quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

VAMPIROS >> Carla Dias >>

Ed Wood é um filme que me fascina, não somente por se tratar da história bem contada de um cineasta que, por falta de talento para este fazer, o de contar uma história, foi considerado pelos críticos um dos piores do mundo. A sempre celebrada parceria entre o diretor Tim Burton e o ator Johnny Depp conseguiu dar a esta obra o tom certo de estranheza e devoção que permearam a vida de Wood, que podia até não ter talento, mas certamente cultivava um inquestionável amor pela sétima arte.

O encontro de Ed Wood com o ator Bela Lugosi é retratado com impressionante sensibilidade, e um quê de humor, por Johnny Depp e Martin Landau. Lugosi está deitado em um caixão e Wood, ao ver o astro dos filmes de terror, seu ídolo, pára em frente à loja e o observa. Lugosi abre os olhos, esbraveja sobre o caixão ser pequeno demais para os seus braços, levanta-se e saí da loja, deparando-se com um encantado Ed Wood. Birrento, charmosamente quase intragável, Martin Landau é um Bela Lugosi fantástico; quase tão fantástico quanto o próprio Bela Lugosi.

Bram Stocker publicou Drácula em 1897 e o sucesso foi imediato. O húngaro Bela Ferenc Deszo Blasko, Bela Lugosi, subiu aos palcos para interpretar a peça baseada na obra do escritor irlandês. A Universal gostou da idéia e levou a história para o cinema. Drácula, o filme, foi lançado em 1931, e Bela se tornou o mais famoso representante do morto-vivo nas telas.

Hollywood se tornou o berço de diversas versões deste ser que mete medo e fascina, ao mesmo tempo. De Catherine Deneuve e David Bowie em Fome de Viver (The Hunger), a Kiefer Sutherland em Garotos Perdidos (Lost Boys), passando por Brad Pitt e Tom Cruise em Entrevista com o Vampiro (Interview With The Vampire: The Vampire Chronicles), chegando ao Drácula de Bram Stocker (Bram Stocker’s Dracula), com Gary Oldman.

A televisão não deixou por menos. Seriados como Buffy – A Caça Vampiros (Buffy – The Vampire Slayer) e Angel tiveram vida longa. Buffy era uma versão teen, uma mistura de vampiros e monstros; a epopéia do bem contra o mal iniciada dentro da escola. David Boreanaz, o Angel, o vampiro, era o amor impossível da humana Buffy, interpretada por Sarah Michelle Gellar. O personagem ganhou tanta notoriedade que os produtores resolveram lhe dar um programa.

Angel, apesar de ainda trazer muitos vícios do humor sem graça, atrapalhando a seriedade que o tema pede para se obter profundidade, era um seriado mais calcado no que seria um vampiro. O personagem nem de longe lembrava os vividos por Bela Lugosi; tinha um jeito mais descolado. Ganhou alma, o que o fez se voltar para o lado do bem. Sofria de amor e de solidão. Às vezes, cometia erros e maldadezinhas (o que pode ser mais humano?), mas lutava para ser um morto-vivo capaz de oferecer benevolência.

O poder da sedução é a peculiaridade principal de um vampiro. Gary Oldman, o Príncipe Vlad Drácula, imprimiu em sua atuação em Drácula de Bram Stocker o tom certo da sedução. São seres indescritíveis e humanos e suas mulheres a caírem de amores por ele. Do olhar apaixonante à transformação que conduz ao mais asqueroso monstro; o bem-trajado, de olhar misterioso e de caminhar cadenciado, sentindo-se dono das almas de suas caças, passeia sobre o fio que separa o bem do mal, bagunçando essa certeza de que há, realmente, um equilíbrio.

De Bela Lugosi aos vampiros dos dias de hoje; da obra de Bram Stocker às diversas outras já publicadas. Apesar de ser um tema interessante, os vampiros já foram retratados de inúmeras formas e descritos ao gosto e imaginação de tantos, que a procriação de péssimas obras era inevitável. Porém, um seriado de televisão renovou o gosto popular pelos sequiosos por sangue, excelente roteiro e boa produção.

Moonlight estreou, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, em 2007. Não se sabe se por conta da greve dos roteiristas ou a vantagem de se produzir uma temporada mais curta, a primeira conta com somente 12 episódios. Se a idéia era saber se a série daria certo, a questão já está resolvida. Moonlight seduziu os telespectadores.




Mick St. John (Alex O’loughlin) é a versão lapidada de vários vampiros da história do cinema e da televisão. Não somente um morto-vivo capaz de qualquer ato para conseguir se alimentar. Há nele um ser humano, ao menos a forte presença do ser humano que foi. Ele preza pela humanidade muito mais do que pela sua condição de vampiro. Beth Turner (Sophia Myles) faz contraponto nesta trama. Mick a salvou e, desde então, a protege. Obviamente, a sintonia é inevitável e, então, vem a cilada: vampiro que não transforma outros em vampiros nutre afeto por humana curiosa e a única a saber quem ele realmente é.

O que me agrada em Moonlight não é somente o tema, mas também a forma como ele é desenvolvido. Há uma melancolia em Mick que bate de frente com a disposição de Beth; há a sagacidade de Josef Kostan (Jason Dohring), da turma que, ao lado de Mick, cuida para que a existência dos vampiros permaneça em segredo. E Coraline (Shannyn Sossamon), a esposa que o transformou na noite de núpcias e, depois, seqüestrou Beth Turner ainda criança, com o intuito de formar uma família. Foi de Coraline que ele salvou Beth.

Mick narrador, esmiuçando sobre como é ser um vampiro; o que ele sente, percebe e vai além da compreensão humana, é um adendo importante. Essa narrativa torna o roteiro ainda mais interessante.

Para não me estender demais e fechar esta crônica, abaixo segue o vídeo Interview With A Vampire, vídeo promocional da série.



Moonlight vai ao ar pela Warner: quarta (22h), quinta (01h) e domingo (18h).

www.carladias.com


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domingo, 27 de janeiro de 2008

TRÊS ASSUNTOS E UM TEMPISTA >> Eduardo Loureiro Jr.



Quem me acompanha sabe que eu não acredito em falta de inspiração. Eu não tenho o nariz entupido para escrever. Acontece mesmo de eu ter mais assuntos do que cabem em um texto. Meu maior trabalho sempre é escolher; escrever é fácil. Esta semana, não pude optar. São três assuntos, os três entram pelas narinas, os três querem ser escritos, os três desejam aparecer... e eu que não sou leão-de-chácara, que sou cronista — tempista —, resolvi dar passagem a todos.

A água e outros lubrificantes
Há algum tempo, recebi um conselho e um pedido. O conselho era de um mestre: "sempre que estiver discutindo ou prestes a discutir com alguém, dê um jeito de trazer um copo d'água para o ambiente; a água acalmará os ânimos". Eu, que não sou de briga, tive oportunidade de experimentar o conselho uma única vez, e foi milagroso. Incrível como uma discussão acalorada se transformou em escuta mútua. Já o pedido foi de uma amante (no sentido de amar e ser amada): a camisinha lhe irritava a delicada pele, e ela pediu que eu usasse lubrificante. Eu, que sempre achei que fazer sexo com camisinha era como chupar bombom com embalagem, descobri que usar lubrificante é melar de bombom a embalagem do bombom. O conselho e o pedido me fizeram lembrar da música, que tem sido, desde que me entendo por gente, a água e o lubrificante de meus pensamentos, de meus estudos e de minha criação literária. A água, o lubrificante e a música me fazem agora pensar em esperas com paciência, em relações com gentileza e em crises com meditação e oração. As coisas não precisam ser difíceis.

O Zahir e o BBB 8
Esses dias, me peguei com vergonha de estar lendo Paulo Coelho e assistindo ao Big Brother Brasil. Uma amiga querida me indicou o livro: "eu mesma não gostei", disse ela, "mas só lembrei de você enquanto lia". Minha amiga estava certa: eu também só lembro de mim enquanto leio. Minha dúvida tem sido: esse alguém de quem eu lembro ainda sou eu? Não, e sim. Não; aquele de quem eu lembro está no passado: um homem devastado por uma separação. Sim; aquele de quem eu lembro está aqui, desbastando-se em superação. E, na abertura do livro, há um poema a Ulisses, o personagem que recentemente identifiquei como sendo meu gêmeo simbólico. Admito, então, que eu estou lendo e gostando de Paulo Coelho. Assim como estou vendo e gostando do Big Brother Brasil, que me lembra menos 1984, de George Orwell, e mais o mito do Minotauro, em que se conta que sete moças e sete rapazes eram enviados periodicamente a um labirinto com o propósito de servirem de alimento ao homem-touro. Eu sempre me perguntei como seria o cotidiano daqueles jovens sacrificados, que eram citados apenas rapidamente na narrativa. O BBB tem me respondido essa pergunta. E eu vejo em nossos jovens mais do que o desejo de um milhão de reais: vejo, espio, brecho um encontro grandioso de humanidade no artifício do confinamento.

A contagem regressiva
Daqui a três dias, viajarei 2.579 quilômetros para conhecer pessoalmente uma leitora. Há uma semana, cada dia tem sido um dia a menos. Mais um pouco e eu saberei o toque, o cheiro e o gosto das palavras. Quando minha sobrinha Julia era bem pequena, e íamos para a casa de praia, iniciávamos uma contagem regressiva ao sair da estrada principal e pegar a estrada de terra: Julia queria descer apressadamente a escada dos números, e eu ralentava a contagem enquanto acelerava o carro para que, justo ao pararmos em frente à casa, ela dissesse: "Zero! Chegamos". Recentemente, repetindo o trajeto depois de muito tempo, uma Julia já crescida começou a fazer contagem regressiva. "Você ainda lembra disso, Linda Julia?". "Lembro, tio". E aquela lembrança foi — e é novamente neste instante — lágrimas em meus olhos. Agora sou eu, que saio do asfalto da vida e pego a estrada de barro da criação, do novo. Meu tio Tempo vai cadenciando o ritmo: depois (3) de depois (2) de depois (1)... vem o antes.

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sábado, 26 de janeiro de 2008

RESQUÍCIOS [Ana Carolina Coutinho]


Conversando no MSN com uma amiga dia desses, ela me conta as novidades, e diz, pesarosa, que o ex-marido vai se casar de novo. Antes que eu pudesse escrever de volta, a tela em minha frente já piscou: “Já estou bem resolvida com isso, claro. Mas é que, poxa, se casar com ela?”. Ela se justificou, sem nem precisar.


Entendi. E entendi imediatamente. Nós, mulheres, somos todas assim. Ou quase todas. É raro, muito raro, uma mulher que consiga ser indiferente a um homem por quem nutriu especial amor e dedicação. Ela pode passar a ter carinho por ele, pode passar a odiá-lo até, mas dificilmente se tornará totalmente indiferente diante de notícias como essa. Vai fingir talvez, e nisso sim há mérito. Fingimos bem, às vezes enganamos a nós mesmas, mas, bastará um pouco de reflexão que a pergunta que surgiu à minha amiga Simone, surgiria em todas nós: Casar com ela? Em questão de minutos, o traste do ex-marido é lembrado como um homem divertido e inteligente com quem ela foi, não angustiada e sofrida, mas alegre e livre...

Ah, que bicho estranho somos nós, não é? Ou não? Ou seríamos estranhas, isso sim, se esquecêssemos de um tempo de desmedida dedicação e ternura, uma relação que tornou-se tão delicada e rara quanto um tesouro único feito da mais fina louça, e carregado com cuidado por entre maremotos e trovoadas, pelas suas hábeis e fortes mãos...

Não esqueceríamos, não esquecemos. Passamos sempre um longo e difícil luto, para conseguirmos, a duras penas, entender que esse homem não era certo, não nos faria feliz, não sabe ter compromisso, não sabe ser fiel, cúmplice, dedicado, não sabe ser um marido, afinal. E então, quando nos achamos refeita, chega a bomba. Ele, que é um crápula insensível, vai se casar mais uma vez...

Simone, minha forte amiga, estava desolada. Não pela nova esposa do ex-marido, nem mesmo pelo próprio ex-marido, mas por si própria. Se ele é um cara casável, por que não ficou com ela? Se ele é tão apaixonante como ela sempre achou que fosse, por que não permaneceu apaixonante com ela? Subitamente os questionamentos reapareceram.

Por que comigo não, e com ela sim? Será que eu deveria ter tentado mais, será que ela é mais calma, mais esperta, mais magra? Ou não, ele era mesmo um grosso? Mas então,
se era de fato tão emburrado, mesquinho, grosseiro, como foi possível deixar de ser, bem na vez da outra? Será que ele mudou? Será possível que os anos em que tentei mudá-lo, os infinitos discursos, as enormes provas que dei a ele de seus gestos e palavras enganados, agora, surtiram efeito? Mas bem na vez da próxima?

Simone sente-se como se tivesse tido seu tesouro roubado. Uma coisa é ter seu tesouro perdido, mala extraviada, sem novo dono nem novo destino, desapareceu no oceano e, talvez, nem valesse tanto assim. Outra, completamente diferente, é ter sua mala, aquela que você levou dias pra arrumar, uma noite inteira pra fechar, aquela onde está guardado sua necessaire com os melhores produtos, garimpados por anos, e sua calça predileta, entregue na casa de outra. E essa outra, que você nem conhece, abre um sorriso fresco, provavelmente mais fresco e jovial que o seu e, deliciosamente feliz, sai vestindo seu jeans usado, passando no rosto liso seus melhores cremes e perfumando o colo com aquele restinho que você tinha guardado da colônia que tanto adorava.

Simone, uma mulher linda, forte e inteligentíssima, sentiu-se absolutamente burra por um instante. Sentiu-se desolada, enganada, a vida lhe pregrara uma peça. Ele, o traste, deve ter se vestido de terno uma vez mais, para receber sua linda noiva num altar qualquer. As imagens perturbavam Simone dia e noite.

Enquanto ele refaz a sua vida, Simone também se vê como um disco riscado, repetindo o que já exercitou em outro tempo. Por mais uma vez, Simone vai viver um luto, de uma marido já perdido. Talvez agora dure menos, talvez não. Dessa vez Simone vai chorar calada, não vai se confessar a muitos amigos, vai resguardar a sua dor e, em seguida, cedo ou tarde, vai se refazer mais uma, entre tantas vezes...

O amor causa a nós, mulheres, maior encanto e perplexidade. Todas nós temos, como que impresso em nossas memórias afetivas, em um lugar doce e terno dentro de nós, lembranças tão livres e felizes, que os homens talvez nunca enxerguem essas cores e nuances que se dão em nossa vida, quando nos sentimos com a alegria leve de um amor bom. Mas talvez, por essa mesma razão, eles se levantem e se refaçam uma só vez, quando muito.

Enquanto isso, nós nos questionamos, nos revoltamos, nos maltratamos até, para sempre em seguida, nos levantarmos também, juntarmos nossos cacos e, daí sim, com maior empenho e maior mérito, andarmos de novo, não com muletas, mas com a força habitual das nossas próprias pernas.

Doce Rotina

Imagens: A Sweet Gentle Kiss, Annette Pierce/ Lágrima, Autor Desconhecido

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A INVENÇÃO DO AMOR >> Leonardo Marona

depois do furacão do corpo, com a alma enregelada, corremos em direção ao topo, corremos de olhos fechados – estaremos juntos, enfim?
não sabemos mais plantar novos mistérios, mas estamos confiantes diante do buraco negro, a pensar caminhos – de repente somos atalho.
sim, de mãos vazias, de mãos dadas vamos, cada um com seu planeta, sim, de olhos abertos seguimos rumo ao peito dissonante, sim, múltiplos, ocultados delicadamente pelos abismos da ilusão doce, tudo muito rápido: maquinaria de trombetas ensandecidas e estamos lá – estaremos enganados?
sim, estamos muito perto de repente, e longe de tudo, longe do resto, do deus que criaram para nós e que nos recrimina, longe das cascas de pão largadas em trilhas sombrias – longe demais?
estamos juntos – e só isso nos importa – somos juntos o desnudamento das horas, a unificação do âmago sem cafonice, somos juntos o que se chamou ingenuidade, ao se desdenhar da origem de cada sentimento. ardemos juntos pela dor da comunhão, estamos sós, de repente frios, como quando um cometa de gelo se aproxima, então caímos para trás extasiados, mortos e vazios, repletos, e de olhos abertos sorrimos, pela primeira vez os olhos procuram a continuação do branco, nas portas dos edifícios, nos milagres dos santos, no leite coalhado da azia, na poeira sobre a vitrola antiga, no teto chumbado com gaiolas de mármore que dançam ao sabor do vento eterno.
procuramos o branco fugaz desesperadamente, logo após as trombetas do segundo silêncio, e de repente o silêncio se transforma em nuvens carregadas sobre uma taça coberta de limo, e tateamos nossos pedaços – ainda vazios – no escuro dessa intimidade que nos devora, e nos concebe sem meias-verdades, nas tardes em que lambemos nossas feridas com o carinho do que também fomos capazes de assassinar. nos receios adverbiais.
você dorme, você falece por trás das cores confusas da tarde – é tarde? não há cedo ou tarde e você já conhece toda essa conversa fiada: conhecemos bem e não estamos interessados.
pulamos, portanto, os arquétipos de uma ternura endurecida. pulamos o sentimentalismo novelesco dos umbrais de aço que se fecham. pulamos páginas como quem anseia pelo adiamento da ansiedade. agimos feito o vento do lado de dentro de um quarto vazio trancado.
escondemos nossos esconderijos com esfinges e fogos de artifício. mas quem poderá nos culpar pela entrega desmedida, quando a curva do silêncio atingir em cheio os olhos da ternura?
não posso dormir sem você e você (como Shakespeare desaprovaria) esparrama sobre mim apenas desesperança, que tanto me consome e que me fascina, e de repente some, sumimos e somos este vão: esta cor inconcebível de nós dois alados.
as algemas são colares e os desafios sem recompensa. delicadamente pulamos o que daria um bom poema. carinho de hálito, um braço que cai sobre o ombro, e isso, após o furacão do corpo, com a alma enregelada, parece tão inconcebível e tolo, mais parecido com um sonho – um noturno de Erik Satie.


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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

JOVENS DEMAIS PARA MORRER >> Carla Dias

A primeira vez que assisti Heath Ledger foi em Dez Coisas Que Odeio Em Você (10 Things I Hate About You). Eu já não era uma adolescente, mas o filme me fisgou, assim como Ledger. Foi assim que me tornei apreciadora do trabalho deste ator.

O Segredo De Brokeback Mountain (Brokeback Mountain) pode até ser um filme desafiador, bacana, que elevou o status de Ledger como artista que aceita desafios. Mas para mim sua participação em filmes como A Última Ceia (Monster’s Ball), As Quatro Plumas (The Four Feathers) e Devorador De Pecados (The Order) é que o define.

Heath Ledger morreu ontem, 22 de janeiro, em Nova York, aos 28 anos de idade, o que me fez lembrar de outro ator que partiu cedo; não pelas condições, já que ainda não se sabe realmente o que causou a morte de Ledger. Lembrou-me de River Phoenix, mas pela sensação que deixou em mim essa partida ainda na infância das suas realizações. Phoenix morreu aos 23 anos de idade.

Sempre que assisto Apostando no Amor (Dogfight), com River Phoenix - filme que, de uma forma muito peculiar, fala sobre diferenças, chegadas e partidas -, bate-me essa sensação de que é lamentável assistir à vida de pessoas terminarem tão cedo, quando elas prometem tanto. É uma tristeza, sim, mas não daquelas de fã que deseja casar e ter filhos com os seus ídolos, então vê na morte deles a morte de seus sonhos. É a tristeza por não poder virar a página e ver na próxima registradas as conquistas dessas pessoas, porque realmente apreciamos os seus feitos.





Morrer jovem faz parte do roteiro da vida.





Brandon Lee, filho de Bruce Lee, morreu aos 28 anos de idade, durante as filmagens de O Corvo (The Crow), filme que ele considerava a oportunidade de mostrar ao mundo que era um ator capaz de atuar em papéis diversificados, e não só em filmes de lutas marciais. James Dean morreu em um acidente de carro, aos 24 anos, depois de atuar em filmes como Assim Caminha a Humanidade (Giant) e Juventude Transviada (Rebel Without a Cause).

Quanto a Heath Ledger, resta-nos aguardar os lançamentos de Não Estou Lá (I'm Not There), filme inspirado nas canções de Bob Dylan e Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight), no qual ele incorpora o querido vilão Coringa.

Sabemos que cada um de nós conduz a própria existência na velocidade que julgamos segura. Porém, segurança é questionável em qualquer área, assim como a definição que damos a ela.

Às vezes, tenho a impressão de que certas pessoas vivem a vida inteira em um prazo curto de tempo. E se partem, vão com a bagagem completa. Mas isso é raro... Todos os dias morrem jovens neste mundo, e nem todos já estiveram na tela do cinema. Porém, esta crônica é para homenagear Heath Ledger. Eu, particularmente, sentirei falta do futuro que ele não terá.


Foto: Steve Granitz


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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

BEM GUARDADO -- Paula Pimenta

Sou saudosista. Talvez essa seja uma das minhas características internas mais marcantes. Não sei se herdei isso geneticamente, se é do meu mapa astral, se foi da criação... mas o caso é que eu não consigo me desligar do passado, por mais que o presente seja muito melhor.

Até hoje tenho todas as minhas agendas-diários da época do colégio e volta e meia recorro a elas para ver o que eu fiz em tal dia de tal ano... e então me pego em uma viagem no tempo, de risos e de lágrimas, que às vezes dura dias.

Cartões de aniversário eu tenho aos montes, por mais que eles digam a mesma coisa ano após ano. Simplesmente não consigo jogar fora algo carinhoso que alguém escreveu para ou sobre mim.

Por esse motivo, outro dia assustei quando meu namorado me contou que não guarda nada. Eu disse que nunca teria coragem de colocar no lixo algo que ele tivesse me dado, até o papel que embrulha os presentes dele eu tenho dificuldade de me desfazer, mas ele acha que o que eu escrevo ou digo hoje, vale apenas para hoje, que ele guarda tudo apenas no coração, que aquele conteúdo pode não significar a mesma coisa amanhã, que as pessoas mudam dia após dia.

Pensei muito a respeito. Realmente têm pessoas mais desprendidas que as outras, que não acumulam nada, desapegadas. Acho que essas pessoas devem ter também mais facilidade para se libertar das emoções. Porque eu simplesmente não consigo concordar que um sentimento possa mudar de um momento para o outro. Concordo que as pessoas ficam diferentes, mudam de opinião, mas isso não é de repente, leva tempo. Se eu escrevo – por exemplo – uma carta de amor hoje, com certeza vou continuar sentindo o que a motivou por bastante tempo, os meus sentimentos não são efêmeros, eles duram muito, até que apareça uma outra emoção mais forte para colocar no lugar, seja ela de raiva, de paixão, de indiferença ou do que for. Mas certamente enquanto o amor durar, eu não terei a menor intenção de me desfazer das lembranças “palpáveis” e elas ficarão guardadas em um lugar bem acessível, que eu possa rever na hora que der vontade.

Guardo meus discos de vinil da infância, os livros da coleção Vaga-Lume que eu colecionava, bilhetinhos trocados com minhas amigas na escola, um chumaço do pêlo da minha cachorrinha que morreu, cartas à mão da época que ainda nem existia internet, declarações de amor, e-mails, scraps, retratos e mais retratos... e dou valor a quem faz isso também. Outro dia encontrei, por acaso, o meu melhor amigo de adolescência, e ele falou que ainda tem todas as cartas que eu escrevi para ele quando fiz intercâmbio. Fico tão feliz de saber coisas assim, dá a sensação de que você foi importante para alguém a ponto dessa pessoa guardar uma lembrança sua, por menos que você faça parte da vida dela atualmente.

Claro que não é pra ser radical, como a minha avó, que guarda até as caixas de sapato, ou a mãe de uma amiga, que diz que nunca vai fazer plástica porque aquelas rugas são parte da história dela. Eu conservo apenas o que me fez feliz algum dia. Minha vida não é só o presente, mas também o que já vivi e o que ainda viverei. Tudo fica bem guardado no coração, mas coloco também na gaveta, as recordações do passado. E na cabeça, os planos para o futuro.


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domingo, 20 de janeiro de 2008

CAPIBA VAI CANTAR! >> Felipe Holder

Recife, final de 1989. Segundo turno das eleições presidenciais. Na avenida Dantas Barreto, no centro da cidade, mais de cem mil pessoas (segundo os jornais, a Polícia Militar e os organizadores) aguardavam espremidas pelo comício de Lula - talvez o maior que a cidade já viu até hoje.

Tinha tanta gente que não era possível tirar o pé do chão. Quem tirasse corria o risco de não conseguir pôr de volta e virar saci por um bom tempo. Parecia um desfile do Galo da Madrugada, só que ninguém podia se mexer.

Do meu lado, uma maluca dizia uma bobagem por minuto. E cada besteira era reprimida por outra mulher que estava ao seu lado, que sempre pedia pra ela ficar calada. Lá pelas tantas, quando João Amazonas apareceu no palanque para discursar, a doida gritou:

- Capiba vai cantar!

Aí eu não agüentei. Soltei uma gargalhada e disse a ela, educadamente:

- Não, minha filha. Nem ele vai cantar, nem ele é Capiba. Quem está ali do lado de Lula é João Amazonas, presidente do PC do B. Capiba não canta, nunca cantou. Só compõe. Cá pra nós, eu acho que Lula é capaz de muita coisa, mas não de fazer Capiba cantar. Se ainda fosse Ariano Suassuna...

Eu pude ouvir a amiga reclamar da maluca:

- Tá vendo? Por que não fica calada? Não tô a fim de passar vergonha não.

Nesse momento as duas foram embora. E eu continuei sem conseguir conter o riso. Não é que os dois se pareciam mesmo? (Veja a imagem aí do lado. João Amazonas - como não poderia deixar de ser - é o da esquerda). Da distância que a gente estava - no mínimo uns 500 metros - ninguém seria capaz de distinguir os dois, se eles aparecessem juntos. Parecidos eles eram mesmo, mas de onde a maluca teria tirado a idéia que Capiba ia cantar? E logo num comício de Lula? Tem doido pra tudo. Principalmente em Pernambuco.

E eu digo "principalmente em Pernambuco" porque é preciso ser muito doido pra chutar um número desses. Mais de cem mil? Como chegaram a esse número? Só pode ter sido exagero. Sim, nós pernambucanos temos mania de exagerar. Principalmente nos números. Somos, em bom pernambuquês, esparrentos.

Dizem que mais de um milhão e meio de pessoas acompanham o Galo da Madrugada todo ano. Saiu até no Guiness Book! Há quem acredite. Eu não. Nem tendo esse número o aval do famosíssimo Livro dos Recordes. É mais fácil eu acreditar que Capiba poderia ter cantado naquele dia. :)

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sábado, 19 de janeiro de 2008

EU E PLATÃO: OU COMO FILOSOFAR LIVRE E IMPUNEMENTE [Heloisa Reis]



Desde meus dias de adolescente e das primeiras aulas de Filosofia tenho uma queda por Platão, e uma ligação de caráter - evidentemente - platônico.As primeiras impressões foram ligadas à figura física, quando soube que tinha ombros largos e compleição forte, além de inteligência extra e incomum. Um sucesso para minha imaginação!

Seus escritos famosos e celebradíssimos sobre Arte, Teorias do Conhecimento, e até sobre a atualmente tão falada Ética, provoca em mim um certo modo de ler seus textos indiretamente. Sim, até porque não sendo capaz de ler grego arcaico tenho que contentar-me com traduções e, naturalmente, interpretações.

Contudo, um sábio como ele, lançador das bases da Filosofia do lado de cá do mundo merece toda consideração e respeito e é desta forma que ouso escrever estas míseras considerações de caráter crônico/filosófico.

Para entender a parte central da filosofia de Platão - a teoria das formas, ou o mundo das idéias, sempre penso num círculo e tento desenhá-lo. Como não consigo fazer um círculo perfeito à mão livre, e nem encontro na natureza nada que tenha mesma distância entre o ponto central e os pontos que fazem um círculo perfeito, percebo que ele tem razão ao afirmar que a perfeição só existe na idealização.

E aí entendo porque a matemática para mim sempre foi pura abstração, fato que eu sempre vejo confirmado quando faço minhas contas de mais e menos em minha conta bancária e o resultado NUNCA bate com o que eu imaginava. Sempre há alguma taxa desconhecida ou inesperada que altera a realidade.

Realmente a perfeição só existe no mundo das idéias! E pior, apenas essas idéias ou formas imutáveis são constantes e reais, pois no mundo físico – real em que vivemos - o fluxo é constante e a realidade é relativa e não fossem as formas perfeitas não haveria ordem e nem estrutura para as idéias do mundo.

Hoje imagino-me freqüentando a Academia – naturalmente vestida como um homem – e tendo a oportunidade de dialogar com mestres e outros alunos questionando e, sempre escondendo minha identidade feminina, procurando aprender com eles. Fico estonteada ao pensar que Platão tinha sido discípulo de Sócrates, e que havia visto sua injusta condenação e execução pelos atenienses. Sinto um carinho e uma admiração enorme por ele que superando esse trauma, conseguiu dar seguimento ao pensamento de seu mestre, e, ainda agregar outras influências. Tremo também ao pensar que eu poderia ter como colega o não menos importante Aristóteles.

Mas meu caso platônico teve sua confirmação quando eu soube que ele além de preocupar-se com a filosofia e com o Bem própriamente dito acreditava também na reencarnação da alma em outro corpo depois da morte, e ainda que naquela dimensão a alma ficava numa situação bem melhor - chegava ao mundo das idéias! Para mim essa era uma explicação muito boa para aquela célebre questão “para onde vamos?”

Enfim: Platão me ensina que nós, pobres mortais em situação material, podemos nos dedicar ao cultivo de nossas imperfeições – pois ela são inerentes à nossa condição humana - e transformar apenas o que temos ao nosso alcance.

Então podemos fazer quanta Arte quisermos, como quisermos e para que o quisermos. Se, segundo Platão, as idéias apenas cabem aos deuses, filosofando livremente, com certeza elas foram redescobertas por Duchamp.

Imagens: Papiro Oxyrhynchus, com trecho da República, de Platão; Marcel Duchamp. Why not sneeze Rose Selavy? 1921/ 1964, Gaiola de metal pintada, cubos de pedra, termômetro

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A Barata da Finlândia >> Leonardo Marona

Vinha subindo a ladeira da Sacopã, onde os ricos fazem suas estripulias em grupos escondidos e vão murchando aos goles de Moët qualquer coisa sem saber falar francês, e eu vinha com meu calhambeque verde, duas portas já não abriam mais por dentro, daqui pouco estaria preso para sempre ali, mas sempre tive essa estranha sensação de estar preso nos lugares.

Logo na virada da última curva avistei um sujeitinho de bermuda agachado atrás de um carro. Usava um capuz e uma camisa regata. Parei a uns vinte metros dele. Então o sujeitinho saiu de trás do carro acenando para mim com uma arma prateada: eu não sabia se era para ficar parado ou dar o fora dali. Pensei: se fico parado vão me cortar todo lá dentro da mansão que estão assaltando. Vão arrancar a minha pele, vai ter um ritual com a minha alma ali dentro, ou com o que quer que esteja aqui dentro. Quando se dá poder a um pé-rapado, o risco de ele fazer emergir a essência humana é muito grande – nada fica mais humano que um pé-rapado poderoso. Por outro lado, se dou a ré, vão fazer patê da minha cara. Vi que um outro sujeito, este como uma escopeta calibre 12, dobrou a curva também na minha direção. Dei a ré de forma muito brusca e arranhei toda a lateral do carro contra o muro de uma outra mansão.

Eles não quiseram acordar os ricos nos seus palácios de plástico, preferiram continuar sugando pelas beiradas, até o miolo. Por isso eu consegui descer. Telefonei para a polícia de um orelhão.

- Oi, tá tendo um assalto ali na subida da Sacopã. Quase me pegaram também. Vocês deveriam dar uma subida lá.

Era uma mulher do outro lado da linha. Devia estar lixando as unhas e mascando chiclete. Odiava falar no telefone ou atender ligações de emergência. Do tipo ruiva com bafo, aparelho nos dentes, buço. Era, portanto, a pessoa ideal para trabalhar no serviço de emergência da polícia.

- Senhor, por favor, endereço completo da localidade... (falava com o nariz ainda por cima).

- Não sei o endereço completo. Sei que era na Sacopã, subindo a ladeira... Um de escopeta e outro com uma pistola...

- Mas precisamos do endereço.

- Você sabe onde é a Sacopã?

- Um minuto, senhor.

Atendeu outra pessoa. Um homem. O mesmo espírito operacional. Só que tudo do começo.

- Emergência 190.

- Acho que não é mais uma emergência – eu disse.

- O que você quer então?

- Bom, tem uma mansão sendo assaltada ali em cima, na Fonte da Saudade. Vocês estariam interessados?

- O que aconteceu exatamente?

- Eu tava subindo a ladeira da Sacopã quando dois caras armados saíram do mato pra cima de mim. Tavam na escolta de alguém.

- Você tem certeza de que eram mesmo dois assaltantes?

- Um cara de bermuda não usa uma escopeta 12 à noite se não for no mínimo um sujeito temperamental. Mas confesso que não parei para perguntar.

- Um minuto...

Então caiu a ligação. Na verdade eu não sabia o endereço de onde estava indo muito bem. Sabia que teria comida e bebida e mulheres subindo umas sobre as outras e música bate-estaca e dentes trincados e maquiagem borrada e pílulas coloridas e monólogos intermináveis, tristezas escondidas no pó e nos speeders, e isso para mim era o suficiente por uma noite. Eu levava também o meu vinho argentino, encorpado, ruim e barato, inspirado en los vientos, segundo o rótulo. O problema é sempre com as subidas. Chegar lá vivo era uma outra história. Sempre a mesma história, aliás.

Deixei meu carro, que agora era verde e com uma asa enorme de anjo quebrada na lateral, numa rua calma logo ali no Humaitá. Ia dar um jeito de chegar lá em cima a pé, com os pés dentro dos sapatos de preferência. Voltei até a beira da ladeira e sentei no meio fio. É inevitável, estamos sempre esperando alguma coisa da vida. Um anjo, um dilúvio, uma carona até a eternidade, um sopro no ouvido, alguma satisfação, injeções temporárias de alento. A minha veio de carro.

“Uma informação”, disse o homem de óculos com hastes largas e pretas, cenho comprimido, como se tivesse um sol particular no meio dos olhos. “Pois não”, respondi. Do seu lado havia uma mulher, que se sacudia toda no banco do carona. Estava com alguma coisa no rabo que não parava de se esfregar e ajeitar as calças. A boca aberta o tempo todo, todo mundo sempre mastigando alguma coisa. Ela passava batom diante do espelho retrovisor.

- O seguinte, amigo: estamos indo pra casa da Noriega Brandão, a atriz – disse o homem. – Você não sabe se é por aqui mesmo que ela mora, sabe?

- Na verdade, estou indo pra lá também, respondi. Vocês me dão uma carona que eu mostro o caminho.

Um amigo já tinha me falado. Subir até não dar mais e você vai dar lá. Eu imaginava algo como o paraíso, pela maneira que ele falava. Subimos e vi de cara que aquele era um casal bastante alegre. A música tribal já tocava dentro do carro, a uma altura razoável para o meu avô surdo mandar baixar. Os dois falavam entre si, estavam animados, tinham vindo de São Paulo apenas para a festa, depois voltariam para a vida do esconde-esconde. Também, com um peito daqueles no meio da cara qualquer um ficaria bastante alegre, pensei quando achei que seu decote já não ia agüentar, de tanto que ela serpenteava o corpo e levantava a sobrancelha para cima de mim. Dina Pocaliu era o nome dela. Era linda, de Sampa, sorridente, unhas vermelhas, dentista na Ipiranga pela manhã, ninfomaníaca à noite na Praça da Sé. Usava uma fina linha metálica no meio dos dentes de cima. Nos dentes dela, aquilo era um fetiche.

Virou-se para mim, que segurava com as duas mãos minha garrafa de vinho inspirado en los vientos.

- Então você conhece a Noriega do meio? – perguntou.

Na verdade o que eu mais queria no momento era conhecer a própria Dina pelo meio, pelo meio e por baixo. Mas “não, não, sou amigo de uns amigos dela”, eu disse me dirigindo aos dois para não dar na telha minhas alucinações sexuais.

Conheci um pouco do sujeito também. Ele era conhecido. Não vou dizer a vocês que Jaques Zambrini era um grande escritor. Mas tinha pelo menos um grande tipo de escritor, daquele que bebe uísque com as duas mãos e fica pelos cantos sugando piteiras, suando alucinado com a falta do que sentir, achando que é muito sentimento, sentimento demais para um coração suscetível e frágil como o seu. Então é inevitável: cai para a sacanagem. Uma ótima solução, a do gozo, a do alívio imediato, a da porra. O vício. O cheiro delas, das vagabundas, nos olhos, na lembrança, no colarinho, nos pesadelos, na vontade louca de se esvaziar, olhando e babando, imaginando coisas lindas e brancas e pretas e róseas e carnudas e peles em atrito, secreções, roça-roça. Como gostava das mulheres! Era o seu fraco e o seu barato e o seu buraco. E entrava muito bem no vácuo da sua, da Dina. Divertia-se bastante com a Dina. Ela sabia fazer festa e tinha um tesão incrível em outras mulheres. Gostava de brincar de pega-pega com as pessoas, fossem elas do sexo que fossem. E era uma grande mulher, dessas de centro de macumba, melhor não mexer com elas, lindas e indefesas até terem o que querem. Depois te escaldam como um pêssego. Te jogam na fila com os outros, como os outros. Um e setenta e todas as carnes nos cantos certos. Ficava puxando a cenoura na minha frente. Botava na minha frente, eu ia com a boca, então ela puxava de volta. Eu, o burro chucro. Estava de carona e não tinha do que reclamar.

Os bandidos lá em cima já tinham dispersado. Depois de umas voltas nós logo chegamos na casa, e uma biba do tipo Golden Shower Queen* veio nos atender à porta. Nos olhou de cima a baixo e mandou passar. Entrei e fui logo procurar um abridor. A casa tinha uns cinco andares, era o que dava para supor pelo naipe dos convivas e da mulambada entupida de canapés e Martinis, falando sobre a arte da última esquina, sem ter muito bem o que comer em casa. Banhos de perfume e camisas bicolores com a Virgem Maria estampada. Havia também um pátio enorme com uma vista que era de um Rio de Janeiro que bem poucos podem ver: apenas os que sabem desperdiçar a vida sorrindo e jogando champanhe e idéias geniais para o alto, “pelo melhor do país”. A vista na verdade não passava de mais uma droga ali, a droga da ilusão de que aquilo tudo era de verdade. De que, vista bem de longe, aquela cidade com todas as suas fossas humanas escorrendo sangue e fezes contaminadas poderia ser um lugar aprazível para o esconderijo da culpa.

Havia também um galinheiro no fundo do pátio. Noriega Brandão, atriz e anfitriã, vinha vindo do galinheiro, quando passou por mim. Vinha espanando os joelhos e limpando a boca com o cotovelo. Um pouco de palha seca presa nos cabelos. Do batom nem se fala. Passou direto por mim e foi de encontro ao casal que havia me trazido.

- Jaques! Dina! Por que demoraram tanto, porra!? O galinheiro tá cheio, viram?

Do galinheiro vinha vindo uma Lolita cor-de-rosa com meias compridas de seda barata trespassando os joelhos, bolas de goma estouradas no canto da boca, ajeitando os cabelos e tomando ininterruptos goles d’água.

- Noriega, queria te apresentar o Leo, que nos acompanhou na subida – disse Jaques amavelmente, e me puxou pela manga com força desmedida.

Não consegui escapar do seu tipo frágil.

- Como vai, Leo? – disse Noriega, e inclinou a cabeça para mim.

Me olhou de lado: a averiguação que fazem as aves de rapina dos ratos selvagens. Mais um pouco e começaria a levantar as saias com o calor. Eu estendi a garrafa de vinho e sorri. Ela então veio para junto de mim e me agarrou as bolas discretamente. Fiquei parado, só levantei um pouco os cotovelos. Ela parou também. Estava usando um vestido vermelho com uma fenda entre as pernas. E adorava me mostrar a fenda. “Ainda vamos nos entender”, disse no meu ouvido. Ê, festança! Então ela me largou e foi se chupar com Dina, que já estava quase derretendo só de olhar aquilo. Grudaram-se uma na outra e começaram a pular juntas ao som do bate-estaca. Jaques imediatamente se enganchou na bunda de Noriega, com o nariz metido nas suas costas. Dessa vez tremelicava como um cão metendo, mordia a língua, estava louco, os óculos caídos no chão.

Ficaram nessa farra por um tempo. E eu observando com meu vinho, minha cidade de maquete e ainda com a mão de Noriega nas minhas bolas dentro da minha cabeça. Foi daí que cruzei pela primeira vez com “a polaca”.

Mika Vedessä. Nice to meet you. Na verdade era finlandesa. Sobretudo preto, óculos escuros enormes, cabelos Uma-Pulp-Fiction-Thurman, quase brancos de tão loiros, cigarro no bico. Dançava feito macaquinha. Fui perguntar o que ela sabia sobre o uísque da casa e então iniciamos uma relação.

Ela só falava inglês e o meu estava bem desenredado. Mas ela falava muito pouco. Usava bastante os olhos e, sobretudo, os músculos involuntários do corpo. Estava tresloucada. Ficou dançando na minha frente e me puxando para dentro da roda, que não era bem uma roda, mas uma grande bacia de esperma. Tentei resistir, mas não muito, e no caminho até o centro da sala pude cumprimentar esse tal meu amigo, amigo da atriz, da Noriega, que calhava de ser o DJ da festa.

Lá dentro da roda foi o caos. Ela descia até a altura do meu pau e depois voltava se sacudindo de um lado para o outro. Lambia os beiços e chegava a enfiar o dedo inteiro na boca, para me provocar e a todas as pernas compridas de salto alto ao nosso redor. A concorrência ali era bastante acirrada. Eu contra a virada de página do sexo. Do outro lado da sala, um homem gordo dormia e acordava no sofá, sempre sacudindo a cabeça e pedindo para ouvir The mamas and the papas. Queria ouvir Monday, Monday antes de voltar a dormir.

Noriega e Dina tinham pelo visto conseguido despistar Jaques para fazerem sua própria algazarra, as duas. Estavam engalfinhadas como dois gatos, os beijos eram violentos. Usavam as unhas. Então vi que Dina tirou um saco plástico de dentro da bolsa: umas vinte cápsulas dentro. Sacudiu o saco no ar, pegou uma cápsula, mordeu metade e botou a outra na boca de Noriega. E continuaram dançando e tendo orgasmos múltiplos.

Jaques estava rondando, abutre. Parecia ter entrando num tipo de transe. Ficava encurralando as mulheres nos cantos da sala, perguntando a elas se queriam foder com ele e com sua esposa. E apontava para Dina como se para um bom corte de maminha. E segurava o copo com as duas mãos, tal qual mandava a cartilha. Um sorriso suicida, os olhos pingando no chão.

Eu, de minha parte, estava de olho nas tetas da polaca. E ela com os olhos vidrados em branco, na busca pela interioridade lisérgica. Por isso volta e meia os olhos viravam do avesso. De repente me agarrou, deu o suspiro forte do golpe final e me disse que subíssemos para o andar de cima. Disse que ali estava o uísque. Subimos.

A essa altura meu vinho já estava bem no final. Dei o que sobrou a ela, que se avançou, sedenta. Servi para mim uma dose generosa de Buchannas. Poderia ter sido J & B, Cuty Sark, Jim Bean, White Horse, Old Parr, Jack Daniels, single malt, doze, quinze, mil anos, o escambau! Mas um homem precisa começar de algum lugar.

A festa vista lá de cima era bem mais interessante: como um jogo de xadrez da putaria. Cavalos currando peões, bispos disfarçados de rainhas, reis com suas torres a pico, rainhas deixando os reis do lado de fora do quarto. Procriação de tipos noturnos numa grande gosma de canto de boca. Além de poder observar as tetas balançarem soltas por dentro dos bustiês, podia também entender melhor o que estava se passando: Noriega, toda espinafrada, volta mais uma vez do galinheiro. Jaques a agarra pelo braço no meio do caminho. Ela se vira e ele se gruda nela. Fala alguma coisa no seu ouvido. Depois volta para o jardim a catar mulheres para a suruba dos seus planos. Noriega segue direto até o banheiro, cuja luz já está acessa. Bate na porta, a porta se abre, unhas pintadas de vermelho, e então ela entra. Bum! Mika me pega mais uma vez pelo braço e me arrasta até o banheiro, o banheiro lá de cima.

Bate a porta atrás dela e fica olhando para mim.

- Fancy drugs? – foi o que eu entendi.

- Depend with who – arrisquei.

Ela então abre o sobretudo e tira um frasco conta-gotas de dentro dele. Abre o frasco e vem andando na minha direção. Espreme minhas bochechas com uma das mãos.

- Wait a moment – eu seguro a mão dela. – First I need to know which drug is that and what I can expect from that.

- You just gonna start seeing things around, you know... It’s just a game. Here…

E então, feito mãe dando de mamar, ela veio até bem perto do meu rosto com o seu rosto e aplicou uma gota do que quer que fosse aquilo na própria mão, no vão entre o fura-bolo e o dedão.

- Now, just suck it – então enfiou a mão na minha boca.

Não exatamente o que eu esperava de uma finlandesa. Nunca esperei nada delas, aliás. Mas ela veio de novo e pingou também uma gota na minha mão e entrou de boca nela, rapidamente avançando até o meu dedo médio. Ela chupava. Depois pingou mais duas gotas no meu uísque sem que eu pudesse reagir, abriu a porta e voltou para a festa, me deixando com sua poção mágica para a felicidade rápida seguida de um crescente desespero, resultando finalmente na completa perda da sensibilidade e satisfação. Polaca inacreditável aquela! Já tinha me impressionado antes, quando viu uma barata no andar de baixo e disse que nunca tinha visto uma barata antes. Nunca tinha visto uma barata em toda sua vida. Isso eu jamais esquecerei.

Voltando para o salão principal minha cabeça já rodava em mil fotos sem flash. Me sentia frio, só que transpirava como um touro madrileno após a primeira boa espetada no lombo. Misturei um pouco de água com o uísque. Foi quando me apoiei de vez no bar e senti meu cérebro estalar dentro da caixa craniana.

As coisas já começavam a se repetir, de certa forma. Vai ver essa é a onda do negócio, pensei. Nada melhor do que um sábado de sol depois do outro. A felicidade em migalhas, tão sem motivo ela era. Como se ríssemos dentro de uma arena infestada de abutres e morte disfarçados de tipos excêntricos. Como se roêssemos nossas carnes até o tutano. E a vida ali, a dez centímetros dos nossos dedos. Quase podemos tocá-la. Ela chega a nos abanar, mostra a língua. Dançamos, gritamos, nos apoiamos, vomitamos, bebemos, sonhamos rapidamente, rimos mais um pouco da falta de compreensão geral, e então, num belo dia, nublamos a cara e começamos a chorar porque, de repente, nada está ali. Porque nossas vidas são como fases de um videogame. Porque precisamos apertar nossos botões, porque o céu dura o tempo que conseguirmos pensar nele.

Devo ter me tele-transportado para a grama lá na frente do pátio. Ou então foi culpa da lua cheia. Via dez coelhinhos fodendo lá em cima. De repente os coelhinhos ganhavam dentes pontudos e começavam a espirrar seu veneno letal. Eu sentia tudo se aproximando como uma nuvem de suor e caldo humano sem nenhuma vitalidade. As pessoas em volta choravam pavorosamente. Alguns tentavam arrancar os próprios olhos. Outros se esfregavam na grama. Um sujeito no chão, do meu lado, sentado placidamente, olhou para mim e disse: “me caguei”. Uma garota zumbinóide veio para cima de mim e agarrou minha mão. Tinha buracos negros no lugar dos olhos. A mesma menina então veio para cima de mim e me deu a mão. Os mesmos buracos só que de uma outra cor. Depois a mesma coisa, de uma outra cor. Então ouvi o sopro do arco-íris na minha orelha. O duende na outra ponta tinha levado o ouro embora. Eu era chupado para cima e depois cuspido no chão. Então estava na grama, pipocando como os outros. As minhocas entravam pelos meus poros e eu sentia a pele esticar toda de uma só vez. Um caramujo passou se arrastando sob sua meleca a cinqüenta por hora na frente dos meus olhos. A outra parte sub-utilizada do cérebro também me maltratava. A cabeça buscava demônios aposentados e os chicoteava nas costas. Eles iriam acordar alguma hora. Quando olhei do chão, onde tinha minha cara enfiada na terra, a mesma menina sem olhos veio e me pegou a mão outra vez. Então eu via dois movimentos ao mesmo tempo: o da menina sem olhos me pegando a mão e o da mesma menina sem olhos me apertando as bolas. E então três: esses dois últimos e a mesma menina sem olhos abrindo a minha braguilha. E no fim havia dez meninas sem olhos, sendo que a última delas estava mijando em cima de mim. Assim que senti o jato quente no pescoço, meu cérebro encolheu feito uma bergamota e eu só via uma mulher, Mika Vedessä, já sem os sapatos, toda mijada e estirada sobre mim.

Levantei no fim do meu esforço e fui tentar arrumar as idéias, andando em círculos. Pegar alguma coisa para Mika, “você precisa de alguma coisa, Mika?”, ela precisava de tudo que fosse coisa, mas não dizia coisa com coisa.

Voltei para a sala fechando as calças e me esforçando para enxergar e ouvir simultaneamente, mas a música tribal dificultava as coisas. Contei a história de Mika para o meu amigo DJ e ele me contou umas cinco muito piores. Perguntei onde poderia pegar uma roupa seca para ela e para mim. Ele me disse que eu deveria falar com Noriega, a dona da casa, a dona do galinheiro. Eu falei que estava com algumas dificuldades para falar. Ele então começou a rir e eu também comecei a rir e fomos trocar as bebidas. Daí, depois, outro apagão, PUF! e eu acordo numa cama, de camisola. O primeiro impulso é apalpar as bolas. OK. Daí então vem a geografia. Era um quarto com banheiro. Luz acessa no banheiro. E de repente a luz se apaga e sai de lá Noriega Brandão, com um bigode pintado a lápis de olho e costeletas postiças.

- Meu dorminhoco! – ela gritou.

- Que camisola é essa?

- Não lembra, filhinho? Eu não tinha nada do seu tamanho. Então trouxe a camisola, que ficou linda justinha assim... E resolvi entrar no clima também, ó... – e esticou seu buço pintado a lápis de olho na minha direção.

Não havia o que temer. Era uma bela mulher, só que um pouco perturbada. É possível achar cinco a cada esquina. Mas me enfureci ao saber que tinha estado na mesma cama que Noriega Brandão e não lembrava de nada. A verdade sob a luz era muita maquiagem e cabelos esticados. Seca demais. Sem carne alguma. Pedi outra camisola para ela, não sem antes explicar toda a saga de Mika Vedessä, e disse que tinha que descer, que já devia ser dia claro. Ela me obrigou a esperar por ela. Cheirou mais uma carreira de cocaína sobre a capa de um disco de vinil, então descemos juntos.

No andar debaixo a música ainda tocava. Devia ser meio-dia do dia seguinte. O gordo do The mamas and the papas chorava abraçado à estátua de um arcanjo. Queria ver Mama Cass, queria chorar no ombro dela. Meu amigo DJ, a essa altura, já tinha história para um livro de memórias. Estava na beira da piscina, com duas mulheres com os peitos de fora ao lado, fumando cigarros e jogando gamão. O sol estalou meus olhos e ver Mika com aquela linda carcaça branca estragada andando nos fundos do pátio, toda mijada e feliz, pulando, foi terrível. Ela veio galopando na minha direção. Trazia alguma coisa na mão e queria me mostrar. Parecia uma menina de cinco anos quando cata um tatuí na praia.

- Look what I found! – ela gritou.

Segurava bem firme numa das mãos uma barata daquelas com várias tonalidades de castanho nas asas, uma das grandes, daquelas de fundo de pátio. Apertava o cefalotórax do bicho e quanto mais apertava mais a barata sacudia as perninhas e mais Mika ria e ria, com a barata no meio dos olhos.

- You know, Mika, this is a cockroach. – eu disse. – Do you remember the cockroach?

- Yes, Leo, yes... I do remember… Look, she’s so nice with this tiny legs, LOOK! – e então apertava um pouco mais a barata. Até que ela começou a desprender uma gosma esverdeada pelos cantos da casca.

Era demais aquilo. Acho que Mika havia encontrado sua deusa na forma da barata, como os índios na forma de escovas de cabelo e espelhos dos colonizadores bigodudos. Olhava a barata bem de perto, com a boca aberta e os olhos estourados pelo sol. Suando, cara branca com marcas arroxeadas, meleca por todo o canto do rosto. Em suma: estava acabada.

Eu não podia mais ver aquilo. Ela já havia transformado a barata numa gelatina de gosma verde e ria cada vez mais, com aquela gosma verde lhe escorrendo pelo pulso. Dei um tapa na mão dela e a barata voou para longe.

- That’s enough, honey – eu falei. – We had enough for today.

Ela ficou alguns segundos olhando para mim. Depois avançou com os dentes trincados na minha direção e começou a me lanhar o rosto. Suas unhas eram enormes e estavam verdes da gosma da barata. Ninguém tentou apartar. Ela tinha a força dos nórdicos e com um pequeno movimento me levou ao chão, caindo por cima de mim. Chorava desesperadamente e maltratava meu rosto com toda a raiva da sua alma de barata. Era isso, tinha a alma de uma barata. Talvez tivesse se transformado numa àquela altura. Algum sangue começou a escorrer de uma ferida logo abaixo do meu olho direito. Eram três linhas de sangue até o queixo. Empurrei Mika e consegui finalmente me desvencilhar. Joguei meu peso contra ela e pude levar as mãos ao rosto. Ela ficou no chão chorando copiosamente. Meti a cara na piscina, o que, todavia, não espantou os demais banhistas, que continuaram com suas bolinhas de sabão no lugar da vida. Depois fui até Mika e me deitei ao seu lado. Ela agora me abraçava e chorava por alguma saudade escondida lá dentro da sua tristeza. Me pedia coisas que eu não podia dar porque também não tinha.

- Please, please, please, let me get what I want – ela sussurrou.

- Not if it’s a cockroach – eu tentei dissuadi-la.

- I like her… I think I love her… And now she’s gone… Gone…

- Who, the cockroach is gone? You like the cockroach?

- Please... Just hold me... Just hold me tight – ela disse quase fechando os olhos. Então enfiou o dedão na boca e se encolheu numa posição fetal. Ficamos assim até pegarmos no sono.

Quando acordei Mika não estava mais lá. Ainda havia pessoas na área da piscina, mais mulheres com os peitos de fora, homens caçando borboletas e conversando com pedras. Uma das atrizes com o peito de fora, eu a conhecia da TV, parou na minha frente e perguntou onde poderia arranjar cigarros e mais umas cervejas. Disse a ela que precisaria de um carro para isso. E então lhe pedi as horas. Já era fim de tarde da tarde do dia seguinte. Eu precisava sair dali. Era como se ali a contagem do tempo fosse acelerada demais. E eu precisava de tempo. Perguntei a ela onde estava Noriega. Falou que estavam todos lá dentro.

Lá dentro Noriega conversava animadamente sobre si mesma com Dina, Jaques e meu amigo DJ, que apenas escutava. Eu também pude ouvir alguma coisa de longe.

- Porra! Vocês são foda! Querem me excluir de tudo – reclamou Jaques. – Quando a Noriega vai lá pra casa, vocês ficam o dia inteiro no banheiro e me deixam de fora...

- E você precisa ficar também o dia inteiro no banheiro batendo punheta por causa disso, precisa, Jaques? – rebateu Dina. – Não sei que obsessão é essa que você tem que não pode ficar um minuto sem trepar. E tem que ser sempre com duas mulheres. Só uma já não serve mais!

- Eu tive que me adaptar, querida. Você só trepa com mulheres. Pensei que poderia conciliar minha rotina com a essa tua necessidade, entende? Mas não, você só quer saber das tuas mulheres... Quer me deixar do lado de fora que nem um babaca, pagando as contas e te levando nos lugares...

- Olha aqui, você sabe muito bem que eu posso me sustentar sozinha perfeitamente. Posso sustentar nossas filhas também. Elas que se entendem comigo muito melhor do que com você... Claro, com um pai psicótico desses...

- Tá oquei, então... Mas, Noriega, querida, vamos lá pra cima conosco, vamos... Vai ser divertido... Dina quer tanto, não é mesmo Dina?

E era mais ou menos por aí que a coisa seguia na sala. Filhos como pilares de auto-justificação, amor extremo, tão extremo que já se passava por doença de apetite, cumplicidade apenas dentro de banheiros apertados. O casamento moderno como pílula de rápido efeito. Me senti tão antiquado, queria tanto a paixão de volta, as dores de barriga, os dias sem fome, os olhares para o céu a buscar nomes e cometas, o esperar ser regado pela chuva. Onde estava o romance? Perguntei ao meu amigo DJ onde estava o romance e ele fechou a cara dizendo que já ia embora e se eu queria carona. Descemos assim que terminou de arrumar suas coisas.

Peguei meu carro no Humaitá. Já estava ficando escuro outra vez. Cheguei em casa e liguei a televisão antes de me jogar na cama. Era o âncora do jornal diário falando:

- Caros telespectadores: excepcionalmente hoje, não apresentaremos o jornal da noite por motivos de falta de assuntos novos para debatermos. Tenham todos uma boa noite, e até amanhã.

Cocei com força os olhos, desliguei o aparelho e decolei abraçado nas asas de uma enorme barata branca por terras geladas, por terras submersas. Então deslizei vagarosamente para a parte do dia em que eu era finalmente eu mesmo. No sono.

* Uma Golden Shower Queen, na visão de Carl Solomon:

"Eu já tinha ouvido falar deste tipo de homossexual há muito tempo, mas nunca havia encontrado um em carne e osso até 1955, quando um deles me apanhou na rua. Parece que sua preferência era por homens que urinavam na sua boca".


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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

MEMÓRIA {Anna Christina Saeta de Aguiar]

Quantas pessoas a gente encontra e perde ao longo da vida? Pessoas que um dia fizeram parte da nossa rotina, e de quem hoje lembramos apenas o nome ou o apelido. Gente da nossa infância ou adolescência, tempo bom em que quase todo mundo vira amigo, mas que hoje poderia dançar sem roupa em cima da mesa na nossa frente que não reconheceríamos nem que a nossa vida dependesse disso. Com quanta gente eu já dividi um chocolate, um cigarro, uma ida ao cinema e que, por uma circunstância qualquer, sem nenhuma briga ou rompimento, ficou para trás, enquanto a vida seguiu?

Algumas dessas pessoas que perdi pelo tempo devem também se lembrar de mim, espero. De algumas, lembro histórias, casos, situações. Todas elas foram de tal forma perdidas que seria impossível reencontrá-las se quisesse. Não há sobrenomes ou pistas que permitam qualquer busca. E, para falar a verdade, não sinto qualquer simpatia pela idéia de resgatá-las, pois estão tão bem situadas na minha história passada que prefiro manter a intocada a lembrança, sem releituras. São personagens quase poéticos de um tempo que parece não ter existido de verdade.

Como a Rosinha, que tinha lindos cabelos lisos. Rosinha morava na mesma rua que eu, no bairro do Cambuci. Eu tinha 6 anos quando a conheci. Lembro que era uma menina delicada, muito carinhosa e que tinha um pai italiano muito bravo, que mantinha um armazém na parte de baixo da casa. O pai da Rosinha só a deixava brincar de vez em quando, desde que ficássemos na garagem ao lado do armazém, sob as vistas dele. Para chegar à casa dela, era preciso passar pela garagem e subir a escada. Então, com ajuda da mãe dela, eu me esgueirava pela garagem, passando rápido pela porta lateral do armazém, sem fazer nenhum barulho, para poder subir e brincar com ela em casa sem que ele soubesse. Lembro que o quintal era enorme e que eles tinham uma criação de coelhos. Eu nunca tinha visto um coelho de verdade antes de ir à casa da Rosinha. Coelhos têm olhos vermelhos!

Na mesma rua, numa casa bem perto daquela em que morávamos, ficava o salão de beleza de uma japonesa. A japonesa tinha um filho chamado Carlinhos, que era da minha idade e estudava na mesma sala que eu. Íamos para a escola todos os dias juntos, às vezes levados pela D. Abgail - que era a merendeira da escola e sempre me separava bolachinhas extras na hora do almoço! - e outras vezes pela minha mãe. Um dia, Carlinhos queimou a mão brincando com fogos de artifício. Lembro-me da mão enfaixada, da pomada amarela visível na ponta dos dedos e de que me incumbiram de ajudá-lo a abrir a lancheira na hora do recreio. Um dia minha mãe me contou que Carlinhos tinha dito que eu era namorada dele. Mas eu já tinha um namorado...

O meu "primeiro namorado" foi o Ricardinho, filho de um casal que meus pais conheceram na lua-de-mel. Ele tinha a mesma idade do meu irmão, ou seja, era dois anos mais velho que eu. Brincávamos muito, brincávamos de tudo, brincávamos os quatro - meu irmão e eu, mais Ricardo e o irmão dele. Um dia, estávamos brincando de "mês", aquele jogo em que uma dupla sai da sala e escolhe um mês, para ser adivinhado por um outro jogador que, então, poderá escolher "o que quer da vida". Sei que uma hora fizemos dupla e lá fomos nós, para um quarto escuro, onde ele declarou que me amava para sempre e que iria se casar comigo quando crescesse. Doce lembrança... Colamos os lábios e juramos que jamais contaríamos para ninguém sobre o nosso namoro, demos três beijinhos nos dedinhos cruzados e cumprimos para sempre nossa promessa: nunca contamos para ninguém.

Tem gente que encontrei e perdi durante a adolescência, como um garoto chamado Glauber, que estudou comigo durante alguns meses e uma vez me mandou por correio uma foto dele tomando banho de espuma numa banheira quadrada. Um moço chamado Mauro, que trabalhava num supermercado e por quem nutri avassaladora paixão platônica. Soube depois que esse rapaz morreu afogado numa represa. A Marta, que trabalhou comigo num escritório e que, um dia, ao me ver com um arranjo de flores nas mãos, pediu para eu jurar que não eram para ela, pois era dia de seu aniversário e ela detestava flores... e não eram mesmo para ela as flores. Leni, Fabio, Renata, o Tom e o Caco... A lista é enorme.

Outro dia, não sei por que motivo, comecei a pensar nestas pessoas que encontrei e perdi, relembrando estas histórias que, para mim, são preciosas. Se é verdade que a vida inteira passa diante dos nossos olhos antes da morte, foi uma prévia do que pode acontecer. Penso em quantas pessoas mais eu lembraria se fizesse um esforço intensivo para isso. De todos, espero que, estejam onde estiverem agora, estejam bem. Tenho por eles um grande afeto. Fazem parte da minha história e da minha vida da forma mais definitiva que existe: na memória.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

RECADO >> Carla Dias >>

Tenho um recado para você.

Não caiu do céu o tal, nem das tardes solitárias, observando impossibilidades. O que tenho a dizer está estampado na rotina das coisas e dos pensamentos. Foi fisgado à luz da lamparina, ao tremular das chamas das velas, e de toda forma de iluminação.

Meu recado não está escrito em papel de pão, sulfite ou bloco de notas. Não vem das cartas e seus mistérios. Não precisa ser lido pelos búzios. O que tenho a lhe dizer é um tanto menos espetacular... Apesar da importância que abarca, de ser indispensável a consciência sobre o que representa.

Esteja atento aos mistérios, que sinuosos e intrigantes, aguçam a nossa capacidade de reverberar significados.

E espero que, recado dado, você possa maravilhar-se com o que está ao seu alcance, antes de alçar vôos mais ousados, pois para tudo há tempo e ciência. É preciso prestar atenção a cada volta que a alma da gente dá. E também contemplar os resultados das nossas jornadas. Senão, viveremos pela metade, sem sabedoria para desfrutar dos aprendizados mais complexos.

Na simplicidade vive a complexidade, não o contrário. Sem saber da simplicidade, dos inícios, jamais desfrutaremos do aprendizado sobre a complexidade... E poderemos nos perder nas entrelinhas, no desconserto.

Como eu disse, meu recado não é dos desconhecidos. Talvez seja mais um lembrete, como tantos outros que a vida tende a nos enviar. Porém, que sempre haja quem nos envie tais recados; que repitam até ouvirmos tais des-novidades, pois sempre haverá aquele que, por esquecimento, dependerá dessa fonte para matar a sede por rumo. Reaprenderá o ensejo e se aproveitará dele. Reconstruirá sua biografia, mas dessa vez, do início.

Os inícios são essenciais.


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domingo, 13 de janeiro de 2008

UNS PÉS >> Eduardo Loureiro Jr.

Foto: Ozita AlbuquerqueEnquanto ela massageava deliciosamente meus pés, eu falei sem desconfiar que abalaria sua auto-estima sexual:

— Isso é melhor do que sexo!

Do próprio Jesus Cristo, eu não invejo o poder de fazer milagres, mas o fato de ter tido os pés lavados, e depois enxutos, pelos cabelos de Maria, a irmã da trabalhadora Marta. E o reconheço como Mestre não por ter morrido numa cruz, mas por ter lavado os pés de seus discípulos.

Cabeça, coração, olhos, sexos... partes do corpo tão presenteadas com louvores em contos, romances, versos e canções. E o que sobrou para os pés? Um jogo estranho com a mais incompreensível das regras: o impedimento. Mesmo assim, em sua humildade, os pés transformam chute em dança.

Quando dormimos, eles estão de pé, alertas, prontos para qualquer eventualidade. Quando despertamos e nos levantamos, eles nos suportam, passo a passo, muitas vezes aprisionados em chinelos, sandálias, sapatos.

Se à minha futura esposa me fosse permitido fazer um único pedido, eu arriscaria que ela não me fosse fiel na alegria e na tristeza, pedindo apenas: "Amolegue meus pés todas as noites antes de dormirmos." Ela diria que sim, parecendo-lhe fácil. E eu ficaria me perguntando: será que ela sabe amolegar uns pés com firmeza e suavidade, sem cansaço nem pressa?

Se ao cavalheiro cabe pedir ao pai de sua pretendente a mão de sua filha em casamento, não seria justo que a nobre dama pedisse à mãe de seu pretendente os pés de seu filho?

Ah, quando o ser humano descobrir que a felicidade vem pelos pés...

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VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ? >> Felipe Holder




Tem gente que gosta de alardear a própria coragem, dizendo que não tem medo de nada. Eu duvido. Todo mundo tem medo de alguma coisa, por mais que diga que não. Uns têm medo de morrer, outros têm medo de viver, outros têm medo de palhaço... tem gente até — imagine você! — que tem medo de borboleta!

Quando eu era pequeno tinha muitos medos: medo dos monstros de Perdidos no Espaço, medo dos filmes de Vincent Price, medo de ouvir o galo cantar de madrugada, mas o meu maior medo mesmo era medo do escuro. Medo comum, que quase todas as crianças têm, mas só que o meu não era exatamente medo. Era pavor. Eu tinha pavor do escuro. Depois de grande (bem grandinho, para ser mais preciso) o medo foi embora. E não foi por descobrir que o bicho-papão não existia, ou por saber que os fantasmas não iriam se aproveitar para aparecer na minha frente quando a luz se apagasse; simplesmente o medo foi embora. Inexplicavelmente.

Medo é mesmo uma coisa inexplicável. Você se lembra da campanha presidencial de 2002?
Naquele ano, Regina Duarte apareceu no programa eleitoral de Serra pra dizer que tinha medo do que poderia ser do Brasil se Lula fosse eleito presidente. Caminhávamos para nos transformar uma “Argentina”; seria o caos e a (perdão pela palavra deselegante) merda iria virar boné. Foi criticada, hostilizada, e seu depoimento sumiu da telinha. Mas sumiu para dar lugar a outro, cuidadosamente preparado para ser ainda mais aterrorizante: depois de Regina Duarte, quem apareceu na TV para dizer que tinha medo foi Beatriz Segall. E foi mesmo assustador. Ela disse que estava “com medo de dizer que tinha medo”. Fui levado a crer que seria medo dos eleitores de Lula. Medo, talvez, de ser linchada por eles em praça pública só porque ousou dizer o que pensava. Eu, hein? Ambas disseram ter medo do Lula presidente, mas nenhuma delas teve medo do ridículo. Vá entender...

Hoje, depois de grande, continuo tendo meus medos. Medo de aranha caranguejeira (a de verdade, esclareço, antes de qualquer insinuação maldosa), medo de errar, medo de decepcionar as pessoas de que gosto, medo de não ser um bom pai, medo da violência, medo de ver nossa cultura ainda mais desprezada e desvalorizada, medo de ver a mediocridade tomar conta do nosso país, medo de o Brasil não ter mais jeito.

E você? Tem medo? De quê?


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sábado, 12 de janeiro de 2008

SILÊNCIO! [Mariana Monici]


Eu não consigo funcionar bem mental e emocionalmente com ruídos. Ou uma coisa ou outra - acho que não sei nem preencher um cheque com fones no ouvido. Não entendo a escolha deliberada de poluir sonoramente um ambiente que já não é tranqüilo. Já repararam a quantas andam os ambientes pelos quais circulamos? É uma coisa impressionante. Tem lugares que não se pode escolher, ok, faz parte: trânsito, aniversário infantil em buffett , shows, isto tudo é compreensível e vem no pacote da escolha do programa predileto ou necessário.

Por outro lado, alguns lugares são extremamente barulhentos e nos expulsam como que um grito de horror em castelo mal assombrado (tá, posso ter exagerado... são duas da madrugada!). Hoje fui a um supermercado, destes bem grandes e que tem um nome forte. Não calculei bem, ou não me lembrei que era sexta-feira e acho que isto justifica estar um pouco cheio de gente comprando e abastecendo o fim de semana. A maioria carregava latas de cerveja, outro vi carregando fraldas e outros um monitor LCD. Pensei: “Que mundo mais maluco, eu só quero fazer um jantar...” Claro, maluca sou eu, que encaro um negócio destes em plena sexta por causa de um jantar pra duas pessoas.

Bom, o ar condicionado estava quebrado, de forma que ouvia os clientes reclamando e as meninas de patins suando e se justificando - o próprio caos. Eu não precisava mais do que dez itens, o que me dava uma enorme vantagem de encerrar logo o perrengue. Fui à banca de queijos e quando me abaixei par escolher, veio o som dentro dos meus ouvidos, tirando qualquer concentração nos queijos, ou no jantar ou em qualquer coisa: uma televisão estava instalada bem no meio dos queijos. Nela, passavam propagandas dos produtos e anúncios da TV à cabo. Não podia acreditar: nem na minha casa ligo a televisão, não era possível que precisasse me deparar com aquilo!?

Ouvia crianças chorando e algumas tomavam bronca por isso, outras totalmente sem limites subiam atrás dos carrinhos de compra e deixavam que o destino as freassem bem em cima das garrafas de vinho; as mães não diziam nada. Novamente quis estar em minha casa, assistindo um bom DVD tomando coca-cola gelada e mandar pelos ares o tal jantar.

Quando chego na fila do caixa rápido, algumas pessoas tiravam suas compras do carrinho e equilibravam diversas caixas de leite nas mãos para ter o direito de estar na fila dos 15 itens. E mais uma novidade: uma TV instalada na fila, com um som baixo que ninguém entendia, mas também incomodava.

Então, me dei conta: porque esta escolha pelo barulho? Já havia tanta gente falando, música no supermercado e mais a televisão, além dos barulhos pelos quais não temos escolha: criança chorando, cliente reclamando - coca e cerveja geladas não existiam para vender, apenas marcas estranhas e totalmente suspeitas.

No trânsito não é diferente: mal abre o semáforo e alguém já está buzinando. Sem falar nos motoqueiros que fazem questão de acelerar com aquele barulho que nem sei como fazem, mas penso que seja proposital.

Em casa, ninguém se levanta para falar com a pessoa ao redor. Um está no quarto, o outro na sala e, então, gritam suas solicitações querendo ser mais poderosos do que a TV, o rádio ou mesmo a conversa estabelecida com um terceiro.

Eu, que não gosto do marasmo, simbolicamente vivo pedindo que aumentem o som, mas não é disso que estou falando... Vamos combinar que silêncio é essencial para o bom funcionamento do indivíduo. Exceto, sábado a noite quando, por escolha, você PRE-CI-SA de barulho pra dançar.

Minha proposta, então, é diminuirmos o ruído, que este mundo até quieto, está pra lá de barulhento! Acabo até me lembrando das minhas professoras primárias de quase trinta anos atrás pedindo silêncio... Afinal, quem consegue pensar no meio da confusão?

Outras Cenas

Imagens: Dial, Mathias Kulka; Engren, Peter Maltz

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

INEVITABILIDADE >> Leonardo Marona


O ideal seria poder gritar para nunca mais olharem para mim daquela forma. E que não lessem isso como lamentação irada. E que meus dedos parassem de se mexer à toa. E eu de fato grito. E eu do grito faço a porra. Aquilo que vai e fica no pau dependurado. Mas o grito sai mudo e ninguém escuta nada. Porque tudo que é mudo muda tudo e rega a muda morta do bem e do mal. Enterro a dúvida para sempre debaixo da vala, faço da vida a morte da fala. Então somos capazes de sorrir. Mas os sorrisos de agora vivem da morte do entusiasmo. Porque esquecemos do que realmente se trata o entusiasmo. Afinal, quem se trata é paciente e eu tenho pressa em saber que doença é essa que pode desmentir meus olhos. E a morte é só aquilo que me dizem enquanto sangram os porcos. Então duvido de mim mesmo, dos ouvidos, dos sinônimos, do dilúvio, do desprezo. E penso: e peso: e meço as conseqüências. É isso enlouquecer? A balança não responde, está enlouquecida. E continuam me olhando de cima a baixo. Uns tentam entender, se aproximam sem pressa, outros entendem bem mais do que tentam. Faço a mim mesmo de capacho e gosto do gosto da terra molhada amassada na gengiva rasgada durante alguns sonhos. Sara, sua saia sacia! E eu continuo aqui sem cria, sem credo, sendo que aqui pode ser lá, noutro lar, debaixo de outro teto, mas continua sempre sendo aqui, como se o aqui fosse o passo paralisado. E continuo sem saber de onde vem aquilo que não encontro. E uma pessoa me diz ao telefone que sou amargo demais. Que rio pouco, que sou calmo demais, rabugento demais, irritado demais, que tenho um ótimo humor, que hesito demais, falo demais, contradigo rápido demais, e de que adianta então saber? Não se decidem sobre mim. Apenas se livram com seus nomes e dedos nos olhos. Eu gosto assim. Calmamente triste é quase feliz. E o que me faz parar é a continuidade daquilo que abala as bases sólidas da dúvida eterna: a pressa pelo fim / a demora pelo começo. Não havia mais pelo que gritar. Não havia grito por que fazer. Não havia fato por grito feito. Eu mesmo tento ouvir direito, mas fico ali com meus pequenos barulhos. Minhas lufadas asmáticas. Procuro me guiar pelo que se aproxima do silêncio. Os cabelos caem a passos largos, a barriga incha a olhos vistos, os olhos murcham e se avermelham, a cabeça incha e a paz some. Mas os ponteiros não param nunca, o instante permanece em movimento, o que se chama eternidade, os carros, as pessoas, as promessas, o futuro, passam todos sem deixar rastros, mas deixam marcas substitutas. E não posso evitar que me olhem. Não posso evitar olhar. Os olhos sempre percorrem aquilo que nunca esteve lá. Algo que está sempre me abandonando: o tal maldito e devido lugar. As coisas se fecham sem ao menos se mexer. Eu me mexo sem ao menos me fechar. Duro trinta segundos a cada minuto e com isso tenho mais muitos anos pela metade. A cada minuto humano, para mim é sempre momento de baixar os panos. Eu não posso mais dizer eu não posso mais dizer eu. Queria escrever como a rosa é bonita e que isso significasse mais do que a velha falou em Paris. Queria sorrir sem precisar dar a mão. Queria saber quem foi Debussy. Mas preciso não ver para permanecer aquilo que de mim se faz você. E, vejam bem, você quer dizer vou ser, no minuto em que você – ou vou ser – fizer de mim o outro da vez. No minuto que durar apenas um minuto, soltaremos fogos e não vou querer mais baixar os braços. Riremos juntos do tempo e vou recolher meus trapos numa sacola e vai ser a primeira vez que o vento vai me ajudar a andar em vez de me encher a cara de poeira. Agendar a tristeza para o próximo dia útil. Apostar com o diabo nos cavalinhos. Beberemos cerveja, eu e o diabo no prado, e quanto ao resto, ficaremos calados. Felizes e calados como o primeiro segundo depois do amor. Daí, vou calçar os sapatos, na mão em riste vai meu dedo polegar, com Jack London em qualquer vagão, para qualquer lugar onde esteja escrito vá com exclamação. Guardarei nos olhos a mostra morta da paixão, nos bolsos o que se falou até aqui sobre a vida, do perdão e do que não pode mais ser perdoado. Melhor não falar mais nada. Lá fora pedem que eu ande mais rápido. Lá fora até as árvores têm pressa. Até os que voam sentem fome. E quanto mais fundo se mergulha, maior a sede. E quanto maior a sede, maior a mentira por um copo cheio. E mesmo os bêbados perdem o nome, mas mantém o corpo alheio. Arrasto-me pelas calçadas coçando a cabeça e olhando para o chão. Um dia saberei o que me faz coçar tanto. Essa frase é tão desnecessária quanto um ponto-vírgula. E nesse dia a coceira será ferida. A ferida será aberta. E não vai mais coçar porque vai arder. Porque o pus do silêncio será mais violento do que os cascos de uma cavalaria em chão de pedra. A preguiça, mais agitada do que mil perdizes rasgando o céu. Porque entender será sempre julgar. E julgar será sempre culpar alguém por aquilo que não se pode evitar em nós. E culpar será sempre magoar o que não se pode mais tocar. E magoar será sempre projetar. Aquilo de ti que ainda não foi embora e me habita, me escorre pelas canelas.


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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

AO SOM DAS BRITADEIRAS >> Carla Dias >>

Lá fora, os moços da Comgás aproveitam a madrugada para consertar sei lá o quê. Tivesse de ser consertado sob a luz do dia, certamente atrapalharia o movimento da avenida onde moro. Imagine o caos: desestabilizar o tráfego; ruir com a rotina do comércio, com o entra-e-sai nos bancos.

Aqui estou... Já é madrugada alta, e escrevo ao som das britadeiras. Imagine o caos: não conseguir fechar os olhos e dormir, às duas da madrugada, por causa do baile da Comgás. Antes nós, não é mesmo? Pessoas que precisam acordar cedo no dia seguinte para encarar correrias e trabalho. Nosso bem-estar, a quem mais importaria senão a nós mesmos?

Recorro ao mp3 player e às canções antigas, algumas mais antigas do que eu. Ando nessa de botar o passado na mesa. Lembro-me da última casa onde morei com minha mãe, e que ela levantava cedinho, porque fazia questão de preparar o meu café antes de eu sair para o trabalho. Às vezes, eu conseguia enganá-la... Acordava mais cedo, desligava o despertador e a deixava dormindo um pouco mais. Era um bairro silencioso. As britadeiras andavam longe de lá.

Estou em férias, mas parece que não conseguirei descansar de jeito nenhum. Minha cabeça fabrica pensamentos sem parar, e eu quieta, praticamente estática. Fazendo nada desses pensamentos. Fiz uns dias de dieta, mas deu uma fraqueza... Até que parei de pensar tanto e me senti vazia, o que não tinha nada a ver com a dieta. Comi dois tomates, além da conta, e pude fabricar pensamentos por mais algumas horas. Aí passou o efeito, e voltei ao vazio... E senti falta de mim ... Comi torradas e tomei coca-cola light.

A dieta dançou, mas os pensamentos vão bem, obrigada! Inclusive aquele que esclarece que, ao andar dessa carruagem, jamais entrarei no vestido de festa da vida. Mas ok. Quem sabe consigo, dia desses, confeccionar meus próprios vestidos. E caber neles como cabe em mim essa maluquice de pensar tanto sobre tudo.

Li na ficha técnica de um filme: "Assistente de Barulhos na Sala". Como já disse, estou em férias, e ela sempre me serve para perder a noção do tempo. Sobram o dia e a noite. O Assistente de Barulhos na Sala, hoje, é o homem que conduz a orquestra. Ao invés da batuta, a britadeira. Mas em dias de rotina, também eu ocupo essa função... Inventando barulhos, como os dos passos de um caminhar em círculos, enquanto busco o fio solto que abrirá caminho para um novo rumo.

Ah, o som das britadeiras se sobrepõe ao do meu mp3 player. Será uma longa e barulhenta madrugada. E amanhã, a avenida estará funcionando normalmente, mas nós, nem tanto.


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