sexta-feira, 30 de novembro de 2007

OS CRIMINOSOS >> Leonardo Marona

Aquilo que nos impele. Somos as palavras difíceis no fim de frases vagas. Somos aquilo que deu errado em nós. É preciso disso para se continuar vivendo. Saber ser o que se é, mesmo sabendo que aquilo que se é não passa do que somos e não deveríamos ter sido. Pobres os que são o que sempre quiseram ser. Estão mortos, os mortos sorriem constantemente, os mortos contam trajetórias. Porque morte é alívio. Morte é, por assim dizer, o início da vida contemplativa a que tanto aspiram hipócritas e gênios, um o tipo mais avançado do outro. Mas viver sangra. O sangue são pedaços de carne lambidos pela alma. Por isso o sangue é amor, sacrifício e, finalmente, despedida. Sobre o que deu certo nós apenas falamos. E fazemos em silêncio o desesperado jogo de tecer pedras com os próprios dedos.

Por exemplo, eu certamente sei que não deveria continuar a escrever este texto. Primeiro sei que o motivo pelo qual comecei a escrevê-lo já não é mais o meu motivo. É o de outra pessoa, outro qualquer coisa, através de mim. Não a noção rimbaudiana de “outro”, mercador de escravos e dinheiro ilícito, purificador de almas por não ser bom nem mau, por não precisar. Estou falando de um outro tipo de matemática. Aquela matemática que acontece enquanto pensamos que sabemos exatamente o que dizer. Como há dois minutos quando comecei aqui. Aquilo que reelege um presidente inapto, o que faz um filho nascer acéfalo apesar do imenso amor entre os copuladores. Aquilo que bebem os que promovem os acordos de paz. O que cala fundo o messias diante do próprio discurso, um pouco do que escorre pela boca do fraudador sobre a indiferença da beleza original.

De fato algo tão complicado que é quase um crime continuar com isso. Muitos sabem exatamente o que dizer. Deveriam morrer fuzilados ou ser de uma vez canonizados para virarem praça pública. Mas eles não sabem disso. Nós sabemos, nós os incompletos. Nós que vivemos querendo dizer algo e sabemos que não seria possível continuar. Nós que emprestamos livros com a desesperada função de marcar território. Nós os do eterno holocausto, os das canelas rachadas que carregam tonéis até a boca com o excremento dos que recebem medalhas – seus caixões feitos de madeira nobre. Nós que falamos por entre dentes coisas que não ouviriam nem mesmo se gritássemos. E nós não ouviríamos. Nós os ridículos falsificadores de suspiros, baseados na constante variável entre o mais absurdo mecanicismo maquiavélico e o absoluto respeito pelo temperamento explosivo das difíceis palavras no fim das frases impelidas.

Preciso terminar de uma vez sem tocar em nada. Não há mais tempo para aliterações. É preciso dizer a quem quiser ouvir que não temos outra vez a menor idéia, que tudo é um ciclo que se repete num eterno passado. É preciso fazer isso para conservar o tutano dos desejos mais secretos. Esses criminalizados. Os duvidosos que seguem reto. Os entrevados que jamais gritam. Os que esperam lhes abrirem as portas com sorrisos e sem perguntas. Os passíveis de caramujo. Os que se mantém puros em todas as extensões de suas vidas. Os encatarrados de nariz seco, mãos imundas e unhas sujas, quebradiças. Os que seguem apanhando e nunca reclamam de nada. Estão tristes, mas nunca derrotados. Eles são o que hoje as hienas chamam petróleo. Os aniquilados sem direito voltarão milhões de vezes e o rei estará preso em madeira de lei, ainda apodrecendo. Voltarão os de quem não se pode esperar nada que não seja esperar qualquer coisa e como isso é bom.

Mas na verdade não é bom e preciso parar imediatamente. Não deveria nem mesmo ter começado. O que nos impele não escolhe sentido, por isso não adianta se lamentar. Melhor não fazer, melhor adotar uma religião, um bom plano de saúde, um amor caridoso que nos encante pelo seu cálido charme vazio de sentido. Estamos no meio das multidões, dos pântanos concretos de ferro e carne e barulho, estamos nas canecas cheias e nos corações enregelados. Estamos sozinhos e não sabemos para onde ir. Nós os crentes na beleza, os idiotas inveterados, os que apenas balbuciam na imensidão de verdades desconhecidas. Fazemos a volta e nos calamos. Olhamos ao redor, fraquejamos, pensamos em preces, andamos mais rápido. Muitos pararam, perguntaram: “Para onde?”. Todos morreram. É preciso disso tudo porque não deveríamos continuar, dar o passo no escuro. Pular no imprevisível que, obviamente, também já foi santificado pelos corajosos com mil olhos. Mas alguém, às vezes, precisa cometer o crime.


Partilhar

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

OS DIAS >> Carla Dias >>

Encaro minha humanidade como desafio, pois nem sempre me sinto capaz de exercê-la. Às vezes, encosto no tempo e fico a galantear vazios. Sou assim: meio lá, quase acolá.

Tem dias em que a felicidade me embriaga, e em outros, peço licença à tristeza para trafegar em seus campos, a melancolia a tiracolo. Não há regra, não domino a linguagem dos significados das jornadas. Mas sei que no final de cada uma delas há um réquiem à espera, pois como mencionam os oráculos, é preciso morrer para renascer; benfeitorias no aguardo.

E tem dias em que me sinto repleta, sem motivos ou expectativas. Trata-se somente de uma sensação boa que se levanta comigo; abro os olhos e percebo a vida mais mansa. Dias assim são preciosos, porque a identidade deles vem justamente do efêmero. E o que eterniza esse começo que se agarra fervorosamente ao fim, é a nossa capacidade de mantê-lo vivo na memória; mas não como um cemitério de lembranças, de onde tiramos uma nostalgia truculenta, que recorre às cobranças sobre não termos conseguido algo parecido ou melhor. Falo sobre perceber tais dias como milagres que são. Milagres de leveza e agrado, muito parecidos com aquele instante que antecede a revelação de um mistério. Quando percebemos que, depois dele, o antes jamais será o mesmo, ainda que venha a ser bem melhor.

Os dias são como páginas de um livro. Estamos sempre ligados à página atual pelo o que nos revelou as anteriores; e ao desejo pungente de saber o que há nas páginas que virão. Tecelões saberiam explicar melhor a teoria de que cada dia é um, ao conceberem suas obras a partir de retalhos, partes, fragmentos.

Fascina-me orientar solidões ao regalo dos fragmentos. Há inteiros disfarçados nestas partes. Então, há dias em que fico muda, bicuda, sem graça; daqui a pouco sorrio, gargalho, reverbero tolas valentias. Dias em que mil páginas cabem em uma, numa mistura sem regra de passado experimentado, presente destrambelhado e futuro idealizado. Dias em que todos os silêncios gritam sua mudez na minha alma.

Em dias como este: aquieto. Desafio minha humanidade olhando o mundo de longe. E, nessa lonjura, desperto a capacidade de voltar ao índice, ler prefácio, reiniciar a leitura de mim mesma.

Imagem >> Cristiane Zamora

Partilhar

terça-feira, 27 de novembro de 2007

BELEZA PRÓPRIA -- Paula Pimenta

My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress when she walks treads on the ground.
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.

(Soneto 130 - William Shakespeare)

Meu namorado reclamou porque eu disse que prefiro o seu corpo um pouco mais 'cheinho'. Ele disse que eu quero o seu mal, que não gosto de vê-lo em forma, que eu desejo que ele ande feio por aí.

O que ele não entendeu é que é exatamente o contrário: eu o considero mais bonito com 'recheio' do que sem. Sei que a referência que temos de beleza, atualmente, são modelos anoréxicas, a moda prega que quanto mais magro, mais bonito. Mas eu, simplesmente, não concordo. Acho que algumas pessoas, quando magras, ficam bem. Outras, quando gordas. E ainda outras, no meio do caminho.

Imaginem o Jô Soares magrelo. Perderia completamente o charme. Ao contrário, pensem na Gisele Bündchen gorda. Mais que o charme, ela perderia até o emprego. O que seria do Gérard Depardieu sem o nariz? E se o Ronaldinho Gaúcho raspasse o cabelo? Ambos perderiam a marca registrada, ficariam sem personalidade.

Acho que cada pessoa tem o seu jeito físico próprio e as imperfeições são o que dão o charme, que realçam o restante. É muito fácil amar alguém só pelas suas qualidades, mas amar também os defeitos é que prova que o amor é real.

Uma amiga, recentemente, colocou silicone nos seios. Eu só faltei chorar quando soube. A menina era perfeita do jeito dela. E agora ela é igual a milhares de outras que acham que para ser bonitas precisam usar sutiã tamanho 44.

Em um episódio de “My so called life” (um seriado americano já extinto, mas que todas as pessoas do mundo deveriam ter assistido), o cara mais bonito da escola começa a namorar uma menina normal, que não era nenhuma “cheerleader”, nem popular, nem modelo, apenas uma garota como qualquer outra, bonitinha, mas não de parar o trânsito. O mocinho, no começo, não queria assumi-la publicamente, só ficava com ela escondido, no porão da escola. Até que um poema de Shakespeare, o que inicia esta crônica, fez com que ele abrisse os olhos e percebesse que a graça da menina era exatamente o fato dela ser real, humana, de ter defeitos. Isso fazia com que ela fosse única. Ela era bonita para ele e isso bastava, não precisava do aval de mais ninguém, só para ele isso importava. E ele, então, a assume na frente da escola inteira.

A graça de se gostar de alguém está exatamente na escolha, em gostar dessa ou daquela característica que só aquela pessoa tem, da beleza própria dela. Se não fosse assim, se todos fossem iguais, era só pegar a primeira que passasse na frente, seria tudo igual mesmo...

Existe gosto pra tudo nessa vida, minha mãe sempre diz: “O que seria do vermelho se todos gostassem do amarelo.” Ainda bem, porque se todas as meninas do mundo achassem meu namorado tão bonito quanto eu acho, não ia dar certo, não suporto sentir ciúmes.

E agora um recado exatamente pra ele, o 'muso inspirador' dessa crônica, que eu espero que agora tenha me entendido: Você é tão lindo que dói. Hoje, descendo no elevador, eu olhei pra você de terno e cavanhaque e me deu até um aperto no coração por não poder ficar o dia inteiro te olhando e pela certeza de que todo mundo por quem você passasse iria fazer isso, por culpa dessa sua beleza toda. Eu nunca vou te achar menos bonito por causa de três centímetros a mais. Na verdade, vou continuar gostando de você mesmo se você ficar careca e com barriga de chopp. Agora deixa de bobeira e vai ali no carro comer as amanditas que eu deixei no seu porta-luvas, e aproveite para aprender com elas que biscoito recheado é muito mais gostoso do que aqueles secos, sem recheio nenhum.


Partilhar

domingo, 25 de novembro de 2007

AMOR POR ESCRITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Amor por escrito, Eduardo Loureiro Jr.As analfabetas que me perdoem, mas a escrita é fundamental. As que escrevem mal que me relevem, mas a grafia correta é imprescindível. As que escrevem só o necessário que me dêem um desconto, mas a desnecessária inspiração é indispensável.

O amor me chegou por escrito, como sempre me chegou: em bilhetes, cartões, cartas, e-mails, mensagens de celular.

O amor por escrito é o amor paciente de que fala O Livro: não exige o momento nem se esgota nele; está ali desde sempre até que se queira conhecê-lo e, uma vez conhecido, estará sempre ali para ser relido como se fosse a primeira vez.

As bonitas que me desculpem, o amor por escrito só vê o invisível essencial. As malhadas que me escusem, o amor por escrito é lânguido, frouxo. As maquiadas que me tolerem, o amor por escrito é sem máscaras.

O amor por escrito fala de si sem dizer o próprio nome: tem uma intimidade anterior aos batismos. O amor por escrito pede silêncio e inspira música.

O amor por escrito é prosa prosaica de mar que se afoga em si mesmo; e, de repente, é peixe dourado que salta da água com seus versos e ágeis barbatanas. O amor por escrito, quando reto, é reticência; quando curvo, é saliência, enxerido assanhamento. O amor por escrito é um só texto composto por dois autores.

Verbo que se faz letra, o amor por escrito é pó & cia. e à poesia voltará.

Quando eu li, amei. Quem me ler, amará?

Partilhar

sábado, 24 de novembro de 2007

UMA MULHER SEM SAPATOS [Ana Coutinho]


Márcia é uma mulher interessante, bonita, inteligente e, claro, independente. Dizer que é independente nos dias de hoje é quase sinônimo de solteira. Quando falamos de mulheres lindas e bem-sucedidas, é como se fosse um texto para ser completado com “sozinha”.

Com Márcia não era diferente. Ela sabia que era parte das estatísticas, uma matéria de revista, sabia que o mundo era assim mesmo, que a vida tinha dessas coisas e tal. Márcia sabia, sobretudo, que ser sozinha, linda e inteligente, dava a ela um ar ainda mais interessante. Não aos homens unicamente, mas às amigas, aos tios, aos senhores que a olhavam na rua, quando ela saía do salão com o cabelo longo e liso que tinha. Era como se ela fosse parte de uma reportagem da “Claudia”, era como se as casadas a invejassem e os solteiros a desejassem, ainda que com tempo limitado. Os seus relacionamentos existiam, eram ótimos, mas tinham, sem exceção, uma data de validade – tal como um pote de requeijão.

Ainda assim, ainda causadora de inveja e desejo, Márcia se achava uma mulher normal. Nunca foi infeliz como as mulheres da reportagem - imagine se ela, com tanta coisa pra fazer, ia se preocupar em achar um homem pra ter dor de cabeça.

Márcia vivia bem e tranquila, até uma tarde de sábado, um sol brilhante, quando resolveu comprar um sapato novo, provavelmente uma sandália para o verão que estava por vir.

Com o som no último volume, ela chegou ao estacionamento da loja, dessas enormes, preços justos, modelos lindos. Tinha uma pequena multidão no local, mulheres de todos os tamanhos, cores e idades se espremiam entre as paredes recheadas de sapatos, bolsas, carteiras, cintos.

Márcia correu para as prateleiras que expunham seu número, 36, e começou a olhar. Separou uma sandália anabela e também um tênis. Sentou como deu e, com os sapatos já nos pés, achou aquela cor muito difícil de combinar.

- “Moço, moço, você pode ver se tem marrom dessa sandália?” Márcia perguntou sem nem se levantar.

- “Marrom? Esse é marrom...”

- “Não, não, quis dizer caramelo. Pode ver se tem caramelo?”.

O homem a olhou cabisbaixo: - “Tem não... Só veio essa cor aí e preto”.

Márcia levantou, agradeceu e foi em busca de outro sapato. Achou, mas o salto era fino demais. Viu uma outra sandália maravilhosa, mas essas trançadas machucam à beça. Tentou no espaço do 37, nada. Quer dizer, tudo. Um mundo de sapatos, mas nada que a agradasse. Márcia foi ficando sem jeito, triste, perdendo de repente a alegria daquele dia tão ensolarado.

Fez uma conta rápida: vinte modelos por prateleira vezes cinco prateleiras, cem sapatos. Em uma parede... Eram quatro; logo, ali estavam quatrocentos pares de sapatos diferentes, apenas no 36. Se ela fosse nas botas, ou usasse um pouco do 37, logo chegava em mil diferentes pares à sua disposição.

Márcia respirou fundo com uma conclusão - era como se uma luz enfim se acendesse dentro dela. De repente, ela não se sentiu tão linda e triunfante por ser uma reportagem do Globo Repórter. Ela tentou sentar, mas não achou lugar. Foi pedindo licença, saindo devagar. Passou pelo caixa e tomou um susto com a fila - que dava bem umas quatro voltas de mulheres cheias de sacolas com diferentes sapatos. Mulheres feias, uma ou outra gordinha, outra mais velha, mulheres que talvez a invejassem, mas que eram absolutamente capazes de achar um par de sapatos que lhes agradasse no meio de mil opções.

Quando chegou até o carro, de mãos vazias, Márcia se sentiu uma enorme tola. Percebeu, pela primeira vez, que talvez não valesse tanto assim ter quantas horas quisesse no banho. Notou que o homem certo, assim como o sapato certo, talvez estivesse sempre em falta, talvez tivesse sido pego por uma feiosa de cabelo enrolado que chegou alguns minutos antes dela porque furou um farol vermelho. E notou que a sandália, assim como o homem, talvez fizesse falta se considerarmos que está tão quente e que logo a temporada de calor está por aí.

Márcia sentiu-se subitamente infeliz; pagou o estacionamento e foi para casa. Lá chegando, calçou suas havaianas antigas, vasculhou por uns cartões de visita velhos que ela jogara fora um dia antes. E enquanto os remexia, pensava: “Quem sabe, mesmo se não for marrom, mesmo se o salto for um pouco fino, ou se estiver pegando em cima, mesmo assim, quem sabe se não laceia com o tempo e me veste os pés, ao menos no verão...”

Doce Rotina

Imagens: Woman Standing on Red Flower Petals, Sean Justice; Feet in Sand on Beach, Burke

Partilhar

SURPRESAS TRISTES [Débora Böttcher]


Foi quinta-feira: pela manhã chegou a notícia de que o marido de uma amiga/parceira profissional tinha falecido. Não me pegou de surpresa propriamente dita - ele enfrentava um câncer de estômago há pouco menos de um ano. Mas sempre me surpreendo com a Morte...

Quando saí da garagem subterrânea do prédio onde moro em destino ao local da cerimônia de despedida, deparei-me com um dia especialmente azul - que contrastava totalmente com meu traje preto e minha alma sombria. Ventava um pouco, como sempre parece acontecer nessas ocasiões - naturalmente, uma coincidência sem real associação.

Isso também me surpreende sempre: como a vida continua, alheia às terríveis dores e perdas individuais.

Acho que posso dispensar comentários sobre a tristeza do fato: ele era um homem jovem - 51 anos -, bonito - de brilhantes olhos azuis e pele clara -, educado, gentil, divertido, muito alegre. Amante da natureza, de animais, da vida sofisticadamente simples, ele construiu uma casa grande num condomínio fechado, com jardim para abrigar e brincar com os cachorros que criava. Não tiveram filhos - por razão que desconheço, pois eles apenas diziam que tinham decidido assim. Vinte e cinco anos de casamento e escolhas cotidianas me fazem imaginar que haja acordos plenamente satisfatórios, que nenhuma das partes precisa expôr ou explicar.

Não me surpreendi com o que a doença fez com ele fisicamente - já passei por isso com meu pai e o câncer, descobri, arrasa a todos igualmente, independente da região em que se instala.

A dor em mim se deu pela angústia contida e praticamente silenciosa, em lágrimas sofridas, da 'moça' pequena e querida que amargava a perda do marido: "Ele sempre foi mais pra mim do que fui pra ele...", repetia. Essa sensação é compreensível, mas não é verdadeira: muito voltada para sua vida pessoal (apesar de não abdicar da carreira), especialmente no último ano, eu a vi dedicar-se inteiramente a uma batalha incansável, com gigantesca esperança otimista, numa cansativa guerra que ela não sabia, mas era invencível. Isso sempre me surpreendeu em sua postura: uma certeza de milagre quando as evidências eram claras em apontar numa direção contrária.

Aliás, acho que eu sempre me surpreendo com a maneira como as pessoas enfrentam uma doença terminal de um ente próximo: elas se armam de uma coragem inabalável, ignorando sinais, informações concretas, protegendo-se num manto de irrealidade, atendo-se apenas às histórias de superação. Mas vamos combinar: apesar dos avanços importantes da Medicina, as estatísticas não mentem e sabemos que as chances não são
tão positivas.

Na sala memorial, era possível sentir a presença invisível da Morte num canto esquecido do aposento. Ela não sorria - não seria tão dissimulada -, mas assistia a tudo com sua arrogância impassível. Ela, uma soberana ante a Vida, merecia um capítulo à parte - mas isso entristeceria ainda mais esse relato.

Ainda assim, não sou capaz de terminar esse texto sem expressar minha própria melancolia. E a sempre surpresa que me causa, me paralisa, me põe de joelhos quando constato minha total impotência diante da Morte...

Expressões Letradas
Imagens: Travesseiro, Autor Desconhecido; O Dia da Morte, Bouguereau.

Partilhar

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O MOMENTO MÁGICO << Leonardo Marona

Sim, apenas pela sensação fugaz das linhas se fazendo. Sim, por uma bobagem, pelo espaço preenchido por qualquer bobagem. Por cataratas de bocas se abrindo e se fechando. Pela bobagem singela de um sorriso sem razão. Pela loucura liquefeita nos espaços entre as folhas de um eterno clima outonal. Sim, pela emoção fragmentada de gritos enxertados. Aquele espaço sempre quase mudo, a ponto de se realizar, se afastando. Aquele ranço entre o silêncio idealista e a solidão tácita. Existe talvez quem sabe um “não basta”, não basta apenas garantir uma sabedoria, porque no fim se perde e se nega, mas quem saberá realmente o que um dia chamou-se ingenuidade ou força de espírito? E onde estará em mim o amor de que preciso? Porque é preciso achar, sim, talvez apenas para ver a beleza das linhas se fazendo. Talvez apenas por uma bobagem. Sim, por uma bobagem. Só por causa de um rombo incômodo que repartimos em silêncio aos risos debaixo da fumaça dos cafés de filmes aos quais jamais assistimos, mas com cujas atrizes aprendemos a nos masturbar. Os sonhadores foram banidos para a obscuridade. O tempo é um constante dizer não ao convite de deus e, sim, é preciso ter de volta. O espirro inconseqüente de quem se arrepende da luta e cai, agora sem braços, criando suspiros ordinários de repente remetido ao movimento reacionário de um tempo ainda desconhecido, onipresente, sem saída.


Partilhar

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

TATUAGEM [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Dia desses minha irmã chegou em casa com uma tatuagem na parte interna do pulso: um M em letra cursiva floreada e duas estrelinhas desalinhadas, uma azul e uma vermelha. Meu irmão também tem uma tatuagem, mas na parte interna do braço. São três cabeças de dragão formando um círculo. Consideravelmente maior do que a dela, mas também em local de acesso mais difícil aos olhos alheios.

Tatuagens me causam um misto de espanto e incompreensão: fazer de livre e espontânea vontade um desenho no seu corpo que, por princípio, deverá existir para sempre? Engraçado. Estranho. Como assim? E se eu cansar dessa marca, dessas cores, desse modelo? Você pode tirar com laser, dizem eles. Sim, respondo eu, mas e se eu cansar disso já na semana que vem? Aí a incompreensão é deles: por que alguém faria uma tatuagem se fosse para não querer mais tê-la na semana que vem? Pois é. Por que? Agora sou a única irmã não tatuada, para alívio do meu pai.



Eu confesso que não consigo me imaginar fazendo uma tatuagem. Já brinquei muitas vezes com a possibilidade de desenhar uma borboletinha em algum lugar do corpo, mas nunca pensei em levar isso adiante. Fazer uma borboletinha no pulso e olhar para ela todo dia? Vou enjoar. Fazê-la, então, nas costas ou em algum lugar de difícil acesso? Mas para quê, se não vou poder vê-la? Enfim, a tatuagem é feita para mostrar ou para olhar? Uma tatuagem na parte de trás do ombro ou da panturrilha só serve para mostrar... ou não? Não sei. Aliás, já está claro que meu grau de compreensão do tema é menor que zero.



Não é que eu seja "contra" tatuagens... Algumas são até bonitinhas. Desagradam-me, no entanto, tatuagens grandes, daquelas que ocupam um membro inteiro. Ou tatuagens em locais em que a pele é delicada, como o pescoço. Escrever numa pele lisinha, ai. Que pena... Um dia, num barco em Parati, sentei atrás de uma moça que tinha as costas inteiras tatuadas. E os braços. E os pés. E parte das pernas. A impressão era de que estava vestida com uma camiseta estampada de revista em quadrinhos. Dragões, mocinhas, flores e borboletas, em cores vibrantes. Senti-me uma legítima representante do século passado ao pensar "puxa, uma moça tão bonita e estragou toda a pele desse jeito..."



Será que a minha incompreensão vem daí? Pois, se não sou daquela geração que considerava tatuagem uma coisa de gente pouco respeitável, sou do tempo em que bonito era ter a pele lisinha, sem marcas. O que, aliás, não é o meu caso. Tenho marcas espalhadas pelo corpo. Na canela, no antebraço, uma pequenina no rosto e uma verdadeira constelação delas na barriga,
resultado de duas cirurgias por video-laparoscopia. E dessas cicatrizes, no fundo, tenho até certo orgulho. Todas têm significado expressivo, e representam momentos difíceis de esquecer. Fico então com essas, e deixo as figurinhas coloridas apenas na imaginação.



Partilhar

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

HIPOPÓTAMO, MUNDO E LOBOS >> Carla Dias

Minha sobrinha me ligou e disse: “ontem foi seu aniversário, né?” e respondi “né”. Então, ela me deu os parabéns e começamos nossa conversa de doidivanas que somos. Apesar de ter ficado com ela na quinta-feira, com direito a dengos, colo de tia e afago de sobrinha, não a vi na sexta passada, dia em que completei meus trinta e sete anos, porque passei parte deste dia na casa de uma tia. Depois, voltei pra casa… Pra tevê a cabo e pipoca.

Batemos altos papos, porque somos moças descoladas. Apesar de meus trinta anos aquém dos sete dela, nos entendemos muito bem. Já conversamos seriamente sobre a idade, porque ela pensa em se tornar muitas coisas, inclusive bailarina e professora, mas se nega a crescer e a envelhecer. Hoje, ela já aceita que será mais alta do que é agora, o que, acreditem, é um avanço e tanto.

Ouvissem alguns políticos o jeitinho que ela diz “não pode fazer maldade!”; pudessem ver a seriedade na carinha dela, a verdade na sua declaração, quem sabe se envergonhariam de enfiar as mãos nos bolsos do povo e privar muitas crianças de terem um futuro com perspectivas. Porque as perspectivas delas são de uma beleza confessa a cada nascimento.

O que me fascina nessa minha sobrinha é a esperteza com requintes pueris. Ela percebe muitas coisas destinadas ao universo dos adultos, e até discursa sobre algumas delas. Porém, é um tal de colocar nesse balaio os macacos e as bonecas, a adoração pela comida da avó e, principalmente, pela avó mesmo, que tudo fica muito mais agradável. De um jeito que nós, adultos, deveríamos aprender a lidar com quem nos tornamos e a forma como convivemos com aqueles que sempre estão ao nosso lado.

Há dois anos, mais ou menos, conversávamos ao telefone e chegamos ao medo que ela tinha de lobo mau. Por conta disso, inventei um lobo que morava comigo, que era todo bondoso, apesar de bonachão. Então, até hoje ela pede para falar com ele: “chama o Seu Lobo, tia?”, e eu disfarço a voz e conversamos outra conversa. Uma conversa que criança só teria com lobo mau de mentira mesmo. E tem mais... Ela inventou uma loba para contracenar com ele. Desde então, é comum que durante nossas conversas telefônicas, ela pergunte pelo Seu Lobo. Aí eu digo que ele saiu só pra que ela possa sussurrar que o danado está na casa dela, que foi buscar a Dona Loba pra passear, enfim, para que ela possa inventar sua própria versão do Seu Lobo e da Dona Loba. Teve um dia em que ela soltou: “ai tia, acredita que deixaram os lobinhos comigo e foram dançar?”.

Hora de desligar o telefone, e ela manda: “um beijo do tamanho de um hipopótamo no seu coração”. E eu, toda comovida pela grandeza do beijo que ela rendou de um jeito que tivesse a ver com nossa diferença física e de idade, fui além: “um beijo do tamanho do mundo no seu coração”. E ela soltou uma daquelas risadinhas que bem conheço; de quem saca todas e acha a desinformação do adulto engraçada. E disse: “Ih... Acho que não vai caber dentro de mim!”. E gargalhamos juntas, desse jeito bom que fazemos com quem amamos a ponto de inventar caras e bocas para o que sentimos.

Eu tenho seis sobrinhos e sou tia coruja assumida. Este é apenas um fragmento do prazer que eles me dão, e também do quanto eles me ensinam sobre a vida. Hoje eu falei sobre uma dessas crianças, mas podem esperar que tenho histórias com as outras cinco, também; pessoinhas lindas de um tudo.

O que espero no meu novo ano, é que a Amanda continue assim: feliz. E que a criançada desse país, desse mundo, possa olhar lobo mau nos olhos e convidá-lo pra brincar de ciranda-cirandinha, porque ele se tornou vegetariano e amigo de viagem. Que os beijos de amor transbordem dos corações das pessoas e, quem sabe, o mundo chegue a eles, através desses beijos, sem perigo de lá não caber.



Partilhar

domingo, 18 de novembro de 2007

O CHAMADO >> Eduardo Loureiro Jr.

Nada acontece sem um aviso. Desde as histórias que Vó Izolda contava, tudo acontece depois de um anúncio. Minha amiga Juliana dizia "aqui, quando chove forte, de relâmpago e trovão, venta forte antes e a gente sente, ouve a chuva chegando". Tinha uma luz no meio do caminho: uma chama, um chama, um chamado.

A gente resiste, claro, faz charme, faz de conta que não é com a gente. Peixe que carrega pra longe a isca que já mordeu. E o pescador dando corda: "Vai, foge, curte a liberdade, o mar é todo teu..." E zás! O fio do destino puxa o peixe pela boca. E se o peixe morre pela boca, o poeta vive pela palavra.

Na saída do Labirinto, eu, Dédalo, falei para o Minotauro e para Teseu: "Tantos anos e vocês aqui, dentro de uma idéia minha. Tantos anos a se perder e a se encontrar. Tantos anos de pedra, de couro, de espada. Inventem agora vocês alguma coisa na qual eu possa entrar."

Vocês foram lá e inventaram. Teseu no céu tecendo seu fio. Minotauro na terra cavando a mina. E o chamado: "Está tudo pronto. Você nos deu o labirinto, o labor interno, o trabalho de si. Nós lhe devolvemos o trabalho do outro, o labor externo, as sete moças e os sete rapazes que já não vêm para o sacrifício — estão soltos, a gente por aí."

E eu aqui, olhando pra vocês, como quem estica o pescoço pelo orifício do portal. Vou? Não vou? Fico? Não fico? "Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele". Mas, Mestre, e se alguém pede ao invés de obrigar, quantos 1.789 quilômetros devo andar?

"O poeta aprofunda meu dilema", diz meu amigo Fabiano. "Um poeta inspira outro poeta que respira", diz meu amigo Fabiano. E eu, o que digo? "Eu nunca fiz uma canção pra você, nem um plágio de bolero sequer."

O badalo do sino bate alternado: som, eco, silêncio. A chama do chamado dança ao ar do pátio. Não posso ser forte nem fraco. Nem inflamo nem apago, guardo. Um pedido de amor não tem lados. Um portal é só uma janela que dá para o que receber. Um só coração em dois corpos. Um só copo pra nós dois beber.

O que acontece depois do chamado?

Partilhar

DESCONTA LÁ! >> Felipe Holder

Quando eu era criança costumava brincar com os amigos de um jogo chamado desconta-lá. Quer dizer... na verdade não era bem um jogo, era uma brincadeira - normalmente de mau gosto, por sinal.

O negócio era o seguinte: você estava distraído, pensando na morte da bezerra, vinha alguém e tebei! dava-lhe um peteleco na orelha. Ou um catiripapo no toitiço. Quando você se virava, pronto pra retribuir a gentileza, o engraçadinho corria e gritava "desconta lá!" Se você reclamasse, ignorasse a "brincadeira" ou se corresse atrás do cara pra revidar, era logo hostilizado pelos outros. Era um tal de "donzelo", "não sabe brincar", "deixa de ser menino" (e o que é que a gente era?) e outras coisas mais. Pra ser "aceito no grupo", tinha que entrar no clima e passar adiante o peteleco, catiripapo, bolacha ou o que quer que fosse. E assim era o tal desconta-lá. Para uns, uma brincadeira inocente; para outros, como eu, uma coisa pra lá de sem graça.

Pois bem, depois de adulto eu descobri que ainda se joga o desconta-lá. Não o jogo original, mas uma variação igualmente sem graça, em que o objetivo não é passar adiante bolachas, petelecos ou catiripapos, e sim um trabalho que deveria ser seu. Por comodismo, preguiça, falta de educação ou tudo junto mesmo. Deixa eu explicar.

Você chega ao shopping e tem a maior dificuldade pra estacionar. Aquela que poderia ser a última vaguinha foi tomada por um folgado que estacionou ocupando o lugar de dois carros. Caso clássico do desconta-lá moderno, onde os malas preferem parar de qualquer jeito a ter que fazer um "esforço sobre-humano" para estacionar o carro como deveriam. O problema é seu. Você que se vire e continue rodando atrás de outra vaga. Ou que tente colocar ali mesmo, no aperto, fazendo - aí sim - uma manobra demorada que vai deixar você todo suado e ainda com medo de ter seu carro batido pelo preguiçoso do lado.

Você vai, faz suas compras no hipermercado do shopping e em seguida resolve lanchar na praça de alimentação. Ela está lotada, você cheio de sacolas, mas é melhor lanchar logo do que ir deixar as coisas no carro. Afinal, sempre se acha um lugarzinho. Pois bem, lá vem você com a bandeja na mão, equilibrando um copo de refrigerante em cima, e duas sacolas em cada braço. Até que não foi tão difícil: olha um lugar bem ali! Mesa pequena, um lugar só, está ótimo. Mas quando você chega lá encontra uma bandeja cheia de pratos e copos sujos, certamente deixada ali por um jogador do desconta-lá (claro!) que não ia se dar ao trabalho de recolher a bandeja dele. Pra que, se você ia chegar pra fazer isso? O problema é seu. E lá vai você dar uma de malabarista-contorcionista: coloca as sacolas no chão, a sua bandeja na cadeira e se prepara para recolher a bandeja do Zé Preguiça, quando uma alma boa vem em seu socorro: é a moça da limpeza do shopping, que sorri e recolhe a bandeja por você. Aí você agradece, coloca a sua bandeja sobre a mesa, começa a comer e pensa "ainda bem que nem todo mundo joga o desconta-lá; ainda há pessoas conscientes e educadas no mundo". Sim, é claro que ainda existem pessoas assim. E aquela moça certamente pode ser uma delas. Mas você se lembra de que ela é paga pra isso. Tsc, tsc, tsc... era melhor não ter lembrado, não era não?

De volta ao estacionamento. E o que você encontra agora? Um carrinho de compras vazio, bem atrás do seu carro. Deixado ali por alguém que achou muito grande o trabalho de levá-lo até o local onde ele deveria ser levado, a menos de dez metros dali. Se você pode fazer isso, por que ele faria? O problema é seu, claro. Como de costume. E não foi o sujeito folgado do carro do lado quem aprontou dessa vez. O carro dele ainda está lá. Foi outro folgado, outro jogador do desconta-lá. Resignado, você pega o maldito carrinho, controla a vontade de deixá-lo atrás do carro do lado (porque você, ainda bem, não sabe brincar) e o coloca calmamente junto com os outros carrinhos vazios, onde ele não vai atrapalhar ninguém.

E é essa a nova versão do jogo do desconta-lá. Chatinho, não é? Mas existe. E vá se acostumando, pois os jogadores do desconta-lá são muitos...

Aposto como você já deu de cara com muitos deles, não deu não? Pois bem, se não deu foi porque não estava prestando atenção. Eu garanto. Faça isso agora e eu duvido você não identificar pelo menos um, todo santo dia. E não precisa ser no estacionamento do shopping ou numa lanchonete; o jogo é jogado em qualquer lugar, nos quatro cantos do mundo. Se bem que, não sei por que, eu tenho a impressão de que no canto de cá esse jogo é bem mais popular do que nos outros três.

O texto foi grande e cansativo ou estava bom e acabou antes da hora? Deu vontade de reclamar do autor ou de repassar para algum jogador que você conhece? Qualquer que tenha sido a sua reação, vou fazer um pedido: não desconta lá não. Clica na opção "comentários" e solta o verbo. Desconta cá! ;)

Partilhar

sábado, 17 de novembro de 2007

PALAVRAS-CHAVE [Mariana Monici]


Não sou uma pessoa racional - fato admirado por alguns e totalmente condenado por outros. Reparo que algumas pessoas vivem exatamente de forma calculada, feito uma planilha no excel: cada novo dado inserido já prevê um resultado. Admiro e, se houvesse este tipo de consultoria, pensaria em contratar o consultor que aplicasse conceitos matemáticos e prevesse resultados mais sensatos pra minha vida emocional em tudo que lhe diz respeito. Mas tudo bem, procuro aceitar a coisa como ela é.

Alguns tentam me dizer palavras-chave que suscitem sensatez (porque um tanto eu tenho, claro!), como, por exemplo, “calma!”, “tempo ao tempo”, “um passo de cada vez”, e vou confessar que ouvi-las me dá um certo tipo de aflição que sinto as bochechas esquentarem, uma descarga de adrenalina do tipo ruim. Pois pessoas guiadas pelo emocional não gostam muito de ouvir isso - preferem ouvir palavras que demonstrem apoio, efusivamente proferidas.

Isto é sim um tipo de confissão e não um pedido. O melhor seria que todos nós tivéssemos o equilíbrio exato nas demonstrações de emoção e afeto e soubéssemos usá-lo também com a razão.

Tem um ditado chinês que diz que o lugar mais escuro é embaixo da lâmpada. Fiquei refletindo um pouco e pensei que talvez queira dizer que conseguimos enxergar melhor quando nos distanciamos do objeto, seja uma tela de Monet, um relacionamento, uma sala iluminada - afinal, só se pode ver a ilha estando fora dela. A principio, a palavra “distância” soa como “tempo” ou “calma”, porém como acho que é infinitamente rico observar coisas, pessoas e relações, aceito melhor “distância”.

Distância é uma coisa engraçada, porque nunca se distancia de tudo; se você se distancia de um ponto, obrigatoriamente se aproxima de outro (pra avaliar qual seria mais produtivo, o excel ajudaria).

A parte boa é que você pode, distanciando-se de tudo ,aproximar-se mais de você mesmo e descobrir coisas totalmente novas, um mundo, mil pessoas diferentes, novos jeitos pensar, de amar, de ver, sentir; e pode descobrir que gosta mais de Zeca Baleiro e menos de Pink Floyd do que imaginava, que prefere mesmo chocolate meio amargo, e que refrigerante diet é um dos piores paladares do mundo. Pode-se pensar melhor e até mesmo rever seus conceitos sobre aprender a usar o excel. Para isso é necessário tempo e também calma...

Ao final, vejo que não tem como fugir. Que as palavras-chave sirvam, então, para aproximar-me do tão almejado equilíbrio entre a emoção e a razão, mas que na distância do mundo ou de mim mesma não se perca o que nenhum deles tem de melhor.

Outras Cenas

Imagens: Lighthouse Possibly, QuintBuchholz; Winter, Tori Amos

Partilhar

FERIADO PARTICULAR [Ana Coutinho]


Quando era ainda criança e ainda completamente tonta, tinha uma amiga que se chamava Clara e que fazia aniversário em 21 de Abril. Um dia, talvez perto do feriado, lembro-me de ter perguntado pra ela porque, afinal, era feriado nesse dia. Ela me olhou marota, e disse com alegria: “Porque é meu aniversário, oras!”

Eu fiquei ali, paralisada, pensando o que ela tinha feito para merecer um feriado só dela, o quanto talvez ela fosse importante e eu nem sabia e, depois, em casa, cheguei a pensar se eu também não poderia fazer alguma coisa tão grandiosa quanto a Clara deveria ter feito (apesar de eu não saber) para que eu tivesse um feriado no dia 21 de Março - parece que ninguém que nasceu nesse dia tinha feito nada de muito especial até aquele momento (já que meu aniversário não era feriado), e eu poderia tentar transformá-lo.

Não deve ter demorado muito até que eu percebesse que a Clara não tinha feito nada de especial - a não ser ter nascido no dia que Tiradentes morreu, anos e anos depois dele. Mas, ainda hoje, me lembro dessa história com certa nostalgia e rio de mim mesma por ter sido tão tola e ingênua.

A cada feriado que se aproxima me pergunto quem faz aniversário, o que aconteceu e quando, afinal, eu vou ter o meu feriado. Provavelmente nunca haverá um feriado destinado a mim pelo meu país, nem pelo meu estado, nem pela minha cidade e nem mesmo pelo meu bairro.

Ainda assim, tenho pensado em fazer um feriado particular, decretar para mim um dia especial, que mereça a minha atenção mesmo que o mundo nem se importe. E quem não merece um feriado? Quem nunca fez algo tão desafiador e difícil quanto o Marechal Deodoro da Fonseca em 1889, e quem disse que foi difícil pra ele?

Os tempos mudaram e hoje, mais do que antes, todos nós precisamos matar um leão por dia pra viver, as vezes dois, três ou quatro dependendo do dia, da vida, do calor, do frio, de tudo.

Eu proclamei a indepedência dos meus pais, fui morar sozinha, fiz meu próprio chá quando resfriei mais de doze vezes, aqueci a minha própria bolsa de água quente durante cólicas e cólicas seguidas, e não mereço nada?

E você, colega, que foi condenada à forca pela sua família quando decidiu se separar e enfrentar a vida sem amarras? Teve alguma coisa decretada em nome disso? E aquele outro que pediu demissão do emprego pra viver da arte, enfrentou o medo do futuro, o medo da vida, o medo de tudo? Ou a mulher que resolve perdoar uma traição – não por medo da solidão, mas por amor e por esperança na vida, nessa vida que nos dá tantas pauladas e rasteiras - e, ainda assim, ainda com a desaprovação das amigas e do resto do mundo, ela decidiu tentar. Ora! E isso não é um grande feito?!

Há os que trabalham honestamente até de madrugada pra alimentar os filhos, os que se casam apesar das estatísticas, os que cuidam dos pais, os que tiveram filhos enlouquecedores, os que comemoram 50 anos de casados sem nunca, nem por uma vez sequer, terem traído suas esposas/seus maridos. Fala? Isso não é tão importante quanto o aniversário de São Paulo?

Com todo respeito, o que Nossa Senhora da Aparecida fez de melhor do que todos esses seres-humanos normais, falíveis, cheios de dívidas e culpas, traumas, dores e, ainda assim, felizes, alegres por um dia, por uma tarde de quarta, só porque a partir da quinta é feriado prolongado?

E feriado do que mesmo?

Doce Rotina

Imagem: Postcard, Aenz

Partilhar

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

EU QUERO SER BOCÓ >> Cristina Carneiro

Já passaram dias, inteiros
Janeiros, calendário que nunca chega ao fim
Início sim e só recomeçar.
(Pedro Luís e Roberta Sá)

Principiou no Cariri, quentura braba. Essa coisa nascida no Cariri, no Crato, lá no sul do estado, renasceu em mim nesses derradeiros dias. Quente cá na cidade nova. Nem vento faz. Calor medonho. Saudade medonha do calor daquele novembro, 2005, lá no Cariri.

Sala barulhenta. No cantinho da sala, estava eu. Perto da janela fechada, mas era janela, e eu gostava de ficar no canto. As pessoas eram ignorantes do que me acontecia naquele cantinho abafado. “Dilúvios...”

Daqueles dias, lembro também da praça e do meu aniversário: numa churrascaria varandão: sete cervejas divididas com um amigo e muitos olhares para o relógio eletrônico da praça: “19/11/05, 22:00", "19/11/05, 22:00", "19/11/05, 23:15”, "19/11/05, 23:15”, “20/11/05, 00:02”. Garçom, traz a conta. Saimos cambaleando. Meu coração explodia de alegria e de vontade de voltar pra casa, na cidade grande, sete horas de ônibus.

*

Dia 20 de novembro não era mais meu aniversário, mas que veio a ser um dia feliz a partir de 2002. Comemoro aniversário do fim de um namoro chato, muito chato. Cinco anos sem chateação, já se vão este ano. Desesquecimento de datas.

*

No dia 20 de novembro de 2005 o telefone lá de casa tocou às 23h00.
“Eu ouvi uma música que era a cara de dançar com você.”
“Dá pra dançar na praia, numa noite de maré baixa?”

Da janela da cozinha, eu olhava a cidade toda esvaziada. Uma das imagens que eu mais gosto em todas as cidades do mundo: o Centro anoitecido e o esvaziamento. Na cidade nova, coisa que eu gosto é andar de carro de noite, tarde da noite. Sempre gostei de cidades boas para se andar de carro de madrugada. Aqui é.

Depois da ligação, o tempo passou. Três meses. Menos que isso. Vim até a cidade desconhecida, que hoje é a nova. De então pra hoje já são quase dois anos completados. Agora é aqui, na velha cidade desconhecida, que eu moro, quatro meses. Mas insisto em brincar de uma brincadeira engraçada, mas às vezes também triste. É tentar lembrar da primeira vez em que eu passei pelas ruas e vi as coisas dessa cidade aqui, onde eu hoje vivo.

Fico rebobinando as sensações, fazendo um esforço traquino de ir aonde já passou. Aí vem aquele aperto, que deve ser um lamento, dói que só. Um lamento de nunca ter havido uma noite de maré baixa. De não ter vindo pra morar por um motivo, mas por outro.

De tanto eu brincar dessa brincadeira, renasceu isso em mim, isso de que estou falando, que pode ser uma pessoa ou um sentimento ou uma ilusão ou uma humanidade. Em matéria de mim, deve de ser uma invenção. Uma coisa que eu inventei, mas que existir, nem nunca. (Nunca não.)

*

Andei chegando em casa com o coração engravatado com uma gravata bem apertada, eu diria pra quem me perguntasse como ando chegando em casa, se triste ou alegre. Engravatada no coração.

Outro dia, engoli pelo olho uma lágrima que queria cair enquanto eu percorria toda a orla dentro de um taxi. O motorista nem desconfiou. A lágrima engolida virou um entalão na garganta, que está até hoje. Se prestarem bem atenção, os olhos podem ver. Mas que eu já me acostumei, isso eu já.

*

Queria saber: por que renascem coisas que faz é tempo na gente? Por que coisas que faz é tempo não se desmancham como o tempo, como as pessoas, como as coisas boas se desmancham no mundo? (As coisas boas se desmancham no mundo.)

*

Eu tenho uma idéia na cabeça: se eu aprender tudo o que eu quero, nunca mais meu coração vai se engravatar apertadamente. Sei nem de onde que eu tirei essa idéia. Acontece que assim, sabendo de tudo o que eu quero saber, eu fico achando as pessoas muito bestas. Por que eu acho as pessoas bestas, quando a besta aqui sou eu? Eu sou besta de ficar brincando de uma brincadeira que reaviva coisas que faz é tempo e que já deve de ter se desmanchando para além de em mim.

Minha cabeça é uma coisa! Cabeça cheia de relembranças, quase nunca dói, mas nunca pára de pensar, nunca se assenta. Cria coisas, acentos, recria tudo sem fundamento, não cansa nunca. Queria uma cabeça sem pensa. “A mamãe disse que Bernardo é bocó. Uma pessoa sem pensa.”¹

*

Quero andar a cavalo. Quero ficar resmungando, resmungando e uma pessoa perto ouvindo, ouvindo, e achando bom meu resmungado. Quero chorar, chorar fundo, soluçar de tanto chorar, até desentalar, até secar o olho todo. Quero ser bocó.

*

1 Manoel de Barros

Partilhar

A MORTE DE BORIS YELTSIN >> Leonardo Marona

A morte de Boris Yeltsin foi para o protagonista desta história, a quem chamarei de ele, não confundir portanto com Boris, cuja morte foi muito mais, como eu dizia, que a morte de um simpático bêbado incoerente. Mais coisa morreu com Boris naquele dia escuro, quando os mosquitos estavam mais sanguinários.

Ele não sabia de nada – e parecia fazer muito tempo que ele não sabia de nada. Mas não se sentia tão mal porque ainda podia sentir que estava perto das pessoas de alguma forma: elas não pareciam saber de nada também, embora falassem demais.



Ele estava no ônibus, passando pela Glória, indo para o trabalho. No geral, estava infeliz. Mas ainda um pouco atordoado por uma melancolia boa, fugaz, dessas que se tem ao ler Manuel Bandeira. Ao seu lado no ônibus havia algumas pessoas e todos juntos pareciam ter menos cor do que as coisas tinham, mesmo que as coisas não tivessem muita também. Era uma estranha sensação de entorpecimento das próprias cores. Ele coçava os olhos e olhava pela janela, como criança tardia.


Trabalhava para uma agência internacional de notícias e sua cabeça estava a prêmio. Isso pode parecer bastante pomposo, assim, quando se ouve pela primeira vez. Mas com pouco tempo você percebe como são tristes e sem graça as notícias do mundo. Mortes de todos os tipos, bizarrices, acertos entre hipócritas de bigodinho e ternos apertados – e esses nanicos de bigodinho dominam o mundo, revezando os papéis. Era basicamente isso, mais a parte esportiva, com jogos de críquete e golfe, ou algum idiota ucraniano atravessando a nado o Rio Amazonas. Com o tempo, era o tédio.


O lugar onde ficava a agência era também um grande mistério. No coração da Lapa, entre mendigos corroídos pela hanseníase e travestis de queixo quadrado, dentro de um convento onde também havia um curso para servidores públicos. Ali trabalham nosso fadado protagonista e mais algumas mulheres, até as duas da madrugada. Uma agência de notícias dentro de um convento. Durante algum tempo ele pensou que aquilo fosse algum acordo mafioso. Em pouco tempo não pensava mais nada.


Conforme o ônibus se aproximava da Lapa, todos podiam ver, e alguns até gritavam, travestis magros e altos balançando genitálias de meio metro sob as sombras de um parque abandonado, ironicamente chamado Praça Paris. A cena seria desoladora, mas ninguém olhava para lugar nenhum fora de si, onde tudo era um deserto cercado de lágrimas. Todos olhavam para algum lugar perdido, todos pareciam pensar: “onde tudo deu errado?” E assim seguiam, uns para casa, outros para o trabalho, todos para a morte afinal, mas sem saber de que tipo. Os travestis – e isso nunca lhe pareceu estranho – riam das carrancas enfezadas de cansaço e gritavam que eram um bando de idiotas. Eles gritavam como se soubessem a verdade melhor do que o resto, dentro do ônibus, indo e vindo, com suas desculpas e suas paixões sinceras.


Nosso herói não sabia de nada, como dito anteriormente, não sabia da sua condição universal de homem de todos os tempos, e estava se dando conta disso aos poucos, diluindo a idéia nos últimos dias, enquanto escrevia notas sobre cem mortos numa explosão na Somália, um vídeo pornô para pandas na China, eleições corruptas na Nigéria, Congresso apodrecido no Equador, Madonna posando para fotos com o novo filho malauiano. Como vocês podem ver, nada muito estimulante. Mas era bom poder dizer, quando alguém lhe perguntava, e todas as pessoas que falam sobre os próprios empregos são inconvenientes, que, sim senhor, havia um emprego, que ele não era um desocupado. Assim as pessoas se aliviavam e não incomodavam mais. Nunca entendeu isso muito bem, como todo o resto, mas parecia funcionar dessa forma. Assim tudo era feito, em todos os lugares. Falava-se com propriedade sobre o que não se conhecia, e sorria-se para não ser incomodado. Assim vivemos e colecionamos algumas histórias. Assim agradecemos todos ao deus errado.


Quando chegou no lugar, viu que Boris Yeltsin estava morto. Era preciso dar a morte de Boris Yeltsin como destaque, ele disse a sua editora, uma mulher de meia idade, cabelo acaju e um filho pequeno que ela às vezes trazia junto, e que adorava dizer palavrão.


- É claro – ele disse. - Podemos mostrar aquelas imagens ótimas do Yeltsin dançando com aquela banda de cossacos, caindo de bêbado no plenário, ou então ele fazendo o Bill Clinton morrer de rir, ou jogando uma menina no mar revolto, ou até aquela em que ele jogava tênis com uma roupa ridícula... Tem também ele beliscando a secretária. Boris Yeltsin foi uma grande figura!


- Não podemos mostrar um chefe de estado fazendo essas coisas – a editora lhe disse com desprezo.


- Mas foi só o que ele soube fazer direito – ingenuamente ele falou. – Além, é claro, de foder a Rússia para sempre.


No fim das contas falaram que Boris Yeltsin, o “estadista russo da abertura democrática”, havia morrido, e cobriram o texto com imagens do homem entrando e saindo de carros, com a cara amarrada, lendo discursos prontos, provavelmente de ressaca, apertando a mão de homens muito pequenos, poderosos, com bigodinhos eriçados e nomes difíceis. Que dominam o mundo.

Em todos os momentos, Boris parecia com a cabeça distante, pensando talvez em problemas de ereção ou no amor que havia se perdido numa vida de necessidades urgentes e incertas. Ele aparecia triste e de cara inchada, os olhos vagos, acenando para um navio que ia embora. Tudo me lembrava o que fazíamos diariamente. Acenávamos para navios que iam embora todos os dias. Inventávamos navios para acenarmos quando eles fossem embora.


Boris Yeltsin era um alcoólatra e, como a grande maioria dos alcoólatras, tinha o coração mole, poucas respostas, poucas perguntas, e muita incompreensão. E se Boris, com o grande número de erros cometidos, foi responsável pela morte de milhares de pessoas, talvez indiretamente milhões, ele fez isso por desleixo e não por maldade. Os assassinos frios são sempre sóbrios. O bêbado só é capaz de matar por amor: por falta de amor, por amar demais.


E foi com essa frieza, que hoje chamamos de “vida como ela é”, que, no dia de sua morte, pintaram suas bochechas de uma cor pastel, fizeram de Boris um símbolo da mentira que vivemos, enquanto Boris sofreu e bebeu e não soube o que fazer, mas também riu e dançou e jogou mulheres ao mar e fez o mundo rir e caiu do palanque e nos mostrou o patético do nosso teatro, com ternos e homens pequenos de bigodinho apertando as mãos, andando sobre o fogo protegidos por cláusulas assinadas em prostíbulos.


A editora e chefe do nosso pobre rapaz era uma mulher bem-cuidada, mas que parecia muito mal-amada. Por isso, dizia que conhecia “as coisas como elas são”. E, é claro, perto dela ele jamais tinha razão. Ela vivia lhe pedindo calma. Ele chegava, dizia “Boa noite”, ela dizia “Calma!”. Ela o criticava todo o tempo, como quase todas as mulheres faziam com ele quase o tempo todo, desde que ele começou a se relacionar com elas. Diziam que ele – aqui me refiro ao nosso protagonista - era um homem grosseiro, com maus hábitos, nervoso, preconceituoso, anti-social, insensível, que ele não sabia ouvir, que era boca-suja, pessimista, machista, artista démodé, intolerante, e boa parte das mulheres justifica tudo que há de injustificável com regras mitológicas ou projeções espíritas.


Por ele, sem problema, tudo bem. A chefia sabe o que diz. Mas com o tempo começou a se questionar: “Será que eu sou mesmo o demônio? Devo ser mesmo terrível, porque todas criticam sem parar. Não me deixam falar e dizem que eu falo demais. Não, elas devem estar certas”. E acabava convencido da falta de amor próprio. E voltava para casa desolado, parecido com qualquer brasileiro que volta para casa do trabalho.


Mas já em casa, refletindo e tomando um copo de uísque pela alma de Boris Yeltsin, pensou que, como havia se tornado, ou vinha se tornando com os anos, um homem tipicamente confuso e amargo, por ser ingênuo e medroso, acabava atraindo mulheres iradas, rancorosas, talvez por reconhecer nele o pior do que tinham em si próprias e negavam. Mulheres muitas vezes sem amor, capazes de falar durante horas sobre o amor. Portanto, mulheres sem amor desesperadas por amor, por saber qual é o amor que nunca bate a porta, mas é sempre anunciado com pompa e intimidade, assim como os homens pequenos de bigodinho, que entram para apertar as mãos e aplaudir o fim do mundo. Mulheres enfim dispostas a tudo para defender um amor falso, um amor falso capaz de transformar Boris Yeltsin num digno chefe de estado.


Então, antes de apagar a luz, nosso anti-herói ergueu seu copo de uísque no ar, uma brisa agradável passou e ele pensou, enquanto brindava por uma alma embriagada: “pobre Boris, pobres de nós, arautos do amor com as mãos vazias”.



Partilhar

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

RECONSTRUÇÃO >> Carla Dias >>

Dia desses, eu gastei horas a observar minhas mãos sobre o papel em branco. Meus dedos não estavam ágeis, mas sim repousavam sob a vigília das pausas de semínimas preguiçosas.

Lembrei-me da canção, do poema, da festa na qual não estive presente. E também dos feriados prolongados, em que passei ruminando quais seriam as decisões, reflexões e anseios dos personagens aos quais eu dera a luz. Meus filhos impacientes, envolvidos em tramas inventadas que misturei com algumas das minhas próprias experiências.

O escritor que rouba a história da moça; que se apaixona por ela de um jeito que para ele é novo, por isso foge, até perceber que correu em círculos, e cai de vez no abraço dela que para ele foi único. A moça que sente não caber no mundo, apodera-se de uma câmera que é para fisgar a verdade na encenação do outro. Que tem medo do que sente pelo escritor e foge dele... Até perceber que andou em círculos, e se depara com um olhar que põe seu mundo do avesso.

A moça magoada que só, aquela que o pai tenta enlouquecer só para ficar com a herança. E o moço que apontaram como assassino, mas, mesmo não sendo, sabe que depois que apontam o dedo da acusação a você, já foi condenado. Uma anarquista e um homem em busca de paz de espírito, ambos apaixonados pela idéia de fazer uma cidade inteira compreender que seus valores são rasos. Ambos empenhados em trazer para o centro dela as beiradas, o gueto.

A moça que se trancou no apartamento durante três dias e abusou da reflexão, da profundidade de sentimentos. Viajou lonjuras emocionais para buscar a si, porque quem se tornou não fazia sentido. Assumiu o amor não só por alguém, mas também pela possibilidade de se reinventar.

O moço que se apaixonou pela cidade, que compreendeu que tanto a beleza quanto suas mazelas tinham significado e faziam parte de um todo. Da janela de seu apartamento, vislumbrou o concreto e plantou flores nele, através de seu olhar. Conheceu a moça irônica quando trabalhava no telemarketing. Ela disse ser acrobata e ele, em anos de conversa por telefone, não chegou mesmo a acreditar nisso, mas pensava nela equilibrando alegrias e tristezas, enquanto voava sob a lona da solidão. Na jornada em busca pela paz de espírito (ela realmente é famosa nos meus escritos), conheceu outra moça que, pelos acontecimentos de uma breve convivência, fez com que ele acreditasse que era uma corajosa militante, o que a levou a denunciar um figurão pelos seus crimes. O figurão virou governador e ela sumiu do mapa. A paz de espírito do moço não chegava... Mas veio rasgando o tempo a saudade dele pela moça com quem pouco conviveu, mas tanto o marcou. Enquanto isso, a acrobata vivenciava a solidão do moço.

Poderia continuar falando sobre todos os personagens que já criei, mas confesso que os quero tão bem, até mesmo aos bandidos bem quero... Pois são meus, eus, são um pouco de invenção misturada nesse caldeirão de verdades que, ainda que nem sempre sejam minhas, são da vida.

Melhor parar por aqui, antes que coloque a todos numa mesma trama, e reconstrua aquilo que, do jeito que está, já é.

Imagens >> Nilton Mendonça


Partilhar

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Carta a um futuro namorado -- Paula Pimenta

Se você quer ser minha namorada,
Ah, que linda namorada você poderia ser...

(Vinícius de Moraes/Carlos Lyra)



Meu querido amigo,

Sei que nossa amizade é recente, apesar dos muitos anos de conhecimento superficial que já temos. Mas, somente agora, nos sentimos à vontade para dividirmos nossas esperanças e anseios. E é exatamente este o motivo desta carta.

Em nosso último encontro, você me solicitou uma namorada. Explicou a sua vontade de passar horas na companhia de alguém, simplesmente pelo prazer de estar; e também contou da saudade de se ter intimidade com alguém a ponto de poder se mostrar tal e qual é, sem máscaras ou pudores.

Meu amigo, sei que tentei te ajudar naquele momento, catalogando mentalmente as minhas amigas solteiras que poderiam vir a lhe fazer feliz, e te perguntando sobre o seu tipo ideal, para cruzar as informações e tentar atender à sua solicitação. Mas, depois de nos despedirmos, me pus a pensar sobre essa sua vontade e resolvi te falar mais sobre o “produto namorada”, antes de te entregar uma de bandeja, para que – quando ela chegar - você possa apreciar devidamente, antes de reclamar com o garçom, caso o “prato” não esteja do seu contento. Porque o difícil não é conseguir a namorada. É saber mantê-la.

Vinícius de Morais, em sua música “Minha Namorada”, cantou bem detalhadamente o que ele esperava de uma namorada. Não sei se você concorda com os versos dele, se também acha que ela deve ser só sua, que deve falar devagarinho, que deve segui-lo em seu caminho... Mas o que eu vou escrever aqui não é o que você espera de uma namorada, isso você já sabe e até me contou. O que vou explicar agora é o que uma namorada espera de você.

Em primeiro lugar, namorado é uma palavra bem antiga, quase em desuso. Hoje em dia as pessoas têm “ficantes”, “peguetes”, mas se é mesmo um namorado que você quer ser, você terá que ser também (assim como o termo) antiquado, pelo menos no que diz respeito ao “cortejo”. As feministas podem me crucificar, mas 10 entre 10 mulheres que eu conheço gostam de ser paparicadas. Então, abuse. Abra a porta do carro. Pague a conta (não sempre, que ninguém está brincando com dinheiro nos dias atuais, mas pelo menos ofereça). Elogie-a em público. Mande e-mails durante o dia só pra mandar um beijo. Ponha o status “namorando” no Orkut. Ligue quando disser que vai ligar. Ligue quando disser que não vai ligar. Ligue várias vezes ao dia, para que ela se sinta segura, porque como sabiamente já disse Martha Medeiros: “Nenhuma mulher se sente amada o suficiente”. Então, não tenha medo de demonstrar. Demonstre, demonstre, demonstre. Se gostar, diga que gosta. Se adorar, diga que adora. Se amar, diga que ama. Mil vezes. Se ela se transformar numa pessoa convencida e passar a te esnobar, então ela é que não é a namorada certa pra você. A namorada certa nunca vai se encher dos seus carinhos, quanto mais você fizer, mais ela vai gostar e querer retribuir.

A sua namorada tem que fazer parte da sua vida. Da vida inteira, não apenas da sua vida sentimental. Então, tente incluí-la. Peça a ajuda dela. Peça conselhos. Namoradas gostam de saber que podem ser úteis para você, que podem, de alguma forma, fazer a sua vida mais fácil. Se você descartá-la o tempo todo, por mais que ela se ofereça para ajudar, ela vai acabar achando que você não quer envolvê-la por não confiar na sua capacidade ou então por não querer que ela participe das outras áreas da sua vida, e isso gera insegurança. A namorada passa a pensar que você não pensa nela como alguém para dividir as responsabilidades. E aí o “medo do depois” – doença que ataca as namoradas inseguras – aparece.

Daí vem o próximo tópico: Transmita segurança. Claro que não quero que você minta, mas se você inclui a menina nos seus planos pro futuro, diga a ela que você a inclui nos seus planos pro futuro. Simples assim. Namoradas não são adivinhas. E quando eu digo “planos pro futuro”, não quero dizer uma aliança, filhos, cachorros... o futuro pode estar mais próximo, em um planejamento para uma viagem no Reveillón, ou em explicitar a vontade de passar junto com ela o Carnaval do próximo ano, ou no convite para que ela te acompanhe naquele casamento em outra cidade. Namoradas, e mulheres em geral, gostam de planejar. Então, dê a ela tempo para que planeje o biquíni, o vestido, a viagem, o sonho.

Uma coisa muito importante: sua namorada pode não ser (embora devesse ser, na minha opinião, mas eu sou uma romântica incurável) a parte mais importante da sua vida. Mas ela não precisa saber disso. Não deixe que ela se sinta a última da sua fila de prioridades. Não precisa falar pra ela que seus pais, seus irmãos, seus amigos e seu trabalho têm preferência, pode saber que ela sente isso sem que você precise falar (já contei que namoradas têm sexto sentido?) e se entristece por isso. Cabe a você minimizar essa sensação de “último plano”, fazendo com que ela se sinta a mais importante pelo menos quando vocês estão juntos. Cuidado com isso... tem muito homem querendo suprir as necessidades de muita namorada carente por aí. O mercado feminino anda farto, mas as que realmente constituem um bom "material de namorada" (aquela que atende às exigências todas que você e Vinícius fizeram), são raras, e você não vai querer perdê-la para um qualquer, só porque ele enxergou a carência que você não viu na menina.

Quando for fazer algum programa que não necessariamente a inclua, pergunte se ela gostaria de ir também. Pode saber que se você for sair com os amigos pra jogar sinuca e tomar cerveja, ou se vai encontrar com seu primo que mora em outra cidade pra discutir o mercado financeiro, ela mesma não vai querer participar, mas vai adorar saber que você a convidou, que a incluiu, e não vai ficar com minhoca na cabeça, imaginando por qual motivo você não a chamou, e perdendo tempo pensando na desforra (sim, namoradas são vingativas).

Presentes. Namoradas gostam de presentes. Não precisa ser nada caro, mas qualquer coisa que faça com que ela sinta que você se lembrou dela já rende um sorriso. Aquele chocolate que você viu na hora em que foi comprar cigarro. Um CD gravado com a música que você sabe que ela gosta. Uma flor que você roubou na frente do seu prédio. Coisinhas que façam com que ela perceba que você se importou, prestou atenção, que escutou o que ela disse. Isso faz uma diferença que você nem imagina.

Por último, é importante lembrar que tudo isso é o que funciona para mim e que cada pessoa é de um jeito, mas uma regra é universal: geralmente, gostamos (nós todos, homens e mulheres) que nos tratem como tratamos os outros. Observe como sua namorada te trata. Ela decora as datas, faz surpresas, te mima, age como se você fosse a pessoa mais importante do mundo? Pois saiba que é exatamente assim que ela gostaria de ser tratada por você. Então, o segredo é só observar como ela faz e tentar imitar, claro, sem forçar o seu jeito de ser.

Meu amigo, acho que agora já podemos agendar o encontro em que te apresentarei todas as minhas amigas solteiras para que você escolha a dona do sapatinho de cristal. Mas acho que nem vou precisar fazer isso. Se você seguir minhas “instruções”, vai ter uma fila de possíveis namoradas batendo à sua porta. Eu só não bato porque já tenho um namorado que me faz muito feliz, mas vou inclusive fazer com que ele leia essa crônica, para que ele também possa se especializar na arte de ser namorado e fazer com que eu o ame cada dia mais. Sim, meu amigo, essas dicas não vão te dar apenas uma namorada, mas uma namorada que te ame. Até Vinícius de Moraes teria inveja de você...


Partilhar

domingo, 11 de novembro de 2007

Aniversário de um amigo >> Felipe Holder

"Amigos a gente encontra
o mundo não é só aqui
repare naquela estrada
que distância nos levará..."
(Manduka)

Oi, meu amigo!

Amigo de dez anos, amigo de longas datas e de longa distância. Mais de 800 quilômetros nos separam. Quer dizer... separam não é bem o termo; eu diria 800 quilômetros nos unem. Oitocentos que em breve vão virar mais de seis mil - mas que não vão fazer muita diferença. Nossa amizade é imune a quilômetros. :)

Não fosse a internet, não teríamos nos conhecido. Nem conversaríamos tanto. Viva a tecnologia, então! Encontros "ao vivo" são raros, mas nem por isso a amizade diminui. Nossa amizade é imune a ausências. :)

Hoje é seu aniversário. Não estou aí para lhe dar um abraço, mas estou aqui para dizer que me lembrei do seu dia. Presente também não vai ter - exceto o "presente!" na chamada do Crônica do Dia. Um presente inesperado, depois de duas faltas seguidas. Ainda bem que nossa amizade também é imune a chamadas. ;)

Parabéns, meu amigo! Vida longa! Muita saúde e muitas felicidades!

Um grande abraço do amigo Felipe (ou eu deveria assinar Abu Zadim?)









P.S.: A crônica eu continuo devendo. Quem sabe domingo que vem? ;)

Partilhar

PRA VOCÊ >> Eduardo Loureiro Jr.

Um milagre está acontecendo. Uma voz sussurra em meu ouvido. Eu a ouço e escrevo. Você olha e a escuta. Uma voz sussurra em seu ouvido. Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. Eu pergunto de quem é a voz. "Eu sou", diz a voz. Eu digo: Sou eu? Você pergunta de quem é a voz. Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. O que é que está acontecendo? Está acontecendo um milagre. E o que vem a ser um milagre? É o que acontece sempre. Eu e você, desatentos. Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. Eu lhe escrevo sem saber a quem. Quem é você? "Quem é ele?" Você lê sem saber quem. Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. Eu quero continuar a escrever. Você quer continuar comigo. Eu quero continuar com você. Você quer continuar a ler. Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. A voz sussurra em nosso ouvido. Eu ouço o que ela lhe fala. Estou só alucinando? Você ouve o que ela me diz. "Será que é desvario?". Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. Eu escrevo agora, agora. Você lê tanto depois. O seu depois é agora. "O agora dele é antes". Qual é o tempo do encontro? Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. Eu toco a tecla; você, o mouse. "Onde é que a gente se toca?". Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. Se eu parar de escrever, o milagre acaba? "Se eu parar de ler, o milagre termina?". Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. O que me impede de lhe escrever para sempre? "O que me impede de lê-lo para sempre?". Eu quero começar a lê-la. "Eu quero começar a lhe escrever". Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. "Um milagre está acontecendo".




Um milagre. "Um milagre".




Um"


Partilhar

sábado, 10 de novembro de 2007

QUEM PILOTA SEU AVIÃO? [Maria Rita Lemos]


A pergunta pode parecer sem significado, mas tem - e muito. Ouvi muitas vezes, em diferentes lugares, a famosa frase tipicamente feminina: “meu marido não deixa”. Eu ouço e me assusto, quando tento mergulhar fundo no significado disso. A afirmativa diz, sem qualquer dúvida, que o homem (ou pai, ou companheiro) é quem estabelece o que a mulher deve fazer ou deixar de fazer, onde deve ir e de onde deve voltar...

Enfim, tem o homem dessa mulher que proferiu a frase acima o direito total - não de voto, mas de veto. O pior de tudo é que a recíproca não é verdadeira. Mulher alguma proíbe. No máximo ela esperneia, grita, protesta. Mas não lhe é dado o direito de “deixar ou deixar de deixar”. Meus leitores e minhas leitoras devem estar perguntando: “mas o que é que esse marido hipotético não deixa?” Ouso responder: Ele não deixa viver em plenitude. Ele se coloca contra tudo aquilo que poderia representar liberdade de pensamento e ação para a mulher. Ele não permite que ela cresça, que deixe de ser uma menininha que deve obediência ao pai, ou ao amo e senhor.

Lembro-me de uma fase, há muitos anos atrás, quando trabalhei em São Paulo, na co-autoria de alguns manuais da Coleção Sesi. Não foram poucos os taxistas que me olhavam admirados, perguntando “se meu marido deixava” que eu viesse sozinha a São Paulo, muitas vezes para passar alguns dias no hotel, a trabalho.

Além, muito além do direito de ir e vir, a mulher “moderna” (existe isso?) se depara com o problema da posse de seu corpo que, a partir do momento em que “deu a mão” em casamento, passa socialmente a ser de seu marido, tal qual a terra apropriada passa a ser do posseiro.

Aí, vem a pergunta do início dessa matéria: quem pilota seu avião? Por que você se deixa levar, deixa que pilotem a única coisa, ou a coisa mais importante que tem, que é sua vida, sua vontade e seus talentos? Algumas mulheres responderão que é por medo, por comodismo, por abnegação. Para viver bem. No entanto, não é medo nem abnegação que vejo tantas vezes no rosto e percebo na voz das mulheres que dizem que “seus maridos não deixam”.

Eu vejo e percebo um certo orgulho, um tanto de vaidade. É como se dissessem, em outras palavras, que têm um dono, a quem elas pertencem, e o fazem prazerosamente, porque lembram-lhe as palavras do papai, quando eram meninas, filhinhas. Nada mais justo que tenham mudado de dono, e o mesmo discurso seja repetido. Assim, mesmo no século 21, muitas mulheres ainda se acomodam sob o manto ditador de homens que “deixam” ou “não deixam”. É a deixa de que necessitam para fazer parte da sociedade, para ingressar nos clubes de serviço, para exercer filantropia nos chás beneficentes nas tardes de dias úteis.

A grande maioria dos homens latinos, e aqui vale falar dos brasileiros, não tem cabeça para conviver com mulheres independentes, e que odeiam ser cerceadas, mandadas, comandadas. Principalmente se esse homem não está seguro de si mesmo, não confia no seu taco, não tem certeza de que sua mulher pode até ir, porque vai querer voltar. Infelizmente, ainda há muitos homens assim, donos da situação, pilotos sem brevê. Ou melhor, com o brevê cúmplice do resto das famílias, sogros e sogras, mães e pais que só conhecem velhos padrões, e “afastam tudo o que não conhecem”, como diz Caetano Veloso.

São homens que se acham modernos, porque “não deixam que suas mulheres trabalhem”, mas as deixam estudar. E as universidades se enchem de mulheres inteligentes, capazes, que vão precisar de carrinhos de mão para carregar os diplomas para, enfim, cozinharem diante dos mesmos. Obesas intelectuais, mestras, doutoras, mas conduzidas como ovelhas na mão do pastor. De repente, surge uma nova mulher, que é profissional, bem sucedida, e insiste em manter o que conquistou a duras penas. Sai do rebanho. O jeito, então, é o lado masculino apelar para a frase odiosa: “ou o trabalho ou eu...”

Esse “eu” leva muita força, tem raízes profundas, balança fortemente aquilo que nos ensinaram, para que fomos criadas: sermos mulheres e mães. Transformando nossos anseios profissionais, colocando-os em balanças cujo contrapeso são os filhos e a família, acabamos nos rendendo. Admitimos, afinal, que ser profissional pode ser só um capricho. Que pena! A decisão entre “ a carreira ou eu” é sempre dolorosa. Odiosa, eu diria. Por isso, a necessidade de deixar claro, antes de juntar as escovas de dentes, que não precisa mais, em nosso mundo, haver uma relação de obediência e submissão, a não ser (e ainda com muito diálogo) entre pais e filhos.

Não é necessário que, entre pessoas que se amam, haja imposição e escravidão. Muito melhor é estabelecer que cada um tem seu próprio avião, e é livre para conduzi-lo como achar melhor, fazendo sua própria rota, com seu jeito peculiar de ser. Que, longe de afastar, apenas fortalece o verdadeiro Amor.

Imagens: Les Amoureux / Girl Before a Mirror, Picasso

Palavra de Mulher


Partilhar

AJUSTES DE FABRICAÇÃO [Ana Coutinho]


E se você pudesse voltar no tempo, na época em que Deus (ou o diabo) estava construindo o seu marido/namorado e pudesse fazer alguns ajustes? Melhor, e se você pudesse fazer apenas um, um único ajuste?

Veja bem, Deus (ou o diabo) está construindo seu marido com todas as características: ele vai ser calmo, vai ser calado, falar pouco, vai ser preguiçoso, vai odiar lavar louça, vai preferir tênis a futebol, não vai ser muito de ler, mas, em compensação, vai ser ótimo pra eventuais consertos domésticos. Vai ter olhos escuros, cabelo ruim, mas, provavelmente, vai gostar de cortá-lo curto e, cedo, cedo vai ganhar uns fios brancos pela vasta cabeleira.

Ele vai ser calorento, vai ter insônia, vai sofrer de ansiedade, e vai ser nervosinho no trânsito também. Vai ser magro, desses com barriguinha, mas vai gostar
de esportes e, em algumas fases da vida, vai até ficar saradão. Ele vai ser peludo. Peludíssimo inclusive, se der tempo, diz Deus, vou caprichar até mais que no Tony Ramos (se bem, que, isso seria obra do diabo, com certeza).

Ah, ele vai ser alérgico a leite, mas vai ser forte a beça pra cerveja, e vou deixá-lo ser capaz até de enfrentar uma boa mistura alcólica com certa resistência (olha o demo aí, pegando boa parte da produção...).

E assim Deus (ou o diabo, dependendo da sua sorte) vai passando o dia, fazendo uma coisa, desfazendo outra, usando barro pra ajeitar o nariz, ou arrastando figuras com vários tipos de narizes (?) num super computador, enfim, como a sua imaginação permitir... E você ali, atenta, porque enquanto observa a construção do seu marido tem uma chance, apenas uma, para, de repente, gritar: “Páááááááára! Isso não, isso, por favor, não!!”

Difícil, né, colega? Eu sei, mas, pode ser um bom exercício, e, para te ajudar, eu compartilho o meu ajuste com vocês.

O meu marido é um doce. Ele lava a louça, troca a lâmpada, deixa a tampa do vaso sempre abaixada, não gosta de cerveja, é praticamente uma mulher em termos de organização - e só. No resto ele é bem homem, graças a Deus (isso foi de Deus, certamente).

Mas, na construção dele, eu eliminaria um ponto que pode parecer ridículo aos olhos alheios, mas é muito sério se olhado de perto. Se eu pudesse mudar alguma coisa, na hora da definição dele, eu o faria ser, simplesmente, menos calorento.

Estou louca, né? Então tá, então você, que não tem esse problema, experimente dormir com alguém que gosta de ligar o ventilador mesmo se estivermos sei lá, no inverno da Rússia. Tudo bem, nunca estivemos no inverno da Rússia, mas já tivemos dias frios aqui e meu lindo marido insiste em sentir calor (acho ótimo que ainda não possamos ter um ar-condicionado em casa).

Se estamos assistindo TV tranquilamente, de duas uma, ou a janela está fechada e o rapaz está suando, ou está aberta e eu espirrando. Se estamos no carro, no levíssimo trânsito de São Paulo, ou eu não consigo nem me mexer por conta do gelo do ar-condicionado, ou então ele bufa de calor enquanto eu acho a temperatura “amena”. É um problema sério, pode até ser uma doença a pessoa não ter habilidade de sentir frio!

Então, eu, deixaria Deus construir tudo. O mesmíssimo nariz, a mesma timidez, a exata dose de orgulho - ainda que seja muito, tudo bem. Pode continuar aí trabalhando. Não quero nem mais um centímetro de altura, nem a menos, mas, na hora de regular a temperatura eu pediria aí, uns 3 graus de diferença e Deus, eu sei, deixaria, se eu pudesse voltar no tempo...

Enquanto isso, dá-lhe edredon à noite e casacos extras no carro, até que, quem sabe, a menopausa me iguale um pouco a ele.


Imagens: Maitresdel'Affiche, Jules Cheret; Eros and Psyche, Bougereau

Doce Rotina

Partilhar

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Menino apaixonado tropeça e cai de costas no asfalto << Leonardo Marona

“Entre os olhos e a coisa
cai a sombra,
e essa sombra
é a palavra pré-gravada”
(William S. Burroughs)

...e você não está ali quando mente de costas, dentro da noite e minha reticência beatificada no caos urbano, em gritos e olhos cheios de incompreensão e mãos pegajosas que tremem facas sem fio, mas ouço o teu trabalho alheio, ouço teu barulho falho, essa espécie de ronronar dos infernos, um estalo no desapego do desassossego do sexo que bateu asas, como se o som fosse da fricção da coisa vindo, como se o declínio estivesse próximo do corpo inchado, adormecido de meios-fios, meas culpas, comedores cabisbaixos de paralelepípedos, em tom surdo e seco, devastador como a flor que não passa de plástico em olhos abertos de vidro, como nós, como um saco de ossos que se pulverizaram dentro do amor assusta-dor, quem me assusta é o som do que sai de dentro como meteoro explícito na carne sudorípara do teu desamparo repentinamente próximo, dedicado a mim este ruído, um som de tropeço e absinto, um som casal de poetas falidos em praças públicas, onde crianças não sabem o demônio que as espera e sorriem, sinto a tiara do ódio castrado presa à falha do couro cabeludo, e nem sei o que digo, é verdade, mas quem souber melhor do que eu tampouco deveria dizer, pois se sabe, contente-se, e boa passagem, mas sinto o vento deste rumor estrondoso no ouvido vindo de pontos suspensos em coletas digressivas na paz forjada da calma daquele sussurro banido do qual nem mais lembramos, este barulho abafado de sonhos se chocando, que faz suarem os meus sentidos e derrete minhas necessidades imediatas, que me faz ver santos nas esquinas das palavras desnecessárias de que tanto preciso para morrer nada além de aflito pela placidez da paz compulsória, som vazio e seco, som do seio surdo que não sai da tua sonora suposição de mim, por mais que eu tente te arrancar do vácuo deixando meu vermelho no teu braço, que pise fundo na imensidão da tua dúvida, dos abraços distorcidos em concordâncias desleais, na busca por migalhas do que de mim só existe em bocas entrecortadas no momento do choro despercebido no escuro do quarto, quando sou eu que tenho os dentes brilhantes e brancos, pavorosamente brancos, como Vlad Tepes da Romênia, no teu mundo de calcinhas e meias-calças do qual fui mutilado pela faca das decisões sem ressalva, do que não volta atrás depois que se ouve o som, os cabelos em choque paralisando o tempo eterno, a espinha que se contorce no eixo sujo da tristeza irrevogável em movimentos tetraplégicos necessitados de um porém que não se quebre, apenas mais um garoto tombado na esquina do agora ou nunca, e é sempre este o som quando um coração se parte, quando um irmão desconhecido tropeça enquanto pensa em quem ama loucamente porque lhe deixa calmo, inconsciente como vim e como vou, na nulidade tranqüilizante, nos assobios dos caridosos embriagados, entre as árvores que acompanham o momento do som mais sorte da próxima vez, pernas como foices cálidas ou um sorriso rápido emprestado que mutila, quando as palavras se calam e entendo a verdade que grita e que nada pode ver, enquanto for apenas, e não tudo, tarde demais.


Partilhar

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

ELA [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Ela, que queria tanto da vida. Ela, que queria porque acreditava que, de algum modo, as coisas chegam se você as quiser de verdade. E ela queria muito, queria tudo, queria de verdade. Queria amar - e isso não era difícil - e queria, principalmente, ser amada. Ela que sempre sonhou com o dia em que alguém olharia fundo nos seus olhos e diria, sem riso nem fuga, "eu te amo".

Ela, que tinha tantas esperanças e planos e motivações. Ela que viu em sonhos imensos as pequenas mãos do filho que teria. Ela que imaginava o choro de seu bebê, e até mesmo sentia o corpo miúdo e macio dele aconchegado em seu seio. Logo ela, que acreditava tanto no mérito da sobrevivência e no milagre da vida que todos os anos celebrava seu próprio aniversário com bolo, velas e risos.

Justo ela, que acreditava tanto na verdade. Ela que pensava não existir nada mais correto do que dizer a verdade, mesmo que a verdade pudesse causar algum desconforto. Porque ela realmente cria que a verdade liberta. Ela não tinha medo de chavões ou frases feitas. Ela apenas esperava ter outra verdade de volta quando oferecia a sua própria.

Ela que lia livros, via filmes e ouvia música, sorvendo cada nota, gesto e palavra delicadamente, recolhendo tudo o que parecia belo para guardar em algum lugar especial e muito íntimo. Ela que estudava e ensinava, que pedia e dava, que ouvia e falava, na esperança de que isso a ajudasse a construir a pessoa que seria um dia.

Pois foi ela que, numa manhã cinzenta, pegou aquela maldita lâmina. E pensou na vida que vivera até então e em tudo o que acreditava, esperava, planejava, queria. E percebeu, com perplexidade, que os dias eram curtos demais e que agora era tarde para receber um novo amor, ter um filho, ler um livro ou mesmo...

Ou mesmo continuar a querer, a acreditar, a esperar, a planejar.

E então ela não sentiu mais nada, nem mesmo a dor pelos riscos rubros e profundos desenhados pela lâmina.

Foi tudo muito suave.

E frio.

Tão frio que, quando entrei no quarto, naquela noite, encontrei-a enrodilhada, como se tivesse, no último momento, presenteado a si mesma com um abraço.

A mim, só deixou essas palavras, as poucas que usei para contar tudo que sei sobre ela.

E o silêncio.

Partilhar