas cresciam com mais raízes, com mais solidez. Ando meio assustada com as crianças e adolescentes de hoje em dia. Muitos valores se perderam e o que se vê agora são jovens revoltados, avançados para a idade, liberais demais... e são eles que vão comandar o mundo daqui a uns anos.

É raro encontrarmos uma família sólida atualmente, e isso também se dá por causa dessa emancipação. A mulher não depende mais do pai, nem do marido, e com isso se sente no direito de procurar uma vida melhor, se aquela de casada não a estiver agradando. Os homens estão perdidos, antes eles eram os provedores, agora muitas mulheres ganham mais, sustentam a casa e isso gera uma disputa (até inconsciente) pelo poder, o homem tenta exercer a função que antes era da mulher, a mulher acha que ele não a exerce direito e faz tudo de novo, o marido se revolta com isso...

Também nos outros setores, tarefas antes consideradas masculinas, como trocar um pneu, dirigir um táxi (ônibus, caminhão), ser policial, estão sendo feitas por mulheres, e isso ainda não foi bem assimilado pela sociedade. As mulheres já fazem tudo que o homens fazem, mas ainda são mal vistas se agem como eles em alguns campos, como tomar a iniciativa na paquera ou dormir junto em um primeiro encontro.

A competitividade do mercado dobrou, antes só os homens participavam dela, agora mulheres disputam com eles (e entre si) postos cada vez mais altos, qualificações são cada vez mais necessárias e, com isso (novamente), menos tempo para a vida familiar.

Além disso tudo, há também o que já foi dito nas crônicas que citei. Nossa sociedade exige cada vez mais que as mulheres sejam magras, malhadas, bem-cuidadas e também que trabalhem muito e dêem conta de tudo. O que gera é essa revolta geral, das mulheres que se sentem exploradas, e dos homens que se sentem excluídos. As famílias de comercial de margarina (onde os integrantes são bonitos, felizes, unidos e saudáveis) estão em extinção.

Na minha opinião, o que aconteceu foi um exagero. Não acho nada errado em mulheres trabalharem, muito pelo contrário, acho que eu não agüentaria ficar só cuidando da casa e ter que pedir dinheiro para qualquer necessidade. Mas também não acho saudável esse acúmulo feminino de tarefas. O ideal seria um meio-termo, um meio-horário, trabalhar meio-período fora e, no restante do dia, cuidar da família.

Se me perguntarem o que eu gostaria de estar fazendo daqui a dez anos, nem preciso pensar para dizer que adoraria ter em minha casa uma sala de música-escritório, para poder dar minhas aulas e escrever, durante o tempo em que meus filhos estivessem na escola e meu marido no trabalho. Mas o lugar onde eu realmente devo estar em 2018 é em algum escritório fechado, trabalhando umas 10 horas por dia em algum trabalho burocrático depois de ter me matado de estudar para algum concurso, e com isso não ter família alguma por ter aberto mão da minha vida pessoal.

Alguém tem que parar de destruir os nossos sonhos imediatamente. Ou não vamos mais parar de receber e-mails de mulheres revoltadas.


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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

VENCEDORES EMOCIONADOS >> Maurício Cintrão

Neto é o nome conhecido do João, garção profissional, brincalhão por natureza, guerreiro por força dos acontecimentos. Enquanto eu reclamava da vida e da falta de tempo nos últimos anos, esse piauiense que adotou as terras paulistas como suas estudava sobre o pequeno balcão da copa da empresa.

Eu aqui, meio calado a meu canto, um pouco por desengano, outro tanto por perplexidade. Patinava a embreagem em busca de um fio de meada que permitisse voltar a tecer textos com a mesma sem cerimônia de antes. Perda de tempo a que o Neto não se deu ao luxo. Venceu a falta de tempo, o cansaço e o dinheiro curto superando textos e mais textos de seus cursos.

E nem posso creditar a terceiros a façanha de conhecer a evolução desse rapaz. Entre um café e outro, pude acompanhar de perto a sucessão de vitórias do garção, que superou o supletivo, passou com destaque na prova do Enen e entrou na Faculdade de Letras. Eu deveria ter aprendido a lição mais cedo. Mas nunca é tarde para recomeçar. E eu recomeço humildemente diante desse exemplo que só serve para aumentar a minha certeza no futuro.

Neto escondia sob a bandeja um grande segredo: quer ser professor universitário. E ele sabe que não vai ser fácil. Mas para esse sonhador desavergonhado vai chegar lá com o mesmo sorriso simpático do cotidiano. Sorte de seus alunos, porque terão a chance de aprender com quem sofreu muito para aprender a ensinar. E que com certeza será um excelente mestre.

Pois o ensinar ele já pratica entre nós, seus colegas de trabalho. Bobos que somos muitos de nós, que reclamamos sem motivo importante, enquanto a vida vai sendo construída por sujeitos determinados como o Netinho. Pudera este país ter mais gente como ele. Porque houve incentivo dos colegas de trabalho, sim, mas o maior incentivador do Neto foi ele mesmo. Sem a sua vontade, os momentos difíceis não seriam superados.

Afinal, no cotidiano, as dificuldades aparecem quando ninguém está por perto. A trava da evolução pessoal não está na falta de estímulos externos, mas na voracidade do desencanto e da baixa auto-estima. Esse talvez seja um desafio para todos nós que pensamos cultura e pensamos na formação das novas gerações. Como fazer para que outros jovens não desistam? Como fazer florescer os Netos que aguardam suas chances?

Essa, aliás, é uma boa pergunta para o futuro bacharel em Letras. Um desafio até, se ele me permite, para o futuro professor. Como fazer para que outros garçãos aproveitem a hora vaga com os livros? Talvez ele já tenha resposta. Talvez ainda esteja aprendendo os caminhos para responder. O certo é que ele já passou pelo portal que separa os chorões dos vencedores emocionados.



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LIÇÕES DE SHOPPING, Albir José Inácio da Silva

Shopping não é para mim o melhor dos programas. Principalmente em certas datas. Mas o shopping acabou substituindo a praça e, quando não está lotado, é um lugar onde se pode ficar sentado, observando as pessoas que passam apressadas, tranqüilas, sorridentes, aborrecidas, ou seja, vivendo entre seus pares. Nestes tempos de praças sujas e perigosas, acaba sendo o lugar dos passeios, se não o melhor, por sua artificialidade, o lugar possível.

Fico ranzinza quando me obrigam a ficar horas em lojas lotadas e a dar opiniões que não tenho sobre sapatos e roupas. Pois eram dez horas da noite de um shopping lotado e lojas entupidas quando escutei ao meu lado:

— Elas não se cansam nunca, né? –

Meu vizinho de banco tinha um rosto cansado e uma respiração difícil. Olhava para a mulher e a filha que, ao lado das minhas mulher e filha, seguravam quatro ou cinco pares de sapatos.

A minha impaciência ganhara um aliado. Falei torrencialmente sobre compras demoradas e desnecessárias, sobre voltar à mesma loja três vezes, sobre o meu cansaço àquela hora da noite, sobre entrar e sair de lojas sem conseguir comprar o que queriam.

Para minha surpresa, meu companheiro de infortúnio não estava reclamando. Quando terminei de falar indignado e cheio de “razão”, ele disse apenas:

— Mas elas ficam tão contentinhas, né? E abriu um sorriso cheio de ternura, enquanto acenava significando que gostava do sapato que lhe exibiam à distância.

As minhas não me mostravam nada porque eu ficava ali carrancudo. Eu era importante demais para compartilhar aquela alegria simples. Petulante demais para permitir que elas dividissem comigo o prazer que sentiam.

Desmontei minha cara arrogante e fiquei olhando. É, elas ficam contentinhas.

Quem ensina nunca sabe que ensinou. A lição pertence a quem aprendeu. Meu amigo nem prestava mais atenção em mim, mas eu aprendera algo.

Levantei-me e fui até lá arriscar opiniões sobre coisas que não me interessam, mas deveriam. Primeiro se espantaram, depois sorriram. Eu tinha melhorado um pouquinho. Se eu viver mais mil anos aprendendo assim, vou acabar um cara legal.



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domingo, 17 de fevereiro de 2008

NÃO NECESSARIAMENTE NESSA ORDEM >> Eduardo Loureiro Jr.

...

Imagine um homem que espanca outra ser humano até a morte. Um homem que dá um pontapé após o outro, sem se cansar, e só pára quando o corpo inerte não lhe responde mais em gemidos ou espasmos.

Imagine um homem que assiste calado ao seu próprio julgamento. Um homem que não abre a boca para se defender, e que recebe impassível a sentença de muitas e muitas décadas de prisão.

Imagine um homem que é agredido continuamente por seus colegas de cela e não apresenta qualquer reação. Um homem a quem não é dado o direito de morrer, e que é conservado vivo para apanhar um pouco mais no dia seguinte.

Imagine um homem que sobrevive em silêncio a todos os seus companheiros originais de cela. Um homem que seus companheiros atuais reconhecem apenas como alguém retraído, calado e de rosto desfigurado.

Imagine um homem atônito ao ser liberado por bom comportamento durante uma reestruturação do sistema penal. Um homem que recebe como prêmio a reconstituição de seu rosto por um cirurgião plástico filantrópico.

Imagine um homem cabisbaixo vivendo nas ruas. Um homem que sobrevive catando latinhas metálicas e vendendo-as para uma usina de reciclagem.

Imagine um homem distraído que é atingido por um objeto. Um homem que ouve o riso de outro ser humano atirando latinhas de cerveja e se divertindo com isso.

Imagine um homem indiferente que leva um murro nas costas. Um homem que ouve, do outro ser humano: "Latinhas não lhe atingem? Vamos ver se você reage com porrada."

Imagine um homem indefeso contorcendo-se e caindo no chão. Um homem que não sabe lutar, que imagina o que faria se tivesse aprendido a lutar, e que está prestes a ser morto por outro ser humano.

Imagine um homem pacífico que não consegue sentir raiva de outro ser humano. Um homem que se entrega ao seu agressor até tornar-se um com ele e toda a sua história de latinhas, murros e pontapés.

Imagine um homem unificado a outro ser humano. Um homem que, não sendo ele mesmo, é outro, e, sendo outro, sente e age como o outro.

Imagine um homem que sabe onde o outro vai atacar. Um homem que escapa de todos os golpes e passa ele mesmo — agindo como o outro — a golpear aquele que antes o golpeava.

Imagine um homem que espanca outro ser humano até a morte. Um homem que dá um pontapé após o outro, sem se cansar, e só pára quando o corpo inerte não lhe responde mais em gemidos ou espasmos.

Imagine um homem que assiste calado ao seu próprio julgamento. Um homem que não abre a boca para se defender e que recebe impassível a sentença de muitas e muitas décadas de prisão.

...



Aperte o "play" e releia a crônica com a música de Wim Mertens ("4 Mains") .

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sábado, 16 de fevereiro de 2008

EU ASSISTO A NOVELAS... [Maria Rita Lemos]


... sempre que posso, e finjo que acredito quando alguém comenta alguma coisa da novela da moda e as pessoas saem-se com o mesmo lugar comum: “eu não assisto a esse lixo, mas vi esse pedaço porque estava passando na frente da TV” ou “casualmente a TV estava ligada e eu vi esse pedacinho”... ou ainda, pior: “minha filha estava vendo, chamou minha atenção e larguei o livro para ver esse capítulo, mas odeio novela!”...

Ora bolas – tenho vontade de dizer – semana passada também comentamos um diálogo da novela e você estava passando pela sala... ou “casualmente a tv estava ligada”... você fica passando sem parar na frente da tv, na hora da novela? E por que sua tv fica casualmente ligada, se ninguém está vendo?

Talvez seja hora de assumir as coisas, afinal ver novela não é pecado nenhum. Principalmente ver e comentar, criticar, ajudar a compor personagens e tramas... afinal, qual é a diferença entre assistir a uma novela ou a um seriado americano? Claro que “Lost” é muito bem feito, temos que admitir, bem como “E.R.”, “Brothers and Sisters”, e muitos outros. Mas não espelham nossa realidade, não são Brasil. Tudo bem, novela das nove da Globo geralmente é um pedaço só do Brasil, é Rio ou São Paulo. Em novela da Globo ninguém usa preservativo, as heroínas engravidam com a maior facilidade, mas perceber isso, e inclusive comentar e criticar faz parte do ato de não ser apenas um telespectador passivo, mas de influenciar, de certa forma, de ajudar a fazer cabeças!

Assumo que, embora não tenha tempo todas as noites, quando posso não me privo da novela por vários motivos. Um deles, passa pelo fato de não ter mais crianças pequenas, o que me exime de várias perguntas e explicações que não teriam razão de ser, em tenra idade e horário nobre. Quando minhas filhas e meu filho eram pequenos, não sobrava mesmo muito tempo para novela. E, quando dava para ver, elas não exibiam tanta violência, e as relações sexuais eram apenas sugeridas, e não exibidas. Não havia ainda a AIDS, ou ela estava apenas começando, e em outro país. Os preservativos eram apenas para evitar gravidez e as DSTs até então curáveis com boas e doloridas penicilinas, e eu me lembro que comentava, sim, com as filhas e filho adolescentes o quão simplista as novelas tornavam o mundo, coisa com a qual eles concordavam.


Assisto novela, também, porque é uma forma de não falar sério, uma forma de divertir-me, de rir, de emocionar-me. A hora da novela é o momento de deixar de lado todo o peso do trabalho diário, especialmente desgastante. Que bom poder falar dos dilemas da Maria Paula, com os empregos maravilhosos que lhe caem do céu e seu filho único, com um pai canalha, de repente saído do nada, quando tenho tantas angústias alheias na cabeça que não comento jamais por ética profissional, e no entanto, participo tão ativamente... assistir à novela, bem como a bons filmes, e também ler aquilo que gosto, é entrar em outras tramas, dramas e comédias da qual não faço parte, mas sou mera observadora. Com direito, inclusive, a criticar.

Assisto a novelas, ainda, porque são como que parcelas de peças teatrais, escritas por grandes autores, como Manoel Carlos, Gilberto Braga e outros tantos. E porque muitos atores são fantásticos, monstros sagrados que nos fazem ir ao céu ou mergulhar em lágrimas, como os veteranos Marília Pêra (que como “Gioconda” está impecável!), Antonio Fagundes, Stênio Garcia e Renata Sorrah, só para lembrar de alguns...

Claro que não vale assistir a novelas como se elas fossem, realmente, retratos da vida real. Elas mostram determinadas culturas, no caso da que estamos focando, a zona sul carioca e uma favela inexistente, na qual nem mesmo droga existe, de tão paradisíaca... é preciso ser crítico, também, senão vamos assistir a qualquer coisa, na TV, como um avestruz que enfia a cabeça na areia.

É melhor ler que ver novela? Sem dúvida, é muito melhor. Mas ninguém faz a mesma coisa o tempo todo, todas as noites. Devo admitir que, se tenho algo diferente para fazer, amig@s a encontrar ou que me visitem, é claro, a novela fica para outro dia, nunca vai estar como prioridade. Aliás, outra razão por que vejo novela reside no fato de não ser “socialite”, não freqüentar as colunas sociais com freqüência. Realmente, não sou notívaga, acordo muito cedo, portanto, nas noites da semana, findo o trabalho diário, meu lar é meu refúgio. Nele há muitos, incontáveis livros, alguns que estou lendo, outros na fila de espera. Mas assumo, com coragem, sem medo das pedradas: assisto, também, às obras da Gilberto Braga, Manoel Carlos e outros autores, sobretudo os de horário nobre. Como assisto a bons filmes e a mini-séries brasileiras.

Concluindo essa reflexão, e só para testar, tente, meu leitor ou leitora, perguntar a “falsos intelectuais” se assistiram ao capítulo de ontem da novela das nove. Todos, ou quase todos, vão dizer que “não havia nada melhor para ver”, ou que “por acaso estavam passando na frente da TV”, etc. Não os contradiga. Apenas sorria e dê-lhes sua compreensão. Eles têm necessidade de se justificar, e falta-lhes ainda muita maturidade para dar o braço a torcer.

Fotos: Sites das Novelas Desejo Proibido, Sete Pecados e Duas Caras, na Globo.com

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A Cidade Nova >> Leonardo Marona

estou seco, amor, você me ouve?
estou triste, raso, dos pés calosos.
sei que não há tempo para perdão e flores,
mas um cacto, amor, não custa os olhos.

e haverá afinal algo que ainda pulse pálido
sem ar além do ar salino na terra frígida
abafada de vícios em retinas-cornucópias.
haverá sol no fundo de algo que ainda sinta
cotovelos secos que se esbarram em ruas novas,
onde há morte e fome, amor e mito, correria,
algo à procura da sombra de um coqueiro-memória,
existe sim qualquer coisa de gris por trás da esquina,
mais por dentro da pele, algo que talvez alcance,
se eu mergulhasse fundo e não sangrasse tanto
do sangue da vergonha do sangue ante-sofrido,
talvez do mergulho desavisado viesse o ovo
primordial de que tanto falam nossos queridos
caios carlos clarices césares concretos corvos
que por ti por nós o alimento escasso digerido
nas bocas cortadas de preâmbulos e escorbuto,
além de tudo o que das mãos me escorre frágil
e de mim não se fez, mas me segue pelas ruas
em passadas largas de “prestes ao interrogatório”.

se fundo eu apenas mergulhasse – como descendo
pela espessa avenida e cruzando entroncamentos,
ultrapassando dunas que tanto mais eu subo descem
– nas feridas abertas como em córregos coléricos,
tracejando crises brandas em copos mal-lavados,
surpreso passo a passo, e a cada segundo,
pelo segundo surpreso de cada passo eu cavo
incríveis e silenciosas atrocidades do coração.

e que ainda há flores no deserto, eu lhe direi.
e colheremos nem que seja a terra íntima das unhas,
e carregaremos nossos corpos quem sabe até o mar,
onde as ondas não vacilam e a solidão abandona o corpo
comido da bicheira, talvez nesses momentos, talvez agora,
poderíamos dar-nos todos as mãos, enfim silenciosos,
e abandonar de vez os poemas que são pingos ralos
de nós quando já tarda o senso e se atrasam os sinos
- quando não há mais diferença entre o corpo e o chão.

Fortaleza, agosto de 2007.

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

COISAS DE SEMPRE >> Carla Dias >>

Não sei ao certo o momento em que o cenário se torna outro. As coisas de sempre - daquele sempre extasiante, esplendoroso até - descolorem conforme o dia acaba. Assim como as maravilhas fugazes da paixão, as coisas de sempre também têm um quê de efemeridade. Sublocam destinos: os nossos. Depois partem sem avisar. Silenciam. Deixam aspas a ampararem nossos desejos.

Houve momento em que era coisa de sempre me apaixonar pelo impossível. Se parecia completamente funcional, prático, eu corria léguas. Queria me aventurar, mais do que isso, eu queria a liberdade na sua essência. Mas não tinha agilidade para tanto, porque a essência da liberdade cabe no entendimento de alguns, tem versões diversas, mas todas elas se enamoram de primeiros passos... E eu teorizava os meus. Eles não saiam do sonho, do daqui a pouco, do talvez. Ainda assim, na excentricidade da minha coragem que teimava em ser útil somente na fluência da escrita, coisas de sempre foram estocadas e outras ainda ganharam vida.

Como a coisa de sempre que era o gosto por colher girassóis com o olhar. Essa é uma coisa de sempre que ainda é. Há de ser até sabe lá.

Coisa de sempre atual é flertar com o possível. O impossível é desafiador, mas o possível requer sabedoria para ser bem utilizado, além de certa paciência. O que nos é permitido ou aquilo que com um pouco mais de trabalho e dedicação podemos trazer para as nossas vidas, é uma coisa de sempre abençoada. Como um banho, depois de um dia pesado de trabalho; uma oração silenciosa, a comida da mãe, a gargalhada dos sobrinhos. A fé e o ceticismo.

Tudo o que nos transforma é uma coisa de sempre. Algumas desbotam com o tempo, pois tiveram seu papel e ficam ali, lembranças. Outras se embrenham na gente e não saem mais.

Impossível ou possível, bom saber que há coisas de sempre capazes de nos impulsionar a reaprender a nós mesmos, diariamente.

Imagem: Sunflowers, Van Gogh

www.carladias.com

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domingo, 10 de fevereiro de 2008

CARTA-POEMA PARA UMA AEROMOÇA >> Eduardo Loureiro Jr.

Toño B / Stockart.com


Moça bonita que gosta do ar,


Talvez dês a todos o mesmo sorriso que desperta a vontade de te beijar. Teus braços, saídas de emergência, são asas, e o teu abraço deve ser tão bom quanto voar. Teus olhos de sombra nuvens parecem: prontas para chorar. E o choro, moça bonita que gosta do ar, é feito chuva para quem sabe banhar.


Eu sou passageiro, estou: passagem na mão e no peito. Mas levo teu cheiro e teu jeito do Rio de Janeiro ao mar de dezembro. Minha Fortaleza não tem serventia contra as meninas: Teresa Cristina, ..., Teresina. Teu nome em tua boca, moça bonita que gosta do ar, deve ter mais encantos que o nome do teu crachá.


Meu nome é Ulisses, Ninguém, sou do ar. Basta beleza para os meus olhos cegar. As minhas palavras têm ranços de um tempo em que eu vivia a guerrear. Prefiro ficar de boca fechada a lançar novos medos em teu olhar. Eu que sou leve, moça bonita que gosta do ar, peso-me com pesar.


Para quem é o contínuo aviso de não fumar? É para ti, moça bonita que gosta do ar? Qual é o teu paradeiro? E o meu destino qual é? Eu, que um dia fui velho, chego ainda a ser menino? E você, que é menina, será que em seu mais lindo sonho vai acordar? A interrogação é uma cobra encantada que se ergue do cesto de pontuar.

Beijo guardado feito bagagem, que se deslocou durante a aterrissagem,



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sábado, 9 de fevereiro de 2008

LUGAR DE PAZ [Ana Coutinho]


Todo mundo tem um lugar de conforto. Eu só não chamo de zona de conforto para não dar a impressão errônea de algo pejorativo, de um comodismo fracassado como um sofá fundo e confortável de onde ninguém consegue mais se levantar e permanece numa vida parada e covarde, a espera de qualquer milagre do mundo para que se saia dela.

Não. O lugar ao qual me refiro já é o milagre. O lugar que quero dizer, é esse instante de paz que nada espera, que nada precisa, que só deseja se perpeturar ali, naquela mesma casa antiga, naquele chão frio, naquela piscina gelada...

O lugar de conforto que todos temos é um espaço físico, num tempo determinado e, principalmente, com pessoas a quem amamos tanto que lá, apenas lá, podemos ser quem somos e nem uma grama a mais ou a menos.

Não se trata de uma onda de alegria, de uma empolgação súbita, mas sim de uma serenidade, daquela sensão única de tranquilidade e paz que só conseguimos ter algumas poucas vezes, quando podemos parar por segundos, porque não há outro lugar para alcançar, não há outra linha de chegada e nem há mais caminho que valha ser percorrido; o que se busca está ali, enfim, diante de você, e te causa um preenchimento tão completo e único, que tudo o que se pode desejar é que o tempo seja interrompido ali, naquele pequeno instante de paz.

Pode ser com os seus pais na mesa pequena da cozinha, comendo aquela velha macarronada cheia de molho de tomate. Pode ser entre seu marido e seu bebê na cama grande de casal que, ao invés de enorme templo da perdição, tornou-se um pedaço sagrado dos seus melhores finais de semana entre todos.

O seu lugar de paz pode ser num colchão velho, ou deitada num beliche, apertada ao seu marido enquanto sabe que do outro lado da parede estão seus pais, talvez seus irmãos, sobrinhos ou filhos... Um lugar onde tudo o que importa no mundo está reunido sob o mesmo teto e, por isso, se dá o milagre de ter o peito tão cheio de amor, que é como se transbordasse dentro de você um enxurrada de conforto e serenidade, que chega a doer os espaços - antes vazios - que você guarda por dentro...

O lugar de conforto é precioso por ser nosso lugar de paz, por permitir que nos despojemos das máscaras e então, lá, não é preciso murchar a barriga e seus ombros não estão contraídos, o riso é solto ao invés da sua habitual tensão, e você sabe que, se precisar de um socorro, de uma palavra, de um olhar qualquer de ternura, ele estará ali, a um esticar das mãos, a um passo de nossos pobres pés, normalmente calejados de andar sobre as pedras duras de um mundo pouquíssimo confortável.

O lugar de conforto é aconchegante, morno e calmo, e ali, naquele espaço seguro que pode estar sujo e ter a geladeira vazia, é que você sente que pode dançar, talvez cantar em voz alta, ou simplesmente ficar o dia todo calada, observando a fartura de um tempo sem lacunas.

O lugar de conforto é onde todos são iguais; os que estão ali, embaixo do teto firme da casa antiga são os seus, conhecem até os seus dedos dos pés, sabem-se cheios de amor e dividem o seu amor com os outros. Amam-te apesar de seus fracassos, amam-te apesar de suas covardias, amam-te apesar da sua timidez, dos seus quilos a mais, das espinhas que nascem na sua testa, das suas vergonhas, das suas mais pobres humilhações e das suas mais nobres virtudes...

Amam-te ainda que você não fale inglês, não saiba as principais capitais do mundo ou ainda que você fuja diante de um grito forte que o mundo, longe desse lugar de conforto, tenha ecoado em seus ouvidos. Amam-te não só apesar de tudo isso, mas por tudo isso também. Porque sua fraquezas mais dolorosas não os afastam, mas os aproximam. E suas virtudes mais nobres não os repelem, mas os orgulha.

Amam-te porque propiciam a você calor e segurança, e sentem-se assim ao seu lado, acalentados e protegidos como se você, que não é capaz de cuidar de uma só planta, fosse capaz de garantir ao outro fartura de paz e saciedade de alegria, sem mover sequer um dedo. Amam-te porque se sentem amados, e a vida, simples assim, sem nenhum luxo e nehuma riqueza, torna-se a maior dádiva e o presente mais precioso entre todos, quando você encontra, numa noite qualquer, entre confetes e serpentinas, o seu lugar de paz.

Doce Rotina
Imagens: Laureen March; Michael Dunne, Edward Bock

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Cinco minutos de sonho e uma noite fria >> Leonardo Marona


A imagem mais cara de todas as noites que tive foi quando descobri que era um galo na China e na minha frente um rádio cuspia All of me assim como se fosse a Billie subindo feito vapor pela mesa de vidro polido, uma quina mal-entendida refletia uma luz amarelada coberta de celofane, uma garrafa de um Concha y Toro pela metade, duas vazias, na minha frente, uma noite muito fria e eu estava tão quente quando descobri que meu ascendente é um boi ruminante e fiel, mas o que olhei mesmo foi a rolha do Concha y Toro dentro da garrafa boiando, inchando, e o reflexo da luz amarela sobre a mesa de vidro, duas taças ao contrário refletidas, trêmulas, meus olhos já arenosos, a cabeça dando seus últimos sinais de funcionamento, das duas taças uma tem essa marca de batom imaginária e a outra é uma taça imaginária: solidão moderna ou ultra-percepção amorosa. E fora os vinhos e a Billie Holiday, que agora cantava um maxixe, minto, era uma mazurca de Chopin e eu já estava sonhando, não importa se são miragens as noites mágicas, mas sentia cílios úmidos espanando as memórias da minha boca, e a frase mais bonita do dia havia sido: “A disciplina é um poema ao sentimento da honra”. E depois já tocava uma melodia azul, que minha amiga Puentes me ensinou a ouvir nos dias mais frios e um dia ainda aprendo a tocar. E ela me disse que um homem parecido comigo, “só que mais bonito e mais triste”, cantava, ou melhor, umedecia os ouvidos alheios com aquela música. E ele se matou com muita droga, muito novo, uma pena que o que viva muito esteja sempre tão perto da morte. Mas depois descubro que deveria ter uma vida de riquezas e satisfação sexual com uma cachorra, segundo o manual prático do horóscopo chinês, e vi que Ingrid Bergman também era uma cachorra, o que me deixou feliz, porém espirrei vinho e manchei as páginas do livro quando soube que meu lado ruim, meu yin, consistia basicamente de “acessos de pessimismo e crises de melancolia”, o que era uma verdade bem pouco excitante, apesar de muito prática e mais próxima da realidade das coisas. Mas pouco me importava a realidade das coisas quando os olhos feitos de soul do negro soprou seu cisne de prata na vitrola dos tempos e me alçou para fora das expectativas mais remotas de purificação e, sendo assim, apesar da predisposição mórbida para reumatismo, deformidade nas articulações e especialmente nos joelhos e nos pés, das afecções na pele, da queda dos cabelos, passando pela tuberculose óssea e chegando finalmente a um estágio de pequenas paralisias e alguns espasmos glandulares, novamente era Billie Holiday me lembrando que viver poderia ter sido mais fácil. E eu provavelmente teria perdido mais uma garota no dia seguinte. Mas não havia mais dia seguinte quando todos os dias estavam voltados para o mesmo instante. Aquelas imagens fugidias que procuramos a vida toda iguais a zumbis. Usando coisas sem importância como trabalho, compromisso com deus à noite e com o diabo pela manhã e à tarde como desculpa pela busca desenfreada sem resultados. Mas eu tinha ali um resultado. Não era o sentido da vida em jogo, pela primeira vez, mas o sentido da busca pela vida, do mais retumbante estado de maravilhamento e apavoramento por tudo que tem ofendido nossa raça e o vento leva e traz, sem você conseguir segurar, como o segundo em que o vinho sujou as páginas do livro e espirrou na parede e eu não sabia ganhar, era verdade, porque afinal ela era de ascendência inglesa. Mil feridos nos seus trajes de lã e sangue com ratos cegos se dando cabeçadas nos trilhos do trem. Um céu aberto visto de dentro do ônibus de dois andares, e ela tinha, pelo outro lado da família, uma raiz cigana húngara, e um dia Orson Welles me ensinou que não se deve confiar nos húngaros, e ele parecia estar falando sério – sendo que sobre os ciganos bolei minha própria teoria no dia em que uma cigana velha me pediu o relógio em troca de sorte na vida na esquina da Rua Nelson Mandela – mas era uma noite linda de meia lua e uma vela, a vela dizia que seria minha, que me esperaria até amanhecer, que cuidaria dos meus anseios, parecia tão sincera, a vela, que inspirava qualquer coragem. Lá fora chovia torrencialmente e as coisas nunca fizeram sentido, a sociedade é movida por culpa e segredos divididos em migalhas, mas por um segundo aquela luz amarela de celofane se espatifou como um espreguiçamento sobre o travesseiro da poça de vinho que desenhou uma Eurásia sem morte nem diamantes na mesa de vidro polido e, tudo bem, foram só cinco ou seis minutos – mas quem sabe quanto tempo dura um sonho? – e, tudo bem, eu acredito em Orson Welles porque ele mente muito bem e provou isso, mas eu gosto da húngara também, ela fica bonita nos dias mais frios. Gosto tanto do jeito que o cabelo cai na sua cara, do jeito que perco o jogo e nem ligo, da ossada mongol e da boca miúda, da maneira como tenta me amedrontar com verdades simples demais para não escolhermos as mentiras. Mas também constato que fazemos parte da decadência completa das instituições e, enfim, sou um pessimista de cinco pés e nove polegadas, 524 libras e, segundo o relógio da morte, tenho ainda mais 33 anos de vida, mais um Cristo sem saída, sorte a do primeiro, que fez carreira. E pelo menos já sei chorar antes de dormir. Quando Charlie me sinto meio Dizzy. E adoro mostrar o meu Hancock quando sinto ser uma hora oportuna. Uma pena que ele não Coltrane muita virtude. Mas se a vida é Espinosa e se William Carlos Williams, então tudo deve se multiplicar em mil faróis de Melville nessa noite única – peço um segundo a sós com a toalha rasgada de tricô, com a lembrança da segunda bailarina, Norma Pina, no seu primeiro dia no Teatro Municipal. Um vaso com pequenas margaridas murchas me diz que é tarde demais para se desistir do final, a segunda de Sibelius na vitrola pede que eu não acredite em mais nada até o fim do allegretto, mesmo que poco allegro, ao menos tranquillo, não sei, mas obedeço, desconfio da minha Fante de sabedoria, minha Camila, pena que seja do México e não da Hungria, e pena que Bird assobie Just Friends nos meus ouvidos, o que nunca serei capaz de entender, mas a noite fria pede pousada e eu faço as honrarias da casa, olhando a parede da sala respingada de sonhos, notas e vinho barato.


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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O MEU CARNAVAL >> Carla Dias >>

Estive fora do ar neste carnaval. Tranquei-me em casa, despachei fantasia, descartei pierrôs. Não sintonizei desfiles, sequer ousei cantarolar o som dos tamborins. Protegi-me dos dias de sol e dos dias de chuva; o teto cobrindo, as paredes abraçando. Vez ou outra, aquecida pelo café fresco.

Cavouquei fantasias neste carnaval, mas foi longe dos salões. As marchas estavam mudas que só! Ninguém cantou em uníssono, e dei replay naquela canção do Led Zeppelin, até a exaustão. Um misto de satisfação e falta.

Não sambei neste carnaval. Sentei-me em frente ao computador, comprometida que só com a minha tarefa, e reli as aventuras e desventuras dos personagens que criei e que, assim como eu, jamais saem para a farra do carnaval ou catam cacos na quarta-feira de cinzas. Os tambores, para eles, são os dos rituais de passagem. E exorcizam a si mesmos a cada segundo, determinados a não caberem nos confetes e dispostos a defenderem suas máscaras.

Cada qual com o seu deslumbramento.

Sumi do mapa, neste carnaval. Quem me procurou, não encontrou, mesmo chegando à minha presença. Estive fora, de tão dentro de mim estava. E a festa neste dentro não era para colombinas, não trafegavam em suas ruas os carros alegóricos. A porta-bandeira descansava os pés em bacias com água morna; o estandarte repousando em seu colo. O mestre-sala declamava os poemas preferidos dela, num ritmo cadenciado que não era o do samba-enredo, mas sim aquele que contava sobre a beleza do que vem depois da festa.

Forjei delícias, neste carnaval. Joguei o olhar pela janela e ele fisgou a lonjura dos desejos em pauta. Desembestou, esse meu olhar, a apaixonar-se pela ausência, feito papel em branco a se comprometer com alguma trama. Criasse um desalinho, quem sabe, esse meu olhar flertaria com as realizações mais frágeis, aquelas que guardam, a tantas chaves e mistérios, a maciez da tez da felicidade.

Imagem: www.worth1000.com
by Onanymous - http://onanymous.blogspot.com


www.carladias.com

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domingo, 3 de fevereiro de 2008

QUEM GUARDA COM FOME... >> Eduardo Loureiro Jr.

John Richardson/Illustration Works/Corbis

Há algumas décadas, quando minha tia médica foi fazer residência em São Paulo capital, minha avó, nascida e crescida no interior do Ceará, deu-lhe um único conselho: "Em terra de sapos, de cócoras com eles." O conselho foi seguido e há cinco anos, quando comemorávamos o aniversário de 80 anos de minha avó, minha tia escolheu a lembrança desse conselho para falar de sua mãe.


Os ditados, ou provérbios, constituem uma sabedoria simples que nós, em nossos delírios de complexidade urbana, já quase não conseguimos entender: para nós, soam simplistas ou moralistas, e quando os repetimos é mais por um hábito de linguagem do que por acreditar em suas palavras.


Entretanto, brinco de imaginar que minha avó poderia ter aconselhado minha tia com um ditado diferente: "Em terra de cegos, quem tem um olho é rei". O provérbio, de sentido praticamente oposto ao anterior, incentivaria não a adaptação mas a auto-expressão diferenciada. Está aí a riqueza dos provérbios: para cada um deles, há um outro que diz o inverso, de forma que há ditados para tudo. "Incoerência", poderia pensar nossa mente racionalizada. Eu prefiro ver outra riqueza valiosa no fundo dessa riqueza "incoerente": a grandeza dos provérbios não está apenas no que eles explicitamente expressam, está na sabedoria de saber usar o ditado certo na hora certa.


Meses atrás, durante um almoço em família, um de meus cunhados falou do seu hábito de guardar a melhor parte da comida para o final e de como sua mulher, minha irmã, tinha o "dom" de chegar justo na hora em que ele estava prestes a saborear seu pequeno tesouro, pedindo: "Amor, me dá esse pedacinho." Depois de muito rir, lembrei daquele outro ditado: "Quem guarda com fome, o gato vem e come".


Sim, há qualquer coisa maravilhosa em se guardar o melhor para depois, ou mesmo para o final: que filme ou história teria graça se o final feliz fosse no começo? Talvez até a sobremesa não parecesse tão apetitosa se tivéssemos por hábito comê-la antes do prato principal.


Eu também tinha esse costume de adiar as coisas boas para torná-las ainda mais atraentes algum tempo depois. Ultimamente, tenho guardado menos e tenho brincado mais de descobrir o ponto exato da vontade: se quero, como; se não quero, passo.


E, ainda brincando de imaginar, fico me perguntando se, para a comida, faz alguma diferença a boca que a come. Talvez não: boca é boca, e o prazer da comida está em ser mastigada. Talvez sim: mais gostosa é a mordida da boca que está com os dentes afiados de vontade. Talvez certamente sim: aquele que come o que o "quem" guardou com fome não é um outro quem, igualmente esfomeado, mas um quê, um bicho, um gato, cheio de deliciosas lambidas e miados.


Ao leitor... que mais lhe apetece ser: o quem, a comida ou o gato?



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sábado, 2 de fevereiro de 2008

NÃO ME LEVE A MAL, HOJE É CARNAVAL [Mariana Monici]

Vila Esperança, foi lá que eu passei
O meu primeiro carnaval
Vila Esperança foi lá que eu conheci
Maria Rosa meu primeiro amor

Como fui feliz, naquele fevereiro
Pois tudo para mim era primeiro
Primeira rosa
Primeira esperança
Primeiro carnaval
Primeiro amor criança


(Adoniran Barbosa)

Sempre gostei do Carnaval, apesar de várias questões que não me deixam nada confortável a respeito. Desde pequena, quando estudava em escola adventista e fazia catecismo na Igreja católica, ouvia nestes lugares um blá, blá, blá sobre o Carnaval ser pecado. Coisa da carne, festa da carne, e isso não era coisa que pessoas espiritualizadas pensassem e quisessem. Uma orgia. Mas confesso que demorei a entender o que queriam dizer com carne. Eu achava que era um feriado de fazer churrasco e os adventistas são vegetarianos, por isso era errado. Sei que adoro churrasco e também o Carnaval. Hoje isso mudou um pouco, pois me dei conta que o Carnaval no pais é a maior emissora de TV que temos, e se não fosse ela, acho que não seria assim. Já o churrasco permanece intacto ao seu controle.

Quando pequena achava um luxo as fantasias, os sorrisos daquelas mulheres desfilando e não parava de pensar quem tinha inventado o desenho que cobria a Globeleza todinha. Mas foi aos 14 anos o meu primeiro Carnaval.

Eu e mais três amigas inseparáveis que moravam numa cidade do interior de São Paulo, esperávamos o ano todo pelo Carnaval nos anos que seguiram. Íamos juntas ao salão social do clube da cidade; no primeiro ano, os pais se revezavam para nos levar, depois confiaram que podiam nos deixar sozinhas na tal festa da carne.

Naquele primeiro Carnaval aprendemos marchinhas, aprendemos alguns passos, e aprendemos o quanto eram mágicos aqueles quatro dias, onde tudo podia acontecer. Os garotos iam de São Paulo pra lá e faziam sucesso. Eu ia de São Paulo também, mas só me importava fazer sucesso para um garoto. Foram nestes primeiros quatro dias de Carnaval que conheci meu primeiro amor.

Já estávamos paquerando nas férias de Janeiro e passei o mês todo esperando o Carnaval para revê-lo. Para estes dias, ganhei também minhas primeiras lentes de contato. Quando me arrumava para o baile da primeira noite, lá se foi uma lente pelo ralo. O pai da amiga até desmontou o encanamento do banheiro para achar e nada: lá fui eu pro Carnaval com uns óculos de armação preta de acrílico... Só faltava chorar de desgosto. Aliás, até chorei neste dia pelas lentes. Mas isso não foi empecilho: nós nos apaixonamos.

Era engraçado, pois todo mundo acha divertido paquerar várias pessoas no Carnaval. Ainda não ficávamos com ninguém, nem beijado na boca tínhamos, e para nós dois a diversão era não desgrudar as mãos para pular o Carnaval. De óculos e tudo.

Foram quatro dias encantados. Nós, as quatro amigas - com uma teoria estranha que cada dia era feliz ou mais feliz para uma de nós, e que a segunda e a última noite eram sempre as mais fantásticas - dormíamos todas na sala da casa de uma delas, e acordávamos às três da tarde suspirando de amor pela noite anterior e comendo rabanadas preparadas pela mãe da amiga. Separávamos a melhor roupa e logo estávamos prontas para outra noite.

Havia uma tradição na cidade de os meninos jogarem na casa das meninas rosas roubadas com um bilhete. Na última manhã de Carnaval ouvimos um barulho no portão e corremos para ver quem tinha ganhado a rosa e não era rosa coisa nenhuma mas, nesta noite, o meu amor me levou uma rosa do jardim que ficou a noite toda pulando com a gente no bolso da bermuda. Fiquei com o que sobrou dela, e a tenho até hoje, exatos quinze anos depois. Chorei pela segunda vez. De emoção.

Bom, os anos foram passando e começamos a elaborar fantasias e tudo mais para nosso Carnaval. Ficamos uns cinco anos juntas e confesso que sinto muita saudade, muita mesmo, e agora escrevendo, fico me lembrando das marchinhas que nos dedicávamos.

Aquele amor durou a quaresma, os 40 dias entre Carnaval e Páscoa. De quatro a quarenta dias encantados, trocando cartas e juras de amor (hoje aposto que ninguém tem a delicadeza de pedir o email ou o nome do amor de Carnaval!). E foi a seguir um perrengue só por anos. Nem me atrevo a dizer que acabou, pois as marcas estão aqui pra sempre. Chorei de novo. De decepção.

E depois tem o dia trágico para adolescentes apaixonadas que perdem quatro quilos no Carnaval: a quarta-feira de cinzas. Só podia ser de cinzas, restos mortais e a prova de que se desfez o encanto, Puf! Cinzas... Que juntávamos pra tentar guardar bem guardado no coração até o ano seguinte.

Três de nós pulamos um Carnaval em Olinda e Recife. Outra mágica! Festa à fantasia, bonecos gigantes nas ruas, praias e muitas risadas cúmplices. Ótimo. Acho que o Carnaval está sempre relacionado com uma alegria, uma possibilidade de respirar aliviada e ser por uns dias um personagem que você admira. Se soltar! Também em um outro Carnaval, duas de nós tentamos fazer a filhinha gostar da matinê do salão que tanto nos emocionou. Decepção. Desta vez, foi a menininha que chorou.

Enfim... Passei um Carnaval com meus pais no Rio. O Rio de Janeiro nestes dias continua lindo, mas nem pensar em amor nenhum! Vimos o desfile e descobri que queria desfilar. Quando a bateria passa por você na arquibancada, cada pêlo de seu corpo se arrepia, e eu ficava imaginando que aquele sorriso tão bem definido em cada rosto lá embaixo na avenida só podia vir junto com a fantasia. Outra vez, fui ao desfile em São Paulo e a emoção foi quase a mesma. Na TV nunca gostei de ver, mas minha irmã dizia que gostava das purpurinas e ficava pregada na televisão assistindo as escolas preferidas.

Este ano, surgiu a oportunidade que sempre quis depois que não me encaixei mais nos bailes de Carnaval em cidades do interior: o de desfilar na avenida, no Carnaval de São Paulo, na sexta-feira... Portanto, quem estiver lendo esta crônica pode apostar que estou cansada, cheia de purpurina colada no canto dos olhos apesar do banho insistente, e muito feliz! Já que vou fazer trinta anos loguinho e tenho algumas coisas a realizar até lá, melhor começar.

Sobre a sensação do desfile e se o sorriso vem junto com a roupa, conto outro dia ou suspiro outras cenas por aí. Quem sabe agora, mais madura, não seja um Carnaval sem choro e com vela...

O sábado deve estar sendo como a quarta de cinzas e não faço a menor idéia do que será dos dias seguintes a esta sexta. Um grande amor, quem sabe?! Que não vire cinzas... Pelo menos até a Páscoa!


Foi bom te ver outra vez, está fazendo um ano,
foi no carnaval que passou...
Eu sou aquele pierrot,
que te abraçou, que te beijou, meu amor...
A mesma máscara negra que esconde seu rosto,
Eu quero matar a saudade...
Vou beijar-te agora, não me leve a mal,
hoje é Carnaval!
(Zé Keti)

Imagens: Bob Sacha; Chris Helgren; Philip Gold


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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Morte e vida quarta-feira cinzas >> Leonardo Marona


O amor havia se fantasiado de cigana. Nos encontramos em Santa Teresa, em meio a pensamentos de confete, e terminamos numa cama desfeita, arrepiados de saliva. Depois que o amor tirou a fantasia, ou melhor, depois que a fantasia foi arrancada com os dentes deste que vos confessa, não houve sono nem sexo, mas houve tudo, sem nexo, pois era o amor outra vez e o amor, quando é outra vez, não admite sono nem sexo, de modo que dormimos de olhos abertos para dentro, abraçados enquanto os ponteiros do relógio derretiam sobre as notas soltas de uma orquestra dissonante no fundo do corredor já sem prédio, dentro do bairro já sem cidade. Não podia amá-la, mesmo fantasiada, afinal não se ama o meio, o amor, mas o fim, aquilo que ele não diz. E no vazio do embalo coxo de uma dança com poucos movimentos calamos juras de carnaval com beijinhos de esquimó e asas de borboleta foram encontradas dentro dos nossos bolsos, dos meus e do amor travestido de cigana inamável. No dia seguinte, como era de se esperar, ele o amor, ela a cigana, já não estavam mais lá: a fantasia era minha. Olhei no espelho e nem eu: trapos sobre um corpo estranho atravessado por idéias de sorriso no choro incontido em gases violetas. Não era eu mesmo, mas foi tão bonito! Da pia do banheiro fiz a manjedoura. Das lâminas do êxtase a profecia. Do pulso as águas de minhas palavras vermelhas. E ao lado da barriga aberta de sonhos inatos, nada além de uma carta escrita com letras gregas, trêmulas de vinho, dedicada àquela que se foi sem ter vindo. Escorreguei pelas escadarias sem saber que as escadarias eram serpentinas desenroladas conforme passos. Quando cheguei no não sei onde chegar, percebi com os dedos dos sonhos – ou seria ela? – que com sorrisos não se cabia mais nas ruas. As pessoas em volta, em minha homenagem, insistiam em ignorar minhas perguntas. Mas elas cabiam, pois carregavam pastas e frases postiças, além de carreiras de tosse. Uma ofendia a madrugada, agarrada a um poste. Outra acompanhava um funeral, cercada de mais alguns conhecidos. Entre eles um outro, muito parecido comigo, por sorte deitado, mãos cruzadas de céu, era levado pela ressaca de mãos e lágrimas, tal qual o mito de Noel. O sol fazia barulho de expectativa. As crianças estavam embriagadas, obscenas, envergonhadas dos adultos. E os adultos esfaqueavam sombras, desejo de serem reconhecidos pela própria emoção. Pus as mãos nos bolsos, pus atrás dos olhos: as asas haviam se desmanchado em cinzas da quarta estação. O sol tocava surdo a chuva reco-reco o ritmo de outro mundo onde as coisas arrastavam a pressa de um mundo pintado no interior dos anos que não passaram; ficaram deitados nos bancos de praça sussurrando nomes antigos cobertos pelas páginas sujas das notícias de ontem: olhos necrosados pelo sentimento do mesmo mundo faminto, tão perto, tão colo, tão longe, tão calo, apesar de nosso, que é hoje e sempre, meu amor. Não amo porque sou o amor, morto apesar de eterno, asco de asas pálidas perdidas como olhos pintados na cor esquálida dos bolsos secretos, apesar do que o cérebro degolado monta quando não quer se despedir do adeus.


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