quarta-feira, 31 de outubro de 2007

EU E A CHUVA >> Carla Dias >>

Assisti um filme do qual gostei bastante, “A Dama na Água” (Lady In The Water). Porém, não será ele o tema desta crônica, e sim algo que disse um dos personagens, um crítico de cinema enfadado pela contemporaneidade da sétima arte. O morador do condomínio, onde a história se desenrola, alegou que não agüentava mais as cenas sob a batuta da chuva e o olhar do romantismo. Que não compreendia o porquê de tantos filmes brindarem a este encontro.




Pensei comigo: “por que não?” Chuva tem tudo a ver com romantismo, principalmente quando se trata de cinema. Compreendo que nem todos os roteiristas e/ou diretores são felizes ao tentarem fazer com que a mágica aconteça, mas há chuvas e declarações de amor que são dignas de se tornarem cenas de cinema. Quem não se dá conta disso, certamente anda com o romantismo namorando a aridez.

Mas quero mesmo é falar sobre a chuva como cenário biográfico. Quem me conhece, sabe que eu adoro dias de chuva; da garoa às tempestades. Que me sinto culpada porque o trânsito fica insuportável, e há deslizes e inundações. Mas quê? Como evitar se embebedar com a melodia dos telhados ou as cores das sombrinhas? Como deixar de perceber a melancolia, na dose certa, ao desembaçar o vidro do ônibus ou da janela de casa para ver o lá fora? Como ficar alheio à importância das chuvas para que os olhos dos rios transbordem fertilidade?

Aprendi, ainda menina, que para amar é preciso aceitar o inteiro. Foi assim que perdi o medo da chuva, porque antes me apavoravam os relâmpagos que ela trazia; os trovões que a acompanhavam. Sem contar que, onde morava, às vezes ela era tida como inimiga, já que toda vez que caía, os ônibus não chegavam ao meu bairro. Então, tínhamos de subir uma ladeirinha, escorregando na lama, e fazer uma bela caminhada para chegar em casa.

Depois de um tempo, alguns anos na verdade, a prefeitura resolveu este problema asfaltando a rua. O problema nunca foi da chuva, apesar de o Seu João xingá-la até! Não sei se era uma questão de culpa... Acho que estava mais para dificuldade de adaptação à demora da chegada da modernidade do asfalto ao meu bairro.

Desta época, lembro mesmo é da minha mãe colocando latinha de leite em pó debaixo da calha pra ouvir a chuva gotejar forte e embalar o seu sono. Também do cheiro da terra molhada, principalmente quando chovia em dia de sol. E os banhos de chuva eram divertidos e libertadores.

Alguns anos adiante, eu experimentei a chuva das enchentes. Bastava chover que a minha escola ficava ilhada. Aí era esperar a chuva se acalmar para voltarmos para casa. Ainda assim, não conseguia maldizê-la. Ficar sentada na escadaria da escola, ao lado dos colegas, batendo papo, enquanto a maré urbana baixava... Às vezes era divertido.

E foi então que a chuva veio cutucar meu coração. Eu que já a observava até nas noites mais frias, a aceitava em qualquer estação, jamais pensei que, num verão qualquer, ela derrubaria minhas barreiras. Tempestuosa, providenciou um blackout no horário comercial e, na ausência do que fazer, fui me apaixonar por quem sentia pela chuva a mesma benquerença que eu. E durante muitas chuvas eu desfrutei desse gostar. Escrevi poemas e cartas sobre ele, e também um conto, “Fragmentos de um dia de chuva”, que faz parte do meu livro, o “Azul”. E apesar de ter desfrutado deste gostar mais na solidão de mim mesma do que na companhia do meu afeto, posso dizer que valeu cada gota de chuva.




Desse gostar em diante, passei a tomar mais banhos de chuva. Não me importo mais se ela chega antes ou depois do trabalho. Já tomei chuva até na área de serviço... Na beira da represa... Brincando de cirandinha... No meio da rua, dividindo espaço com os carros.

Minha ficção também adora uma chuva... Dois dos meus romances têm cenas de pessoas se descobrindo debaixo dela, como se assim pudessem se render à honestidade do que sentiam. Certamente, o senhor do filme odiaria isso.

Dizem que a chuva leva (lava?) os maus agouros... Também deságua emoções antes não mencionadas. O que posso dizer? Bolinho de chuva e café fresco, uma boa conversa, as lembranças decifradas debaixo do batuque da chuva nas telhas.

Aprendi que para amar é preciso aceitar o inteiro. Então, também aceito chegar molhada no trabalho, a goteira na janela da sala, os tênis encharcados e os cabelos desgrenhados. Não aceito as ruas apinhadas de carros e seus endoidecidos donos, tampouco as enchentes e os deslizamentos. Não aceito as pessoas perderem suas casas e suas vidas, porque aí não se trata de uma obra da chuva, mas sim de uma transgressão do homem que se permite modernizar e crescer sem consciência. A culpa é minha. Sua. Nossa. Da chuva: não. Ela continua íntegra.

Sabe o que mais? Saudade das chuvas passadas... Ansiosa pelas que virão.

Imagem 1 >> Jander Minesso
Imagem 2 >> Banco de imagens


www.carladias.com


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terça-feira, 30 de outubro de 2007

DIÁLOGO SOBRE A PAIXÃO -- Paula Pimenta

Ela: Estou saindo com esse cara e preciso de umas dicas.

Eu: Isso depende. Você quer curtir ou namorar?

Ela: Estou querendo só curtir, não devo me apaixonar por ele. Mas, na verdade, era isso que eu queria.

Eu: Se você já não está apaixonada, não vai ficar. A paixão chega primeiro. E não quer nem saber se você deve ou não.

Ela: Hein?!

Eu: Ela chega antes. E não pede licença.

Ela:
Antes de quê?

Eu:
Antes do primeiro beijo.

Ela: Como assim?????? Ah, não.

Eu: Você não sabia? Achei que isso fosse de conhecimento universal.

Ela: Faltei essa aula. Explique, por favor.

Eu: A paixão chega primeiro. Ela pega a gente na primeira conversa com a outra pessoa. Às vezes, até antes disso, no primeiro olhar. O que vem depois é o gostar, o amar, o achar a companhia boa, o tesão, essas coisas. Paixão de verdade acontece antes disso tudo.

Ela: Será que eu nunca me apaixonei, então? E será que eu nunca vou me apaixonar?

Eu: Eu não estou querendo dizer que um relacionamento não seja bom sem a paixão, porque de todo modo ela passa depois de um tempo. Mas aquela paixão desvairada, que deixa a gente sem fome, sem conseguir dormir à noite, sem pensar em mais nada... essa vem antes.

Ela: Estou precisando é de uma dessas. Onde eu acho? Vende no Carrefour?

Eu: Basta alguém falar alguma coisa que encaixe no que você quer escutar, ou que tenha algum detalhe que coincida com o que você anseia, e pronto. A paixão te pega, te amarra e te deixa sem ação. Depois é depois. Ela pode evoluir e se juntar ao amor, e com isso durar; ou pode não dar em nada, e evaporar. Ainda tem aqueles casos que não dão certo e duram muito, mas isso já é um sentimento derivado, é a paixão-platônica. Mas o mais importante é que a paixão só aparece quando a gente não está esperando.

Ela: Então eu não vou me apaixonar nunca. Estou sempre esperando!

Eu: Mas, às vezes, ela pode aparecer do lado oposto ao que você está olhando... não se preocupe, quando você menos esperar, vai estar apaixonada. É só não ocupar o espaço tentando se apaixonar pelas pessoas erradas. Paixão não se fabrica. Ela acontece.

Ela: Você é especialista no assunto?

Eu: Acredito que não... na verdade, acho que a paixão deve aparecer de uma forma diferente para cada pessoa. Mas, com certeza, sou “expert” em estar apaixonada. Acho que não tem nada melhor do que ficar inspirada, suspirando e vendo o mundo cor-de-rosa. E eu vivo assim…

Ela: Por falar em inspiração, bem que você podia escrever sobre o assunto.

Eu: Boa idéia. Vou fazer uma crônica em sua homenagem.

Ela: Quando?

Eu: Na verdade já está pronta. Você escreveu junto comigo...


(Participação especial: Elisa Pimenta)


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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

No Canadá não tem disso não >> Felipe Holder

Caos no trânsito, motoristas embriagados, motoristas em guerra, motoristas dirigindo como se não existisse sinal vermelho ou faixa de pedestres. No Canadá não tem disso não.

Vizinhos arrastando móveis no andar de cima, à meia-noite, como se no andar de baixo não morasse ninguém? No Canadá não tem disso não.

Gente sem educação básica, que joga lixo na rua, fuma em local proibido e atende celular em cinema e teatro. No Canadá não tem disso não.

Assalto à mão armada? Assassinato à luz do dia na rua mais movimentada da cidade? Seqüestro-relâmpago? No Canadá não tem disso não.

Idiotas com o som nas alturas, fazendo tremer os vidros das janelas da sua casa com as piores músicas que você já ouviu na vida? No Canadá não tem disso não. Mas não tem mesmo. E se tivesse era só chamar a polícia que ela daria um jeito. Na hora.

E São João? Carnaval? Forró de verdade, frevo, xote, maracatu e baião? Não é que no Canadá não tem disso?

Praias de Porto de Galinhas, Sancho, Sueste, Serrambi, Calhetas, Itamaracá. Ensopadinho de aratu, caranguejo, agulha frita, peixe ao molho de coco, marisco e sururu. No Canadá não tem disso não!

Irmãs, pai, amigos. No Canadá? Nem sempre.

Montreal na mente, Recife no coração.

Por que o Brasil não é o Canadá?

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sábado, 27 de outubro de 2007

MOÇO DE CHOCOLATE [Cris Ebecken]


Corre por múltiplas línguas femininas o estranho conselho adocicado: em casos de solidão sem jeito imediato, coma chocolate. Precisei subvertê-lo devido a uma questão orgânica: meu organismo funciona às avessas, tem intolerância e reage resistentemente ao açúcar. E sim, provavelmente, segundo deduções médicas, a síndrome foi desenvolvida em decorrência a um período estressor afetivo.

Mas hoje, já há tempos mergulhada em casa, livro a livro, trabalho a trabalho, mal respirando meia troca de olhares com o mundo, essa chuva fina pontiaguda que acordou a cidade fez a solidão esmurrar a porta. Como quem tenta escapar de uma visita não bem vinda, peguei a saída dos fundos, dobrei a esquina da rua respirando. A cada passo dado, nesse mesmo bairro aonde resido há tanto tempo, mais estrangeira me sentia, mais desamparada me situava.

Lá pelo meio dessa fuga-andança, com alguns trocados na calça, topei com uma lanchonete. Bem ali, assim despudoradamente se exibindo, logo na frente: potinho de mousse de chocolate. Eu e ele, olhos nos olhos, sardas nos granulados.

O recipiente de plástico arredondado, milimetricamente igual ao que minha avó me presenteava quando menina, parecia abrir os abraços. Em segundos, feito relâmpago, me vieram as mãos dela como se segurassem o pote com mousse, e então a forma cuidadosa de fazer carinho, a voz tagarela fazendo presença a todo instante. Sim, como quem pega um cometa atemporal fui à meninice, em um tempo em que tudo que existia a minha volta de adultice era minha avó em sua doação amorosa me criando.

Instintivamente pensei: mousse de chocolate! Nele se encerravam todas as compreensões do afeto: as primeiras medidas e formas aprendidas quando se é criança: o pote; as descobertas das texturas dos sabores ao longo do aprofundamento das vivências: o chocolate.


Os dedos reviraram o bolso até somarem a quantia exata. Não havia em mim nenhuma expectativa de resoluções químicas, nenhuma busca de preenchimento beijoqueiro ou orgásmico através do chocolate, nenhuma idéia de feitiçaria ou qualquer coisa estratosférica que ressuscitasse minha avó, muito menos um mero desejo do doce pelo doce. Mas o fato foi: voltei para casa com ele, ele permanece intacto, consegui retomar o ofício sem estremecimentos, toda vez que a solidão ameaça abro a geladeira e o olho.

Assim ficará até mais um pouco, quando antes do prazo da validade farei alguém presenteado. Ironicamente, entre meninices e adultices, muitas significações parecem ter alterado os lugares dos sabores com isso. No momento, acompanhada por um mousse de chocolate; em breve, chocolate para um moço apreciador das estranhezas do meu doce.

Foto da própria autora

Impressões, Canela de Verso e Prosa, Sonhos do Mundo

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A CARTOMANTE [Débora Böttcher]


Naquela manhã em que a Dra. Anne estava de folga, a enfermeira avisara que não iria trabalhar. Enquanto ela banhava a mãe debilitada por doença terminal, pensava no médico pelo qual tinha se apaixonado. Depois de vestir, pentear os cabelos e aprumar delicadamente a velha senhora com a bandeja de café, ela buscou o telefone.

Ainda ouvia a secretária dizer que o Dr. Pedro não podia atender quando a campainha tocou. Rapidamente ela deixou um recado, instintivamente sabendo que não haveria retorno.

A cartomante estava ao pé da porta. Jovem, com cabelos louros cacheados num rosto alvo de instigantes olhos azuis, sorriu levemente ao se apresentar, desculpando-se pelo breve atraso.

Dentro da casa observou, num relance, os detalhes à volta: a sala de sofás claros com almofadas coloridas; o tapete neutro, as cortinas cerradas - apesar do dia ensolarado.

A Dra. Anne apontou a mesa oval da sala de jantar; ela se sentou e, enquanto aguardava, tirou o baralho da pequena valise que carregava e acendeu uma vela branca.

Quando a médica acomodou-se à sua frente, ela já tinha embaralhado as cartas e desenhado uma disposição em sequência perfeita sobre a mesa; pediu para que fossem escolhidas dez cartas aleatórias.

Separando suas prediletas, a Dra. Anne disse à cartomante que não queria saber de notícias ruins: nada de mortes, rupturas ou perdas. A jovem cartomante limitou-se a ouvir, balançando vagarosamente a cabeça num aceno de ter entendido a orientação, para em seguida concentrar-se nas cartas, separando-as em cruz, umas sobre as outras, intimamente pensando que não eram necessários baralhos para decifrar a mulher de quarenta e poucos anos que a olhava.

Ainda assim cumpriu o ritual e, sem tirar os olhos das imagens, falou de traços de sua personalidade, dos dois casamentos desfeitos, do frustrado desejo de ter filhos, da ascensão e realização profissional. Ela sabia por que a Dra. Anne a havia chamado e resolveu não se alongar mais em informações irrelevantes.

A cartomante então falou de um homem claro, pouco mais jovem que a Dra. Anne, que traria um novo significado aos seus dias pesados e solitários. O rosto da médica se iluminou - o que a faz parecer mais jovem por um momento - e ela disse que já o conhecia: ele era dois anos mais jovem e trabalhavam juntos no Hospital. A cartomante a interrompeu com um leve gesto das mãos, declarando que o homem em questão não era médico.

Os olhos da Dra. Anne se estreitaram - talvez desapontados, talvez furiosos. Um longo silêncio se fez na enorme sala, antes que a médica estendesse o dinheiro do pagamento. A cartomante recolheu o baralho, apagou a vela e levantou-se.

- Não é esse homem - profetizou. E ouviu a porta bater-se fortemente às suas costas.

* * * * *


Muitos dias depois, após a exaustiva jornada hospitalar, a Dra. Anne tomava um café no antigo pub que frequentava na juventude, enquanto uma música leve lhe chegava aos ouvidos vinda do fundo da sala. Nenhum telefonema do Dr. Pedro nas últimas três semanas, o que a fazia sentir-se muito aborrecida.

Ela procurou na bolsa seus cigarros e, no momento seguinte, percebeu um braço estendido em sua direção, a chama de um isqueiro iluminando seu rosto cansado na penumbra da noite. A Dra. Anne teve um sobressalto; o rapaz sorriu. Ambos riram.

Ela se lembrou da cartomante. Os baralhos não mentem...

Imagem: Baralho de Tarot

Expressões Letradas

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sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Distantes da longa passagem >> Leonardo Marona

A alma branca avança sobre o papel. O corpo e o papel estão seguros mas, em corpo delito, debatem-se. O corpo e o papel estão pálidos, estão constrangidos. O corpo rói as unhas e constrói monumentos, o papel ameaça voar pela janela em falsa rebeldia. A alma, mais ampla que a mesura, invade o papel feito uma drag queen. A alma está nua, enlameada, ostenta um sexo híbrido. Rajadas de vento e trovão torturam as árvores. A alma passa feito um comício de silêncio, derrubando eras e reinados. A alma não é nem do corpo nem do papel, assim como o papel não é do corpo, e o corpo não é da alma. A alma vem vindo e passa, coração espacial, assim como fazem o corpo e o papel, mas o movimento da alma é a substância do corpo e do papel – não o contrário. A alma vem e passa banhada em sangue: sua peculiaridade secular de espinhos. A alma está nua, mas não está envergonhada. O corpo e o papel estão protegidos, mas têm medo. A alma branca invade o papel como um lago de nanquim. A alma branca sem asas, as brasas da alma branca, intocável e finita, e o papel cúmplice do corpo, ambos protegidos, censurados, semi-acordados, ambos trêmulos e distantes da longa passagem. O corpo desliga o telefone, sentindo-se culpado. O corpo assina promissórias, enquanto a liberdade obscena da alma deixa o papel tão tímido e humilde, que voa branco pela janela.


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quinta-feira, 25 de outubro de 2007

À MARIA O QUE É DE MARIA [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Você sabe como chamar aquela pessoa que contratou para trabalhar diariamente na sua casa exercendo funções de natureza doméstica como limpar, varrer, lavar, passar, engomar, cozinhar e espanar? Esta pergunta, aparentemente simples, pode trazer respostas surpreendentes.

De "minha menina" ou "a menina lá de casa", passando por "maria" - mesmo quando a moça em questão na verdade se chama Ana Paula, até o mais popular de todos os eufemismos, "secretária do lar". Quem? O que faz uma secretária do lar? Anota recados, redige cartas e organiza arquivos? E a menina-lá-de-casa, é a filha, a neta ou aquela moça que só é "lá-de-casa" porque é paga para isso e desempenha suas funções com eficiência?

O termo empregada doméstica parece ter caído em desuso por conta de uma noção totalmente deturpada do famigerado "politicamente correto" e, ao contrário do que parece, acaba por dar conotação negativa ao que antes era uma expressão correta do ponto de vista legal, adequada em todos os aspectos e que definia uma profissão honrada e necessária.

Segundo o dicionário Houaiss, eufemismo é uma "palavra, locução ou acepção mais agradável, de que se lança mão para suavizar ou minimizar o peso conotador de outra palavra". Certo, entendo que, nesta época de patrulhamento do tal politicamente correto, o peso conotador é algo a ser considerado. Mas que conotação pode ter a expressão "empregada doméstica" que justifique a necessidade de a "suavizar"?

Imagino que essa mania de arrumar um "nome bonito" para designar a empregada doméstica tenha sido iniciada por gente que gostava muito da empregada que tinha, mas que achava feio, pobre ou desonroso ser empregada doméstica, e acabou perpetuada por outras tantas madames que, com uma lógica tortuosa, pretendem parecer simpáticas mas que, no fundo, estão sendo apenas condescendentes com alguém que consideram "desfavorecido".

Talvez uma das piores conseqüências do uso contínuo deste eufemismo seja o fato de que, atualmente, muitas mulheres jovens, mesmo quando são efetivamente empregadas domésticas, não querem que a profissão seja formalizada em sua carteira de trabalho. Dizem preferir "não sujar a carteira" e não se comovem ao saber que existe até uma lei específica para garantir os direitos cabíveis a todo aquele que seja registrado como empregado doméstico.

É certo que uma carteira de trabalho com registro de "empregada doméstica" poderá, no futuro, impedir que gente preconceituosa a leve a sério caso pleiteie qualquer outro cargo que não envolva vassouras e aspiradores. Usar de eufemismos, no entanto, em nada ajudará a combater o preconceito, pelo contrário: só o reforça e faz com que crie raízes profundas no inconsciente coletivo.

E é em nome da Maria de Fátima, que trabalha lá em casa como Empregada Doméstica - com muito orgulho, sim senhor, pois não lhe negamos o direito de ser algo que é bom, bonito e bacana - que inicio minha campanha pessoal contra as tais secretárias do lar. Lá em casa não queremos uma secretária, queremos a nossa empregada doméstica!!! Abaixo a papelada, os lápis apontados e as pastas suspensas: queremos a casa limpinha e as roupas cheirosas, coisas que só uma boa empregada doméstica pode nos oferecer. Viva a Maria!!! Viva!

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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

MAIS UM DELÍRIO >> Carla Dias >>

A primeira vez que ouvi alguém dizer que eu precisava mudar, era bem pequena. Lembro-me de que as pessoas a minha volta não gostavam muito do meu silêncio, mesmo sem saber que ele era, na verdade, um punhado de gritos polifônicos. Por isso mesmo tornaram-se disfarçáveis. Acuaram-se na mudez.

Então, fui crescendo, e também eu aprendi a sussurrar não só conselhos, mas intimações veladas, como se ao retornar o recebido, fosse possível alcançar a compreensão e, de uma maneira realmente funcional, valer-se do concedido para laçar o almejado.

Bobagem, sabe? Porque aos poucos, às vezes aos tropeços, dei-me conta de que essa necessidade de mudança tem voz própria. Ela não manda recado, tampouco contrata intermediário. Ainda que o outro perceba claramente o que se passa e tenha a palavra certa para caber no vazio perfeito, o movimento da mudança acontece em seu tempo, sem esganar-se porque a hora é imprópria para o receptor, ou porque ele chegará tal e qual tempestade, assolando uma tarde de domingo que deveria ser de descanso e calmaria. Sol e frescor.

Conquistar a mudança requer paciência para encarar os revezes. Às vezes, não basta ter determinação ou desejo de mudar. Não basta fazer listas do que precisa consertar para ficar melhor, nem mesmo repetir quinhentas e tantas vezes que, de amanhã em diante, tudo será diferente. Essas coisas funcionam somente quando a própria mudança decide que vale a pena acatar aos pedidos e reconhecer a dedicação. Pois ela tem vontade própria... A mudança é uma dona acostumada ao contratempo, a entrar pela saída. Há em sua cordialidade fragmentos de rebeldia. E nem sempre ela chega dançando o tango... Às vezes, ela se embebeda de letargia e consome anos das nossas vidas, ganhando vida própria numa noite escura e vestida de flash. Cegando-nos para depois desanuviar o olhar e na limpidez do susto, apontar aquele passo que nos proverá os seus frutos.

Até hoje dizem que preciso mudar... O cabelo, a postura, a palavra que caducou, mas ainda faz meu gosto acender-se todo. O corpo, a forma como lido com o amor e dispenso o ódio. Como tranqüilizo as mágoas. Dizem que mudar fará com que, quem sabe aos quarenta, a vida valha mais do que hoje. E acontece de eu cair nessa conversa e correr atrás da mudança como se fosse tirar o pai da forca. Até porque algumas dessas mudanças seriam bem-vindas... Antes dos quarenta, então...

O que descobri, nestes quase trinta e sete anos de Carla que sou, é que mudar não significa mudança. Que mudar é laboratório, ante-sala, prévia. É promessa, entrada, aprendizado. Mudar é acumular sabedoria (assim espero!) para reconhecer quando a mudança chegar, ainda que ela venha toda atrapalhada, como se nada soubesse sobre nós, despertando um quê de solidão involuntária.

Mudar pode ser escolha... A mudança, não. A mudança é independente e acontece quando dá na telha, que é para não nos deixar mal-acostumados às certezas. Que vem para nos tirar para dançar quando pensamos que já sabemos todos os passos e, por este motivo, nos sentimos vazios... Porque não há mais o que aprender ou viver pela primeira vez.

Há sempre algo para ser vivido e aprendido. E não se assuste se um vento forte soprar e bagunçar seus cabelos logo depois de você tê-los escovado com todo o esmero... E que neste mesmo momento de desconserto, a mudança solfeje a vida e lhe ofereça a novidade, e mais três ou quatro pares de sonho para realizar.

Imagem >> Ian Britton

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terça-feira, 23 de outubro de 2007

O DIA SEGUINTE >> Maurício Cintrão

No dia seguinte tudo é exeqüível, até o empréstimo inviável, o emprego improvável e o amor impossível. Ficamos mais medrosos do que um dia antes, até porque estamos um dia depois de sustos vencidos. Amanhã teremos as lembranças dos arrepios de hoje. Os riscos da semana que vem se aproximam. Os gostos de alguns dias atrás se repetem. E a vida ganha cores que seriam imprevisíveis há um mês.

A vitória é muito mais divertida no dia seguinte. Até porque a gente lembra dos detalhes e pode vibrar em retrospectiva. A despedida parece mais dolorida. E o choro contido pode soltar o freio. O pé na bunda incomoda muito mais. O chifre cresce, o hematoma fica mais roxo e a dor nas costas piora. A distância de um dia torna o acidente mais violento (ou mais real). É no dia seguinte que a gente raciocina: nossa, eu podia ter morrido.

Hoje é o dia seguinte enquanto não se configuram as variáveis que tornam o presente um passado que merece ser lembrado (ou esquecido). O caso fortuito pode ganhar corpo ou virar um número. A mulher interessante pode ficar feia. O cara sarado pode não ser nada daquilo. E a ressaca do dia seguinte higieniza até a mais louca das paixões. O projeto que parecia perfeito revela defeitos. O corte de cabelo não ficou tão bom assim. E o dedo machucado às vezes infecciona.

É no dia seguinte que escolhemos as bandeiras que serão carregadas pelos próximos dias seguintes, até que os dias ou as bandeiras se acabem. Ou quem carrega encontre coisa melhor para fazer. Mesmo assim haverá um dia seguinte, com ou sem bandeiras. Ideologias, seitas e magias ficam diferentes no dia seguinte.

A benemerência, o heroísmo e o voluntariado podem ser imediatos. Mas adquirem sentido diferente nos dias seguintes. Pode não haver ontem nem hoje nas ações elogiáveis, mas é garantido o amanhã na lembrança inevitável do dia seguinte. Vergonhas, mágoas e arrependimentos revigoram-se um dia depois. E as histórias e versões se multiplicam porque o acontecimento foi ontem e hoje é o dia seguinte.

O dia seguinte é o hoje que acorda de pijama, amanhã.

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sábado, 20 de outubro de 2007

“LIMÃO GALEGO... RELOU TÁ PÊGO” [Maria Rita Lemos]


Quem passou dos trinta ou quarenta certamente se lembra que brincou de pega-pega. Bem como de “esconde-esconde”, “barra manteiga”... enfim, tanta coisa que as crianças de hoje, infelizmente, talvez nem tenham ouvido falar.

Pesquisadores de todo o mundo estão preocupados com essas mudanças radicais que as crianças sofreram nas últimas décadas, e já se sabe que correr, jogar bola, brincar de cobra cega e pular amarelinha é muito mais importante para a saúde física e mental de um ser em formação do que se poderia supor.

As crianças modernas brincam também, é claro, mas sua diversão, pelo menos nas classes mais favorecidas economicamente, é eletrônica na maioria das vezes. Sua alegria está, principalmente, na ponta dos dedos e no raciocínio. É como se o corpo, o tronco, as pernas ficassem esquecidos, parados, sem função.

No entanto, como o ser humano não muda assim tão depressa, nem física nem mentalmente, “crianças ainda precisam correr, se pendurar, se mexer, passar por cima e por baixo”, conforme diz o grande educador Içami Tiba. O que vivemos hoje é a perda de contato das crianças com a realidade, fruto do medo da violência na cidade grande. Violência esta que tirou as crianças das ruas e parques e prendeu-as em “playgrounds” e condomínios tão pequenos quanto monótonos.

Já está provado, cientificamente, que a criança que não administrou riscos, não tocou nem explorou o mundo, enfim, não correu nem experimentou o próprio corpo nos primeiros anos de vida, fica com prejuízos psicomotores que podem afetá-la a partir da fase da alfabetização. Basta lembrar que, do ponto de vista pedagógico, aprender a ler e a escrever requer pré-requisitos que são, principalmente, o senso de ritmo, lateralidade, orientação no espaço e tempo, equilíbrio e coordenação fina (de dedos). E esses pré-requisitos são obtidos, principalmente, nas brincadeiras livres da fase pré-escolar. Isto tudo sem falar no déficit emocional: brincar sozinha ou ficar muito tempo no computador ou no vídeo game, não ensina a criança a se relacionar com seus pares nem a administrar conflitos, o que pode ser muito ruim para sua vida futura.

Sabemos também que o problema é maior e mais antigo que a violência e a falta de espaço dos “apertamentos” das cidades grandes, que já não têm espaço nem quintal com árvores para subir e brincar. Há crianças que, mesmo dispondo deste espaço, quase não visitam seus quintais... Atrás disso encontramos famílias que ficam encantadas com a forma como suas crianças dominam os computadores e videogames, sem se lembrar de levá-las a um parque ou relembrar com elas antigas brincadeiras que nunca saem de moda.

A situação é tão séria que nem as próprias crianças modernas conseguem saber do que gostam, uma vez que não experimentaram outros tipos de diversão, a não ser as que espelham a pressão da mídia.

Apesar dessa realidade, nem tudo está perdido. O computador, a TV e o videogame estão aí e já fazem parte da nossa rotina, não podemos negar. Cabe aos pais, a partir disso, a tarefa mais difícil: selecionar a programação, interagir com os filhos, conversar sobre o que vêem e fazem juntos. Separar o joio do trigo – e, 365 dias por ano, ensinar os filhos e filhas a fazer isto sozinhos.

Imagem: Brincadeiras de Infância, Junião, Porto Alegre

Palavra de Mulher


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sexta-feira, 19 de outubro de 2007

SOLIDÃO >> Leonardo Marona

Solidão é quando o prazer se torna uma busca frenética e nos esquecemos de que a busca frenética é que deveria ser o prazer. Solidão é a graça dos ordinários, a desgraça dos sensíveis, o refúgio dos literatos, a estética do desempregado, a paz da fé no que nunca foi visto. São duas camisinhas no bolso e um vinho empoeirado em cima da geladeira. É quando os valores se tornam lágrimas dentro de um copo pela metade e o sorriso honesto está na outra metade que não existe mais, se esfarelou. Foi devorada pelo mundo. Solidão é o pedido de desculpas de um asmático, relações movidas a “com licença”, “por obséquio”. É jogar pôquer virtual, faturar um milhão virtual, tirar as cuecas e dormir sentado. Se pintar de palhaço e escutar Erik Satie, masturbando-se. É babar no travesseiro, acordar suado e virar o travesseiro de lado, para não voltar a dormir nunca mais. São os minutos contados para o sonho cortado quando a gente finalmente voa. Solidão é acordar deste sonho e só lembrar da queda, que nunca existiu. O vapor de uma panela cheia de óleo quente. É abraçar um retrato antigo ou olhar pela janela e ver a si mesmo estirado lá embaixo. E ao mesmo tempo continuar aqui, ajeitando os cabelos que sobraram na frente do espelho, passando talco antes de vestir as meias. É o vício de si mesmo, a maior droga inventada depois do amor. São conselhos para a vida toda, é a vontade do outro por você: “seja feliz”, “você tem tudo”, “é o bastante”... É o bastante? O quê? Tudo? Melhor que nada. Será? O quê? Nada? Não exatamente, nunca exatamente... É observar o tempo e ver uma mula manca fustigada por um mujique russo enfezado e com bigode, suor, chicote na mão. Uma pomba amassada na via expressa, alimento de mais dez pombas. É quando o nariz de um filho escorre sangue e o pai pergunta se ele andou cheirando cocaína. Um pano com álcool, por favor, ou benzina. É quando tudo tem o mesmo sentido, porque todo o sentido se tornou o próprio anacronismo e o anacronismo, a crônica do dia seguinte. É a paciência da barriga inchada de fezes e tédio. É o tédio como virtude, como progressão aritmética, a vida calma de um pedófilo num domingo ensolarado. Ouvir as reclamações dos outros e procurar nelas os buracos vazios das tuas próprias. Convencer os outros de você. Pedir de cabeça baixa. Aceitar com os ombros. Escrever para ler os comentários. Pedir que leiam e comentem. Distribuir panfletos sem assunto. Não falar a quem se ama. Não amar a quem se fala. Aprofundar simplicidades. Suspirar forjando novas dores para que alguém se preocupe contigo. É quando mentira e verdade são uma coisa única, mentira portanto. É quando a punheta é o mais longe de si mesmo que você pode chegar. Uma punheta sem gozo. Uma ligação para o interior de São Paulo. Sou eu me olhando e vendo a mim mesmo. Monótono como uma escova de dente debaixo do basculante do chuveiro. Programar a semana. Pensar em novas possibilidades artísticas. Dizer “possibilidades artísticas”. É o vento derramando os objetos do quarto e você deitado na cama suado, sem dormir, dormindo doze horas por dia. Cuidar da vida. Entrar no psicólogo. Arrancar os pêlos do nariz e do rosto. Recorrer à astrologia para explicar a vida sem saber que a graça da vida está no que dela não se explica. Ler dez páginas por dia de um livro eterno. Um livro cheio de orelhas. Um Eu Te Amo maiúsculo sem valor algum. Olhar para a porta e te esperar entrar. Sentir o sono dos derrotados. É quando todos se tornam um só você. Mas é só você quem não está ali.


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1.389 quilômetros de convencimento >> CRISTINA CARNEIRO

(...)
Vou me embora, vou chorando
Vou me lembrando do meu lugar
(...)
Quanto mais eu vou pra longe
Mais eu penso sem parar
Que é melhor partir lembrando
Que ver tudo piorar(Borandá, Edu Lobo)


Preciso de muito.
Meus amigos ficavam a desentender. Eu, que há muito morava apenas com meus irmãos e, nos últimos anos, só com minha irmã, cultivava uma vontade imensa de morar sozinha, fugir, ir embora.

A irmã não pegava no pé, eu entrava, saia e fazia o que bem entendia: fazia o que bem entendia: já não chegava afobada a contar todas as coisas, ela perguntava por onde eu andara e eu respondia no Arlindo. Muitas vezes eu estava era nas Goiabas, no Assis, no Zé, nos Camarões. Para não explicar, eu encurtava a dizer no Arlindo, que era o suficiente. Ela sabia com quem eu, conversando sobre o que, ouvindo que tipo de música, sendo feliz de morrer de rir.

Mas eu tinha vontade de ir embora, sair de casa, pra outro apartamento, outro bairro, outra cidade até. Havia tempos que eu queria ir menos. Imaginava ser ruim não ter com quem conversar ao chegar em casa. Havia tempos que eu queria ir muito. Pela sensação de estar indo para algum lugar ou pela concretude da minha solidão, assim: pronto, agora estou sozinha, sozinha sem possibilidade de não.

As coisas aconteceram ligeiras. Finalmente, moraria sozinha. Quis botar um, dois, até um terceiro pé atrás, mas não. Era o jeito: morávamos eu e minha irmã; ela ia se casar, e eu ia ter de ficar no apartamento, no bairro e na cidade, sozinha, convivendo com a concretude da minha solidão, o pior: sem sair do lugar.

Mas que as coisas se ajeitam, que o mundo sabe o que faz, que eu não conseguiria viver sozinha no apartamento, no bairro, na cidade: a última a sair de casa. Que eu não conseguiria ver a casa se esvaziando e eu ficando, ficando pequenininha lá, cada vez menor, apesar de mais velha, cada vez mais velha, daqui a pouco, velha mesmo. E a casa vasta, cada vez mais vasta.

Vim morar sozinha. Em outro lugar. Foi num só arroubo que tudo aconteceu. Demissão, blablablá, viagem, primeiro lugar, arruma caixa, encaixota, isso vai ou não?, tensão, cidade nova, bairro novo, casa nova. Minha irmã se casaria dali a alguns meses.

*

Foram-se três meses. Tudo agora flui. Acordo, vou ao trabalho, lavo roupa, varro a casa, leio. Às vezes me divirto, às vezes tomo três latinhas de cerveja, às vezes falo com meus amigos, às vezes gosto muito daqui, às vezes não. Brinco de calcular quantos litros de água eu bebo em uma semana, duas, três, um mês. Quanto tempo dura a pasta de dente. Em quantos dias eu como um cacho de bananas. Até quando eu vou manter a mania de nunca arrumar a cama.

Não chego mais afobada a contar causos; não encurto conversa a dizer no Arlindo; não tenho mais o quarto invadido por alguém segurando um prato de almoço pra depois tirar um cochilo, porque só eu sei deixar o quarto o lugar mais aconchegante do mundo: com rede, bossa nova e cortina penumbrando o dia.

Sou eu sem meus discursos exagerados no café-da-manhã, por falta de ouvidos, de ouvidos crentes para todas as minhas teorias mirabolantes. Não conto mais meus sonhos. Sou eu sem meus sonhos sem pé nem cabeça. A tudo agora dou pé e cabeça. Sou eu aguentando minha irmã sair de casa. A casa se esvaziando. Sou eu longe.

Fosse de perto, agora eu era um bicho triste. Uma coisinha pequena, pequeninha, num cantinho da sala, da sala vasta. Mas não há eu feito um bicho triste, há distância. Se bicho triste há (na verdade, há um bicho melancólico, saudoso, com vontade de sentir cheiro de chuva), há também grandes motivos: 1.389 quilômetros. 1.389 largos quilômetros e o não mais ouvir estava tomando gelas, Cricri?.
Pra me convencer.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

BATUQUES >> Carla Dias >>

Eu vivo em um universo interessante... Passo meus dias, uma jornada de onze horas, ouvindo música. Na verdade, ouvindo aulas de bateria. Dez dessas horas todas eu fico de cara com o computador, redigindo propostas, atualizando o site, fazendo contatos de produção, respondendo mensagens de e-mail enviadas por interessados no curso de bateria e tirando dúvidas sobre o festival que realizamos desde 1996.

Este é meu diariamente... Minha rotina é musical por fora e extremamente burocrática por dentro. Às vezes, sinto vontade de abandonar o posto de produtora e assumir as baquetas, o que foi, durante os anos 90, meu fazer principal. Hoje sou mais produtora do que baterista, e me orgulho disso, apesar de a bateria ser meu afeto maior e eu ter esperança de, dia desses, voltar a me dedicar a ela como fazia no início de tudo. Orgulho-me porque as produções nas quais trabalhamos colaboram para que músicos excepcionais possam mostrar sua música. Porque o festival já impulsionou várias carreiras e ofereceu àqueles sem condições de ter um bom equipamento, por exemplo, a oportunidade de ganharem um instrumento de qualidade.

No meu diariamente, também lido com pessoas e seus sonhos. Ouço muitas histórias parecidas com a minha e outras completamente diferentes. Vislumbro o processo de aprendizado de talentos que, bem sei, em breve farão diferença no cenário musical. Isso me deixa feliz, porque uma das coisas que me endoidecem é a arte desfigurada que muitos são obrigados a engolir por falta de formação do artista ou mesmo da ciência de que existem outras opções.

Neste universo ao qual pertenço, as pessoas fazem por merecer. Não é assim no cenário geral, pois o mundo é formado por pessoas diferentes. Porém, quem passa por aqui sabe que prezamos pelo caráter e também pela disponibilidade em despertar o melhor de si.

Também aqui tive a oportunidade de não só conhecer, mas interagir com muitos dos meus ídolos. Ouvi muitas histórias, tive boas conversas com a maioria deles. Presenciei performances fantásticas e o prazer no olhar daqueles que se achegavam para aplaudi-los. Um desses ídolos, além de baterista talentoso de tudo, tem bacharelado em literatura. Lembro-me de que ele foi o único estrangeiro com quem conversei durante muito tempo sobre a vida e a música e a literatura, sem me preocupar com meu parco inglês.

A música instrumental é predominante nesse meu canto. Querem conhecer um pouquinho? Porque bateristas lançam discos não só com bateria (a grande dúvida!). Além de acompanharem grandes músicos, na sua maioria, também são compositores e exercem essa função com maestria. E seus discos são fantásticos.

Dave Weckl Band


No quintal desse meu universo é que florescem meus escritos. Já rabisquei muitos poemas na hora do almoço, ou mesmo durante o trabalho, quando a urgência exigia. Já usei da minha poesia para dizer o que desejava em projetos comerciais. Já misturei as estações, porque quem lida com arte, ainda que de forma burocrática, não resiste à mixagem da teoria com a prática... Ou seria a evolução da teoria para a prática?

Vera Figueiredo


Minha paixão pela música vai além do simples gostar. Através dela, aprendi a ser uma pessoa mais sociável, apesar de ainda dever muito à classe. Continuasse eu a me aprofundar nos meus escritos sem essa ferramenta que é a música, talvez não estivesse aqui, dividindo pensamentos e desejos com vocês, mas sim enfiada em algum porão emocional, vivendo a vida somente através da vontade de vivê-la, já que no começo de tudo, no início de mim, escrever era a mais pura necessidade de estar onde ninguém mais estava. Hoje, é me esparramar pelas possibilidades oferecidas pela vida e brindá-la com os amigos.

Graças à música, sou um bicho-do-mato menos ranzinza e, sempre que me dá um clique, saio para ver o mundo... E batuco minha felicidade.

Imagem 1 >> Thiago Figueiredo
Imagem 2 >> Mônica Côrtes


www.carladias.com

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terça-feira, 16 de outubro de 2007

HORÁRIO DE VERÃO? -- Paula Pimenta

Sempre que começa o horário de verão, me vem uma dúvida: Por que horário de verão e não de primavera? Vamos considerar este atual. Ele vai de 14 de outubro a 16 de fevereiro. 126 dias, sendo que 68 deles serão passados na primavera e 58 no verão. Seria muito mais justo que a primavera fosse a dona do horário, afinal, quando ele acaba, ainda tem muito tempo de verão pela frente.

Talvez o mais correto seria usar a nomenclatura oficial que os Estados Unidos utilizam: “Daylight Saving Time”. Afinal, a função do horário de verão é salvar energia. Como o horário em que mais utilizamos luz é à noite, ao adiantarmos uma hora no relógio fazemos com que o dia dure uma hora a mais e isso representa uma hora a menos de energia elétrica. Por esse motivo também é que no Nordeste e Norte este horário não entra em vigor. Nas localidades próximas à linha do equador, a luminosidade é praticamente constante. As estações do ano apresentam poucas diferenças nesse aspecto, logo não há necessidade de adotar o horário de verão.

O que eu também não entendo direito é porque tanta gente odeia o tal horário. Confesso que nos dois primeiros dias é muito difícil. Dá o maior susto olhar o relógio, ver que já é uma hora na frente e você ainda não fez tudo o que devia ter feito. Acordar no escuro também é complicado. Mas depois de uma semana, depois da adaptação e quando a gente começa a esquecer que está uma hora na frente, eu acho ótimo.

Nada melhor do que chegar em casa do trabalho e ver que ainda está claro. Dá vontade de passear, fazer algum esporte, encontrar os amigos em um barzinho, tomar sorvete, ir dar uma caminhada... pensando bem, acho que tem muito sentido o nome... realmente isso tudo tem a maior cara de verão!


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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

FRUTAS DO ESPANTO >> Maurício Cintrão

Estou injuriado! Descobri que a jaca, a manga e a banana não são frutas brasileiras. Que absurdo fazerem isso com um sujeito no alto dos seus 50 anos de idade. Jaca, tudo bem, nem como. Mas manga e banana são frutas do meu imaginário paradisíaco.

Sempre pensei que um paraíso tropical tivesse pássaros coloridos e exuberantes, além de mesa farta de mangas, bananas e jacas. Porque o paraíso de deus brasileiro tem que ter frutas brasileiras. Confesso que também imagino jabuticabas, cajus e goiabas.

Porém, fui ler sobre a história da alimentação e descobri que jaca, manga e banana vieram da Ásia, talvez da Índia. Há dúvidas quanto à banana. Historiadores defendem que ela teria surgido na antiga Nova Guiné.

Fui salvo pelos cajus, pelas goiabas e pelas jabuticabas. Mas isso não diminui minha indignação. Sei que não tem importância nenhuma se as frutas surgiram aqui ou lá longe. O importante é que elas sobrevivam às mudanças climáticas e continuem a alimentar nossa gula por muitos e muitos anos.

Mas e o senso de patriotismo da minha fome, como fica? Pior, onde foi parar a República das Bananas? Foi para a África? Ou virou um dos Tigres Asiáticos.

Amigos, precisamos fazer alguma coisa. Daqui a pouco chega um teórico desses e anuncia pesquisas científicas do tipo: o Pão de Açúcar é, na verdade, Broa de Aspartame; o guaraná tem origem no mito nórdico de cultivar a terra com os olhos dos inimigos, o Goo Ara Nah; e que o verde da nossa bandeira é uma homenagem ao grito mexicano de expulsão dos norte-americanos da Califórnia retomada com “Green, Go!”.

Delírios à parte, vocês não imaginam como fiquei chateado. Quer dizer que a Ilha do Bananal é produto da aculturação? A Manga-Rosa de Alceu Valença é Rose Mango?
Será que a jabuticaba não é brasileira? E o caju? E a goiaba.

Chegaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!


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domingo, 14 de outubro de 2007

HÁ UM ANO... >> Eduardo Loureiro Jr.

Micro Discovery corbis.com"Haverá um ano em que haverá um mês em que haverá uma semana em que haverá um dia em que haverá uma hora em que haverá um minuto em que haverá um segundo, e dentro do segundo haverá o não-tempo sagrado da morte transfigurada."
(Clarice Lispector)

Essa é a história de um amor que acabou, mas sem deixar de ser para sempre.

Há um ano (em) que a vida é leve. O objeto do desejo impossível inexiste. O próprio objeto é agora impossível. E o desejo está livre. Eu lhe sinto como o vento, como se fosse seu cheiro. Eu lhe sinto como uma leve pressão no peito, sua mão pousada em mim na hora do aconchego. Você me vê sem que eu lhe veja? Eu nunca quis mesmo lhe guardar segredos.

Há um mês (em) que eu senti vontade de falar com você. Voltar a falar. Melhor por telefone. Mas por telefone não deu. Arranjaram-me um trabalho no interior da fortaleza. Quando cheguei à fortaleza, você poderia ver-me. E marcamos de nos ver. Eu queria tanto o seu amor que só queria o seu amor. Eu cheguei a querer você mesmo que fosse sem o seu amor. Agora eu queria o seu amor mesmo que fosse sem você.

Há uma semana (em) que eu liguei para minha amiga. Ela havia me dito que uma separação se supera em dois anos. Nem mais nem menos. Cento e três semanas haviam se passado desde que você se separara de mim. Cento e três semanas, e eu não havia conseguido me separar de você. Liguei para a minha amiga. Dei-lhe o aviso prévio: falta uma semana, é bom que tudo esteja resolvido em uma semana, você me prometeu que tudo se resolveria, você só tem uma semana. Ela riu. Mas em uma semana resolveu tudo. Teria sido mesmo minha amiga a responsável por tudo ter se resolvido? Será que ela mexeu os pauzinhos nas suas costas, nas costas de sua amiga, nas costas do homem que decidiu tudo em um segundo?

Há um dia (em) que as pessoas se despedem. Eu lhe esperei como estava sempre esperando. Você foi à praia com uma amiga. Avisou-me por telefone, pediu que eu aguardasse. Eu fiquei lendo para nossa pequena criança uma coleção de livros pequenos, minúsculos, que a sua amiga havia trazido de uma distância muito grande. Eu li todos os quinze livros, e você chegou. Nossa pequena criança se despediu de nós pelo vidro traseiro do carro. Foi a derradeira vez em que ela nos viu juntos: um sorriso, um aceno.

Há uma hora (em) que é final. Eu lhe disse que pela primeira vez, em dois anos, eu não iria lhe pedir em casamento. Eu lhe disse isso com a escondida esperança de que você dissesse: "Pois agora, justo agora, eu aceito o pedido que você não tem mais coragem de fazer." Mas você apenas aceitou meu oferecimento de amizade e disse que a vida agora lhe era simples porque você se sentia amada por todos. E eu lhe disse que minha vida era simples desde o dia em que perdera você: quando não se pode ter o que mais se quer, qualquer coisa é surpreendentemente suficiente, satisfatória, plena.

Há um minuto (em) que se diz tudo. Eu segurei sua mão. Eu a beijei. Você não queria mais estar em lugar nenhum onde não pudesse dizer o que quisesse dizer. Foi bom vê-la descer do carro, esse lugar em que você pôde dizer tudo, até isso. Você cumprimentou o porteiro, cruzou o portão e acenou atrás da grade. A última vez que lhe vi: aceno, sorriso.

Há um segundo (em) que tudo muda. Você e sua amiga no carro, na rua, na madrugada, no momento em que você já estaria dormindo enquanto nossa pequena criança dormiria no quarto ao lado. Mas, desta vez, era sua amiga ao lado, no banco, e ao lado de sua amiga, de pé atrás do vidro, um desconhecido com uma arma na mão. Sua amiga gritou. Você acelerou. O desconhecido atirou.

Chen Kwodong corbis.com

Há um não-tempo (em) que tudo pára. A ponta prateada — feito uma prótese de dedo — perfura a bolha lilás e faz o amor explodir: livre, feliz, violeta. Respingos coloridos na memória de quem nem esteve lá.




Texto: Clarice Lispector
Composição: Fabiano dos Santos
Interpretação: Eduardo Loureiro Jr.


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sábado, 13 de outubro de 2007

ENCONTRO DE DESENCONTROS [Cris Ebecken]


Acordou pela manhã com um bilhete passado por baixo da porta. Em suas mãos o papel desembrulhava-se iniciando com um pedido de desculpas pela decepção que ele poderia ter lhe causado, em seguida as palavras embrulhavam o estômago com a forma escolhida para agora assim decepcionar. O perfume solto pelas linhas possuía dos cheiros o mais estranho nome: vingança. Vingar-se no sentido de devolução, retorno, dar ao outro aquilo que não gostara ter recebido.

Conheceram-se em tempo outro. Ela, marcada por mãos alheias, recém-separada de falsos sonhos bons. Ele, na fome de mãos novas, recém-separado de tentativas no vão. Para ele, encanto à primeira vista. Para ela, encanto a vistas seguintes. Na noite do início sem início, conversaram umas tantas, se sorriram, beijaram. Ele, sem dar brecha a quem conhecia, foi à frente atropelando, a oferecer mais presença, propondo continuidades ao par. Ela, com a desconfiança aprendida nas feridas em brasa, se assustou, precisou de dosagem. Seria ele mais um propondo engano? Que ilusões lhe vendia? Seria como os passados, depois de alvo de conquista, alvo de domínio? Escolheu pelo pé no freio, valorizando ainda assim a existência dele, preferiu no tempo deixar apenas as prosas afetuosas, o compartilhar das histórias. Deixou a ele o espaço da escolha da não tanta intimidade ou não, do conhecer sem pressa.


Audaz, topou a empreitada. Esbarraram-se pela cidade, trocaram vozes em telefonemas, olhares em encontros. Na medida do se conhecerem, ela foi aprendendo a olhá-lo como chegava, como era, descobrindo beleza na particularidade. Em um dia de sol inteiro, pensou ela ter cometido antes um engano, percebeu estar ele desatando todos seus medos, encontrava bem-estar no estar ali ao seu lado. Avaliou-se, apostou se dar uma nova chance, abriu as mãos deixando ir embora suas histórias mortas, e com as mesmas mãos foi abrir-lhe janelas e porta. Na noite anterior ao bilhete, sem dar atenção à abertura, ele se confessou desesperado na solidão, pediu que lhe apresentasse alguém. Ela se confessou espantada com a capacidade dos desencontros, se expôs.

Dessa vez, foi dele a preferência apenas pelas prosas afetuosas, ficando a ela a escolha a não tanta intimidade ou não. Embora não mais um conhecer sem pressa, acabava de tornar-se conhecido o suficiente sobre ambos. Assim ficaram pelo caminho. Ela e Ele. Ele e Ela. Dois na busca tragante do encontro. Cada um em si, no mútuo dos desencontros. E um senhor de longas barbas brancas, rindo e chorando tiquetaqueado, acima de todos, ecoando pelas páginas das datas: ai, esses humanos...

Foto da própria autora

Impressões, Canela de Verso e Prosa, Sonhos do Mundo

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O TRAUMATOLOGISTA [Ana Coutinho]


Tinha ouvido dizer de uma especialidade médica chamada Traumatologista. Eu, particularmente, não tinha bem certeza do que era e resolvi pequisar. Tive surpresas e cheguei à conclusão de que o traumatologista, embora não muito conhecido, é fundamental para a nossa saúde física.

Pra quem não sabe, o traumatologista é procurado caso o paciente tenha tido alguma injúria sobre o corpo. Ou logo depois de um acidente, seja ele com objeto cortante ou uma batida de carro, ou acidentes domésticos, enfim. Se o negócio tá feio, e se é urgente, procure um traumatologista. E procure rápido. A função dele, pelo que entendi, é dar um jeito no problema emergencial. Que me perdoem os traumatologistas que me lêem, mas entendi que eles estão aí pra resolver o problema do paciente. Deixá-lo diretinho e inteiro para um próximo tratamento. É como se fosse “dar um tapa no visu”, mais popularmente falando.

Pois bem. Isso posto, quero dizer que nem só quem tem problemas físicos precisa dele. Tenho descoberto pessoas, principalmente mulheres, que estão à procura de namorados traumatologistas. Não, não precisa ter estudado medicina, não. Nem precisa ter estudado nada específico. Mas precisa agir, e logo.

O namorado traumatologista vem logo depois de um acidente também, mas um acidente sentimental. Uma injúria de fato, mas não sobre o corpo especificamente: ele tem de vir depois de uma injúria sentimental. Essas que se dão sobre os sonhos, sobre o que foi desejado e – arduamente – tentado, mas, por alguma razão, não funcionou, e daí restou o trauma.

Ah! quantas pessoas sofrem de amor, morrem de amor e, em seguida, precisariam ir urgentemente para um pronto-socorro tamanha a dor e as mazelas que trazem um amor não correspondido. Quantas não se sentem com o órgão exposto, precisam de uma cirurgia, precisam de uns pontos para fechar o que foi aberto, quantas não se sentem sangrando e não sabem o que fazer para estancar a hemorragia. É, é dramático assim quando se termina um relacionamento.

E, pra se recompor, dizem que só outro amor. Eu discordo. Não precisa ser necessariamente um amor, mas precisa ser um traumatologista.

Um namorado com essa especilidade vai te mostrar que existe vida depois da morte. Um namorado traumatologista te faz ver que, sim, existem outros homens no mundo, sim, você pode ser gostada, desejada, amada inclusive. Um namorado traumatologista serve pra te ensinar que você é perfeitamente capaz de tirar a roupa pra outra pessoa, e mais, é capaz de adorar isso.

O namorado traumatologista, normalmente, não fica muito. Ele vem pra pagar a conta. Não a do restaurante, mas a conta que ficou do caos de um relacionamento acabado. Ele vem pra te deixar diretinho para a vida, pôr (ou tirar) as ataduras, fechar de vez as cicatrizes, pôr de volta no corpo os ossos que restaram, empurrar para dentro o baço, recolocar o ombro no lugar, inserir uns pinos no joelho e, por fim, costurar - definitivamente - o peito que estava dilacerado...

Às vezes a gente erra. E prossegue com o traumatologista depois de ter recuperado a saúde sentimental. Não deve ser assim. O traumatologista tem um tempo fim, uma data de validade, exatamente como um vidro de requeijão. Se passar do tempo, a relação começa a ficar esquisita. Você nota que já está saudável, que ele não era bem como você pensava, começa a perceber que, talvez, vocês nem tenham muito a ver um com o outro. É, não têm mesmo, vocês só se encontraram pra curar o trauma, não se engane.

E, depois disso feito, é como se você recebesse alta. O traumatologista, coitado, não entende porque você não precisa mais dele, mas aceita e, cedo ou tarde, se vai. Você vai tatear um pouco, dar um passo, talvez cair uma vez, mas, na segunda tentativa, já sentirá as pernas mais firmes e vai arriscar andar sem apoios.

As cicatrizes, essas ficam pra sempre. Talvez os pontos até soltem num momento de carência. Mas, se o traumatologista for bom, pode saber: você sai dessa inteira e logo, logo, já está por aí, se arriscando de novo.

Imagem: Geisa Cruvinel
Doce Rotina

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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O rosto e a poltrona >> Leonardo Marona

No sonho eu ainda acreditava no amor reconhecido. Sabia disso porque me sentia inseguro, com frio, sem fome, com raiva – no céu da boca o rastro de algum ansiolítico.

Eu andava no sonho, com um velho roupão esfolado. Havia também você no sonho, você visitante, você de passagem, você que não veio, você inviável, você mil caminhos, ali estava você, querida sem rosto: você que sorria.

No sonho fingíamos. Você dizia:

- Ah, querido, que dia lindo faz lá fora, lembra aquele dia perfeito... Vamos sair?

Eu sorria:

- Escuta, preciso da sua ajuda para encontrar um título.

Você não entendia aquilo, do dia estar lindo e eu pensar em títulos. Você, que no sonho era minha ternura perdida, você que se lambuzava sentada à mesa, não sabia o que dizer. Existia algo brusco no meio dos espaços vazios, frágeis, antes ocupados por brigas, por choros incontestáveis, por palavras de desespero, pela vida que se esvai, pelos passeios a contragosto no parque, onde comíamos cacau da árvore, que não era bem árvore de cacau, depois viemos descobrir.

Havia uma pessoa contigo, uma pessoa com rosto, com as unhas pintadas. Lembro as unhas pintadas, não lembro a cor, não lembro o rosto, mas era bonito. Não tanto quanto o seu, que era rosto sem rosto, sem rosto o meu amor. Que estava magrinho e com os ossos à mostra, como gado faminto, cabelos cortados, mas estava amando, assim de um jeito tão bonito e antiquado, meu amor amassado, amor amando, e eu precisava apenas de um título.

- Eu tenho os textos, mas eles não apresentam nenhuma unidade. Eu preciso de um título que dê aos textos um eixo comum.

Você andava de costas e de lado, maquinando expectativas que eu sabia de cor e pelas quais eu dizia: “Mas como?”

Agora era você com um roupão esfolado, enrolando um tapete, malas na porta, as unhas pintadas eram tuas, ainda sem rosto, sorrindo cansada, e onde estava a amiga? Eu estava tão triste que não podia chorar. Estava agora sem roupa, magro, a luz baixa e a coceira na carne.

- Preciso ir embora.

Impossível saber quem disse a frase.

Eu te acusei, meu amor. Eu te acusei porque tremia de frio e você precisava ir embora, você precisava seguir o ritmo recusado pelas harpas de satã. Eu te acusei porque o amor é um paradoxo perfeito para os que andam pelo quarto – e eu fumava! – à procura de títulos para frases sem eixo, com o roupão esfolado.

- Você é egoísta! Você não me ajuda!

Você desenrolou o tapete e me mostrou títulos bordados nele. Você foi paciente, amor sem povo, você foi indiferente e calma. Das janelas, muitos te olhavam sem saber se você estava morta. E aplaudiam. E apontavam.

- Preste atenção – você dizia segurando o tapete aberto. – Os títulos devem ser simples: “Rei Lear”, “La Chinoise”...

Os títulos bordados no tapete, que você voltou a enrolar. E havia também agora o sol, como um parente indiscreto, quando entrou no quarto acusando um rastro de poeira, tão parecido com a necessidade dos que amam sem saber que nome. Porque a necessidade dos que amam é poeira que entra e sai pela janela.

Eu disse que pularia, que pularia pela janela se você fosse embora. Você me olhou e, quando me olhou daquela forma, tinha no rosto um outro rosto subliminar, um rosto que permanecia em constante mutação, como se fosse todo o desprezo e a pena do mundo, em plena mutação, alguns lances sublimes, em formas guardadas na minha mente que não guarda mais formas.

Você pediu que eu ajudasse com as malas, que levasse tudo até o carro. Eu disse que não levaria coisa nenhuma, mas, como nos sonhos, muitas vezes nos negamos e somos arrastados por forças ainda desconhecidas.

Estávamos num hotel daqueles com carpete vermelho, senhoras falantes de olhos fechados e maçanetas douradas. Os valetes usavam um chapéu coco desses de boneco de ventríloquo. A menina das unhas pintadas, com o rosto bonito de que não me lembro, desceu conosco, e sua presença era um hálito quente na minha nuca, dizendo: “Procure sozinho”.

Lá embaixo, as malas empilhadas, um lenço que pendia esvoaçante no seu pescoço, um pescoço roxo, decaído. Eu gritei, finalmente. Eu gritei barbaridades sobre ausência, egoísmo, ostentação e máscaras. Eu usava uma.

- E de quem é esse carro? – eu gritei.

Havia um carro na porta do hotel.

- Quantos carros você tem? – insisti.

- É do meu namorado – você disse de unhas pintadas. – Ele tem dois, ele é rico, com banco de couro e tudo...

Eu te ofendi, meu amor sem rosto. Eu ainda não tinha um título e você estava feliz, com o pescoço roxo, o lenço caído no chão, voando sozinho no tapete vermelho do hotel com maçanetas douradas, de onde vinham lanças de luz ao sabor do sol. O sol desnudava a poeira mais uma vez, e eu pensava em janelas, em varais de roupas lavadas, nos dias perfeitos que funcionam melhor nas músicas, no que entra e no que sai da vida, no que tínhamos quando nos sentíamos miseráveis, juntos, a contragosto.

Pensava em quando ainda chorava, quando não era ainda tão triste que não podia chorar. Então quis chorar. Me escorreu uma água suja dos olhos, então eu disse:

- Vou procurar sozinho o meu título, não preciso de você, você se tornou alguém desprezível, vá embora com seu banco de couro, com seus tapetes cheios de nove horas, com seu pescoço roxo decaído, não quero você mais aqui, tome seu lenço, e não me procure nunca mais!

- Essa frase fui eu quem disse – você disse – há muitos anos. Quero de volta a poltrona que eu te dei de presente.

E então subimos, pela última vez juntos, eu e meu amor sem rosto, para desmontar a poltrona e trazê-la aos pedaços, uma poltrona enorme, já que inteira ela era insuportável, pesada demais, não daríamos conta sozinhos.


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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

FUTEBOL [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Bandeiras, fogos de artifício, fumaça colorida, balões, euforia. Caravanas para ir a jogos em outros estádios e - dependendo do time para o qual se torce - outros países. Camisa no peito, pintura no rosto, o grito solto no ar, coração na mão a cada passe. Espetáculo de primeira grandeza, assistido também por quem, nervosamente, fica em casa na frente da televisão, torcendo as mãos a cada lance, tombando a cabeça para ver melhor o que está acontecendo no cantinho da tela. Tem coisa melhor do que futebol?

Certo, a pergunta não merece resposta. Tem muita coisa melhor do que futebol e não apenas isso, tem muita coisa mais necessária, mais útil, mais desejável do que o futebol. Não é o caso de discutir a desimportância que tem um esporte de massa frente à fome, à falta de escolas, hospitais e segurança. E, claro, futebol também não supre a necessidade primal de amor do ser humano. Mas a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão, arte e quer o direito de ter uma paixão que não se explica.

Há quem odeie o futebol por razões políticas ou mesmo filosóficas. Outros têm certa resistência em se envolver com algo, digamos, tão "popular" quanto o futebol. Existe também gente que simplesmente alega não ver graça em "vinte e dois homens correndo atrás de uma bola". Frase que, aliás, erra até na conta, porque, salvo honrosa e marcante exceção, goleiros não correm atrás da bola e pouco sabem conduzi-la com os pés. Mais acurada seria então a alegação - ainda falsa - de que são vinte correndo atrás da bola e dois esperando por ela.

Mas o futebol - e isso só quem gosta sabe - é muito mais do que correr atrás de uma bola. Primeiro porque não há bola que corra, já dizia Newton. A bola, embora fundamental para o jogo, é apenas o instrumento que, conduzido por pés, pernas e, por que não, corpos habilidosos, percorrerá o gramado conforme a vontade ou o talento de quem a conduz.

A paixão pelo futebol nada tem a ver com bolas fugidias, portanto. Tem a ver com a habilidade, com a beleza genuína de um belo drible, de uma finta bem feita. Além disso, é um jogo de estratégia. Ataque sem descuidar da defesa, defesa sem recuo excessivo, e tudo isso enquanto se tenta anular a estratégia adversária. 3-5-2, 4-4-2, 4-3-3 ou 3-6-1?

Embora algumas pessoas - poucas, creio - se interessem apenas pelos aspectos puramente estético e estratégico do futebol, para a maioria de nós a paixão pelo jogo está intimamente ligada a uma camisa. No meu caso, a paixão é por uma camisa branca com duas listras horizontais, uma vermelha e outra preta. Camisa de campeão, que combinada com calção e meias brancas compõem o uniforme mais bonito que já vi.

Torcer por um time de futebol agrega uma característica extra à identidade. Quem torce pelo meu time é dos meus, é bom, é automaticamente simpático. Teve a sabedoria de escolher - ou a sorte de herdar - a paixão pelo time mais vitorioso do Brasil. Como não seria simpática criatura de tão bom gosto? Quanto aos que torcem para os times adversários, bem. Não é que sejam antipáticos, de maneira alguma.

Algumas das pessoas que mais gosto torcem para outros times, nem por isso deixam de ser dos meus, bons, simpáticos. Mas em se tratando de futebol, padecem de mau gosto levemente incompreensível. O que, aliás, só adiciona mais graça, já que os comentários pós-jogo - sem provocações extremas, por favor - são parte integrante das vidas dos apaixonados por futebol. Ver o seu time ganhar, para muita gente, é quase tão bom quanto ver um outro perder - o que amplia consideravelmente as possibilidades de sorrisos ou gargalhadas ao final de uma rodada.

Futebol me diverte antes, durante e depois do jogo. Causa emoções, muitas, da alegria à raiva. Quando estou assistindo a um jogo, perco os pudores, grito, xingo, falo palavrão. Aplaudo, questiono, falo com os jogadores como se pudessem me ouvir, aconselho, vejo antes mesmo deles o lugar exato por onde devem passar, o caminho aberto para o gol. Rogo praga contra juízes e jogadores adversários, compreendo e aceito um passe errado dos jogadores do meu time, mas fico furiosa quando o nego larga o corpo ou perde um gol feito. E, depois de tudo isso, falo sobre futebol. Com a família, com os amigos, com o porteiro do prédio, o cabeleireiro, até com quem não conheço, dentro do elevador. Tem coisa melhor do que futebol???

Sim, claro que tem. Futebol, como tudo na vida, é bom para quem gosta. Mas dentre as coisas gostáveis que há, futebol é a melhor delas.

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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A IDADE DO TEMPO >> Carla Dias >>

Na correria diária da vida que escolhi viver até aqui. Até aqui, mas vai saber a partir dali o que será da minha pessoa. Na verdade, pouco me preocupa se serei feliz ou triste, contanto que possa experimentar sentimentos; que não se esvazie meu dentro a ponto de tornar-se um lago estéril.

Na minha cabeça pipocam pensamentos metidos a ser sonhos. Então, sonho a arquitetura do silêncio, enquanto quadro negro para a história a ser vivida. E assim as cenas se formam. Nada nelas lembra a perfeição desabrochada dos olhares rigorosos... Estão mais para a sonsice dos olhares esfomeados pelas diferenças que tão bem combinam com o inovador.

Não caminho pela cidade como quem colhe tempo. Vou esvoaçando fiapos dele, cultivando passos, contando caracóis dos cabelos do moleque de sorriso lindo e despreocupado. Em segundos, então minutos, vou me aproximando das horas. E faço de conta que nunca conheci calendário. Assim, até mesmo os dias parecem mais longos, mas de um espreguiçar a doçura dos gestos e a vivacidade das cores.

O mais sedutor de se brincar de tempo como ando fazendo, é que assim tudo cabe num piscar de olhos. E um piscar de olhos cabe em qualquer tempo. Há uma afinidade verdadeira entre o que vivo e o que se esparge nos meus devaneios.

O que vivo tem gosto de busca incessante. Levanto-me e vou para o trabalho... Trabalho por horas e depois volto para casa. Assisto televisão, leio livros e ouço músicas. Adormeço a mercê de todas as informações que esse dia me lançou. E o ciclo se repete, obviamente, com pinceladas de conquistas, mazelas, alegrias e decepções.

O que se esparge nos meus devaneios é o que vivo... Levanto-me com desejo latente de ser feliz e vou para o trabalho, pronta para fazer o melhor. Trabalho por horas e, às vezes, fecho os olhos e busco nessa escuridão seqüestrada do horário comercial, a luz tênue que precede as boas novas. Volto para casa e assisto meus programas favoritos, leio livros de cabeceira. Leio a revista do bairro e jornal do magazine da esquina. E ouço músicas... As de amigos sempre me comovem. Adormeço a mercê de um emaranhado de possibilidades, provenientes de todas as informações que esse dia me ofereceu. E o ciclo se repete... Ainda bem! Porque meu flerte com o tempo que passa necessita de oportunidades diárias para se manifestar, e manter minha existência alimentada de desafios.

No tempo também desembaraço relacionamentos. São noites a vislumbrar um amor que virá em algum quando; dias sendo vividos ao lado dos amigos e familiares e de estranhos muito interessantes. Horas tentando decifrar de onde vem a feição alegre dos meus sobrinhos.

A idade do tempo não se manifesta em rugas e fotografias amareladas. Ela abraça calmarias nas situações tempestuosas e doa sabedoria aos momentos em que nos vemos sem rumo. A idade do tempo ultrapassa a contagem, os compromissos, a idade. E nos permite viver uma vida, assim, num piscar de olhos.

Imagem#1 >> Hesferus, The Evening Star / Edward Bourne-Jones
Imagem#2 >> A Wind-Beaten Tree / Vincent Van Gogh
Imagem#3 >> Miranda, The Tempest / John William Waterhouse

www.carladias.com

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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

SER (OU NÃO SER) REVOLUCIONÁRIO >> Maurício Cintrão


Mando e-mails para muita gente até por força do trabalho. E outro dia recebi uma resposta curiosa, que nada tinha a ver com o conteúdo da mensagem original. Um ex-colega de faculdade que hoje atua em uma redação on-line disse que eu era revolucionário. Eu repiquei espantado e brincalhão: “nossa, de revolucionário não tenho nem o regime para emagrecer”. Mas ele manteve o tom sério na réplica e eu fiquei espantado. Ele dizia que nos tempos de faculdade apostava na minha transformação em um sujeito revolucionário.

Acho que frustrei o meu colega. Os tempos mudaram tanto ao longo desses anos que já nem sei se cabe pensar em “ser revolucionário” ao sabor dos temperos daqueles tempos. Pois ele se referia a comportamentos de meados dos anos 80, quando tínhamos problemas de paladar. De lá para cá, mudaram as potencialidades dos sentidos. Muitas coisas, idéias e pessoas morreram nos transcorrer dos anos. Outros tantos compromissos, propostas, necessidades e pessoas foram colhidos pelo caminho.

Isso sem contar que, nesse período, as instituições democráticas fortaleceram-se. O Lula que ainda corria o risco de ser preso naqueles dias, hoje já não corre o risco pelos mesmos motivos. A informática substituiu o jornal mural, o mimeógrafo e o seletor de canais. As pessoas e as crenças mudaram demais. Não precisamos mais da boina vermelha e da estrelinha para nos sentir compromissados com causas, ideologias ou comportamentos. Nem precisamos demonstrar quaisquer comportamentos para agir pensando no futuro coletivo.

Estar engajado, hoje, é muito mais uma questão de consciência do que de aparência. Às vezes, os dois se confundem. Mas as posições pessoais já não são exclusivas desse ou daquele estamento social (ou grupo que se veste assim ou assado). Mudar o mundo nestes dias é muito mais uma questão de conservá-lo e protegê-lo do que qualquer revolução poderia prever naqueles tempos instáveis e de reabertura.

Tenho cinco filhos, uma enteada, três casamentos, um monte de sonhos realizados e tantos outros a perseguir. Não roubo, não mato, não aceito os desmazelos alheios, não compactuo com corrupção ou carteirada.Voto por convicção e não acho que todo político é nefando. Procuro contar histórias de um jeito interessante quando escrevo. E busco quase obsessivamente a simplicidade para viver. Será que isso já não basta?

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber...” Aprendi e fui embora.

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domingo, 7 de outubro de 2007

A primeira vez que eu vi o mar >> Felipe Holder

Foi a primeira vez que eu vi o mar. O dia já estava indo embora, mas eu não estava com sono. Queria ver aquelas coisas bonitas que papai estava me mostrando. A água eu já conhecia, mas aquela era de outra cor. Papai disse que aquela água era o mar. E lá na água tinha uma coisa branca que papai disse que era espuma. Parecia com outra coisa que eu estava vendo lá no céu, mas papai disse que aquela outra coisa se chamava nuvem. Eu perguntei se a nuvem tinha caído no mar, mas ele disse que não. Que a nuvem era uma coisa e a espuma era outra coisa. Era tudo muito complicado mas era muito bonito.

Nunca vi tanta água junta. Papai me disse que logo que eu ficasse maiorzinho ele ia me mostrar todos os peixinhos coloridos que moravam ali. Os azuis, os amarelos, os vermelhos... Será que eles são iguais aos peixinhos que moram na minha piscininha de plástico?

Depois de olhar muito tempo para aquele lugar tão bonito, olhei para o rosto de meu pai e vi que ele estava olhando pra mim. Notei que os olhos dele estavam meio diferentes, como se estivessem cheios d'água. Devia ser água do mar. Tinha muita água ali. Ele não disse nada. Nem eu. Ele me falou de tudo como se já conhecesse o mar há muito tempo, mas eu não sei não. Pela expressão dele, acho que também foi a primeira vez que ele viu o mar.

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ABANDONADO >> Eduardo Loureiro Jr.

Holding on to Myself, Peter Callesen, petercallesen.comAbandonado és tu. Mas chamo-te eu. Para que não prolonguemos o abandono pela linguagem.

Eu fui plantado, dormindo, e, quando acordei, vi-me desolado no meio da terra. Eu era eu. Sozinho. Sem saber que era eu. Luz só minha naquela escuridão. Semente que se mente tudo que poderia ser. Não sabe o que dentro traz daquilo que é.

Eu fui puxado ao mundo. Lançado na luz. Cego. Ofuscado de abundância. Eu era minha mãe fora dela. Eu não era eu. Eu não era ela. Chorar foi a primeira tentativa de canto do homem. Deixado no canto, eu não sabia a beleza da voz.

Eu fui largado nos outros. Retiro de mãe que se retira do filho. Tiro e retiro no peito. Eu era eu sem ela. Na multidão. Um entre tantos. Que voz a minha entre vozes? Eu era o silêncio. A espera. O desespero. Nenhuma ação. Só. Pensamento.

Eu fui entregue ao amor. Que mulher é minha mãe? Eu quero ser ela dentro dela. Ser ela, sereia, serena, selene. Lua. Lubricidade. Lucro. Ludo. Lues. Lufada. Lúgubre... Longo caminho até a luz. Eu tímido. Eu platônico. Eu traído. Eu traindo. Vós sem voz. Musas sem música.

Eu fui caído no som. Só ecoando. Só, só, só... Som. Sou. Soul. Sou zinho. Inho. Ino. Desafino. Engrosso. Engordo. Engodo. Visigodo. Godo. God. Valha-me, Senhor de minha avó. Vó. Izolda. Tristão. História. Tempo. Sou, fui, vou. Vovó. Vox. Voy. Voz.

Eu fui lascado no sonho. Rachado nos pés. Perdido na mata. Corrido do outro. Tropeçado. Iminente morto. Olhado no olho. Só para ver o inimigo. Firme. Corrido comigo. Nativo da mata. Virado dos pés. Mão estendida. Meu amigo. Eu era meu amigo.

Eu. Um. Eum. Amigo, inimigo, personagem, vó, mulher, mãe, multidão. Eumatia: fácil de aprender. Desprender. Livrar. Soltar. Ar. Sol. Sou.

Não há deus
senão você.
E você não é deus.
EU SOU.

Ainda queres ser tu, abandonado? Ou ficas sendo EU SOU?


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sábado, 6 de outubro de 2007

DE MILAGRES BANAIS [Ana Coutinho]


Ela chegou na minha casa nervosa. Estava soridente, mas era claro que estava tensa. Com ela chegaram o marido, a amiga e o marido da amiga. Vi que ela queria falar comigo, arrumei uma desculpa pra chamá-la para o quarto, mas os homens vieram junto para ver o quadro novo que nem era tão novo, mas foi o que eu pude inventar.

Ficamos os três casais lá, no quarto, ela sorrindo, muda, tensa, disfarçando uma emoção indisfarçável. Sugeri que eles pegassem uma bebida e eles entenderam, saíram e ficamos enfim a sós, as três mulheres, querendo saber o segredo que tanto afligia minha amiga.

Ela não falou nada; nos olhou firme, um olhar que era misto de alívio e de susto. Alívio porque éramos três mulheres sozinhas, amigas que se conhecem e se querem bem. Susto, ainda não sabíamos o porquê.

Ela agarrou a bolsa, e, de lá, tirou um embrulhinho em papel sulfite. Foi desembrulhando o papel rápido, as mão tremiam, ela ria e seus olhos brilhavam. Quando terminou de desembrulhar o que parecia ser um tesouro milagroso, lá estava o objeto, simples, barato até. Ali, sob o olhar de três amigas, um teste de farmácia. Chamava-se Baby check, e tinha as tais duas listras que significava positivo.

Mas calma, não eram mesmo duas listras e essa era a razão da agonia da minha linda amiga. Era uma listra bem forte, dizendo que o teste tinha sido feito com sucesso, e uma outra, a que indicaria uma gravidez, mas que estava bem fraquinha, rosadinha de leve, quase que uma “marca d`água de power point”.

“E aí gente? Essa linha estranha? Estou meio grávida?” - ela perguntou ansiosa.

Eu, que nunca fiquei grávida, não sabia o que dizer. Assistia ali, uma amiga tão querida que tinha os lhos marejados, as mãos trêmulas, diante da possibilidade mágica: o filho que ela tanto desejava, talvez estivesse a caminho...

Foi quando, num piscar de olhos, a outra amiga sentenciou: “Ihh, tá grávida mesmo! Parabéns lindona!”.

Elas se abraçaram, olhos cheios d`água:

- Tem certeza? O seu foi assim? – ela ainda não conseguia acreditar.

- Foi!! Tô falando; se dá outra linha é gravidez, não importa se é fraquinha. Se não está grávida, não aparece outra linha, não... Pode saber, vc está gravidíssima!

Pronto. A mais experiente das três falou, estava dito. Tínhamos um bebê a caminho. Abracei a minha amiga querida, meio sem jeito, ainda olhando o teste, desejando felicidades. Sentamos as três na cama de casal, e ficamos falando mil coisas. E agora? E o sexo – menino? menina? E se for gêmeos? De quanto tempo está? Como vai chamar? Que faculdade vai fazer?

Rimos. Rimos as três meninas tontas, já casadas, mulheres feitas, que se emocionavam com o que há de mais natural no mundo, uma mulher grávida.

Quando fomos para a sala, em silêncio, assisti a minha amiga grávida sentar-se ao lado do marido. Pegou a mão dele, apertou forte, tentava conter o riso, mas não conseguia. O homem a olhou sério: “Tá tudo bem, amor?” Ela fez que sim com a cabeça e ele não entendeu.


Ainda não sabia. Só saberia à noite, quando ela, então, faria uma surpresa, dessas de propaganda de TV. Ali, com sapatinhos de tricot nas mãos, ele comemoraria pelo que nós três já vibrávamos. Ali, ele saberia o que nós, meninas, sabíamos desde sempre: que não há emoção maior do que realizar um sonho como esse. Uma bobagem pra tanta gente que, para nós, é sempre um milagre sem tamanho.

Me emocionei subitamente. Me emocionei pensando que logo seríamos mais. Éramos três casais e um bebê, e, logo, seríamos três casais e dois bebês. E logo o bebê seria uma criança, e depois, um adolescente. E nós, que éramos duas amigas desde sempre, agora seríamos duas amigas e uma pequena criança. Nós, que mal conseguimos escolher entre dois vestidos, logo teríamos que escolher como educar uma pessoa. Que nome essa pessoa vai ter por toda a vida. Que comida vai gostar, que valores vai exercer, que palavras vai aprender, com que olhares essa nova pessoa vai olhar o novo mundo que se abrirá sobre ela? A gente não sabe. A gente não sabe como esse pequeno milagre, tão corriqueiro, tão banal, nos escolhe.

E assim, num sábado frio qualquer, duas listras aparecem num exame. E a vida, sempre tão atribulada, às vezes tão repetitiva, torna-se, subitamente, preenchida de um encantamento único. Um susto, uma alegria, um pavor talvez, mas, acima de tudo, um doce encantamento.

Imagens (1) Quinqué, Sandra Dooley; (2) Grávida, Pappoulla

Doce Rotina

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NANO-MICRO-CONTOS [Débora Böttcher]

A Casa das Mil Portas é um projeto idealizado por Nemo Nox, com centenas de microcontos escritos por blogueiros brasileiros e portugueses. O desafio é a tentativa extremamente econômica de contar ou sugerir uma história inteira com cinqüenta letras – ou menos. No site mencionado, Nemo conta que o microconto possivelmente mais famoso é do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."

Ernest Hemingway é autor de outro famoso miniconto. Com apenas vinte e seis letras, conseguiu contar toda uma história de tragédia familiar: "Vende-se: sapatos de bebê, sem uso".

Marcelino Freire publicou em 2004 a obra "Os Cem Menores Contos do Século", em que desafiou cem escritores a produzir contos com cinqüenta letras (no máximo).

Não existe um rigor para esse tipo de escrita e depende mais de critérios editoriais de quem os adota, uma vez que a teoria literária ainda não reconhece essa vertente de texto como gênero literário à parte. Alguns autores conceituam e estipulam limites precisos, nascendo assim algumas classificações:
- Nanocontos: até 50 letras, sem contar espaços e acentos;
- Microcontos: até 150 toques, ou seja, contando letras, espaços e pontuação;
- Minicontos: alguns estipulando 300 palavras, outros com limite de 600 caracteres.

Eu sempre achei essa maneira de escrever super interessante - como os haikais. Nessa linha de pensamento, muito mais importante que mostrar é sugerir, deixando ao leitor a tarefa de "preencher" as lacunas da pequena narração e imaginar a história por trás da enxuta frase. Por essas e outras, deixo aqui uma das minhas séries de nano-micro-contos:

Foi ao psiquiatra pra se livrar da dor; enlouqueceu de vez.

Dormia de pijama; passeava nua pelos sonhos.

Tomou o trem para esquecê-lo; encontrou-o na estação seguinte.

Desenhava retratos sob as luzes de Paris; enquanto perdia a visão.

Conheceram-se pela internet; uma traição virtual os separou.

Saltou da ponte sobre as águas; mergulhou na imensidão.

Tinha saudades da infância; mas ainda não tinha crescido.

Saiu desnorteado. Capotou na curva do túnel.

Andava sempre em linha reta. Morreu na contra-mão.

Incendiou a casa. Por dentro, ardia em chamas.

Amava a esposa do irmão. Casou-se com sua irmã.

Jurou que nunca a abandonaria. Mentiu sem intenção.

Queria ser atriz. Brilhou nos palcos da vida.

Perdoou a traição do marido. Envenenou a amante.

Ouvia música no último volume. Estava surdo.

Colecionava vestidos, sapatos e maridos. Em armários e fotos.

Depois da primeira vez, nunca mais amou.

Anotou na agenda do dia seguinte: viver urgentemente.

Vingava-se da mãe em todas as mulheres. Punia a si mesmo.

Ignorou o pedido de desculpas. Amargou seu orgulho.

Tinha síndrome de caranguejo: voltava sempre pra ex-mulher.

Impôs distância da recaída. Com mandato judicial.

Embriagou-se a noite toda. Jorrava álcool pelas veias.

Abortou antes mesmo de saber que estava grávida.

Não retornou ao chamado. Arrependeu-se muito tarde.

Tinha lembranças demais. Não sobrava tempo pra viver.

Olha-se no espelho todo dia. Ainda não descobriu quem é.


Imagens: (1) Illustration, Quint Buchholz; (2) A Minha Mulher Nua, Salvador Dali, 1945

Expressões Letradas

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