segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

2008 - Um Ano Guerreiro >> Claudia Letti

A Roda da Fortuna, cores vermelha e marrom, planeta Marte, Ogum, Xangô e Iansã, Números 1 e 10, Rato no Horóscopo Chinês. Tudo isso vai simbolizar, reger, orquestrar os dias de 2008, um ano em que dançar conforme a música não parece ser a atitude mais apropriada, exceto, é claro, se você for um exímio dançarino. Com todo respeito e admiração pelo Mestre Pagodinho, deixar a vida nos levar pode ser um enorme desperdício.

Marte pede novos começos, inícios, colocar a coragem, a ousadia e a vida em movimento no trabalho, num empreendimento, num relacionamento ou num hobby. Este não será um ano para ficar comendo mosca ou para investir tempo e paciência em projetos aposentáveis. Deixemos o comodismo para anos menos animados. A hora é agora, urgente, impulsiva, assertiva. Pra quem gosta de pesar os prós e contras de qualquer decisão antes de dar um passo adiante, 2008 talvez apresente um dos 10 raios da Roda da Fortuna, a carta do Tarot que pode girar e virar a vida de ponta cabeça, pedindo atitudes, esteja você munido de coragem ou não. O Deus da Guerra exige que você lance seus dardos e quanto menor o medo, maiores a chances de acertar o alvo.

Irritabilidade e impaciência podem ser manifestos no seu dia-a-dia e se você não gosta de ter arroubos temperamentais, é melhor não ficar pensando na morte da bezerra porque, do contrário, essa energia bruta que comandará o ano, vai dar um jeito de irritá-lo de algum modo, pra que você dê a partida e arranque. Arrancar, aliás, é a palavra de 2008.

Se na astrologia ocidental Marte quer anunciar guerra, na oriental, os chineses creditam a um ano de Rato, um tempo de abundância e de boas perspectivas para os negócios de um modo geral. O horóscopo Chinês afirma que um ano de Rato é propício à paz e tece um tempo onde as catástrofes acontecem em menor número. Mas, quem disse que Marte não quer a paz especialmente se através dela se pode vencer?

Marte pode estar apenas nos pedindo por uma batalha interna, uma mudança de atitude que levará a execução de sonhos, de objetivos, de modo a se sentir recompensado, reconhecido, realizado.Trocando em miúdos, vencer nossas lutas internas sempre tem um sabor de vitória. É como declarar guerra à falta de atitude para atingir a paz de espírito. De todo modo, Rato e Marte concordam que os empreendimentos iniciados em seus anos de regência tem mais chance de sucesso. Que assim seja!

Ogum (o velho e bom São Jorge da Igreja Católica), um dos orixás regentes de 2008, segundo a Umbanda, tal como Marte, igualmente estimula a combatividade, a liderança e a agressividade. Iansã, a Deusa dos Ventos, suscita coragem e impulsividade. Xangô, outro regente umbandista, influencia as atitudes enérgicas acompanhadas de um bom tom de autoridade. Autoridade e liderança são vibrações do número um (2+0+0+8=10 =1), que também aguça a capacidade intelectual, a inteligência e a disposição de assumir riscos. Xangô ainda fortalece os estudos e as pesquisas e é também a imagem do sábio, da justiça que um dia chega. Justiça é a carta de Tarot representada pelo número 8... E, enquanto estou escrevendo esta crônica e os símbolos tem conexões tão claras entre si, fico pensando que não dever mesmo ser por acaso.

Podemos acreditar em tudo isso ou simplesmente ignorar como bobagens "esquizotéricas". Como não sou taróloga, numeróloga ou umbandista, pesquisei sobre os regentes e as cartas por pura curiosidade. Não sou expert em previsões, mas gosto desses ventos que sugerem mudança, melhora, abundância. Felicidade. Talvez 2008 seja um ano pra isso mesmo, pra exercitar a curiosidade, ser criativo, ousar um primeiro passo, não olhar pra trás e, sem deixar a vida nos levar, tratar de assumir logo a frente de combate.

Bem, se pra você Marte é apenas um planeta, um rato é somente um roedor, um Orixá não lhe diz muito, um Arcano é uma carta e um número não passa de um número, então, definitivamente somos os senhores do nosso destino e podemos determinar quando e onde seremos felizes. Pode ser cantando Ben Jor, vestido e armado com as armas de Jorge ou cantarolando Gonzaguinha, afinal guerreiros são fortes, são frágeis, são meninos -- como esse ano novinho, criança, brincando de dar seu grito de guerra.

Se for apenas isso, simples assim, que seja um grito claro e cheio de energia pra encher e preencher esse 2008, esse ano guerreiro, com muita alegria.

Saúde!

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domingo, 30 de dezembro de 2007

O ANO EM QUE SOU FELIZ >> Eduardo Loureiro Jr.

Matthias Kulka / corbis.com
Você já tentou puxar um ano pela memória? Não é fácil. O tempo de agora não olha para o tempo passado como se olha para um calendário organizado dia após dia.

O que lhe aconteceu no dia 13 de fevereiro? Ou em 21 de maio? Que tal 5 de setembro? Nesse mesmo dia 30 de um mês atrás, novembro, o que lhe aconteceu?

Eu não me lembro o que aconteceu comigo em qualquer uma dessas datas, mas meu programa de e-mail lembra.

13 de fevereiro. Indiquei para a minha família um site de cálculos de todos os tipos (financeiros, trabalhistas, horários, imobiliários). Conversava com meu caro amigo Fabiano sobre a fundação de uma ONG. Solicitei inscrição numa lista de audiovisual. Parabenizei meu primo Guto enviando pra ele uma imagem de Ekeko, uma divindade boliviana da prosperidade. Conversava com minha querida amiga Inês, uma de minhas correspondentes mais constantes nesse ano, sobre possíveis mudanças de cidade que faríamos.

21 de maio. Eu e minhas irmãs conversávamos sobre o presente que daríamos a minha mãe, que aniversariaria sete meses depois. Enviei para meu mestre amigo Antônio de Pádua um início de melodia para uma idéia de letra que ele tinha.

5 de setembro. Eu tentava encontrar um designer gráfico que fizesse as ilustrações do meu site de Astrodramaturgia. Escrevi para uma desconhecida, Kristina, astróloga e moradora de Redonda — a praia que inspirou meus dois primeiros livros infantis. Pedi a Manon, uma amiga canadense morando na Austrália, que reenviasse uma imagem que eu não tinha conseguido abrir. Explicava para meu amigo Manu como acessar os textos antigos do Crônica do Dia, que estava de cara e estrutura novas. Conversava com Inês sobre "O Segredo". Trocava impressões com minha amiga e talentosa escritora Carla Dias sobre a retomada do Crônica do Dia. Conversava com minha amiga Patrícia sobre pathwork e estar me permitindo novas experiências amorosas. Brincava com Felipe, meu mais assíduo correspondente virtual, sobre um problema no computador dele. Retomava o contato com minha amiga Alemilda. Conversava com minha querida amiga Nininha sobre uma de minhas crônicas. Avisava a família sobre uma nova promoção da GOL: trecho de volta por 10 reais.

30 de novembro. Acertava com a "comissão organizadora" do aniversário de 60 anos de minha mãe os detalhes sobre o convite, e relembrávamos histórias curiosas sobre a vida dela. Questionei minha amiga Gisneide sobre umas previsões amorosas que ela estava fazendo pra mim. Trocava apresentações PPS com Nininha. Dava pitacos no rascunho de uma crônica do Felipe. Tentava reanimar minha querida Cris após um dia particularmente cheio. Terminava de corrigir a tradução para o inglês de uma de minhas crônicas feita por Manon.

Essa microlista parece confirmar a suspeita de Platão sobre a escrita e a memória humana: segundo ele, a escrita tornaria os homens esquecidos. Registrar eventos e conversas é uma forma de perpetuar acontecimentos, mas não diz muito sobre o sentido da vida. Que ano foi esse pra você e pra mim?

2007 foi o ano em que fiz coisas impublicáveis — perdoe-me desde já o leitor curioso. Foi o ano em que saí pela primeira vez do Brasil. O ano mais musical, em que mais compus canções. O ano mais sexual, de fala e de fato. O ano mais espiritual, compassivo. O ano em que sistematizei a Astrodramaturgia. O ano em que... Mas isso, também, o que diz?

O ano que está terminando de passar foi, para mim, o ano de ouvir o coração e não julgar. Ouvir meu coração e não me julgar. Ouvir o coração do outro e não julgá-lo. Como é leve o mundo e a vida quando reduzimos o julgamento.

2007 não foi apenas o melhor ano da minha vida — até agora —, mas também o ano em que descobri que cada próximo ano será melhor ainda, não importa o que aconteça.

Um ano assim só pode terminar, da minha parte, com um profundo sentimento de gratidão. Ao tempo, esse "senhor tão bonito", esse "mano velho", que tanto tem me ensinado. E a todas as pessoas, a você, que esteve perto de mim durante esse ano. Ver, ouvir, ler, tocar, beijar, abraçar, cheirar... você foi o meu principal prazer durante 2007. E fique por perto em 2008, porque o melhor está apenas começando.

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sábado, 29 de dezembro de 2007

MENSAGEM DE ANO NOVO [Maria Rita Lemos]


Pensando bem, no ano que está acabando, nem tudo foi como sonhamos; mas isso não significa que temos que avaliá-lo como um ano ruim.

Quem crê num Poder Superior sabe que tudo o que aconteceu, e tudo o que ainda vai acontecer no ano que vem chegando, seja bom ou ruim, vai contribuir para o nosso bem maior, mesmo que não pareça à princípio.


Chico Xavier escreveu uma vez que “podemos ter um governo mais ou menos, morar numa rua mais ou menos, numa casa mais ou menos e dentro de uma cidade mais ou menos. Podemos também comer mais ou menos bem, dormir numa cama mais ou menos, e até acreditar mais ou menos no ano novo que vem chegando. Podemos, enfim, olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos. Mas o que não se pode, de jeito nenhum, nem nesse ano que está aí pertinho nem nos outros, é ter fé mais ou menos, acreditar mais ou menos, ser ético e honesto mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, e, o pior, não podemos, em nenhuma hipótese, sonhar mais ou menos ou amar mais ou menos. Se fizermos isso, vamos nos tornar uma pessoa mais ou menos, que é o pior que nos pode acontecer.

Tenho certeza de que as pessoas valorizam a festa de Ano Novo pelo desejo de renovação que esse “ritual de passagem” traz em seu bojo.

As comunidades antigas expressavam isso jogando fora roupas e objetos que já não usavam, simbolizando assim a eliminação de tudo o que, em suas vidas, estivesse “envelhecido”. Também se cultiva, até hoje, o hábito de “pular as sete ondas”, entrar no mar, em cachoeiras, enfim, lavar-se como um rito de purificação para despojar-se de tudo o que foi ruim no ano que passou, preparando-se para receber o Ano Novo.

Não importa quanto tempo vamos viver, se trinta, setenta ou oitenta e poucos anos, nunca saberemos completamente os segredos da vida. Por isso, neste ano que chega, que todos possamos viver intensamente, sem rancor nem ódio algum, e que possamos cantar um só hino de paz, fraternidade e Amor.

Falta muito pouco tempo para que os fogos de artifício se façam ver no céu, enquanto brindes irão se cruzar anunciando o Ano Novo que está chegando. Neste momento mágico, muitas pessoas vão se abraçar, os amantes se beijarão, e todos, num só pensamento, vão exprimir um único desejo: haja paz e amor suficientes para que atravessemos mais um ano em nossas vidas. Nesse dia, independentemente da nação, da cidade em que estamos, da nossa cor, classe social, orientação sexual, origem ou língua, é importante que sintamos que somos filhos de um único Pai, independente do nome que damos a Ele. E, sendo filhos desse Pai amoroso, nos lembraremos de um único verbo, o mais importante para Ele: Amar.

Palavra de Mulher

Imagens: Children's Hands on a Globe, Don Hammond; Relógio do Apocalipse; Romantic Hospitality Tray, Roger de la Harpe

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MULHERES À FRENTE DO SEU TEMPO [Débora Böttcher]


"O que marca um líder é sua capacidade de absorver fracassos." (Benazir Bhutto)

*21/06/1953 | +27/12/2007


A Revista Claudia de Janeiro, com entrega prevista para o próximo dia 04, amanheceu debaixo da porta nessa sexta-feira. Numa rápida folheada, foi possível saber o motivo da antecipação: uma das principais matérias traz o retrato de Benazir Bhutto, assassinada durante um atentado no dia anterior.

No artigo, a história da ex-premiê, elaborada pela repórter Marília Scalzo, não tem final: uma nota ao pé da página diz que quando o texto foi escrito, o Paquistão permanecia em estado de exceção, com as eleições de 08 de Janeiro garantidas e a candidatura de Bhutto assegurada.

Não sou especialista em política - muito menos internacional -, mas acompanho, ainda que de longe, a trajetória de algumas mulheres - líderes por natureza, centradas em lutas acirradas, com ideais visionários e coragem destemida.

Benazir Bhutto é uma dessas mulheres, cuja vida foi marcada por extremos - como é próprio a seres com causas irreverentes. Saiu da infância privilegiada e romântica em fazendas no Paquistão para ser educada em Harvard e Oxford, construindo seu destino político quando prometeu ao pai, deposto por golpe militar e condenado à forca, continuar sua luta pela democracia - uma promessa dura de cumprir, considerando as linhas radicais do Oriente.

Viveu em prisão domiciliar, mas foi numa cela no deserto, onde permaneceu por três anos, doente e privada de tudo, que começou a acreditar que 'Deus só nos dá a carga que podemos aguentar.' Com permissão para tratar-se de uma infecção fora de seu país, exilou-se em Londres por dois anos. De volta em 1986, foi aclamada pelo povo e em 88, aos trinta e cinco anos, tornou-se a primeira mulher a comandar um país muçulmano. No auge de sua popularidade e única herdeira do legado de seu pai, foi acusada de corrupção - 12 bilhões de dólares perderam-se em negócios obscuros -, e tirada do governo.

Linda, glamourosa, jovem, inquieta, ela polarizava opiniões: era amada e odiada com a mesma intensidade.

Consolidando suas convicções, em 93 venceu novamente as eleições e essa era de ouro poderia ter sido um coroamento que duraria para sempre. Mas em 96, sob as mesmas acusações de anos atrás, foi destituída outra vez, exilando-se em propriedades gigantescas na Europa.

O Paquistão é o segundo país no topo da lista de mais corruptos do mundo e Benazir é considerada a líder que mais auto-enriqueceu através do poder. Ela sempre negou essa acusação. Pesa sobre ela ainda os piores registros de execuções extrajudiciais, torturas e mortes de prisioneiros sob custódia, além do fato de ter ajudado a fortalecer, armar e financiar grupos no Talibã. Diferentemente do que Benazir afirmava, um coro de feministas a acusa de nada ter feito pelas mulheres de seu país, que lutam pela revogação de leis, baseadas na religião, para julgar casos de adultério e estupro.

Benazir retornou à sua terra natal em 18 de Outubro depois de oito anos de exílio voluntário, com a chance de resgatar sua credibilidade e recuperar o prestígio de outros tempos. De mãos voltadas para o céu, seu inseparável lenço branco cobrindo os cabelos, olhos marejados e vasta esperança na bagagem, ela desceu do avião em Karachi, ao sul do Paquistão, com discurso de conciliação em defesa da democracia, outra vez
candidata à presidência civil.

Carismática, foi saudada por 250 mil pessoas. Escapou ilesa a um primeiro atentado nesse mesmo dia e sabia que sua vida corria risco. Mesmo assim, sem perder seu foco de idealização, continuou sua peregrinação, valente e engajada.

Na última quinta-feira, sua alegria ao ouvir o povo aclamá-la, a fez romper as normas de segurança, expondo-se como alvo de peito aberto: a sorte vacilou, seu corpo tombou inerte, sua voz está calada para sempre.

Símbolo de modernidade, a história de Benazir Bhutto foi pontuada por contradições: sua determinação e ousadia a levavam do auge à ruína, e cada revés fortalecia mais seu espírito imbatível.

Na análise superficial de seu percurso, não consigo definir se ela era princesa ou bandida, mas não há dúvida de que sua morte a transformou de ícone em mártir.

Imagens: AFP e Reuters

Expressões Letradas

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

JULIE LONDON >> Leonardo Marona


De tirar sangue, a última vez: uma pena na cueca. Que galinha? Dois dedos de uísque na garrafa. Agressões verbais, seguidas de hematomas no pescoço, intercalados com gritos lancinantes de ódio e paixão.

Ele voltou um mês depois. Estava mais magro, tinha sujado a camisa com gordura na pastelaria chinesa. Viu a pastelaria sendo lavada no fim do expediente. Um cheiro terrível adocicado. Ficou lilás. Correu até a casa dela. O enjôo o teria levado até lá? Fazia muito tempo. O porteiro já não reconhecia, ficou olhando feito índio.

A porta entreaberta. A mesma luz vermelha. A casa escura com exceção de um caleidoscópio feito com papel reciclado, que iluminava uma mariposa minúscula no teto do quarto. O gato na cama emaranhado entre as cobertas. Gato odioso, ele o adorava. Pôs a cabeça de fora e começou a miar mostrando os dentes para a mariposa, que se mantinha indiferente no teto.

De início, aos dois novos estranhos, olhar a mariposa e falar com o gato. Saída mais natural sempre, a constrangedora. Logo depois um dos dois se levantou da cama, o outro sentou na poltrona, depois foi outro desencontro, então finalmente se abraçaram. O abraço dele durou mais que o dela. Mas ela permaneceu em seus braços como um fantoche sem luxo. Depois se largaram.

Ele passou então a bater o pé no chão, não sabia o que estava assobiando. Os dois sempre riram juntos dessa mania que ele tinha de bater com o pé no chão quando não sabia o que fazer. Mas dessa vez sem risada. Ele vinha atrás de perdão, orgulhoso demais para pedir, burro demais para entender que a questão não era de perdão, de pedir. A questão era de perder.

Mas ele precisava dizer qualquer coisa, qualquer assunto que não fosse mais a mariposa no teto. Não disse nada, tirou os sapatos.

Ela então sugeriu que tomassem uma cerveja. Assim, bruscamente, como quando se encontraram pela primeira vez. Fazia meses que ele estava com hipersensibilidade no cólon do intestino, o que significava defecar constantemente. Pensou nisso quando aceitou a cerveja, forjando brilho nos olhos, então respirou fundo:

- O gato cagou aqui – ele disse.

Olhou embaixo da cama:

- Foram três cagalhões.

Voltou sorrindo até a poltrona. Ela simplesmente coçou o nariz e foi até o banheiro. Apanhou um punhado de papel higiênico e recolheu a merda do gato. Uma bosta seca sobrou, grudada na fenda de uma tábua solta, comida pelos cupins. Ele disse:

- Ficou um pedaço aqui.

Ela voltou e apanhou com a mão. Deu a descarga. Ranger de passos sobre o taco rachado. Ela voltou para o quarto com duas latas de cerveja na mão.

Nada foi dito com muita clareza ou firmeza. Ele tentou um pouco de franqueza. Ela falou que não estava preparada. Precisava primeiro secar as lágrimas. Um silêncio imperial estourava-lhe as veias das mãos, apertadas sobre um joelho.

Ele se levantou para trocar as latas de cerveja pensando em reumatismo. Quando voltou, disse a ela que se arrependia talvez do teor, mas não do conteúdo da última discussão. Estavam ambos exaustos. Ela bocejou sem força e foi até a janela ver a lua. Ele, tão enclausurado em si mesmo que sabe deus onde juntou forças para se mexer, enxugou as latas num instante e trouxe de uma vez outras duas. Então ficou concentrado no caleidoscópio, mamando sem parar. Tocava uma música brega dos anos oitenta no rádio:

- Você gosta disso? – ele perguntou de repente, com o pescoço enterrado, mas delicadamente.

- Eu tenho mesmo cara de quem gosta dessa merda – ela disse sem disfarçar o sorriso: um antigo charme.

Dessa vez não funcionou. Eram dois pombos com as asas quebradas. Ela se levantou da cama e foi até a prateleira, onde ficavam os livros e o rádio. Pegou um livro. A rádio saiu de sintonia e começou a chiar.

- Essa porra dessa antena mal colocada – ela disse inexpressivamente. – Esse livro é teu.

Jogou em cima dele. A Gorda do Tiki Bar, do Trevisan.

- Você gostou? – ele perguntou forjando interesse, não era dia para muitas verdades.

- Não é meu tipo de leitura – ela disse escolástica.

- Mas gostou mais do que do outro...

- Muito mais.

...

- Você quer que eu vá embora? – ele perguntou.

- Daqui a pouco, quero sim.

Ele se levantou, levou as mãos à nuca e permaneceu assim, de pé diante das costas da mulher, que olhava pela janela. O insuportável som das folhas aviltadas pelo vento lá fora. A mariposa também os havia abandonado.

A mulher virou meia cabeça. Estava apoiada na janela. Uma nuvem transformou a lua num conto de Edgar Allan Poe.

- Você não quer mais uma cerveja? – ela disse.

- Você não quer que eu vá embora? – ele errou.

- Eu disse que quero, daqui a pouco – ela gostou.

- Um pouco pra mim não é nada pra ti – ele foi...

...até a cozinha e pegou a última lata. Engoliu seco – a testa úmida – e golfou na pia. Encheu os copos e sentou outra vez na poltrona. Tomaram a cerveja em total silêncio. Ela bebia como um bem-te-vi. Ele tomou de talagada e começou a amarrar os sapatos logo em seguida. Demorou mais do que o normal. O contato de um cadarço com o outro a irritava profundamente. Tudo nele de repente havia se tornado mecânico e irritantemente previsível. Ele mesmo sabia disso. Mas não sabia o que dizer sobre isso. Era apenas a verdade. Não havia mais o que se dizer além de: “o tempo anda corrido, muito corrido”.

Então ficaram os dois, ainda por um tempo, procurando pedaços invisíveis no chão do quarto. Depois ele se levantou e foi até o banheiro. Mijou sangue. No quarto ela chorava em silêncio porque no rádio tocava You don’t have to be a baby to cry. O gato havia dormido enrolado nas cobertas com a língua de fora.

- Acho que a gente se vê por aí então – ela disse quando ele apanhou a mochila.

Despediram-se cordialmente na porta, com muita distância e educação. Ela segurava a mão dele quando disse:

- Não me procure mais.

Ele desceu as escadas correndo, sozinho como havia surgido, irritado e palpitante, aliviado. No radio Julie London cantava Nice girls don’t stay for breakfast. Ele assobiou terrivelmente a melodia da música enquanto as lágrimas não vinham. A música terminou e elas não vieram.


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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

DAQUI A POUCO É DEPOIS? >> Carla Dias >>


Fosse o hoje um ontem travestido de agora... Desculpem-me, mas o tempo me fascina, assim como fascina a um amigo querido. Conversamos muito a respeito do tempo, não só sobre a forma como ele passa para cada um de nós, mas também sobre como não permitimos que ele passe, por medo do que virá ou até mesmo por comodidade.

Sei que, talvez, melhor fosse contar como passei meu Natal, celebrar prós e prometer melhoras aos contras. Mas só consigo pensar no que deixamos passar ao fecharmos os olhos para o que realmente importa. Porque somos seres humanos e uma das nossas falhas mais freqüentes é deixarmos passar.

Em algum momento da minha infância, essas celebrações foram importantes de uma forma peculiar. Não se tratava dos presentes, nunca acreditei em Papai Noel, mas encantavam-me os olhares das pessoas, sabe? Eram mais acolhedores, mais esperançosos. Apontavam para um futuro em que o amor seria como as roupas que minha mãe deixava quarar no sol de terça-feira qualquer: limpo, claro, perfumado. Honesto.

Com o tempo, vem a indiferença humana sobre a magia das coisas. Cuidássemos dessa possibilidade como cuidamos da ceia de natal, das bonecas e carrinhos, dos mimos, quem sabe a magia daria naquele lugar que os olhares que eu colhia alcançavam. Pois posso até ter minhas ressalvas sobre como muitos de nós, inclusive eu mesma, lidam com as verdadeiras importâncias. Mas não questiono nossa capacidade de voltar ao início das coisas e seguir adiante com o coração repleto dessas boas intenções - e o desejo verdadeiro de colocá-las em prática - que a maioria só se permite pensar contemplar e vivenciar em datas determinadas em um calendário.

Amor, respeito, presença, amizade, fé, busca, companheirismo... Há muito o que se viver antes, durante e depois das datas comemorativas. Que essas datas sirvam de ponto de encontro, mas espero que não se tornem momentos únicos, durante um ano inteiro.

Daqui a pouco é depois?

Daqui a pouco é depois, sim. Minha sobrinha me fez esta pergunta, ontem, e fiquei matutando sobre a mesma, desde então. E nem tive a coragem de questionar a origem deste questionamento. Só posso dizer que, apesar de daqui a pouco ser depois, espero que aprendamos a manter neste depois todas as boas coisas deste antes. Que não morram de sede nossos sonhos. De fome nossas benfeitorias. De solidão nossos afetos.

Escrevi esta crônica ouvindo Drops of Jupiter, do Train, no repeteco. Esta música, para mim, tem gosto dos últimos segundos antes de cair no sono numa madrugada de Natal, depois dos presentes e da farra. Daqui a pouco é depois e, para aquele daqui a pouco da minha infância, cheguei ao depois que é hoje, e me lembra aqueles olhares... Através desta canção.

Um brinde à magia da memória!
E ao tempo: bem-vindo.



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domingo, 23 de dezembro de 2007

O PRIMEIRO NATAL >> Eduardo Loureiro Jr.

Nativity of Jesus Christ by Hans Rottenhammer
"Ele virá...
Quem nasceu para sempre pra sempre virá;
é uma eterna semente solta pelo ar,
fecundando de felicidade por onde for."
(Paulinho da Viola)

Astrônomos pesquisam novas estrelas no céu. Astrólogos calculam sinais. Famílias sem teto buscam um lugar para passar a noite. Crianças nascem. Pessoas cantam. Anjos passeiam, despercebidos de muitos, aparentes para alguns.

Eu olho o mundo, farejando o instante do tempo sem tempo. Procuro no céu de hoje a estrela que há muito brilhou. Pergunto em que improvável lugar a família abençoada passará a noite. Faço silêncio para ouvir o canto. E espremo os olhos para entrever a imatéria dos anjos.

Se minha fé for do tamanho de um grão de mostarda — penso —, a montanha do tempo desaparecerá. Eu estarei em Belém. Sentirei o cheiro forte de José e mirarei Maria com olhos de paixão e joelhos de reverência para com sua barriga: bela e redonda. Tímido — e assustado com a inexistência do tempo —, procurarei uma pedra em que me sentar: "Não se preocupem comigo, só quero assistir."

Quando a hora chegar, chegou. Meu cochilo cansado interrompido por um grito de Maria. E José:

— Segure aqui!

— Eu?!

— Você não pode ficar só assistindo.

— Mas, senhor, eu nunca...

— Sempre, meu rapaz. Sempre.

Eu seguro o sorriso de Maria entre as contrações. Ela sorri feito minha mãe, minhas tias, minhas irmãs, minhas mulheres, minha mulher. Ela sorri feito Maria, porque quem sorri — percebo agora — é Nossa Senhora, uma luz branca cheia de toda e cada cor. Sim, mãe só tem uma: toda mãe é uma só.

— Somos o mesmo filho.

— Você não se importa de não ser o pai?

— Eu também sou o filho.

— Parece um sonho.

— Um sonho que desfaz os sonhos.

— São anjos?

— Os primeiros raios da luz.

— Ele está vindo?

— Feche os olhos.

— Ele está aqui.

— Você também.

— Ele sabe que está aqui. Mas é só uma criança...

— Só se você abrir os olhos...

— Maria está bem?

— Ela é o bem.

— Por que estou aqui? Por que eu?

— Você não está sozinho.

— Quem são eles?

— Eles são sãos.

— Os leitores?!

— Sãos.

— Posso abrir os olhos?

— Você sempre pode. Mas tente não se iludir.

— Eu não imaginei que seria assim.

— Segure aqui.

— Eu não sou digno.

— Segure-o.

— Eu...

— Não se deixe iludir.

— Eu sou.

— Ele está sorrindo pra você.

— Ninguém vai acreditar.

— Todos estão acreditando.

— ...

— Está na hora de ele mamar.

— Por que Maria não fala?

— Feche seus ouvidos para escutar.

— Ela está cantando...

— Uma canção de acordar.

— Sim, estou ouvindo.

— Todos estão.

— Grato por meu primeiro Natal.

— Nosso.

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sábado, 22 de dezembro de 2007

PARAFRASEANDO EM FRENTE [Cris Ebecken]


Vez ou outra esse arrepio confissional me sopra à nuca, toma meus dedos, toca as palavras em repeat reflexivo. Não tem santo que me cure desse desatino repleto de querências do tocar em frente, de buscar nos passos dados as promessas da caminhada. E essa entidade carimbada, vestida de branco e lingerie em cor escolhida a dedo, chamada fim-início de ano, me faz rendida à sonoridade equilibrista da música do tempo.

“Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei”*



Mas há de se fazer a pergunta să e traiçoeira: de que servem tantas linearidades com o calendário, por que agendar certezas, quando o próprio tempo, com seu andar milimétrico desmatematizado de ponteiros, é em si apenas o convite ao agora?

“Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou”*



Rascunho um reaprumar. Faço beber overdoses de silêncio a mocinha inquieta, tagarela e dançante residente em mim toda a vida. A danada parece me puxar pela beira da saia, vasculha alegrias nas fotos tiradas, revira papéis e mais papéis de palavras escritas, rasga dúvida e tristeza, pede caneta, rabisca flores, me repousa os olhos no horizonte cheia de vontades sem beira.


“Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compőe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz”*



Respiro como quem vasculha o letreiro da saída de emergęncia. A encaro olhos nos olhos no espelho. Nem chega a cinco minutos, já basta. O sorriso abre. As măos enfeitam os cabelos. Ela me sussurra: trança a beleza do brilho nos olhos, se faz crescer. Entre dedos toco a pele. Ela me suspira: agradece cada aprendizado impresso, marquinhas săo histórias, se hidrata que a aridez năo te pega. Encontro o olhar no peito. Ela fala entre ares sapeca: acredita nos chamados, isso é você.


“Conhecer as manhas e as manhăs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir”*



E o reveillon acontece. No tempo certo, na hora exata da virada interna.

* Fragmentos de “Tocando em Frente”, Almir Sater e Renato Teixeira


Extraídas Impressões

Imagem: Parafraseando em Frente, da autora.

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FRUSTRAÇÕES [Mariana Monici]


Tive a idéia, junto com uma amiga, de escrever um inventário sobre frustração. Ela está em crise com uma frustração profissional, das grandes! Encomendou-me um ensaio a respeito e aqui está a tentativa. Ela, por sua vez, escreverá um trecho da sua frustração que muda de formato a cada dia.

Amiga, não é fácil. Eu mesma arrumei metafóras para as minhas frustrações de forma que ficasse mais fácil pensar a respeito. E são tantas na vida.... Nem sei onde começam. Na sala de parto talvez?! Quando viemos ao mundo, cumprindo zilhões de expectativas alheias e já aprendendo a tê-las.

Blogs começam em frustrações. O problema pode morar aí: expectativas. Junto com elas ilusões, fantasias, inocência, uma vontade tamanho família de crer - no outro, em coisas, em lugares e na vida. Tipo pizza 12 pedaços... gigante! O que acontece é que às vezes vêm 12 pedaços cortados tão injustamente pequenos que, apesar de serem 12, não são suficiente para todas as pessoas. Aí algumas se frustram. Sem contar que, quando fazemos o pedido, imaginamos um palmito delicioso, com um molho fantastico, coberta com uma mussarela fininha, etc. E pode ser que venha, que seja suficiente para todos, mas seja um palmito meio duro, um molho pomarola e uma mussarela
engorduradíssima. Sem gosto, sem graça, cara e que, portanto, não preenche nossas expectativas e desejos mais genuínos.

Sim, o problema da frustração me parece mesmo começar com expectativas. Em relacionamentos afetivos é comum ouvirmos logo no início "não crie expectativas e tudo vai bem". Como? Porque eu faria algo, qualquer coisa, sem esperar nada dela? Qual a razão do esforço, do investimento, do tempo, beijos ou estudo dedicados?

O problema sabemos. E a solução? Sou ninguém para sugerir e menos ainda definir algo a respeito. Mas, fico aqui imaginando que uma idéia razoavelmente boa seria ter um equilíbrio. Esperar na medida certa. Não é fácil, eu sei. Costumamos esperar na medida em que oferecemos.

Se oferecemos muito, esperamos demais. Troca que parece mais que justa. Quando oferecemos pouco e ganhamos pouco, ficamos felizes, nos sentimos satisfeitos e justiçados. Aí, tenho que observar que é importante saber dar pouco. Eu particularmente não sei... Ou então oferecer um pouco, receber, depois oferecer mais um pouco, ir observando e avaliando, revendo as doses de tudo na situação.

Frustração dói. Quase não consigo separar a palavra frustração de traição. Seu amor te traiu, você se frustra porque esperava mais dele e da relação. O chefe te traiu, você se frustra porque afinal se doou tanto, que erroneamente deixou outras coisas da sua vida de lado. A vida te trai e você fica tentando pensar porque mereceu o câncer da sua mãe, a morte do pai, ou a falência da família.

Acho que está mais do que claro que a coisa toda não é uma questão de merecimento. Até porque não somos juízes para julgar quem merece e quem não. E também não temos juízes com muito juízo, não é, amiga?

Além do mais, percebo outra expectativa aí: juízes deveriam ser pessoas justas, mas antes de juízes são pessoas. Pessoas - todas - têm expectativas, desejos, erros e vontade enorme de acertar, falhas, uma coleção de pedidos de desculpa a serem feitos e, na maior parte das vezes, não sabem o que fazer.

A parcialidade incomoda, por isso é fácil receber conselhos de quem está de fora. Só que queremos receber coisas de quem está dentro da situação, porque esperamos. Por que criamos um cenário e nossa mente projeta o futuro de tal forma que muitas vezes esquecemos de viver intensamente - e apenas - o dia de hoje. Quando ganharmos três mil, quando emagrecermos 2 quilos, quando terminarmos de pagar o carro, quando o nenê puder ir à escola, quando o marido voltar a trabalhar, quando ele finalmente
reconhecer tudo que faço, quando eu entrar na academia, quando eu for contratada. Está sempre . Por isso sofremos, porque o nunca chega. E também porque fazemos para ter resultado e não o contrário: temos resultados porque fazemos.

Não se pode deixar de lado outro detalhe. É certo que algumas pessoas proporcionam que tenhamos expectativas e esperanças a respeito de algo que já sabem que provavelmente não poderão cumprir. Ok, isto é fato. O Presidente da República talvez aja assim, os namorados talvez ajam assim, os chefes agem assim. Está em cada um de nós querer realizar o outro em suas expectativas e está no outro a vontade de confiar. Porém, para que alguém nos faça acreditar em coisas que não vão acontecer, precisamos permitir. Deixamo-nos seduzir ao invés de pensar!

Bem, a boa e velha balança sendo requisitada de novo. Ponderação, razão x emoção e a capacidade, unida ao talento de poucos, em enxergar as coisas como elas são. Percebi agora que não é à toa que nunca enxerguei bem e nem as duas cirurgias corretivas me abriram os olhos.

Cést la vie. Acabei me lembrando dos Stones: I can´t get no
satisfaction... And I try, and I try, and I try...


Outras Cenas

Imagem: Portrait of Katharina Cornell, 1951, Salvador Dali; Walking Around, Lilia Avelar

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Até o último apito no cais >> Leonardo Marona

Acabei de estourar uma espinha branca na testa. Estou no elevador sozinho, a cara enfiada no espelho embaçado, coberto pelas rajadas de luz de cada andar. O sangue desce devagar pela testa. O sangue não tem a cor que deveria ter. Giro a chave, entro. O telefone ficou sem tocar a semana inteira. Tudo o que um homem precisa para saber se é um homem é ser deixado sozinho. Acho que não sou um homem na maior parte do tempo. Sento na mesa da cozinha. As formigas rezam numa roda. A toalha é branca e vermelha e xadrez, existem frutas pintadas em potes no pano: cerejas, pêras, laranjas, framboesas. Agora estou olhando para baixo. Minhas coxas muito brancas com pêlos muito negros somente nas partes internas e a toalha xadrez pintada de frutas silvestres, juntas, formam uma cena triste e redentora: uma espécie de constatação. Mas é nessas horas que, em algumas noites, ou inícios de manhãs, quando o céu se aflige de laranja e o mundo faz menos barulho, ou nenhum, quando acordo, ou tento dormir, ou chego atrasado para mim mesmo, pouco importa, posso imaginar pequenas seqüências de vida e morte, e aquilo quase toca meu ombro por trás da toalha xadrez, como se fosse capaz de andar e falar:

Vejo o Quintana comendo arroz com ovo frito num hotel cor-de-rosa pago por um jogador de futebol aposentado. Vejo Hamsun cortando os dias como lenhas só para que os ricos continuem sem ter o que contar. Ali está Beethoven num banheiro, molhado dos pés a cabeça, debaixo da pia, compondo uma serenata para o amor não correspondido da lua. Vinícius, Tom e Baden juntos cantam marchinhas de carnaval com duas garrafas de Stolichnaya vazias e uma de Amarula do meio pro final. Pobre Isadora Duncan, no momento em que deixou seu lenço cair. Vejo um menino italiano que viria a ser o maior de todos os escritores de seu tempo, sem que ninguém soubesse disso, debaixo de uma ponte matando caranguejos nas pedras da praia com os olhos cheios d'água e a cabeça inchada e as mãos rasgadas por causa das farpas do amor entalado que ele não soube onde escoar a não ser em odes a garotas feitas de papel com olhos pintados e cigarrilhas grudadas no bico dentro do armário das ilusões em preto e branco nas páginas coladas pela ânsia da paixão. Mccullers prende a respiração presa a uma corrente de aço em alto mar dentro de um barquinho de papel que ela chama de solidão final ou cura para uma vida com olheiras. Silvia Plath é linda e nada mais que linda, perdida por um escroto chamado Hughes, com o lápis na ponta da língua antes de escrever sobre mais uma morte na forca da vida. Gide corre da família atrás de Wilde no deserto da Namíbia. Quem sabe Poe sem cuecas de roupão com um quarto de uísque debaixo do braço ateando fogo nas próprias vestes pelas ruas de Baltimore em pleno verão com apenas uma metade do bigode raspada. Ou Jack choroso beijando Cassady na boca enquanto o último dorme, ambos tingidos pela luz vermelha de um letreiro néon onde se lê "Skinny Joe's Barber Shop"; e no banheiro Ginsberg se masturba com um poema de Whitman na mão. Huxley olhando as paredes verdes de néon e ficando cego sozinho na mansão de dez quartos em Wrigwood, chorando pelo suicídio do irmão Trev antes de voltar a tentar David Hume, sem conseguir dar mais um passo. E a senhora V. Woolf nada quando nada mais é do que nada, um rio gelado de pedras cercado de almas por todos os lados. Dos Passos tira meleca de meia, cueca e sapatos, suspensório esgarçado e sem camisa, enquanto lê o Wall Street Journal em frente a tiras de bacon ressequidas, num jardim com vista para as montanhas rochosas, virando a casaca sobre as antigas questões comunistas.

E são tantas imagens juntas que quase me sinto forte, com uma espécie de norte...

Como quando Rembrandt gastou seus últimos florins por uma puta barata de quem faria um retrato apenas para se lembrar de Sáskia, mas sua Sáskia teria morrido de parto e não voltaria mais. Ou Gauguin como Anthony Quinn dizendo a Van Gogh como Kirk Douglas que é fácil se acomodar no fracasso, ainda mais quando se ganha comida e teto do irmão para isso, pelo que o holandês tentaria matá-lo e, não conseguindo, mataria a si mesmo com deuses e corvos e milhos e ciprestes: uma orelha na lata do lixo. E a última imagem poderia ser minha pescando um marlin azul de quatro metros ao lado de um sujeito gordo com uniforme cáqui chamado Ernie, que grita e fuma um charuto sem parar de reclamar do vento e da corrente que vem do sul. Ou do dia em que Miller andou de bicicleta por Clichy pela primeira vez e perdeu o chapéu que Nin encontrou mas que não soube usar. Algo como a última curva de Camus. O prato de macarrão que Rossini comeu depois de terminar o seu “Guilherme Tell”. Dostoievski conhecendo a morte, rindo na cara dela e o governo o mandando esfriar a cabeça na Sibéria. Lampedusa criando a Sicília. Ellroy se embebedando com anti-séptico bucal e murmurando pelas ruas atrás da própria mãe. Dylan Thomas tomando um gole da sua lager beer numa mesa de mogno, confins de Gales, algo lhe aperta o coração e ele escreve “do not go gentle into that good night”, para depois ter um enfarte mortal. Céline toca um realejo bêbado num cais africano com as mãos sujas de sangue. Gertrude Stein na cama por cima de Toklas. Picasso por baixo, pedindo comida aos ricos. Ez Pound coloca Hemingway para dormir com um direto de direita no olho. Kafka com as calças molhadas porque mijou na cama. Proust tentando entender um passado sem futuro.

Tem dias que vejo Leminski numa tarde escura de quimono e chinelos tomando o último gole de conhaque para escrever sobre sua morte. Acima da sua cabeça há um quadro com uma menina loira vestindo uma gravata amarela ajoelhada diante do túmulo de Vladimir Maiakovski. Lima Barreto toca a campainha do Instituto Pinel, muito alinhado, atrás de um quarto para repouso eterno. E James Joyce joga a moeda diante da lareira: se der cara queima o Ulisses, se der coroa se queima.

É nessas manhãs escuras ou de noites claras sem alento que um apito ressoa de um cais abandonado muito longe e escorre por dentro dos meus ouvidos e me leva voando para o mar atrás de lembranças nas quais fico por um minuto ou dois, nada mais do que isso, para depois poder desperdiçar tudo aquilo que às vezes chamo de amor - bicho esquisito – por não ter um nome melhor, e que por mais um minuto dá forma ao vômito inevitável da paz. E ali estão eles comigo. Não me pedem nada nem me amam ou são meus amigos. Não falam comigo, não dizem o que devo fazer nem me xingam de nomes. Mas me deixam beber junto deles. Fico quieto como um urso satisfeito. Tímido. Dou meu primeiro gole de vinho – vira vida a bebida.

Ainda estou na cozinha, diante da toalha xadrez, vendo as formigas. Mas nada vai acontecer até que eu tome meu último gole do vinho deles, após brindarmos pelo meu último apito.


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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

ENTREMEIO >> Carla Dias >>

Ao chegar ao fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas... Lá no fundo, no bojo dos destemperos, ao invés de cair no berreiro, até sorri para contrariar o que lhe desfere o destino. E não é sorriso de deboche, não é amarelo, desapegado da arquitetura do prazer que há em sorrir. Sorri a satisfação de ainda conseguir tocar fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas e, embrenhada em destemperos, segundos antes de a alma abocanhar um belo berreiro, então... Toca cada fundo como se fossem teclas de um piano mudo; pétalas de bem-me-quer-mal-me-quer, e impulsiona a volta ao fôlego. Respira a cordialidade das voltas para não relutar em tentar outra vez, ao comando de uma constância catártica.

Tem certo prazer em cultivar contrariedades: assiste filmes tristes para compreender férteis alegrias; garimpa solidão para alcançar agradável companhia. Amarga os desapegos para banhar-se à beira das novas chegadas. Não deserda missões quase impossíveis, mas se dedica a descortinar suas nuances, que é para se aproveitar delas, mesmo que as mesmas lhes empurrem aos abismos... Dos quais ela adora beijar os lábios, até que seja certeira a falta de ar... Para depois sacar do peito uma esperança-elástica que lhe devolva à vida, fazendo acrobacias sob medida para os destemidos, até para os mais medrosos deles, categoria na qual se encaixa, sem vergonha alguma.

Gosta de contar estrelas, mas prefere confidenciar a elas os seus pensamentos preguiçosos, pois sempre acabam sendo os mais sábios. Acredita na timidez dos desinibidos, mais do que na facilidade que eles têm de dizer sobre si e o mundo.

Já disseram que não era gente, mas bicho sob o domínio dos infindáveis medos. Que jamais reconheceria na vida a conquista do que fosse. Então, para não se perder em abobalhadas teorias, vem conquistando devagarzinho, na prática, chegando mesmo a se apropriar do que não é seu, mas percebe abandonado pelo cansaço alheio, tamanho trabalho e paciência a conquista exige. Foi assim que conquistou pores-do-sol, amanheceres, olhares, alfinetes indesejados. E fotos desfocadas, palavras consumidas até o exaspero; e um punhado de frivolidades que, colocadas com cuidado sobre a compreensão, formam uma poesia conhecedora das fraquezas humanas, que as versa com tamanha delicadeza, que fica impossível não sorvê-la em encanto absoluto.

E tantas outras coisas nem tão coisas assim vem conquistando.

Adota a autoria de pequenos crimes, sem pai nem mãe, como o de arrancar da rua paralelepípedos para plantar, neste vão de idéias mil, uma jabuticabeira. Assim, quando adulta, a árvore poderá cuspir fruta doce na boca dos motoristas que pensam que não podem mais ser felizes, porque o tempo esgotou. A vontade já era. Os sonhos estancaram. E para que possam fazer colares com os caroços, só para embelezar o colo do amor. E se redescobrirem tão capazes de.

Comemora uma década de ausência de abraço. Daquele abraço de pender a cabeça sobre o ombro do outro; de quando o tempo passa sem nos darmos conta. Para esta ausência, contrabandeou uma canção que morava antes no silêncio, mas que ao se apaixonar pela melodia dos faróis endoidecidos, nascidos em uma cidade ora hostil ora hospitaleira, piscando ao gosto de qualquer delirante espectador, deixou escapar um suspiro que deu ritmo às vontades por tempos trancafiadas no coração.

Colheu branduras para o jantar e, ainda às portas do que será que será que há de ser e será, rabiscou um desenho na janela embaçada pela noite fria. Do outro lado, meninos e meninas ao sol da manhã de feriado; cabelos bagunçados pelo vento morno e pés ágeis para o pega-pega. E assim os contrários se encontravam sem pestanejar e, deixando o destino de observá-los por um instante, enamoraram-se pelas frestas.



Imagem 1 > nymphs finding the head of orpheus
Imagem 2 > pandora
Imagem 3 > apollo and daphne
Imagem 4 > miranda the tempest
John William Waterhouse


http://www.carladias.com

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domingo, 16 de dezembro de 2007

MÃE >> Eduardo Loureiro Jr.


Amanhã será o aniversário de minha mãe. Ontem foi o aniversário de minha mãe. Ontem, a festa. Amanhã, a data. Hoje, a crônica.



Na família de minha mãe, existe a tradição de comemorar os aniversários redondos (50, 60, 70, 80 anos) com uma grande festa em que se reúne de 100 a 200 pessoas, entre familiares e amigos mais próximos do aniversariante. É feita uma ambientação temática de acordo com a vida e os gostos do homenageado. Mensagens de pessoas distantes são recolhidas e lidas. Coletam-se fotos e histórias. Prepara-se uma paródia, a partir de uma das canções preferidas da pessoa, substituindo a letra original por outra que conta a história de sua vida. Foi assim ontem com a minha mãe, que está fazendo 60 anos.



Tem gente que não acredita que minha mãe tem 60 anos. É uma tendência humana, ou pelo menos dessa nossa época, associar juventude com beleza. Se é belo, não pode ser velho. Se é velho, não pode ser belo.



Eu penso que minha mãe chegou bem a tempo, nem adiantada nem atrasada, para os seus 60 anos. No pequeno "discurso" que fez ao final da festa, minha mãe apenas agradeceu. E isso é coisa que o tempo ensina: a agradecer. Minha mãe revelou que, sempre que se sentia triste, elaborava uma lista de tudo, e todos, que tinha na vida. Com tanta coisa a agradecer, a tristeza sumia tímida entre os itens da lista.



Nesses dias, brinquei de pensar que minha mãe só foi autorizada a chegar aos 60 anos porque proferiu, há alguns meses, a frase que considero um verdadeiro certificado de que se viveu a vida do jeito que a vida deve ser vivida. Disse minha mãe: "Deus tem uma pedagogia diferente para cada um de seus filhos". E ela nem precisou de um doutorado em Educação para chegar a essa conclusão. A afirmação de minha mãe veio da própria prática: ela mesma ensinou cada um de seus três filhos de uma maneira peculiar. A mim, ela educou com uma liberdade crítica preocupada. Sempre me deixou livre para fazer o que eu quis, sempre se sentiu livre para dizer aquilo de que não gostava em minhas atitudes e sempre se preocupou quando as coisas não saíam como eu ou como ela esperávamos.



Com o tempo, temos nos afinado: a minha liberdade incorporou os seus conselhos, as suas críticas ganharam mais tolerância e temos lidado melhor com as coisas, principalmente aquelas que não acontecem conforme o esperado.



Eu vim de dentro de minha mãe, Mazé, que veio de dentro de sua mãe, Izolda, que veio de dentro de sua mãe, Encarnadinha, que veio de dentro de sua mãe... Nós, homens, somos os derradeiros a vir de dentro. Nossos filhos não mais virão de dentro de nós. Nós, homens, somos o final daquele presente em que uma caixinha se abre para outra caixinha, que se abre para outra caixinha, que se abre para outra caixinha... e, quando se espera mais uma caixinha, tem-se um homem. Nós, homens, somos em parte frustração e em parte satisfação: interrompemos um longo ciclo de vida receptiva, mas, ao mesmo tempo, oferecemos algo, uma recompensa afinal.



No momento, a única recompensa que eu, enquanto homem, posso oferecer às caixinhas de que saí, e em especial à caixinha mais próxima, minha mãe, é o agradecimento pelo útero, pelo leite e pelas outras formas daquilo que pode ser resumido numa palavra antiga que já tem muito mais do que 60 anos de vida: a palavra AMOR.



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sábado, 15 de dezembro de 2007

DE VOLTA PRA CASA [Claudia Gonçalves]


Outro dia, minha mãe, questionadora como sempre, veio perguntar por que razão as mulheres da minha geração estão querendo voltar à vida doméstica. É como se houvesse um retrocesso: tantos anos de luta para sair de casa, estudar, buscar a qualificação e a ascensão profissional para depois voltar para o fogão e a vassoura. Vai entender?!

Diante daqueles olhos cheios de pontos de interrogação, respirei fundo, refleti um pouco, e dei início a uma longa explicação que misturava minhas próprias impressões e vivências, mais tudo aquilo que leio nas listas de discussão da Internet, escuto das amigas e das clientes de tarot.

Temos um fato histórico que deu o pontapé inicial à saída das mulheres do restrito mundo doméstico, que foi a II Guerra Mundial. Com os homens lutando na guerra, em um período onde as indústrias não poderiam parar, as mulheres foram convocadas a participar senão por razões profissionais, ao menos por razões patrióticas. Assim, a década de 1940 entrou para a história através do bem cortado tailler e da mulher que trabalha fora de casa. Normalmente, a imagem vem integrada: mulher forte, sem fru-fru, vestindo um terno em versão feminina e pronta para assumir seu espaço na sociedade.

A partir da década de 1960, com o movimento feminista e toda a influência cultural da época, trabalhar deixou de ser necessidade e passou a ser opção pela liberdade, independência e realização profissional. Uma mulher considerada moderna não poderia restringir sua vida ao serviço doméstico e à educação dos filhos. As tarefas domésticas passaram a ser vistas como algo menor, opção da mulher inútil, que não tem inteligência para ser outra coisa, ou daquelas que “não são muito chegadas ao trabalho” – como se arrumar uma casa não desse um trabalho danado!

Nas décadas de 1980 e 1990 as mulheres invadiram a praia do mercado de trabalho. Disputavam vagas com homens de uma forma aparentemente natural, olhavam com desprezo para os afazeres tipicamente atribuídos às mulheres e aos poucos foram também eliminando do seu comportamento as reações que poderiam ser confundidas com fragilidade e insegurança e que antes eram chamadas de delicadas e femininas. Quando entrei para a faculdade de Comunicação Social, em 1985, tive a decepção de quem sempre estudou em colégio de freiras e esperava encontrar no curso superior, não somente conhecimento, mas um número maior de representantes do sexo masculino. Decepção mesmo! Mais adiante, como jornalista especializada na área de economia (isso não era “coisa de homem”?) tanto nas redações quanto nas entrevistas coletivas e eventos para cobertura, tudo que se via era: mulher, mulher, mulher. Deus meu! Onde estarão os homens? Cozinhando? Incrivelmente, muitos deles, sim...

A explicação foi muito educativa, com referências históricas e culturais, mas minha mãe continuava com aqueles olhos de interrogação: por quê? Por que as mulheres parecem estar largando o trabalho fora de casa e, de repente, rotinas como cozinhar, arrumar as flores no jarro, e mesmo branquear uma toalhinha de renda ou escolher as frutas na feira, ganharam status estético, charme e graça de uma forma somente comparada aos valores de um século atrás?

Como sou especialista em criar teorias, aí vai mais uma...

Quando a mulher resolveu sair de casa para trabalhar fora, seu objetivo era adquirir status de homem, ou seja, ter liberdade, respeito intelectual e social, independência financeira e a possibilidade de vivenciar situações exóticas, distantes do marasmo do lar. Em resumo, a mulher – claro que de uma forma inconsciente – queria tornar-se socialmente um homem e alçar vôo por conta própria, livrando-se das obrigações e responsabilidades que envolviam a casa, o marido e os filhos.

Na prática, hoje vemos isso de forma bem clara, o tiro saiu pela culatra. A mulher assumiu todos os deveres de um homem, mas nem todos os direitos. Fora isso, continuou acumulando as responsabilidades de dona-de-casa, mãe e mulher. Quando não acumulava integralmente, não era com o marido que ela partilhava as tarefas, mas sim com a empregada, a babá e algumas vezes a amante do marido. O que chamam de dupla jornada, na verdade, pode ser chamada de tripla ou quádrupla jornada.

Em paralelo com esse processo, o homem que achava a vida da mulher muito boa (sempre achamos que trabalhamos muito e o outro é que tem vida mansa), viu aí uma chance de tirar um pouco do excesso de peso dos seus ombros: não precisaria mais trabalhar feito louco para pagar as contas e dar conforto a sua família, já que a mulher também trabalhava e ganhava dinheiro. Alguns resolveram exagerar e “ficar na aba” da mulher/noiva/namorada (é impressionante a quantidade de casos assim que tenho verificado nos últimos tempos).

Bem, quem olha a situação neste ponto da história pode pensar que só as mulheres se deram mal e os homens estão felizes da vida. Mas aí é que a confusão se amplia ainda mais! Homens e mulheres estão infelizes porque perderam o fio da meada. Estão perdidos, não conseguem mais perceber uma identificação com determinados arquétipos. Homens estão menos homens. Mulheres estão menos mulheres. Porque alguma coisa ficou fora de lugar pelo meio do caminho.

É comum escutar mulheres reclamando da incapacidade do marido ganhar dinheiro, decidir coisas, proteger sua família. Da mesma maneira, as reclamações de homens carentes, cujas mulheres são frias, distantes, só pensam em trabalho e são incapazes de fazer um mísero bolinho de chocolate para o lanche crescem a cada dia.

Particularmente, eu sei porque hoje não dou a mínima para ser assessora de comunicação de alguma empresa importante e prefiro acumular trabalhos freela de jornalismo, artesanato e cursos e consultas de tarot. Porque em 20 anos de profissão não houve empresa ou salário que me trouxesse a felicidade e a realização que hoje sinto convivendo com meu marido e meu filho. É algo quase matemático! A conclusão é que não há dinheiro e trabalho melhor do que estar perto de quem amamos, principalmente nós mesmas. Quando estava correndo de um lado para o outro, tentando descobrir informações para uma matéria ou uma nova idéia para melhorar a imagem de uma empresa, eu estava, aos poucos, esquecendo de mim. E não há empresa que cuide de você com o mesmo carinho e atenção que você mesma ou as pessoas que te amam. Para a empresa você é um simples funcionário. Para a sua família você, a sua presença, faz toda a diferença.

Não sei se todas as histórias de mulheres que retornam para a casa têm essa mesma motivação. Mas o caminho de saída de casa é semelhante: aquela busca ilusória da liberdade masculina que nossa sociedade nos contou quando éramos meninas.

E para quem ainda acredita que uma mulher que fica em casa é submissa ao homem, só mesmo vivendo o processo para perceber como isso é bobagem. Não sei se isso é coisa de vó ou coisa de bruxa moderna (ou se as duas são a mesma coisa), mas tenho certeza do efeito que uma comida bem feita, uma massagem delicada no momento de stress e uma casa perfumada, um jardim florido podem ter. A diferença é que dentro de um novo conceito de relacionamento não há dominador e nem submisso, o que existe são duas pessoas que se amam e que utilizam bem seus talentos naturais. Tão simples... E por isso mesmo tão difícil de compreender.

Quanto à realização profissional e ao ganho do dinheiro, ninguém falou que isso não pode coexistir pacificamente com a permanência em casa durante mais tempo. Mas creio que deveríamos todos, homens e mulheres, olhar com mais atenção o que consideramos “normal” em nossa sociedade tão efêmera e consumista. Tem coisas que, como diz o anúncio do cartão de crédito, não têm preço! E ainda assim elas têm sido deixadas de lado em função da busca desesperada por dinheiro, status, reconhecimento social. A pergunta é: será que vale a pena?

Via Tarot

Imagens: Guernica, Picasso; Narcissus, J. W. Waterhouse

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CARÊNCIA AFETIVA [Maria Rita Lemos]


Chamamos tanta coisa, indevidamente, de "carência ", que fica difícil explicar seu verdadeiro significado, pelo menos do ponto de vista afetivo.

Se alguém se apaixona por uma pessoa, e, nós, estando fora da situação, achamos que não é o momento ou não é a coisa certa, rotulamos logo: "fulana estava carente", e aí, blá blá blá. Podemos achar, também, que estamos carentes quando estamos sozinhas, sem amor, ou quando as pessoas que amamos estão distantes, por diversas razões. Seja como for, vale lembrar a frase do Mestre Jesus: "Amai ao próximo como a ti mesmo".

Pois é, o difícil, muito mais difícil que amar ao outro, é nos amarmos. Aí reside a auto-estima. A regra é clara, como diria o comentarista de futebol: em primeiro lugar, amar ao autor da vida. Em seguida, amar a nós mesmas. Mas não é um amorzinho qualquer: a auto-estima só é para valer quando nos amamos muito. Apaixonadamente, eu diria, sem medo de parecer pedante.

Só dá para saber como amar praticando, e só dá para praticar conosco, para começar. Quando amamos, todas as nossas energias voltam-se para a pessoa amada. Queremos seu bem, em muitos momentos dizemos de nosso amor, agimos com doçura. Procuramos fazer com que a pessoa amada se sinta realmente assim. Amada.

Ser feliz e amar é um binômio, que só conhece quem é feliz porque se ama também e em primeiro plano. Lembro-me de M., uma ex-cliente que citei, há algum tempo, em matéria que escrevi sobre auto-estima. Numa das sessões, descobrimos ambas que ela nem sabia mais qual era seu prato predileto, de tanto tempo que passou comendo "o que os outros pedissem" nos restaurantes. Ela era sempre a última a pegar o cardápio nas mãos, e nem lhe passou pela cabeça que estava fazendo uma bela sabotagem consigo mesma. Quando ela se deu conta, passou a mudar a forma de ser: reservava um tempo diariamente só para si (M. não trabalhava fora), começou a cuidar da pele, a descobrir tudo o que gostava antes. Inclusive sexualmente. M. mudou, é claro, e isso não agradou a todo mundo. Mas agradou, é bom que se diga, a todas as pessoas que a amavam de fato. E quem a amava para valer ficou muito feliz de ver a nova mãe, esposa, mulher enfim, que M. se tornou.

É preciso saber viver, diz Roberto Carlos. E especialistas dizem que é preciso, também, que nos conheçamos bem, antes de tentar conhecer ou amar alguém mais. A auto-estima, o se gostar muito, o achar-se "maravilhinda" nos ajuda a saber como somos, de verdade, com nossos defeitos e qualidades, pontos fracos e fortes. Conhecendo-os, vamos ter a oportunidade de trabalhar esses pontos, e só daí ficará mais fácil conhecer as outras pessoas, principalmente as que amamos - sejam filhos, filhas, familiares, amigos, parceiros, companheiras.

O auto-conhecimento, seguido da auto-estima, nos faz menos algozes nos julgamentos que fazemos das pessoas ao redor. Faz-nos também mais cautelosos em relação a elas, e vamos "sentir" com mais facilidade quando é alguém de quem vale a pena se aproximar ou se vamos apenas sofrer nessa relação.

Resumindo, quem se ama nunca está só. Pode ficar só, eventualmente, quando os amigos e familiares estiverem distantes (ou apenas de corpos presentes). No entanto, é uma solidão que não dói, não machuca tanto como a solidão de quem não se gosta e não se acha uma boa companhia.

O Natal está chegando, e com ele um tempo de reflexão: como sou quando se trata de conviver comigo mesma? O quanto gosto ou não de estar sozinha comigo mesma? Se as respostas forem negativas, se não gostamos de nós mesmas e por isso tentamos viver rodeadas de gente, mesmo que seja de pessoas que não valham a pena, com certeza estamos precisando de ajuda para nos descobrir. E o que vamos ver pode ser uma bela surpresa, embrulhada talvez num presente tão familiar que já não damos valor.

Palavra de Mulher

Imagens: Jo the Beautiful Irish Girl, Gustave Courbet; Mariana in the South, John William Waterhouse

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A sinceridade inquietante dos bem velhos >> Leonardo Marona

Hoje me senti ridículo porque vi um filme sueco. E mais ridículo ainda porque gostei do filme sueco. Nunca entendi as questões suecas, muito menos as dos filmes suecos. A mim pareciam questões profundas, justamente porque os suecos dispõem de tempo para pensar nelas, até se tornarem patéticas. Tempo é o que me sobra quando sinto que não tenho mais o tempo de que precisei um dia. Por isso, depois do filme, fui ver fotos antigas, um dos mais graves sintomas da solidão: ver fotos antigas e dizer alto os nomes das pessoas e dos lugares que aparecem nas fotos. Engraçado que uma das fotos mostrava uma loirinha linda que me abraçava e me lembro dela, mas não do seu nome. Fiquei triste porque pensei que aproveitamos muito pouco os bons momentos, porque pensamos demais nas condições que eles nos impõem, nos nomes que esqueceremos.

Larguei as fotos e decidi usar o resto da manhã para consertar as solas dos meus sapatos furados. Entulhei uma bolsa de feltro com quatro pares e subi a Rua Senador Vergueiro. Logo no início achei uma lojinha de dez palmos de entrada onde um sujeito tomava um suador para polir um sapato com uma velha máquina muito barulhenta. Os sapatos pareciam novos. Mas ele me disse que não mexia nas solas. Ninguém se mete com as bases de nada, nem dos sapatos, porque o risco de não dar certo é maior. Polimos os lados, damos brilho no bico, mas tudo sempre igual com as bases, quer elas estejam podres ou não. Sejam solas de sapato ou qualquer outra coisa.

Não quis voltar imediatamente para casa, com medo da solidão sueca sentada na poltrona do meu quarto com as fotos antigas no colo, aquele cheiro tão íntimo de memória falha, e tão recente... Decidi parar numa padaria para tomar um chá gelado e comer uns pães de queijo. Descobri hoje que, sempre que me sinto só, faço isso: chá gelado e pão de queijo. Eles me são mais solidários nesses momentos. Foi quando ao meu lado parou um velho.

Não era apenas um velho. Era um velho bem velho. Chamava a atendente de “minha paixão” e é claro que isso não me espantou. Vantagens de ser bem velho. Fiquei espantado, porém, que ela também o chamasse de “minha paixão”, não sendo tão velha assim, e que a mim se dirigisse como a um animal pestilento, com desconfiança e a boca torta. Era como se eu pudesse roubar qualquer coisa. Desvantagens de ser muito novo e despenteado. Pensar nisso me acalmou e me deu uma dose de dignidade, como se fosse de certa forma agradável saber que o mundo pode ser tão pouco compreensível apenas pela aparência das coisas. O que me incomodava mesmo era a simpatia do velho, que parecia estar felicíssimo em estar tão perto da morte – e tão mais longe do que eu.

Sempre gostei dos velhos, mas não dos simpáticos. Esse velho era simpático demais. Acenava a qualquer um que passasse na rua. Subia as calças respirando fundo, como quem diz satisfeito: “que bom estar morrendo antes de vocês todos!”.

Estaria, no entanto, tudo bem, se o velho não tivesse, além de tudo, simpatizado com as minhas ricas feições. Mas sim. Chegou perto de mim com seus cabelos ralos e brancos muito bem penteados para trás, com suas pintas mais escuras cobrindo a testa vasta, com seu cheiro de lavanda. Tudo se misturava àquele ranço de fronha usada que os bem velhos têm.

- Está bom o bolinho? – disse o velho.

Foi e me pegou de surpresa. É sempre nessas horas que sou mais idiota e falo mais.

- Muito bons – eu disse. - Bem quentinhos. Mas o saco é grande demais para apenas cem gramas. Poderia ser menor.

Essa nem o velho esperava. Porque arregalou os olhos como quem pensa: “garotinho simpático”.

- Se você diz que estão bons – ele disse – então eu acredito.

O velho sorriu. Pude ver três dentes.

Sorri de volta, mas não sei sorrir de volta, o que às vezes é confundido com rabugice, quando não passa de inaptidão com as convenções sociais. Então o velho resolveu alfinetar.

- Mas você não almoça? – ele disse.

Era meio-dia e meia.

- Sim, mais tarde - respondi. - Saí agora do trabalho. Faço um lanche agora e depois almoço, por volta das três.

- Hum... E você trabalha aonde?

Tentei olhar para frente, como se não tivesse escutado a pergunta, mas como se estivesse tudo bem quanto a isso. Ele não entendeu.

- Hein? Onde trabalha?

- Em Botafogo.

- E vem até aqui lanchar? Não é muito longe?

- Não acho longe. E de qualquer forma, gosto de caminhar.

Ele sorriu – velho estúpido, por que não vai embora? – como quem diz: “ainda não sou idiota, meu filho”.

- E você trabalha com quê? – insistiu.

- Edição para televisão.

Foi minha vez de sorrir – edição para televisão, por essa você não esperava, hein, velho! – como quem pensa: “eu sei, velho, é uma merda, não posso sorrir como você”.

Dessa vez ele entendeu e retribuiu o sorriso, vitorioso. Adorava sua velhice, enquanto eu me sentia ridículo com minha juventude e meus pães de queijo e meu chá gelado e meus sapatos furados e meu filme sueco sobre questões suecas que não eram minhas, mas estavam dentro de mim. Resolvi cortar de vez aquela conversa.

- Tem lixo aqui? – eu disse à atendente, lhe entregando o copo de papelão.

Ela pegou o copo e por pouco não cuspiu em mim. Sorri. Assim sorrio muito bem, quando me desprezam primeiro. Voltei para o velho outra vez. Que fosse a última!

- Bom – eu disse – preciso ir andando.

Ele me olhou dos pés à cabeça.

– Voltar ao trabalho – eu disse. – Um bom café para o senhor.

- Hum – ele resmungou, já não muito simpático, sorvendo seu café, com a outra mão nos cabelos ralos.

Eu já ia saindo satisfeito, quando lá veio ele mais uma vez:

- Ei! Mas me satisfaça uma curiosidade... Você pode trabalhar de chinelos?

Senti que o velho queria mesmo saber. Por que, eu não sei. Talvez quisesse ser um editor para televisão. Poderia afogar o velho naquela xícara de café. Mas resolvi jogar seu jogo sórdido e sincero.

- Não, estou mentindo – eu disse. - Sou um vagabundo. Acordo tarde, a hora que quiser. E passar bem!

Não esperei mais nada. Voltei a passos largos pela Praia do Flamengo. Mãos nos bolsos, fronte furiosa e baixa, cabelos ao vento, percebi que ainda podem crescer os cabelos e me senti forte como Amadeus Mozart. Passei por Mallarmé, por Baudelaire, por Verlaine, todos dando alma a sólidas estruturas de concreto, até chegar a Netuno, não sei se o planeta, o deus do mar, ou apenas o meu prédio. Enquanto esperava o elevador, andando de um lado para o outro com meus sapatos gastos dentro da bolsa de feltro, o porteiro perguntou:

- Achou a sapataria?

- Sim, mas não consertam as solas.

E o elevador chegou vagarosamente, como num filme sueco.


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

NASCEDOURO >> Carla Dias >>

Quando se nasce e de nascido experimenta-se a gula de vida. E a curva indica perigo ou já aponta o acidente. Quando se nasce assim, desse jeito um tanto quanto desmedido, vem logo o rótulo e gruda na cara da gente. Mas quem disse que queremos abrandar a dor e costurar as feridas?

Não buscamos cicatrizes, veja bem... Queremos mais é que não haja corte. Então, que tal fazer a corte a essa paz que não tem rótulo como este que foi grudado na cara da gente?

Porque quando se nasce cuspido, sabe? Caindo em qualquer canto da vida e lambuzando-se de abandonos. Quando se nasce assim, logo nos cravam as tachas nas mãos e crucificam nosso futuro. Mas não queremos pular nossa infância. Queremos mesmo é celebrá-la até que, na idade adulta, nesse futuro mais catártico do que brincante, nós possamos sorrir sem as fendas que nos causaram as tristezas pirracentas. Entende o que digo?

Espalharam por aí e por milênios, que é preciso doer o diabo para compreender a lição. Carecemos mesmo do dolente aprendizado? Dia outro, uma menina aí até que se permitiu fascinar pelo sorriso de um menino e, veja só!... Não doeu nada e ela aprendeu o afeto. E apesar da compreensão sobre sermos distraídos quando embalados pela felicidade, queremos mesmo sangrar alegrias?

Quando se nasce assim, em qualquer lugar, sem laços para acolherem ou abraços para acalmarem, muros altíssimos vêm de brinde. Alguns de nós, espertos que só, aprendemos a ficar em cima deles, observando o movimento. Outros não têm tanta sorte, e dão de querer derrubar os ditos. Passam a vida tentando transpassá-los. Nem todos alcançam este objetivo.

Você me ensinou a duvidar da sorte; nascedouro do “deixa estar pra ver como é que fica”. Eu que nasci às avessas, comprometida com as profundezas dos sentimentos, devo-lhe o exorcismo de um rótulo e outro; de um abismo e outro. Devo-lhe a identidade do meu desejo, não de ficar em cima do muro ou socá-lo até ferir as mãos... E sim o de me reinventar com asas. E o mais tocante disso tudo é que não precisou muito. Bastou que acreditasse na minha existência; que me chamasse pelo nome. Que escutasse o que eu tinha a dizer.

Quando se nasce assim...

Vou fazer uma dobradura e colocar no pires, junto a sua xícara de café quente. Nesse papel cor de sol, haja o que houver, perdurará meu sentimento de gratidão. Sou grata a você por ser quem é, porque quando se nasce embalado pelo desconforto das máscaras, a honestidade do olhar conquista não só a alma da gente, mas também parte da nossa ideologia. E nos dá fôlego. E nos alimenta de capacidade para seguir adiante.

Imagens: Banco de imagens

http://www.carladias.com


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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

VIAGEM >> Eduardo Loureiro Jr.

Miranda do Norte - MA (wikimapia.org)
No meio do caminho, tinha uma cidade. O carro deu o prego em Miranda do Norte. As horas de viagem se transformaram em horas de paragem. Do lado da oficina, tinha uma lanchonete que tinha uma dona que tinha uma filha que tinha um avô.

Eu tirei o violão do saco e fiquei dedilhando o dia, auxiliando o Sol a transformar pacientemente a manhã em tarde. A menina, que se chamava Vitória, e que já sabia falar — embora não comigo — amava violentamente as cordas do violão: batia, puxava... Seus cabelos me encaracolavam. E ela só parou de bater e puxar quando eu assobiei uma canção que eu não sabia que sabia, uma canção nova, novinha, que mais tarde seria a canção de Vitória e de seu avô.

Com o carro quase pronto, eu sentei para um último descanso: gentileza de não apressar um tempo já tão largo. Seu Moura, o avô de Vitória, estava lá sentado, com um olho fechado, seco, sem bola, feito um dia que perdeu um sol para ganhar a lua do outro olho — clara-escura —, que vê menos o presente que o passado.

— O senhor é daqui?

E Seu Moura desfiou sua história, suas duas mulheres, seus dezessete filhos, seu trabalho de agrimensor, os loucos da família, a loucura de sua filha, a mãe de Vitória... Tudo ele contava com uma voz muito baixa que pedia toda atenção.

Quando o carro ficou pronto e eu lhe estendi a mão, ele a segurou. E quando eu fiz gesto de soltar, Seu Moura agarrou meu braço com a outra mão. Eu e ele — um encontro improvável — enlaçados naquele terraço. Até que fui...

No fim do caminho, tinha um aniversário, ao qual cheguei atrasado. E lá, voando sentado, viajando quieto, conversando calado, eu descobri — a faca afaga: o dia todo tinha sido o aniversário.

neste natal
presenteie Atenção

"Noite enluarada.
O sereno cai em gotas.
Sementes de luz."

De madrugada, a lua nova nasceu, quase invisível, e me abraçou. E eu viajei por esse abraço. E eu: — Viajei por esse abraço.

Antes de regressar, um violão a ser afinado. E aquela canção, que era de Vitória e depois também de Seu Moura, agora era minha todinha deles:

Olha,
Vitória e seus dedos de aço
fazendo um violão em pedaços,
seus cachos cheios de luz.

Olha,
Seu Moura juntando os pedaços
de um tempo perdido no espaço,
mirando, do norte, uma luz.

Eu só quero ter coragem pra cruzar
o rio que é a chuva que cai devagar,
nadar pro alto, gota a gota, até chegar,
unindo o lado daqui ao lado de lá.

E quando sentei na poltrona número 2 do ônibus de voltar — porque o carro resolveu ficar por lá—, eu chorei feito um menino que deixa a mãe pra aventurar.




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sábado, 8 de dezembro de 2007

DEZEMBROS [Mariana Monici]


Nunca mais a natureza da manhã / E a beleza no artifício da cidade / Os meus olhos têm a fome do horizonte / Sua face é um espelho sem promessa
Por dezembros atravesso / Oceanos e desertos / Vendo a morte assim tão perto /
Minha vida em suas mãos.
(Zeca Baleiro)

O que mais se lê este mês são crônicas e reflexões sobre este mês... todas fazendo um balanço do ano que finda e das expectativas para o próximo ano. Uns juram que não têm expectativas, que vivem um dia após o outro. Outros prometem mundos e fundos para que venha aquilo que querem e acham mais que justo. Alguns se planejam para pular sete ondas dia 31, com sei lá quantos pedidos, comer não sei quantas romãs, dar um beijo exatamente à meia noite, e todos os santos só ficam olhando, rindo ou indignados, talvez reflexivos sobre atender os pedidos todos.

Acho que é só um jeito de simbolizar. Acredito que o Ano Novo começa todo dia. Sei lá, todo mundo (que é muita gente), acha que a mudança do calendário, o engavetamento da agenda, a roupa nova e branca, o Natal, o Papai Noel... isto tudo vai mudar a vida. Acho que poucos se dão conta de que a roupa nova deve ser vestida por dentro e não por fora.

Eu, particularmente, colocaria 2007 suspenso num universo paralelo, que eu alcançasse só quando quisesse muito, e que ele não ficasse me jogando na cara o tempo todo o quanto ele está pra lá de Marrakesh, sabe? Já ficou velho quando começou, lá por janeiro. Vejo perto a morte do ano - o do calendário, pois meu ano interno não vai morrer tão facilmente, já que mudou minha vida de novo, tirou tudo do lugar, me obrigando a aprender um monte de coisas, sem pedir licença menos ainda desculpa, este 2007. Há quem diga que bom mesmo são anos pares, com seus Dezembros igualmente pares – Par é sempre melhor, acho eu. Aprender o que quer que seja também é bom, e os sonhos se mantiveram intactos. Então, já que é inevitável pego este Dezembro, e faço dele também o balanço. Fico feliz porque nele, e hoje é só dia 8, têm acontecido muitas coisas boas.

Dezembro não é fácil... Uma melancolia permanente, parece que as pessoas se escondem de costas, olhando vitrines e dando as costas pra este Dezembro que teima em ter 31 dias (por que não troca com fevereiro?!). Melancólico e bonito. Ele é mais que o 13º, que roupas e pares de sapatos pra combinarem, que laços de fita, brinquedos e a enorme roupa de cetim vermelho amarrada com um cintão preto, acompanhada de uma risada engraçada e acolhedora, que aos meus olhos parece um tanto cindida. Nada contra o bom velhinho, adoro! Não é pessoal, mas vamos combinar que Dezembro não está lá pra muito Ho Ho Ho, não é mesmo? Quem sabe na Páscoa?! Vida e morte.

Tanta confusão neste país nada sustentável, nestas cidades todas, que a vida do velhinho está mais do que atribulada para atender todos os pedidos. Aposto que anda mandando currículos e fazendo entrevistas em consultorias de recolocação, pleiteando vagas já preenchidas. Na última, foi desclassificado por não ter grandes orelhas e pelo branquinho. Reflete sobre novos cursos para mudar de área, mas qual pode ser mais promissora?

Dezembro está aí, e em poucos dias estará lá, no passado. Que os balanços sejam positivos e que o peru seja light, para que Janeiro não seja à sombra.

Outras Cenas

Imagem: Tim Pannell

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A FELICIDADE DOS TONTOS [Ana Coutinho]


Dizem que de tempos em tempos todas as nossas células são renovadas e não sobra nada, nadinha de nada das células anteriores. Não me lembro o tempo, talvez de 30 em 30 anos, algo assim. Se for isso, eu, agora, estou deixando pra trás alguém que fui um dia...

Mas, mesmo se não for isso, mesmo se essa é uma história inventada por alguém inventado também, mesmo assim, sinto-me tantas vezes - todos os dias talvez - deixando pra trás alguém que eu fui um dia. Uma menina leve, magra, cheia de sardas, dá lugar a uma mulher. Uma mulher já com corpo cheio e manchas na pele... Uma mulher que, vez ou outra, sente saudades da menina.

Ah!, a menina. A menina conversava com todo mundo, ria de tudo, era tão tonta, mas tão tonta que só podia ser feliz. E eu não estou falando aqui, de qualquer felicidade mais ou menos não. Nem dessas que a gente força sentir e daí, depois de fazer muita força, respirar bem fundo, ver que o dia está lindo que eu tenho saúde e que estou, sei lá, em Cancun, daí sim, a gente se sente feliz. Não... Estou falando da felicidade que não se sabe que tem. Dessas que a gente nem pensa se tem ou deixa de ter, o que falta, o que e bom, o que é ruim... Não, nesse tipo de felicidade nem cabe esse tipo de pensamento. Porque a vida anda boa assim, por nada, e a gente então é feliz sem precisar pensar a respeito.

Depois, muito depois, é que vemos a vida que ficou pra trás e, como num filme, assistimos nossos momentos do tempo passado. E, ali, paralisados diante das imagens antigas, vemos que a vida era boa. Era genuinamente boa. Era boa e não tínhamos nada. Vivíamos com um salário de fome, roupas breguíssimas, ninguém te conhecia no seu trabalho, ninguém reconhecia seu trabalho suado, mas você nem notava. Porque nem você reconhecia. Fazia, simplesmente, o que sabia fazer. Vivia, simplesmente como sabia viver. E não sabia que tinham outras formas de viver, outros mundos a desbravar, outras posições a galgar... No trabalho, na vida pessoal, com a família, até na religião.

Há sempre novas posições a galgar. E quando as notamos, normalmente num dia entre os seus 15 e 25 anos, é aí que a vida começa a mudar. E aí que a felicidade, essa boa, essa genuína, essa felicidade que só os tontos têm, essa felicidade passa a escapar da gente. Sem que a gente perceba, claro.

Aí, de repente, quando se vê estamos precisando de um sapato, ou de um aumento, ou de um presente ou de um carinho a mais, sempre há mais do que temos para ser ainda conseguido. Os olhos passam a estar sempre um passo a frente do dia de hoje, sempre ali, no que é preciso, no que é objetivo, sem que notemos que, o objetivo, esse aí, é o que há de fútil e tolo. O que precisamos mesmo, está bem ao lado... Mas a vida ainda pode ser boa, claro. Talvez seja até melhor mesmo. Quem sabe? Só que é diferente.

A consciência é que é o inferno. Saber que há mais da vida é que complica... Aí começa negócio de dinheiro, negócio de família, negócio de regime, negócio de casamento, negócio de trabalho, negócio de inveja, negócio de competição, negócio de comparação... ihhh, daí ferrou.

Daí você vai deixando de lado os cafés com os amigos, as bobagens divertidas, as fofocas deliciosas, vai deixando de lado o cachorro quente da barraquinha, o picolé, a "25 de Março", a piscina, o biquini, a cambalhota, vai deixando de lado o que era bom, porque precisa conseguir as coisas - aí, conseguir as coisas, conseguir as coisas, conseguir as coisas se torna um mantra, sem você nem notar.

Se essa coisa das células desaparecerem for verdade, logo faço 30 e deixo de vez alguém que fui um dia. A consciência, essa danada, é quem passa o filme do passado aqui, dentro de mim. É ela quem nos tira a felicidade genuína dos tontos. Mas é ela, agora, quem me faz segurar com força as últimas células desse corpo molengo que virou meu.

E dessa tontice que eu tinha, quero que fique pelo menos o cachorro quente, a 25 de Março e as abobrinhas. Ah!, as abobrinhas, como eu pude viver sem elas? Por isso, por isso que tenho sido tão ranzinza no trânsito, só pode ser. As abobrinhas ficam.

O resto, o que couber nos bolsos levo comigo também. Levo a leveza dos tolos, uma breve memória de como é ser boba, ridícula e magra. Uma memória de como é chorar de rir, por horas seguidas. Que a memória, essa eu tenho certeza, não desaparece aos 30. Talvez desapareça aos 90. Ou aos poucos, em algum lugar entre os 70 e os 100.

Por via das dúvidas, desde já vou montar uma gaveta grande, enchê-la das preocupações atuais, das minhas mais idiotas ambições e deixar ali, pronta. Nela, grudo uma etiqueta escrita com letras garrafais : “A esquecer”. E a vida, essa danada, em algum lugar entre meus 30 e 120, há de dar cabo disso também...

Doce Rotina

Imagens: Tempo, Autor Desconhecido; Gaveta de Lembranças, Neli Neto

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