domingo, 30 de setembro de 2007

MEU TIPO DE MULHER >> Eduardo Loureiro Jr.

Eduardo Loureiro na Ilha do SolDias desses, minha amiga Inês me perguntou qual o meu tipo de mulher. E minha memória me jogou num outro pátio, que originou esse patio.com.br. Eu estava sentado no banco de cimento defronte ao hexágono amarelo, conversando com um amigo tão super-herói que se chamava Zorro. Ele interrompeu o que eu estava dizendo e falou: "Olha, Eduardo, aquela mulher que vem ali é o seu tipo." Olhei na direção em que ele apontou e... não é que era mesmo! Aquela mulher, definitivamente, atraía o meu olhar. Zorro havia acertado. Ele sabia qual o meu tipo de mulher, coisa que eu, tenho que confessar, nunca soube. E dia desses, sem o Zorro por perto, eu não soube o que responder à minha amiga Inês.

Para mim, é estranho que eu tenha um tipo de mulher. Porque mulher é sempre tão cada uma, tão única, tão inconfundível, que me parece um exagero de classificação incluí-la em um tipo. Por outro lado, se o Zorro era capaz de antecipar o meu gosto por determinada mulher, é porque eu tinha — e talvez ainda tenha — um tipo de mulher na cabeça, mesmo que o tipo esteja naquela parte da minha cabeça que se chama de inconsciente. Então resolvi abrir a porta e entrar no quarto escuro dos meus sentipensamentos. E minha maneira de entrar em minhas escuridões e sombras é escrevendo sem saber que idéia, palavra ou parágrafo virá em seguida. Normalmente, faço isso sozinho. Mas desta vez convido o leitor, e principalmente a leitora — será que você é meu tipo? —, para vir junto comigo...

Arne Dedert - corbis.comQuando o assunto é tipos, nada melhor do que a astrologia para nos dar uma idéia das várias formas de ser no mundo. Meu tipo seria de algum signo solar específico? Eu tive maravilhosas paixões — platônicas, é verdade — por mulheres de Peixes. Namorei e pensei em casar com duas mulheres de Libra, para as quais até escrevi uma crônica. Mas tive a paixão mais lindamente correspondida da minha vida com uma aquariana, e a mulher que mais amei era de escorpião. Se não pelo signo, talvez pelo elemento: seria água-ar o meu tipo de mulher? Meus relacionamentos mais recentes não comprovam: nos últimos três anos, desde que me vi sem meu escorpião-gêmeo, têm predominado fogos e terras. A astrologia, pelo menos no que se refere ao signo solar, não é conclusiva em relação ao meu tipo de mulher.

Quem sabe o cinema? Sim, eu tenho minhas poucas e boas atrizes prediletas, não por seu talento de atuação, mas por sua beleza, pelo seu jeito, por sua graça. Será que as atrizes que me fazem assistir a um filme, qualquer filme, mesmo que nem preste, me ajudariam a compor meu tipo de mulher?

Vamos começar por Ava Gardner, que eu só descobri recentemente, mas que é a mais velha de minhas — permita-me chamá-las de minhas — atrizes. Conheci Ava Gardner (que é de Aquário) assistindo a um filme chamado Vênus, Deusa do Amor (One Touch of Venus, 1948).

Nunca vi associação mais perfeita entre uma atriz e uma personagem. Ava era Vênus, Vênus era Ava. E eu era um homem apaixonado. Paixão sem futuro, porque Ava tinha morrido mais de dez anos antes de eu "conhecê-la". E, mesmo que estivesse viva, teria a idade exata de minha avó. Mas eu não podia reclamar da vida: uma de minhas mulheres se parecia tanto com a Ava Gardner quanto é possível uma mulher se parecer com uma deusa.

Isabella Rossellini (que é de Gêmeos), eu conheci num filme chamado Um Toque de Infidelidade (Cousins, 1989). E eu juro pra você que eu casaria com aquela mulher naquele mesmo dia se tivesse apenas a oportunidade de falar com ela e pedi-la em casamento. Quando me disseram que a mãe dela, Ingrid Bergman (aquela de Casablanca), é que era a mulher mais bonita, eu tive que discordar. Isabella tem hoje 57 e, se eu encontrasse com ela no meio da rua, sei não... talvez largasse mão do meu desejo de ter cinco filhos e pedisse ela em casamento.

Um pouco mais nova é a taurina Andie MacDowell: tem 49 aninhos. Talvez eu tenha conhecido a Andie em Sexo, Mentiras e Videoteipe (Sex, Lies and Videotape, 1989), mas devo ter me apaixonado por ela em Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993) ou Quatro casamentos e um funeral (Four Weddings and a Funeral, 1994).

Com a Andie, eu nunca me imaginei tendo uma vida glamourosa. Na minha imaginação, quando vivéssemos juntos, sentaríamos num sofá, abraçados, com roupas velhas, rasgadas até, ouvindo música ou vendo um filme.

Minha mulher cinematográfica mais recente é a Liv Tyler (de Câncer). Tudo bem, ela tem as mãos exageradamente grandes, mas, meu Deus, quer dizer, minha Nossa Senhora!, que linda mulher. Agora ela tem 30 anos, e eu nem sei por que desisti de me aproximar dela. Incrível como só por uma mulher ser famosa e você ser um homem desconhecido, a gente pensa que certos encontros são impossíveis. Caramba! Alguém aí tem o número da Liv Tyler?

Pelas mulheres que apresentei, talvez fosse possível destacar algumas características comuns: pele clara e cabelos escuros. E isso realmente indica uma predileção minha, embora eu goste também de pele bronzeada e sinta um certo arrepio sempre que passo em frente a um quadro que tem na sala da casa dos meus pais. É um quadro pintado por minha tia Lindalva (lindas e alvas poderiam ser o meu tipo?). Foi dado como presente a meu pai e retrata uma ruiva, embora ele houvesse pedido uma loura. Aliás, segundo minha mãe, a primeira paixão da minha vida, quando eu tinha 7 anos, foi por uma loura, que me esnobou e me deixou sem saber o que era ter um cabelo de sol em minhas mãos por anos e anos. Sim, já tive uma namorada loura. É como se o Sol desistisse de sua masculinidade e se transformasse em carne. Se meu tipo de mulher é inconsciente, corre o risco de não ter os cabelos escuros, e sim claro. E pode ser ainda que, no escuro da minha mente, o meu tipo verdadeiro, uma mulher negra, esteja invisível por ausência de contraste.

Também não posso desconsiderar a possibilidade de meu tipo de mulher ser, psicanaliticamente, a minha própria mãe, embora eu só tenha namorado uma sagitariana que, por sinal, nem se parecia com ela. Ou talvez o meu tipo de mulher, e o tipo de mulher de qualquer homem, não seja aquele no qual se encaixaria a sua mãe, mas a própria mulher-mãe, que nos dá o alimento, nos oferece o colo, cuida de nós quando doentes, está ao nosso lado todos os dias e ama nossos filhos. Sexo? Freud explica.

Seria essa, Inês, a minha resposta após entrar nos escuros do meu desejo? Ou meu tipo seria todas elas juntas num só ser como canta Lenine sobre poema de Carlos Rennó?

Ah, Inês, me deixe pensar um pouco mais, viver um pouco mais, beijar um pouco mais. Deixe-me olhar com o olhar distraído para a paisagem. Deixe-me ser um dia surpreendido pela voz interior de um super-herói com um supersentimento, dizendo com supercerteza: "Olha ali, Eduardo, vai lá, se ajoelha, improvisa um poema, se declara, pede em casamento, porque aquela mulher que vem ali É O SEU TIPO, exatinho, tintim por tintim".

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sábado, 29 de setembro de 2007

PRECONCEITO [Maria Rita Lemos]


Albert Einstein estava com 70 anos quando disse uma de suas frases mais famosas: “Triste época essa nossa, em que é mais fácil desintegrar o átomo que erradicar preconceitos”... Isso foi em 1949, e o grande físico era já um ancião, tendo falecido seis anos depois.

Ilustro essa frase do maior físico e cientista, a meu ver, que o mundo conheceu, com uma experiência feita na Universidade de Princeton, Nova Jersey, Estados Unidos. Um grupo de cientistas dessa Universidade colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um dos macacos, famintos, subia a escada para apanhar as frutas, os cientistas lançavam jatos de água fria sobre os que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais tempo ainda, nenhum macaco subia a escada, por maior que fosse a tentação das bananas.

Num segundo momento, então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos por outro, que ainda não havia participado da experiência. Obviamente, a primeira coisa que ele fez foi tentar subir a escada para chegar às bananas, sendo rapidamente retirado e surrado pelos demais. Algumas pancadas depois, o novo membro do grupo passou a não mais subir a escada também. Outro membro foi substituído, e a experiência se repetiu, até que os cinco macacos iniciais foram retirados e trocados por novatos. A situação, então, era a seguinte: havia um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado o jato de água fria, continuava batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Talvez, se fosse possível obter alguma resposta verbal deles, no sentido de saber por que batiam em quem tentava subir a escada, a resposta seria: “Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui....”

Essa experiência verídica, levada a efeito nos anos sessenta, algum tempo depois de Einstein ter dito sua frase exemplar, mostra o mecanismo formador dos preconceitos. Que vale para macacos como também para seres humanos.

Na própria origem da palavra “preconceito” é possível encontrar seu significado: “pré” é o prefixo de “antes de alguma coisa”, e “conceito” é a idéia que se faz, também, de alguma coisa, pessoa ou fato. Em outras palavras, o juízo que fazemos antes de conhecer mais profundamente as características de uma situação ou pessoa.

O preconceito é natural, e existe em todos os grupos sociais. Ele aparece por que, quando entramos em contato com situações ou pessoas estranhas ou desconhecidas para nós, tiramos de nossa “gaveta interior” (os jatos de água fria dos macacos...), valores, e interesses que, muitas vezes, não nos deixam ver realmente o que é isso, que situação ou pessoa nova é essa. Nossas normas e valores culturais estão tão arraigados em nós que nem desconfiamos que possam existir outras formas de viver, amar e ser, que poderíamos talvez usar alternativamente para (re) conhecer pessoas e situações. Não conhecendo outras ferramentas que não as que usamos a vida toda como valores, o preconceito pode assumir características de rejeição, negação ou até mesmo violência, na medida em que pessoas que sejam diferentes ou vivam de outras formas, talvez nem tão diferentes assim de nossos padrões, são vistas como ameaçadoras da ordem como vemos as coisas.

Para desfazer preconceitos, segundo Einstein mais difícil que desintegrar átomos, há que se fortalecer a idéia de que as pessoas são diferentes, embora haja tantas coisas comuns na diversidade. Há outras formas de viver e ver o mundo, diferentes daquelas que a maioria adota, e nem por isso essas outras formas são “erradas” ou “imorais”.

Num segundo passo, será necessário entender que os preconceitos são baseados em interesses das classes privilegiadas, quer do ponto de vista social, político ou econômico, por isso há que se fazer uma releitura desses interesses, para que não sejamos como os macacos, que nem mesmo sabem por que estão batendo. Mandaram bater, e pronto.

Teoricamente, quase ninguém assume que tem preconceitos, sejam eles de raça, religião, posição social, orientação sexual e outros mais. Pelo menos até que não atinjam ninguém de suas famílias. É preciso, porém, urgentemente, transformar esses discursos "anti-preconceito" em ações reais e práticas, respeitando as individualidades pessoais.

Espero com muita fé pelo dia que em que nossos filhos, filhas, netos e netas possam ter acesso à diversidade na escola, na rua e na vida, e saibam olhar as outras pessoas além das aparências, como Deus mesmo as olha, de forma a viver bem com todos e todas. Que possam amar sem barreiras, porque foi essa a maior, a síntese de todas as lições que os Mestres de todas as religiões e filosofias nos ensinaram.

Palavra de Mulher
Imagem: Universidade IMES

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O PAI PRÓDIGO [Ana Coutinho]


Certamente você já ouviu falar a respeito. Ou na missa, ou num texto, ou a sua mãe dizia, ou alguém no ônibus, atrás de você, já mencionou a “parábola do filho pródigo”.

Ela é simples. Fala sobre um filho que saiu de casa, gastou todo o dinheiro que o pai havia dado pra ele e, quando estava na miséria, se arrependeu de tudo e voltou pra casa. O pai, ao contrário do esperado, o recebeu de braços abertos. Mandou matar um porco e fez uma festa de boas vindas, porque o filho estava perdido e voltou. No entanto, esse pai tinha outro filho. O outro filho sempre foi trabalhador e nunca saiu do lado do pai e, ao ver a festa que este fez para o irmão desmiolado, se aborreceu, se entristeceu. A essa reação, o pai respondeu: “Alegre-se meu filho. O seu irmão estavava perdido e voltou!”.

É basicamente isso, e é assim que a relação entre pais e filhos foi, por tanto tempo, concebida. Os filhos são uns desmiolados, e os pais possuem um enorme amor incondicional.

Por isso tudo devemos respeito aos nossos pais, devemos honrar pai e mãe, devemos cuidar deles com amor, devoção até. Só que os tempos mudaram. E hoje, além desses pais excelentes que amam os filhos incondicionamente, existem outros. Hoje em dia, não é raro vermos o contrário. O pai que roubou o filho. A mãe que manipula suas crianças pra perturbar o pai. Ou o pai que ignora que tenha filhos, enquanto esses os esperam na janela, dia após dia. Os pais deixaram de ser os santos, talvez não todos, mas pelo menos parte deles. Quem não conhece uma mãe que chantageia seus filhos com sentimentos quase sórdidos? Quem nunca ouviu falar de um pai que extorque o filho? Financeiramente, moralmente, amorosamente. Eu sei, de pelo menos uns 3 casos. E, em todos eles, os filhos gastam horrores com terapia, para que possam sentir raiva de seus pais, para que possam odiá-los até, sem odiar a si mesmo antes, sem maltratar a si mesmo antes, porque essa é a regra: Filho que não apoia o pai está errado, é banido e pronto.

Ah! Quanta injustiça... Quantos traumas não se resolveram porque é proibido contrariar um pai, é crime enfrentar uma mãe, e a sociedade é craque em julgar e punir um adulto que não visite ou não telefone semanalmente pra sua mãe.
Mas e se essa mãe faz mal? E se esse pai arrasa o filho adulto? Como lidar com a culpa, com o fardo de não honrar aquele que, afinal de contas, te colocou no mundo?

Talvez deva haver uma mudança. Talvez devêssemos ser mais realistas e mais justos com as nossas crianças e com os nossos adultos, frutos de preconceitos ou de devaneios de pais, tantas vezes egoístas e mesquinhos. Não há santo aqui. O que existe sim, é uma relação que segue com tropeços, solavancos, tentativas acertadas e frustradas de ambas as partes. E, nesse caminho de tantos mal-entendidos, de tantas palavras mal colocadas, ou de tantas frases que nunca foram ditas e abraços que nunca foram dados, é preciso enxergar com clareza quem somos. O que é possível, o que é impossível.

Que filho eu posso ser, enquanto o meu pai pródigo não volta? Que amor eu posso lhe conceber hoje, sem me mutilar ou sem carregar toneladas de culpa por não exercer o meu amor, como manda o script? Não há só filhos pródigos, não há só pais perfeitos.

Hoje, a imperfeição está em todo o lugar e é preciso tirar a venda do preconceito dos olhos pra podermos enxergar e –principalmente – lidar, não só com o que temos de lindo e nobre, mas com aquilo que temos de egoístas e mesquinhos, e com o legado que deixamos aos nossos filhos, não só nas parábolas, mas na vida real, enquanto eles tentam ser, também com tropeços e solvancos aquilo que - talvez - tentamos ensinar a eles para que fossem.

Doce Rotina
Imagem "Pai e Filho": Mauricio Rett

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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

CARTA AO ALÉM PARA JACK KEROUAC << Leonardo Marona


Querido Jack,


Hoje, quando andava pela beira da praia e vi uma gaivota se afogar, quer dizer, vi a gaivota mergulhar na água com vigor, mas não vi a gaivota voltar, eu pensei: “essa gaivota é como Jack Kerouac”.

E agora sua voz se repete na minha cabeça, se repete dizendo que nada ou ninguém poderá dizer nada sobre os trapos da nossa velhice. Por que justo hoje eu teria pensado em ti, meu velho amigo, pão pobre amassado, minha impossibilidade?

Na verdade, somos todos em algum momento deuses, quero dizer, todos somos deuses plenos, mas vez em quando reparamos nisso, em lampejos, lá fora as pessoas nas ruas andando do mesmo jeito, os mesmos semblantes, com questões urgentes e assassinas, deslizando sobre a navalha de um planeta aos pigarros, todas pessoas particulares num saco de abandonos, Kerouac, porque na miséria reside a peculiaridade soberana.

Mas essa carta não é para te incomodar com os meus lamentos, se nem bem somos tão amigos ainda, se ambos somos tímidos, porque falamos demais. Mas seríamos parecidos? Veja você: de uma pedra para a outra, enlouquecendo em frente a uma vela, escrevendo de 7 a 8 horas por dia, rindo da própria loucura, ainda criança dizendo: “eles riem de mim porque eu quero ser escritor”.

Agora vejamos eu: vergonha acima de tudo, mentira; vergonha, mentira, hesitação. Trinta exemplares de um livro de contos inacabados, dos quais me resta um, e pelos quais pouco me dediquei. Um pai vivo maravilhoso e todas as portas fechadas, emperradas, precisando óleo. Todos os sorrisos dependurados, abismos monstruosos, mas uma cama confortável, sem sonhos, enlouquecer e bater em disparada a cada vez mais atônita, mas para que lugar?

Mas essa carta não é também uma procura, Kerouac, enquanto ouço sua voz suave ainda falando para mim sobre o mito de uma tarde onde as pessoas riam de verdade e tudo parecia ter entrado nos eixos novamente, quando você podia andar do balcão do bar até a mesa e ter a boa sensação de que te observavam com cuidado, mas, ah, Jack, meu caro, não era nada disso que eu precisava te dizer...

Queria te dizer coisas lindas, coisas sobre âncoras nos mares africanos e olhos brilhantes sujos de fuligem. Queria dizer agora assim da sua forma mas sem te imitar que a forma nada mais é que nossa alma e que portanto o pensamento como reflexo da alma – assim como o corpo – não deve ser interrompido jamais. Deve seguir o fluxo que você observou enquanto olhava a enchente que enregelou os corações de Lowell e arruinou os negócios de seu pai. Porque você me ensinou que o fluxo verdadeiro corre sempre na direção de uma queda vertiginosa inadmissível e atraente, e o que não foi sua vida, Jack Kerouac?E quem afinal eram aqueles hippies vagabundos exigindo de você uma bandeira? O que significa um passo depois do outro, Kerouac?

Movia-se como um escritor se deve mover. E não adianta eu tentar dizer que jeito de se mover é esse. Você viveu como um escritor, lavando frangos em frigoríficos, lavando pratos em São Francisco, escotilhas em longitudes sórdidas. Mas acima de tudo você escreveu. Quantas vezes o vôo solo não te causou uma estranha sensação de solidão, como se houvesse apenas o sol e nós fôssemos também o sol, agora, indefinidamente, perto de sermos postos em chamas, perto de nos tornarmos outra vez o magma, a localidade perplexa?

Mas e quanto ao ritmo, Kerouac, o que dizer sobre o ritmo? Porque você foi meu trigo e a primeira música real que escutei por horas. E na verdade pouco sabia do que você estava falando. Porque você falava de tudo ao mesmo tempo, da beleza, da pobreza, da tristeza, da anarquia, da triste beleza da pobre anarquia, enfim, você não dizia nada, você despejava seu palavrório louco que era ao mesmo tempo todas as coisas juntas e eu de repente podia imaginar o cais de Tanger, ou ver um lagarto verde-limão no teto de uma casa sem teto. Era pura música, eu lia estalando os dedos, e pensava em casas de chá na Antuérpia, minas na Rússia, bares enfumaçados, a silhueta de Monk, assassinatos no Central Park.
Isso não se faz, Kerouac, assassinar assim a mente e as possibilidades de um garoto. Mas essa carta também não era uma cobrança...

O que foi feito dos teus ossos tão firmes, meu camarada? Quero saber o que você acharia que restou para nós, os alucinados noturnos, os que sonham e não tem álibis, os assustados serenos, o que você me diria sobre os que se matam por ódio, com frases de paz?Jack Kerouac, meu primeiro autor lido, gostaria que, de onde e sob a forma que estiver, você não pensasse nunca que, mesmo sem talento, eu iria manchar a sua imagem com homenagens difamatórias. O que eu quero de ti é sério, e não cabe a mais ninguém, mesmo que permaneça em silêncio.

O que eu quero saber é o que fazer com o riso que dobrou a esquina, com os dentes sobressalentes, o que fazer com as esquinas de cada sorriso, o que fazer com uma pessoa que, sem lembrar, pensa em sorrisos sem faces? Mas existem coisas acontecendo. Existem coisas acontecendo e todo mundo fala e discute as coisas assim como discutirão tantas outras coisas diferentes, sempre a mesma discussão. Existem coisas acontecendo como o espancamento de uma babá por jovens idiotas com sorte. Existem coisas e eu preciso opinar sobre elas, escrever sobre elas, fazer alguma coisa sobre essas coisas, para me livrar delas. E não há como se livrar das coisas acontecendo porque elas estão acontecendo agora e em toda parte, como se fosse há milênios.

Como escapar dessa vez, meu jovem escritor irrequieto? Como poder dizer “caguei” quando nos tornamos a merda? Quando não mais Gás Light e leituras de poesia zen? O que fazer quando o crime se torna andar na rua despreocupado?

Existe, sim, algo para fazer. Mas pensando no que de fato eu queria te dizer, vejo como liberar as rédeas e deixar fluir acaba se tornando carne para ameba. Eu vejo seus olhos estranhamente em uma parede branca, eu ouço palmas e gargalhadas, escuto Stravinsky e John Coltrane conversando ao pé do seu ouvido, sinto os trovões e sei que eles não passam, no fim, de carne para ameba.

E agora eu finalmente me lembrei porque pensei em ti, meu velho desconhecido. Porque estou agora cometendo um erro, mais um erro de amor, mais um ato incompreendido, porque estou agora sozinho e pálido, não exatamente desnutrido, mas temente a deus, porque enfim pensei outra vez em deus, mas não por deus pensei em ti, pensei em ti porque estou numa casa que não é minha, alimentando um gato que não é meu – já que os gatos não são de ninguém – pedi cerveja no bar da esquina e na falta de carinho estou ouvindo Stravinsky, o que não deixa de ser uma boa pedida para quem não tem nada, e nem mesmo sabe conjugar o verbo ter. Mas acho que, assim como você um dia, estou mentindo porque, no fundo, pensei em ti porque lembrei de uma guria.

Mas por que, Jack? Por que você não parou e se tornou um velho gordo e faceiro? Porque sua questão era outra e veja só no que deu. Eu que te amo e te li um bocado não tenho bolas o suficiente para admitir o erro da paixão, não tenho crises tão graves a ponto de me manter sóbrio, mais um fígado de vidro flagelado e uma leve hipersensibilidade no cólon do intestino. Entendo tua lira e me arrepio, sei que é preciso navegar apesar de tudo, e sinto que estamos tão longe mas tão juntos, porque sei que a solidão tem olhos sorridentes, mas no fundo temo porque a mesma solidão, quando abre a boca, mostra seus dentes podres que, apesar do sorriso de olhos, não podemos simplesmente dizer “é a vida”. Você me ensinou que não se diz “é a vida”. Você procurou a lápide até encontrá-la. Você jogou a lápide fora. Ajude-me por deus a encontrá-la outra vez.


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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A ESPERANÇA QUE DÓI [Anna Christina Saeta de Aguiar]

De todos, talvez o sentimento que mais me comova seja a esperança.

Não estou pensando na esperança contínua, obcecada, irreal dos fanáticos, que anseiam por algo que não se sabe sequer se existe de fato. Nem naquela esperança que é mais um tipo de modéstia, pois na verdade tudo já está encaminhado para o sucesso. Nestes casos, a esperança é apenas cautela. E não me comove a esperança abstrata do "tudo vai dar certo", que só surge quando não há mais nada a se falar.

A esperança que me abala de forma mais profunda é aquela esperança íntima que surge de repente, nas piores situações, de maneira involuntária, apenas um lampejo que ilumina por um segundo o breu da realidade e desaparece antes que se pisque o olho. É quase um sonho, essa esperança de que falo.

É a esperança dos filhos que, ao lado do leito do hospital, seguram a mão do pai ou da mãe - ou dos pais que aguardam à cabeceira do filho doente - e que, mesmo quando o pior já é certo e assimilado, sentem, em meio às lágrimas, aquele quase conforto a lhes atordoar ainda mais a dor. Por um segundo apenas, a esperança de que um milagre faça com que tudo mude, e que possam ter mais tempo para as tantas coisas que ainda restam a ser ditas ou vividas ao lado do ser amado.

A esperança da mulher em processo de aborto que, de repente, sente que seu filho pode nascer e sobreviver, e consegue até imaginar o seu rostinho, seu choro, seu sorriso. Ou aquela esperança que assalta um sem-teto no meio da noite, fazendo-o acreditar, apenas por um segundo, que alguém vai parar o carro e lhe jogar um cobertor sobre o corpo encolhido. A esperança fugaz de que o freio funcione, os pés não derrapem, o corpo suporte, o tempo pare. Só por um segundo, ou menos do que isso. Só um momento.

E então, a centelha se apaga e nos deixa assim atordoados, assim sem saber o que foi que aconteceu, sem saber como é possível ter sentido tão intensamente, ainda que por um breve momento, a felicidade extraordinária da esperança.

Nada sei sobre psicologia, mas imagino que isso seja, de alguma forma, uma defesa fabricada pela mente quando se está vivendo momentos extremamente difíceis. Uma forma de conforto, talvez, gentil oferta do subconsciente? Realmente não sei.

Seja como for, talvez o que comova seja a impressão de que um lampejo de esperança, por mais instantãneo que seja, fique marcado como cicatriz na memória, e ao findar, faz com que o frio pareça mais cortante, a fome mais funda, a saudade ainda mais intensa, a realidade mais dura.

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terça-feira, 25 de setembro de 2007

SOBRE SEMÁFOROS >> Carla Dias >>

Tirei a manhã para respeitar completamente os semáforos. E onde eles estavam em falta, gastei um tempo preguiçoso esperando que não viessem carros nem de um lado, tampouco de outro. Sabe o que é isso aqui em São Paulo? É esperar movimento de feriado em dia útil.

Aproveitei para caminhar com tranqüilidade, passo avesso àquele que me conduz, diariamente, ao trabalho. Segui observando a correria das outras pessoas; os pontos de ônibus lotados, esperas que iam além da espera pela condução. Talvez houvesse também a espera pela condição... A de se respeitar todos os semáforos, de vez em quando; desrespeitando o ponteiro do relógio que nos induz cumprir a realidade que se nega a perceber mais do que pontos finais. Sabe como? Ponto final para o dia doído de tão corrido que foi; para as amarguras cultivadas no trabalho; para a irritação de ter errado a mão quando necessitava de todo o talento para executar tarefas; para a decepção de ser coroado, a cada erro, como alguém desprovido de acertos.

Nessa manhã, respeitei semáforos. Observei essa rua do meu bairro, Desembargador do Vale, onde há lojinhas em casas tão bem cuidadas que a gente sabe que pode entrar e se sentir como na mercearia de quando éramos crianças e acompanhávamos nossas mães. E os donos sabiam os nomes de todos, inclusive das meninas e meninos que compravam balas, aos domingos. Ou mesmo naquela padaria que era de um tio, na qual os primos se reuniam para tomar coca-cola. E apesar do crescimento desembestado dessa São Paulo, de onde somem as vilas, até mesmo da Vila Pompéia, lugares como estes, cuidados com um zelo que não há na eficiência das grandes empresas que oferecem todo sossego mediante um bom pagamento; e não sou contra esses lugares, já deixo claro... Mas é que estas lojinhas, cafés, livrarias, estes lugares que têm a cara de quem os criou, enfim, eles nos oferecem esse quê de aconchego tão necessário quando estamos em dia de parar em todos os semáforos; de não atravessarmos as ruas ao toque do descontrole que há na urgência que, muitas vezes, sequer percebemos aonde nos levará.

Costumo dizer que, em São Paulo, somente ruas onde vivem pessoas afortunadas ou comércios chiques, têm muitas árvores, como deveria ter em toda cidade. Em todo o país! Mas tenho de confessar que, depois de parar em todos os semáforos; de andar com o olhar arco-íris. De vivenciar a languidez do tempo... Deitei-me e observei, antes de cair num sono profundo, que a luz do Pão de Açúcar, que tem em frente a minha casa, empurra para dentro da minha sala (sim, eu durmo muitas vezes na sala) o esboço de uma árvore; o balanço de suas folhas.

Posso não ter um real no bolso, mas tenho os semáforos e as casas da Pompéia para observar. E uma árvore em frente ao meu prédio que, à noite, entra e se sente na sua própria casa. E assim me sinto repleta de riquezas.


www.carladias.com

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sorriso e cidadania >> Claudia Letti

Fiquei espantada, dias desses, ao constatar que muita gente inteligente e articulada não sabe realmente o que quer dizer "cidadania". Até eu fiquei confusa com tamanha confusão alheia e fui atrás do Aurélio pra esclarecer já que pra reclamar ninguém parece precisar esclarecer coisa alguma, visto que é facil e geralmente custa nada.

cidadania [De cidadão + -ia1, seg. o padrão erudito.]
Substantivo feminino.
1.Qualidade ou estado de cidadão:

cidadão[De cidade + -ão2.]
Substantivo masculino.
1.Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este.
2.Habitante da cidade.
3.Pop. Indivíduo, homem, sujeito:
Esteve aí um cidadão procurando por você. [Fem.: cidadã e cidadoa; pl.: cidadãos.]

É enfadonho ler o que nos diz o dicionário, bem sei, até porque palavras bem colocadas, muitas vezes, não querem dizer muita coisa. Palavras se reduzem a ilustrações quando as atitudes é que falam.

Ser um cidadão é desempenhar seus deveres para o com o Estado, certo? Sim, eu sei que estamos cheios dos direitos a reivindicar e, provavelmente, cobertos de razão quanto ao descaso do governo, dos políticos, do síndico, do pai, da mãe, da economia e dos muitos etecéteras que nos azedam o fígado todos os dias. Mas, estava pensando em falar dos deveres. Não é um chamamento para uma passeata pela paz, nem um movimento pela não sonegação de impostos, contra a pirataria do Tropa de Elite ou mesmo um blábláblá sem fim da corrupção que assalta nossa pátria mãe tão distraída. Isso, vamos deixar para quem acredita em grandes trajetos sem dar um passo. Ideologia, todo mundo quer uma pra viver, ô.

Falo de coisas mais simples, pequenas, quase bobocas, que passam desapercebidas pelos nossos envenenados fígados e pelo alto de nossos olhares de sabe-tudo, não fosse o meu, o seu, o nosso olhar estar literalmente fechado e duramente atacado por um guarda-chuvas indomável na calçada ali em frente. Saber andar empunhando um guarda-chuvas, preocupando em não furar o olho alheio, é um passinho miúdo de cidadania. Ninguém quer que você se molhe, claro, mas não é preciso vazar o olho de ninguém para manter-se a seco.

Caminhar com sua família inteira -- inclua o cachorro, óbvio, nesse quadro afetivo e corriqueiro -- é maravilhoso para você, para mim e todos sabemos disso. Mas, andar a passos lentos com todos enganchados na horizontal, obstrui um pouco o trânsito de pedestres e pode acreditar: ninguém precisa ser atropelado por andar no meio da rua, na contra mão do trânsito, para que você tenha seu momento familiar. Não se espante, esse é um pequeno gesto de cidadania, quase nunca citado mas muito desconfortável quando acomete outros cidadãos que estão na mesma calçada que você.

Bater papo é uma delícia, quem não concorda? Mas, dá pra bater papo longe das portas automáticas do shopping ou do hotel onde está hospedado seu amigo? Porque os sensores das portas sinalizam sua presença, fazendo com que fiquem abertas gastando uma energia que o planeta tem tirado sabe lá Deus de onde, sem saber que você está apenas marcando um encontro pra ir naquela passeata contra o aquecimento global.

As mães e suas crianças tem prioridade em calçadas e locais públicos, todos sabemos disso. Mas, é realmente necessário deixar o carrinho com o bebê de um lado e o carrinho com suas compras de outro, enquanto os demais consumidores não tem vez no estreito corredor do supermercado? Na sua hora e vez no caixa do banco, você não pode ter sua conta a ser paga em mãos, ao invés de deixar a fila toda esperando enquanto você procura que procura a fatura de luz, numa bolsa que contém 3452789 papéis e outros objetos não identificados? Cidadania! Desempenhar seus deveres para com o Estado e o Estado é um monte de "outros". Simples, indolor e eficiente quando se trata de vida em grupo.

Respeitar os sinais de trânsito, esteja você de carro ou a pé. Aquele velho discurso de desligar celular no cinema, teatro e outros locais públicos, está valendo, é cidadania sim, infelizmente pra muita gente. Não atirar guimbas de cigarro, papéis e outras coisinhas no chão. Dizer bom dia, por favor e obrigada -- o que deveria ser obrigatório por lei, com multa e tudo mais. Assim como exigir o troco que lhe é devido com educação e tranqüilidade.

Exigir seus direitos não é armar barraco. O barraco já está armado e lhe ofendendo (muito!) quando você se cala e não exige o que é seu direito -- de cidadão -- e de exercer a sua cidadania. Não é necessário gritar ou ser grosseiro para dizer "eu sou cidadão". Basta ser firme. E bem educado, claro. A boa educação, aliás, é uma arma desestabilizadora da lei da vantagem e da malandragem.

E sorrisos. Cidadania sem sorriso e boa educação é hipocrisia. Ah, esses são verdadeiros antídotos contra gente mal educada e sem noção. Sorrisos e educação são verdadeiros aliados no seu, no nosso exercício de cidadania. Exerça a sua.

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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

INVESTIR EM CULTURA >> Maurício Cintrão

Os políticos começam a despertar para as vantagens da cultura como instrumento de marketing. É uma descoberta que tem vantagens e desvantagens para todos os envolvidos. Do prefeito populista ao artesão de oportunidade, muitos podem ser os enganadores a movimentar recursos públicos e a boa fé da população. Mesmo assim, defendo o desenvolvimento de projetos e políticas que programem investimentos em cultura.

Apesar dos riscos, o interesse em injetar recursos em atividades culturais representa um mundo de oportunidades para quem não as tem. O universo cultural gera empregos, gera renda, gera auto-estima e gera novos horizontes para pessoas que estão à margem dos caminhos que constroem o futuro.

Se há dinheiro, há atravessadores, eu sei. Mas não vamos matar a todas as iniciativas só porque os parasitas vivem de aproveitar do esforço alheio. Busquemos controlar a intermediação de empresas de marketing e profissionais liberais. Apesar de algumas sanguessugas ocuparem a área, há empresas e pessoas sérias. De qualquer forma, vale a pena dirigir o interesse público para o setor. Porque Cultura é inclusão.

Ao permitir a criação de espaços e recursos para o surgimento de atividades culturais e formação de produtores culturais, abre-se o espaços para a descoberta e talentos e a criação de novas competências. Com isso, produz-se novos agentes geradores de renda e novas possibilidades de sobrevivência digna.

É fundamental despertar a consciência de quem cria ou pode criar. O surgimento de um novo artista revela um novo universo de possibilidades. É vantagem para quem se descobre, é coquista para quem vai descobrir. Vitoriosos saímos todos, porque Cultura é patrimônio coletivo.

Estamos chegando a uma nova época de debates políticos municipais. As eleições para prefeito vêm aí e esta é a hora de cobrar os políticos que ainda não despertaram para o assunto. Políticas públicas coerentes de inventivo à produção cultural devem e precisam constar das plataformas dos candidatos em 2008. Para que Cultura não permaneça como mais um monopólio dos ricos. Para que a Cultura conquiste as periferias.


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domingo, 23 de setembro de 2007

A DISTÂNCIA, AFINAL >> Eduardo Loureiro Jr.


"Eu sei e você sabe
que a distância não existe."
(Vinícius deMoraes)

"O amor não é amado."
(Francisco de Assis)


Veja você que situação a minha. Nesta crônica final sobre a distância, eu teria que dizer-lhe que a distância, afinal, não existe, que ela não passa de uma ilusão. Que as distâncias de que venho falando - física, mental, emocional, exterior e interior - são apenas miragens, sonhos sem realidade.

Mas, sendo a distância inexistente, que necessidade há que eu lhe diga isso? Pois se não há distância entre mim e você, o que eu penso é o que você pensa, o que eu sinto é o que você sente, e não haveria necessidade de comunicação.

Se eu insistir em lhe dizer da inexistência da distância, estarei, na prática, estabelecendo uma distância que estou negando na teoria: a distância será distanciada.

Mas posso lhe contar uma história, porque as histórias, mesmo sendo também ilusões, não têm a intenção de convencer, logo não perpetuam a ilusão, apenas deixam que a ilusão passe, se transforme, se dissolva...

*

Era uma vez um rei e uma rainha. Apaixonados. Mas seus reinos eram diferentes. No dele, havia já uma rainha. No dela, havia um outro rei. E quase nunca se encontravam sozinhos: havia sempre a rainha dele ou o rei dela presente. Quando, raramente, ficavam a sós, eram olharem-se intacta retina e de suas bocas, das quais estava proibido sair beijos, saíam palavras novas para eternas canções. Amavam-se sem se tocarem. Apaixonados.

Um dia, apareceu entre os reinos um homem fazendo-se passar por Deus. E convenceu a rainha de que não deveria amar o rei, mas o próprio homem-Deus. Querendo o amor da rainha, o homem-Deus pediu que ela não amasse. E a rainha, querendo ganhar o céu, aceitou não amar o rei e fingiu, até para si mesma, amar o homem-Deus.

Ao rei, que ela não poderia mais rever — por ordem do homem-Deus —, a rainha entregou um derradeiro presente, na forma de um livro que continha uma promessa disfarçada em título: "Longe é um lugar que não existe".

O rei não aceitou, em seu coração, a frase e achou que a forma mais clara de dizer que não a aceitava era não aceitando o livro na capa do qual a frase estava escrita. Mas uma coisa era a frase e outra coisa era o livro. Não aceitando o livro, que ficou na mão da rainha, ele aceitou, sem saber que havia aceito, a frase: longe é um lugar que não existe.

E só percebeu isso muito tempo depois, quando descobriu que cada vez que lembrava da rainha que nunca mais reviu, ele era feliz para sempre.

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GOL DE CRÔNICA >> Felipe Holder

Já joguei muitas peladas na vida, mas jamais pensei que fosse vibrar tanto com um gol. Muito menos com um gol feito contra o meu time. Mas aconteceu.

Domingo, 31 de agosto de 2003. Eu, minha irmã Renata e minhas duas sobrinhas — Roberta e Pollyana — fazemos aniversário nos primeiros dias de setembro, e naquele ano Renata teve a idéia de alugarmos uma chácara bem grande onde teríamos um final de semana inteiro só de festa.

Pois bem, jogávamos uma partidinha de futebol familiar e comemorativa. Na pelada (é assim que chamamos, em Recife, esse jogo entre amigos) estavam quase todos os presentes ao evento: pai, filho, filhas, netos, netas, irmãos, tios, sobrinhos e amigos. O jogo estava empatado, quando meu amigo-quase-irmão Ricardo recebeu a bola no meio de campo e iniciou um contra-ataque. Eu era o último jogador entre ele e o gol, e não tendo muito o que fazer, corri pra cima dele pra ver se ele se assustava ou, pelo menos, tocava a bola pro lado dando tempo dos outros voltarem pra me ajudar. Esperto, ele não esperou minha chegada e mandou a bomba dali mesmo, a uns dez ou quinze metros do gol (agora imagine a continuação do lance em câmera lenta).

Parei e fiquei acompanhando a trajetória da bola, que subiu, parecendo que ia passar sobre a barra, e caiu de repente. Nosso goleiro Aires (ou simplesmente Titio) nem esboçou reação: apenas ficou olhando ela bater no travessão e sobrar na entrada da pequena área, onde alguém surgiu de repente pra chutar de primeira, pegando na veia, fazendo a bola literalmente estufar a rede e cair dentro do gol para entrar em sono profundo. Por um segundo pensei em lamentar o lance, mas quando percebi quem era o “matador” abri um sorriso e parti para o abraço: era meu pai! Era Stanley, aos 77 anos, fazendo seu golzinho — ou melhor, seu golaço! Aí virou festa. Todo mundo correu pra comemorar junto com ele: eu, Renata, Pollyanna, Roberta, Sue, Keilla, Paloma, Pérola, Camila, Márcio, Titio, Ricardo e Rafa. Até Brendinha, nossa dachshund, entrou na roda. Gréia geral!

O feito não entrou no Guiness mas está devidamente registrado na memória da família — com direito até a foto, tirada poucos segundos antes do golaço. Com um atraso de quatro anos, presto ao meu pai uma homenagem: em vez de placa, uma crônica.

Poder jogar com meu pai novamente, depois de mais de vinte anos, foi uma grande alegria. Hoje, quatro anos depois daquele gol, ele diz que não quer jogar mais. Diz que “está velho” pra isso. Eu desconfio que é modéstia. Ele não quer é fazer outro. ;)

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sábado, 22 de setembro de 2007

AMOR SECRETO [Carla Cintia Conteiro]


Tenho um amor secreto agora. É emocionante viver na clandestinidade, de olhares fortuitos, leves acenos, quase imperceptíveis, quando nos encontramos casualmente, ele com outra companhia, fora de nosso espaço reservado. Nosso acordo funciona bem assim.

Ser casada com um homem que entende a alma humana ajuda. Meu marido não tem ciúmes. Nutre, ele também, afeição por meu amor secreto. Tantas vezes juntou-se a nós quando estávamos brincando. Mas ambos sabem que têm lugares separados no meu bem-querer, estão conformados e satisfeitos. É um bom arranjo.

Não nutro culpa ou qualquer outro tipo de encucação. Não haveria motivo. Foi bom ter estudado psicologia. Assim, quando ele passa por mim, fingindo que não me vê, mal indicando que percebe minha existência, sei que não é para zombar do meu coração. É assim mesmo. Ele não pode expressar o amor que sente por mim publicamente. Não é rejeição ou algo parecido. É necessário manter este comportamento. E esse jogo é até divertido.

Sei que depois, a sós, ou diante de quem não poderá comprometer sua reputação, ele me abrirá novamente os braços, me encherá de beijos, me acariciará os cabelos, me falará com a doce voz, cheia de dengo e manha. Nosso cantinho é cheio de cafuné e carinho, mas ninguém pode saber. Se conto aqui sobre nosso amor secreto é porque sei que os olhos e os ouvidos de quem não deve saber dele, não chegarão a este sítio e esta informação confidencial - a de que eu o amo profundamente e que ele também me ama para sempre - permanecerá em completo sigilo. Não traio meu amor secreto. Nosso amor é cheio de silêncios e discrição.

Porque, vocês sabem, mãe abraçando e beijando filho em público a partir da puberdade e até o início da idade adulta é o maior mico. Quando ele sai com os amigos e a gente se cruza por aí, é bom fingir que nem viu. O melhor mesmo é fazer de conta que nem conhece. Um gesto rápido e bem pequeno é o máximo tolerável. Desta forma, vivo uma história de amor às escondidas com o rebento, contando com a cumplicidade do meu marido, também conhecido como pai dele.

Quando os amigos dele ficam para trás e chegamos em casa, tudo muda. Volta o grude normal de sempre, tenho de volta meu menino carinhoso, cada vez menos menino.

E assim, vivo esse amor, tão alardeado desde que essa criaturinha surgiu na minha vida, mas que agora precisa ficar oculto para que ele viva sadiamente a ligação com seu grupo e a ruptura com os pais, fundamental para o seu crescimento. Bem, ao menos enquanto se está jogando para a galera.

Fel - Amargando Felicidade

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O FUTURO QUANDO CHEGA [Cris Ebecken]


De repente veio um medo. Justo comigo que não sou disso, injusto justamente justo justificativo, me invadiu o bolo trêmulo adentro, a garganta pulsando e se sentindo com cinco dedos. Dedos todos amigos, auxiliares do botar fora os fins já ditos. E então esse medo. Nada aterrorizador, apenas medo. Uma pressa sem pressa de acontecer... tudo já acontece.

De repente me vejo bem no meio da minha própria vida indo de início à vida que quis, simplesmente sendo o que sou, caminhando ao que a velha de mim, já posta fora, acreditara ser fantasia. Mas não há fantasia. Ilusão fora a que já deixei de ser, a que descortinei e desformatei. Pois sim, o avesso é o desavesso. O excesso de ordem é desordem. Só agora aconteço... simples. Aquela por insônias procurada no espelho, rascunhada em verso sobre verso, de repente aqui. Perigosos são os labirintos do passado perdido. Agora me repito: calma, calma, tudo está em calma, você aprendeu a se dizer sim.

Porque de repente o presente é o futuro quando chega, o alvo transporta e estende. Há de se saber abrir mão das mentiras antes vividas, deixar partir memórias póstumas, permitir sem paredes ser o que se é agora. Do próximo futuro nada prevejo. Tudo que sei é até mesmo pouco sobre as querências. Ocorre uma mudança de lugar dos quereres, um reencontro esperadamente inesperado, um bem-se-querer turbilhando coisas novas. Não nascemos para estarmos sempre encontrados, apenas para ir de encontro.

Talvez por isso o medo. Talvez sequer se chame medo, seja apenas uma pulsação descompassada, alegre, intensa e faminta de palpar-me. Um dia se descobre a força misteriosa de se fazer acontecer, e se passa a reconhecer tudo como acontecimento das coisas de dentro no fio escolhido do tempo. Bem vindo, tempo. Bem vindo, pertencimento. Bem vindo, futuro hoje acontecendo. No momento altamente permissiva ao abrir e receber como me chego, como me chegas, como me chegam. Chamego o presente, presenteio.

Extraídas Impressões Impressas

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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O CARRO VERMELHO >> Leonardo Marona

Todos pensavam se aquilo poderia ser apenas passageiro. Ninguém andava ou se mexia. Esperávamos alheios, cada um com seu tipo de loucura. As luzes dos carros iluminavam os mendigos, que se retorciam em caretas indesejáveis. Ela esperava o ônibus enrolando os cabelos crespos muito claros. Muito clara ela também, do queixo proeminente.

Vaga ascendência africana, em pecado era polonesa. Nos cabelos dava em nó um coque, os cabelos soltavam-se gentilmente. Melhor: soltavam-se doucement, como se diz em francês. Neste caso é mais apropriado o francês. Então ela repetia o processo.

Eu tomava um suco e pensava sobre o meu futuro imediato escorado no balcão de uma lanchonete barata onde homens obesos discutiam futebol.

Ela esperava o ônibus, olhava para trás, um coque nos cabelos, olhava para os lados, o coque se desmanchava.

De repente se levantou, tênis all-star e calça roxa colada, parou no meio da rua, estabanada, olhou para trás – para mim? – olhou para os lados. Estaria perdida? Seria o destino, mesmo atrasado após tantos equívocos?

Ela parecia perdida, um lado e depois outro, eu estava perdido, ela precisava de ajuda, eu precisava de... Era bela, o destino, serenatas, poemas, quedas d’água...

Cheguei perto: os pés distantes do chão, a calma forjada dos já não mais tão jovens.

- Você precisa de alguma coisa?

Seus olhos brilhavam. Era bela, o destino, um lado e depois outro. Então dobrou a esquina um carro vermelho, abriu-se a porta do carro e aquele era um excelente perfume, que vinha de dentro do carro vermelho. E dentro dele havia também um homem. E dentro do homem um sorriso malicioso. Porque era bela, o destino, e ele também sabia, o homem do carro vermelho, que dobrou a esquina e depois a levou de lá, o queixo proeminente, a culpa polonesa, vagas tribos africanas, o suco no bagaço.


www.omarona.blogspot.com


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A DOR E A DELÍCIA DE COMPLETAR 100 ANOS >> Cristina Carneiro



Dona Canô no meio do furdunço




Domingo, 16 de setembro, dona Canô chamou a Bahia para comemorar seu centenário em Santo Amaro da Purificação. Por tabela, eu fui; afinal, um chamado de dona Canô não se pode negar.

Entrando na malcuidada Santo Amaro, que me lembrou Camocim sem mar, fiquei pensando como é que daquele confim saíram Caetano e Bethânia para o mundo. Lembrei que dona Canô teve uma educação exímia: aprendeu inglês, francês, tocou piano e cantou muita música popular para seus meninos, introduzindo-os na arte para sempre. Foi a primeira dor funda do dia: lembrei que hoje quase não existe mais isso. Os pais enfiam seus filhos em colégios, pagam tufos de dinheiros, lavam as mãos e sequer ouvem 'Leãozinho' junto a suas crianças.

Na sacristia, ao esperar o início da missa em ação de graças a dona Canô, fiquei observando o vaivém das gentes todas que chegavam para o aniversário. A imagem de Nossa Senhora Aparecida também veio de Aparecida, em São Paulo, para os cem anos. Devotos, com celulares ou máquinas digitais em punho, faziam questão de fotografar a imagem. Adoração à imagem número um, dor funda número dois: mais importante do que rezar era fotografar a santa.

A adoração à imagem de Nossa Senhora apenas se juntou à adoração às imagens de Caetano, Bethânia, Regina Casé, Elisa Lucinda, Jacques Wagner ou de qualquer outra pessoa não anônima que se encontrava lá, que eram muitas, por sinal.

O que era para ser uma missa em ação de graças, um encontro da família, tornou-se um espetáculo, que seria visto mais tarde em todos os jornais. Eu, que fiquei nos bastidores, quase não vi o branco dos cabelos da dona Canô. Ela estava a 20 metros de mim, mas eu não conseguia ver a miudeza da criatura. Cinegrafistas, fotógrafos, jornalistas e caras-de-pau abarrotavam os acessos, a vista, o vento, maltratavam dona Canô com a luz das câmaras. Adoração à imagem número dois, dor funda sem-número: mais importante do que a celebração dos cem anos era mostrar tudo mais tarde pela televisão.

Como testemunha ocular do meu tempo, coisa que aprendi com meu pai, queria ver dona Canô, queria ver uma pessoa de cem anos, queria ver a missa, mas o jeito era seguir o foco das câmaras. Em um dos momentos, percebi todos os flashes voltados para um certo canto, pensei que fosse dona Canô, mas não, era Bethânia e Caetano. Dona Canô estava do outro lado, esquecida, esticando o pescoço, tentando ver, entre os câmaras e fotógrafos, os filhos cantando na missa de seu centenário.

Eu quis sentir pena dos padres, que foram obrigados a dividir o altar com os cinegrafistas e caras-de-pau, mas nem, os padres também faziam parte do fuzuê do espetáculo: queriam loucamente ser fotografados e fotografar as celebridades.

Antes da missa começar, um dos padres (a missa foi celebrada pelo cardeal arcebispo de Salvador com o auxílio de 14 padres) me pediu para que, se eu pudesse, ficasse com a máquina digital dele e, quando eu tivesse uma oportunidade, o fotografasse perto de Bethânia e Caetano, só desses dois, ele frisou, o resto não. Eu neguei, pedi desculpas com cara de desprezo por um padre que esconde uma máquina debaixo da batina enquanto faz olhar de compaixão diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Mas enquanto eu fazia a minha cara de desprezo, o governador da Bahia, Jacques Wagner, entrou no recinto. O padre pidão quase quis que eu o fotografasse com o governador, fiz um olhar matador e ele desistiu. Saiu saltitando, foi pedir para uma outra pessoa. Adoração à imagem não sei qual número, dor funda: eu ria de tristeza.

Esse padre-auxiliar não foi o único. Durante a missa, volta e meia, os padres se revezavam, arranjavam uma brechinha, iam lá na frente, levantavam o braço e registravam Bethânia e Caetano, Regina Casé e etc.

Ao final, depois de, com toda razão, se irritarem, Caetano não deu entrevista para a imprensa. Bethânia deu um grito quase assim: uéu, deixa eu tirar minha mãe daqui. A aniversariante foi embora, o fuzuê continuou: Regina Casé foi a sensação.

Fui embora de Santo Amaro da Purificação querendo ter vivido no tempo de dona Canô, quando o melhor as câmaras não escondiam, quando o melhor era o presente, era estar perto, ver para crer.

Fui embora de Santo Amaro da Purificação sentindo pena de dona Canô, por ela ter vivido até ver o mundo se transformar nisso.

Até que ponto vai a sociedade do espetáculo? Até desistirmos de presenciar acontecimentos e ficarmos enfurnados em casa, vendo tudo pela televisão.

De noite, vi dona Canô bonitinha, miudinha, quietinha, com um vestido brilhante, no Fantástico...


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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

MEU CARO AMIGO [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Meu caro amigo, andei de novo descumprindo promessas. Descumpri uma que fiz aqui mesmo, nestas páginas, de que estaria de letras presentes todas as quintas-feiras. Mas não foi por querer, ou melhor, não foi por não querer. Aliás, quase nunca é por não querer que não faço. Sempre tenho ótimas justificativas, nem sempre convincentes para os outros, mas sempre muito verdadeiras.

Primeiro deixa te dizer que achei muito legal você ter deixado aquele comentário, que me encheu o coração de alegria. Uma das coisas de que mais gostei na nova página, por falar nisso, foi essa possibilidade de receber e postar comentários, dessa aproximação maior entre todos nós.

Depois, achei engraçado e meio telepático que você tenha usado a palavra "vomitório", porque, creia-me, vomitório foi o que não me faltou na quinta-feira da semana passada - oh, céus, perdoem por usar a palavra vomitório para me referir não às palavras, o que é bastante limpinho, mas sim à, ahn, perdoem, vômito mesmo.

Você sabe, eu sou tia de um sobrinho único. Ele tem 4 anos e seu nome é Matheus. Matheus é o sobrinho mais perfeito e maravilhoso que se possa imaginar. Tem cabelos encaracolados, uma boquinha miúda e esperta e os olhos castanhos mais enormes e lindos que Deus conseguiu fabricar neste mandato.

Pois na quinta-feira eu estava em casa, sozinha (estou de férias, temporariamente afastada daquele computador que costumo chamar de "meu"), pronta para me sentar à frente da televisão com o notebook no colo quando tocou o telefone. Era a professora do Matheus, dizendo que ele não estava muito bem, que tinha dores de barriga e estava suando frio.

Prendi o cabelo, entrei no carro e fui correndo para a escolinha, onde encontrei o Matheus dormindo num colchonete. Estava um pouco pálido, com uma expressão triste que fazia com que seus olhos parecessem ainda maiores e mais castanhos. Peguei meu menino encantado no colo - o que não é tarefa fácil, pois é um meninão - e viemos para casa.

Foi só descer do carro - e obrigada, meu anjinho, por isso - que o tal vomitório - perdoem, perdoem! - começou. Uma vez, duas, quatro até conseguirmos entrar em casa e correr para dentro do banheiro. Nem foi um vomitório assim tão... desagradável quanto poderia ser, porque o Matheus, já não estando muito bem e ainda se recuperando de uma virose, só tinha comido gelatina de morango naquele dia. Então o que nos atingiu foi um vomitório cor-de-rosa e sem cheiro (desculpem!!!), um vomitório de choro (dele) e um vomitório de incredulidade (minha).

Depois de dar um bom banho no Matheus, penteá-lo, vesti-lo e tomar o meu próprio banho - pois o vomitório, é claro, não me poupou em absoluto - sentamos na sala em frente ao Discovery Kids e tomamos soro - ele tomou um soro de sabor maçã, eu tomei água de côco - e uma nuvem de paz e cheirinho de sabonete nos envolveu. Como era bom estar sentada ali, do lado do Matheus, e ver seus olhos maravilhosos de novo sorrindo (os olhos dele sorriem incrivelmente). Ficamos sozinhos por mais algumas horas antes que a mãe dele ou a minha chegassem.

Conversamos, e ele me disse que "estava ótimo!", que gostava muito de mim porque eu o tinha ido buscar "bem rapidinho" e que eu tinha "cuidado direitinho dele". Orgulho! Ele ficou ali, ao meu lado, amparando-se no meu corpo com aquela confiança que só as crianças podem ter e que é o presente mais maravilhoso que se pode receber de alguém. Naquelas poucas horas, nós dois, tia e sobrinho, não precisamos de mais ninguém, pois eu tinha cuidado dele e ele tinha confiado em mim. Ele não chamou a mãe dele nenhuma vez... nem eu a minha.

À noite, com a casa cheia, ouvi o Matheus, aos berros, muito animado, contando para a mãe dele o que tinha acontecido naquela tarde: "Mamãe, eu vomitei em tudo! Vomitei na Tiá (essa sou eu)! Vomitei no corredor! Nos carros que passavam na rua! No cachorrinho do jardim! No avião do céu! No gato do telhado! Vomitei até no Paraguai (ele tem uma estranha afeição pelo Paraguai)! Vomitei até no banheiro, mamãe!!!" Impossível não rir ouvindo isso e, mais ainda, impossível não gargalhar ao ouvi-lo completar o relato dizendo que, afinal, ele tinha "se divertido muito" com o episódio.

E foi por isso que eu faltei na semana passada, meu amigo. Plenamente justificável, eu creio. Estava sendo tia, ou melhor, estava sendo Tiá. E, sabe, tem uma coisa que pouca gente sabe sobre as tias. É que elas - as tias - não precisam ser mães para amar uma criança com um amor maior que a vida. As tias, consanguíneas ou adotadas, são capazes de amar o filho de outra pessoa de um modo que poucas mulheres que tenham seus próprios filhos conseguem fazer. Ponto para as tias.

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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

MINHA AMIGA ANNY >> Carla Dias >>

Eu ainda morava em Santo André, portanto foi antes de 1995, quando eu dava aulas de bateria em um conservatório aqui em São Paulo. Eu já trabalhava no Instituto de Bateria, mas somente até meio-dia (hoje trabalho até às 20h!). Então, aproveitava as tardes para fazer a vez de professora de bateria.

Foi nesse conservatório que me dei conta de como estudar saxofone pode atormentar os vizinhos. Não que eu estudasse este instrumento, mas a minha sala ficava pertinho da de sax e quando aluno da professora faltava e ela decidia estudar era um Deus nos acuda! Ficava difícil até mesmo conversar com o meu aluno. Mas isso não é reclamação (cada instrumentista com a sua cruz), e sim meu jeito de dizer que a bateria não é o único instrumento que, naturalmente, fala bem alto... Vocês já ouviram uma gaita-de-fole na hora do aquecimento do gaiteiro? Pois é...

Foi neste conservatório que conheci a Anny Jacopetti. Ela era muito novinha na época (tenho dificuldade em lembrar a idade das pessoas), uma aluna muito aplicada. Era bacana dar aula pra ela. Há alunos de todos os tipos... Os que querem um hobby para sair um pouco da rotina; os que se empolgam com a idéia de aprender a tocar um instrumento, mas se decepcionam com o trabalho que dá, então desistem; os curiosos; os talentosos; os esforçados e etc e tal. Há também os artistas por natureza. A Anny nasceu assim: com a natureza nas artes. Artista... E um pouco arteira, também.

Ficamos amigas de cara. Além de apreciarmos o mesmo instrumento, a bateria, também dividíamos a curiosidade pelo que está no além de tudo e de todos: das idéias, da arte em si, do que diz a pessoa, do que essa pessoa faz... Dos planetas, das lendas, do espírito, das divindades...

Essa minha amiga de sorriso sincero, costumava me presentear com desenhos de sua autoria. Nesses desenhos, sempre havia muitas estrelas e luas, e pessoas com formas que me levavam a pensar que refletiam sobre algo realmente importante. Sobre sentimentos e a forma como ela percebia a vida. Alguns deles, também vinham com textos e poemas.

Foi a Anny, essa pequena “bruxa”, quem me apresentou ao universo das Runas. Tenho até hoje as cartas que ela me deu. Ainda as uso. Estudo as Runas em busca de um conhecimento sobre mim mesma, e esse tempo às voltas com tal oráculo me permitiu compreender que o ser humano se vale de diversas engrenagens para chegar a esse conhecimento que, quando não chamado de dom e destaque de algum movimento espiritual, é reconhecido naquele olhar mais profundo, da percepção sobre o que o outro sente, e o que nós mesmos sentimos. E não há nada mais do que o desejo de compreender o outro. De se aprofundar sobre tudo o que faz parte dele. Enfim, aprendi que a vida se faz vida em diversas linguagens.

A Anny não se tornou exclusivamente baterista, pois como já disse, artista ela nasceu. Mudou-se para a Austrália e o e-mail é nosso meio de comunicação. Hoje ela uniu sua habilidade para desenhar ao seu olhar sobre a fotografia, e às ferramentas que a tecnologia oferece, permitindo que sua arte se manifeste em imagens e palavras... E o faz tão bem, com um apreço pelo dentro das pessoas e uma riqueza emocional boa demais de se contemplar.



E você, enquanto lia esta crônica, conheceu um pouco do universo da Anny, pois essas imagens são de autoria dessa pessoa com o olhar e o coração no lugar certo.






E se quiser saber mais sobre os feitos dessa minha amiga artista de um tudo:
http://www.orwherever.com.

Foto: Allicea Vayro



www.carladias.com

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terça-feira, 18 de setembro de 2007

(AINDA) SÓ PRA VOCÊ -- Paula Pimenta

Eu já escrevi pra você. Só pra você. Mais de um ano atrás. Na época, eu nem sabia que você ia ler. Mas você leu. E deu no que deu. Agora, mais de um ano depois, eu quero escrever de novo. Só pra você saber que eu continuo tão sua, tão de mente e alma sua, quanto naquele primeiro dia.

Eu sei que você sabe que desde aquela primeira vez em que te vi, você nunca mais saiu do meu pensamento. E continua por aqui, por mais que de vez em quando eu tenha vontade de te expulsar, por algum motivo qualquer que tenha me deixado triste... Mas você permanece marcando presença, em cada hora do meu dia, em cada minuto, aliás, acho que não tem um segundo em que eu não me lembre de você.

Eu sei que você imagina o quanto eu te acho inteligente. Que eu adoro conversar com você sobre qualquer assunto, que eu só não reclamo por não conversarmos mais ainda porque quando não estamos falando, estamos ocupando o tempo que temos juntos fazendo alguma coisa melhor...

Eu sei que você desconfia que na hora em que eu te encontro o meu coração bate tão acelerado que você deve até ter (se não tiver, providencie) o telefone de uma ambulância gravado no seu celular, para o caso de eu ter uma síncope e morrer do coração.

Eu sei que você suspeita o quanto eu fico triste quando a gente se separa, como fica tudo um vazio imenso, sem lua, sem estrela, sem graça, sem sorriso, sem vida...

Eu sei que você tem idéia de como são perfeitos os momentos que passamos juntos, e como eu guardo tudo trancado a sete chaves na minha memória, para poder visitar a cada instante que a minha saudade solicitar.

Eu sei que você tem conhecimento que até hoje (contando do dia em que nos conhecemos - um ano, três meses e cinco dias depois) você me provoca um frio glacial na barriga, só de lembrar, só de imaginar, só de sonhar com a sua presença...

Eu sei que você acha que eu estou mentindo, mas eu realmente fico sem graça de me expor, de contar para o mundo tudo o que você me desperta, mas isso já foi pro ar há muito tempo. Quem me vê já sabe, pela minha expressão, pelo meu jeito, pelo meu sorriso, o quanto eu sou apaixonada. E não tinha jeito de ser por mais ninguém. Só mesmo por você.

Eu sei que você já sabe que me inspira. Que é razão de tudo o que eu canto. E escrevo. E sonho. Mas nunca é demais repetir...

Eu sei que você tem certeza de tudo isso. Mas só para o caso de em algum momento surgir alguma dúvida, você poder ler e confirmar. Porque certeza maior é essa que eu tenho, de que pode passar quanto tempo for, mas a minha maior fonte de inspiração continuará sendo você. Por isso, essa e todas as minhas outras crônicas de amor são suas. Pra você. Só pra você.


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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

VOLTEI ÀS CORES >> Maurício Cintrão

Sou um pintor cíclico. Gosto de brincar com tintas e pincéis de tempos em tempos. Não há um “gatilho” detonador desse processo. Se existe, ainda não o identifiquei. Percebo que é a hora de voltar às telas e volto. Se fosse um pouco mais estável, talvez desenvolvesse o talento. Mas não faz parte da minha característica seguir linhas retas.

Esse é o motivo de variar entre a pintura, a joalheria artesanal e as coisinhas de biscuit, agora com passagens pela decoração de caixinhas de madeira reprocessada. Faço essas traquinagens nas horas de folga. E, quando dá, tento vendê-las para diminuir um pouco o déficit familiar.

Não, meus amigos, eu não sou um esbanjador juramentado. Não tenho despesas exorbitantes com sexo, drogas ou rock’n roll. Meus vícios foram abandonados. Não fumo mais e quase não compro sorvetes e chocolates. Nem carro moderninho eu tenho. Aliás, o velho e bom Escort 95 da Viviane, único veículo da Casa, é um dos motivos dos desembolsos acima do possível. É preciso investir o tempo todo em manutenção e mecânica.

Recentemente, fiz a renegociação de minhas dívidas com bancos. Por conta dela, torro mensalmente uma quantia que seria suficiente para fazer uma família viver bem. Além disso, tenho gasto mensais com as crianças em São Paulo. Assim, o que sobra é menos do que preciso. Por conseqüência, vivo à beira do abismo.



Dessa forma, as minhas brincadeiras com artesanato e artes representam fontes alternativas (e honestas) para conseguir alguns Reais. O que consigo é pouco, mas ajuda a pagar o que gasto para produzir, mais uns troquinhos para ajudar em casa.

Ainda tenho dúvidas se é solidariedade ou amor à arte, mas muitos amigos compram as coisinhas que produzo. Muitos deles, inclusive, têm altos delírios sobre meu cotidiano. Devem achar que sou um misto de mago com doente mental, aquela imagem que se faz de quem cria que mais parece descrição de mau comportamento em Boletim de Ocorrência.

A maior parte nem desconfia que meu ateliê é um dublê de depósito e lavanderia, lá nos fundos da casa. Não tem nada de notável. É tão simplesinho que dá até pena. Minhas coisas ficam dependuradas em pregos ou empilhadas com certa displicência. Mas não precisa chorar. Isso acontece mais porque sou um sujeito caótico do que por falta de recursos para me arranjar melhor. É evidente que uns 2 milhões de Euros fariam enorme diferença, mas não é bem esse o caso.



Enfim, o divertido é que voltei às cores e estou produzindo meus quadrinhos depois de longo período sem mexer nas telas. Isso pode ser um bom sinal, um indicativo de que vou retornar às atividades artísticas com mais vontade. Porque sempre retorno a alguma das minhas artesanias, mas há tempos não pensava em molduras.

Vai ver chegou a hora de fazer os exames para me cadastrar nas instituições oficiais que promovem registram artistas e artesãos. Será que vou virar hippie? Será que dessa vez eu consigo? Bom, se abrir alguma barraquinha para vender minhas invenções artísticas, aviso a vocês. Enquanto isso, vou me divertindo.


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domingo, 16 de setembro de 2007

UÁ UÁ! >> Felipe Holder

Há quatro meses eu não durmo direito. Desde então tenho sido acordado no meio da noite pra escutar gritos e queixas numa altura de fazer doer o tímpano. E a cada interrupção, nunca menos meia hora para voltar a dormir.

Há quatro meses não posso mais dedicar meu tempinho do final da noite às coisas de que tanto gosto, como ler meus e-mails, visitar meus blogs preferidos, vasculhar as últimas do mundo do software livre e, às vezes, navegar sem rumo até chegar o sono. O sono sempre chega antes. E com a certeza de que vai ser interrompido logo, logo.

Há quatro meses minha vida mudou radicalmente. Nada de sair mais à noite, nada de tomar uma coca-cola com os amigos depois do trabalho, nada de pegar um cineminha com a esposa pelo menos uma vez por semana. Não sou mais dono da minha vida.

Há quatro meses, porém, eu sou o homem mais feliz do mundo. Desde então passei a ver todo dia o sorriso mais lindo que já vi na vida: em abril nasceu o meu filho Eduardo. Finalmente entendi o que meus amigos queriam dizer quando falavam em "mudança radical" da vida depois de um filho. A vida muda, sim. Nada será como antes.

A chegada de um filho é uma nova chance que a gente tem de aprender a viver melhor. Aprender a ser mais paciente, mais tolerante, mais compreensivo e — principalmente — aprender que, por mais desesperadora que uma situação possa parecer, é possível que se venha a se transformar num grande momento de felicidade. Eu explico.

Um dia desses tivemos uma madrugada pra lá de atribulada: Eduardo o tempo todo inquieto, nosso sono interrompido várias vezes pelo choro desesperado — às vezes irritado, às vezes sofrido — e não havia nada que o consolasse. Parecia que não iríamos dormir nunca mais. Mas por volta das quatro e meia ele finalmente dormiu. Pouco depois das cinco, nós quase conseguindo... ele acordou de novo. Parecia um pesadelo. Cheguei a pensar: “Meu Deus, o que é que eu faço, eu não agüento mais!” e já fui me preparando para escutar mais um chorinho e recomeçar o sofrimento. Mas que chorinho que nada! Com o rosto mais inocente do mundo ele virou a cabeça pro meu lado e, como se nada tivesse acontecido, abriu um sorriso e de sua boca saiu um inesperado “Uá uá!”. Dessa vez quem chorou fui eu. De rir, de felicidade.

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A SEDUÇÃO DAS DISTÂNCIAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Gregory Colbert (corbis.com)

(Continuação de AS DISTÂNCIAS.)


"Amar é mover o dom
do fundo de uma paixão,
seduzir as pedras, catedrais...
coração."
(Djavan)


Sedução é uma daquelas palavras que, invertendo o ditado, vale por mil imagens: a serpente lustrando a maçã para Eva; Dalila dedilhando os cabelos de Sansão; dançarinas do ventre com olhos de estrela acima do véu; Don Juan incendiando e derretendo a carne de suas pretendentes...

Seduzir tem a ver com afastar do caminho, desencaminhar, desviar. A sedução convida a sinuosidades, cria veredas, faz percorrer distâncias. Fisicamente, provoca deslocamentos: seduzir é levar a lugares nunca antes visitados. Mentalmente, sugere devaneios: seduzir é fantasiar coisas inimagináveis. Emocionalmente, desperta instabilidades: seduzir é fazer sentir todo o bem e todo o mal quase simultaneamente.

E, no entanto, as distâncias que a sedução parece inventar já estavam todas lá, internas, guardadas dentro do seduzido como o mar se guarda dentro da concha.

A distância interna é aquela que criamos de nós mesmos. Pode ser física. Sim, física. Existem partes do nosso corpo que tocamos com mais raridade do que tocamos aquele parente que só vemos uma vez ao ano, durante as férias natalinas. Eu mesmo tenho um cravo no meio das costas que produz gordura há pelo 20 anos e que eu mal toco, por posicionamento e por falta de vontade, mas que minhas irmãs e namoradas têm explorado repetidamente com uma intensidade muito prazerosa. Seduzir, no plano físico, é cruzar toda a distância até o corpo que está longe. Imagine uma mulher descontente com um grande sinal no ombro. Sinal esse que ela esconde de todos, nunca usando uma blusa que deixe o ombro à mostra. Imagine agora um homem que, por um descuido da mulher, vê o sinal e se encanta por ele e a faz ver que aquele sinal é o que de mais bonito há em seu corpo. Esse homem, consciente ou inconscientemente, está seduzindo essa mulher. E ela se deixará seduzir porque para ela era insuportável essa distância física dela mesma.

A distância interna também pode ser mental. "Eu jamais pensaria uma coisa dessas", "como é que eu ia imaginar que fulano faria isso comigo?", "nunca passou pela minha cabeça que isso fosse possível"... Como é sutil o auto-engano! Claro que a pessoa pensou, por certo que imaginou, é óbvio que lhe passou pela cabeça. Mas ela estava distraída, alheia, distante do próprio conteúdo de sua mente. Como é libertador que o outro pense aquilo que nós mesmos nos proibimos pensar! Claro que, pra não dar muita bandeira, até para nós mesmos, consideraremos aquele pensamento supostamente alheio, aquela frase, aquela idéia, um absurdo, uma aberração, um pecado até. É preciso julgar e condenar o outro para nos absolvermos da possibilidade de termos tido aquilo aqui pertinho da gente. Aquilo é estranho, distante, não nos pertence. Mas a sedução está lançada, e o seduzido está pronto para percorrer a distância mesmo que disfarçada em difamação, polêmica, fofoca, noticia, informação.

E ainda pode ser emocional a distância interna. Quem já viveu um pouquinho deve ter tido a oportunidade de dizer "eu saí de mim", "aquele não era eu", "parece que eu estava possuído". Só o auto-abandono, a perda de identidade e a possessão parecem explicar aqueles momentos em que a gente está sentindo algo que, definitivamente, não deveria estar sentindo, mas está sentindo, e sentindo com uma tal intensidade que é melhor até exagerar ainda mais para que fique bem claro que não era a gente. Feito um ator que não quer se confundir com seu personagem e o caricaturiza. Como o poeta que finge "que é dor a dor que deveras sente". E aquele que despertou sentimento tão estrangeiro, sedutor por acaso ou por profissão, cravou fundo suas unhas na pessoa seduzida, que ainda pode se enganar, que ainda pode se entorpecer com novelas e filmes e livros e canções, projetando em figuras de ficção aqueles sentimentos que são seus na realidade e que agora, revelados subitamente pela sedução, não podem mais ser perdidos tamanha a energia que liberam para sua vida antes tão sem vida.

O sedutor, surpresa, talvez não seja então aquele sujeito traiçoeiro que se deve temer. Ele pode ser tão eficaz e inofensivo quanto um médico (que nos revela órgãos escondidos), um agente de viagens (que nos sugere novas culturas) ou um psicólogo (que nos apresenta nossas próprias emoções).

De tudo que foi dito, parecerá, ao leitor atento, que a função da sedução é menos de criar distâncias e mais de desfazê-las. E poderei tratar disso, do fim das distâncias, num outro momento, quem sabe semana que vem, caso o assunto ainda não esteja aborrecendo os leitores, atentos ou desatentos.

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sábado, 15 de setembro de 2007

NEO-CRIATIVIDADE: NOVAS FORMAS DE CRIAR [Heloísa Reis]

Acompanhando Neo, no filme Matrix podemos ter a pesada sensação de que o advento da cibernética pode estar nos engolindo. Como se estivéssemos na goela desse dragão, sentimos enorme impotência diante de um mundo cheio de novas engrenagens, novos códigos e senhas, únicas chaves para abrir caminhos.

Como encontrar essas chaves?

Em Matrix, os amigos Trinity e Morpheus vão à procura do Oráculo enquanto Neo negocia com as máquinas para enfrentar os replicantes agentes Smith – representantes do mal.

Sua jornada em busca de senhas e códigos não é fácil. Precisa pensar rápido, agir bravamente para sair das inúmeras armadilhas e situações perigosas em que se coloca. E toda a humanidade está em perigo, dependendo de sua ação e sucesso.

Qualquer semelhança com o homem atual em sua jornada pela vida não é mera coincidência.

O homem nasce no caos. Ou no vazio da mente. A absorção das idéias acontece no decorrer do processo do amadurecimento e da contaminação com o ambiente à volta. Manter-se puro como no caos? Impossível!

Dentro da máquina Neo tem que lutar e reinventar sua situação a cada passo, a cada nova etapa de sua jornada. A cada ação, um novo tempo e renovados Smiths. Mas ele está na máquina. Com a natureza e com a humanidade não há tal precisão. Há apenas um destino para todos.

Filosofando, podemos dizer que a existência do destino determina nossas vidas, mas nós a modificamos com nossas escolhas e com a forma pela qual enfrentamos os nossos “Smiths”, influenciando o curso da vida e o futuro.

Em imagem visual podemos imaginar uma estrada com muitas encruzilhadas e bifurcações: a cada escolha há uma determinação e uma mudança de caminho, e, portanto, de destino.

Como na geometria fractal de Mandelbrot, as pequenas partes, imagens complexas do todo, podem alterá-lo completamente a uma ligeira modificação. Assim, a condição de criação ou de desenvolvimento da linguagem criativa ou da capacidade adaptativa dos seres às mudanças da vida necessitam da expansão da mente para melhor captar a complexidade do mundo.

Imprescindível é ter um ponto de partida, um ponto chave, que, sendo um referencial, proporcionará em torno de si aprofundamento e busca de semelhanças e contradições. Assim o Caos especificamente tratado poderá resultar em ordenação simbólica tornando-se Cosmos, e novas formas de criar estabelecem novos rumos e novos destinos.

Mas Neo também precisa do Oráculo e da pergunta certa.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

MATEUS 27:46 >> Leonardo Marona >>

Poderiam ser fogos e festins das festas do fim de ano. Poderia ser mais uma cerveja e poderiam ser muitas opiniões bocejadas por almas aflitas de pernas cruzadas superestimando a fumaça dos cigarros como extensão de almas piratas, opiniões nas quais se baseavam apenas para a conformação do fato de que poderiam até saber das coisas, mas simplesmente não era sempre possível acreditar nelas. Mas havia sim um estalo, algo que poderia se quebrar, uma linha tênue de serragem contra o sol como num filme de caubói. Era noite, era o som de algo se partindo por dentro, era um estalo de agonia. Eram peles sobre carnes sobre bactérias sobre ossos, mas era também um não reconhecimento e talvez três bons amigos complacentes, quando este som, quando este constrangimento sonoro fez um deles pigarrear, como quando um se sente mal por ter sido interrompido bruscamente ao discorrer sobre o imperativo categórico da extinta civilização alemã.

- Socorro, socorro! Levei um tiro no coração!

Entra um homem de não mais que trinta anos, mas difícil saber quantos anos tinha cada ano seu. No bar todos gritavam por dentro, estáticos, impávidos, latentes. Os três amigos parados, em pé, militares aspirantes diante de uma prostituta búlgara. Uma mulher com rolinhos no cabelo, alguns soltos, surge com labaredas nos olhos, sobrancelhas retorcidas.

- Não deixem ele entrar! Tirem esse homem daqui!

O homem de pé, mas calmo, caindo. Cai e levanta, suado, e vomita sangue incontrolavelmente: ninguém se aproxima. Os três amigos, que há pouco falavam sobre mundos místicos, permanecem congelados. O homem se apóia no balcão, escorrega sobre a pasta de sangue carnoso e a mulher com rolinhos na cabeça se aproxima e lhe aplica vassouradas na região lombar. De repente um berro, muito agudo e desafinado, esganiçado, e então a mulher se afasta.

- Seus idiotas, vocês não fazem nada! Passa! Já pra trás do balcão!

Os três filósofos correm para trás do balcão. A mulher com rolinhos na cabeça ensopada de sangue coalhado. Sangue e coisas que parecem pedaços de sangue. A mulher entra em estado de choque e cai no chão, desmaiada. Os pequenos Kierkegaards então correm na direção da mulher e tentam não se sujar com o sangue.

O homem em frente, também no chão, escorado no balcão, anuncia engasgos úmidos e tenta desesperadamente se levantar. Mantém os braços abertos e os olhos vidrados como se visse algo monstruoso se aproximar, algo monstruoso e gigantesco e libertador, e do lado esquerdo do seu peito, pouco abaixo do ombro, ribomba uma cachoeira pulsante de sangue que segue em ritmo sincopado, diminuindo e aumentando o fluxo.

O homem caído então sobre os joelhos diz quase sem emitir som, olhando para três reis magos indiferentes, também ajoelhados diante da mulher com rolinhos nos cabelos:

- Levei um tiro no coração... Por favor... Medo... Tenho medo... Me dá um abraço...

Há também uma cachoeira de sangue escoando pelas costas: o tiro lhe havia estraçalhado o ombro. Todos se afastam horrorizados, mas limpos. Um dos profetas corre para o banheiro com engulhos. A vida retorna ao seu estado de mistério. Natureza morta volta a reinar.

Todos fazem o sinal da cruz e vão para suas casas, abalados, famintos e cheios de assunto. Pouco tempo depois, dois homens negros e sujos mal-vestidos, galhofeiros, aparecem e arrastam o corpo murcho do homem que havia levado um tiro e morrido sem ganhar um abraço. E os que permanecem, tendo negado, mesmo sabendo, continuam mortos, com medo de abraçar.


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quarta-feira, 12 de setembro de 2007

PESSOAS >> Carla Dias >>

Desde criança, e que fique registrado que minhas lembranças dessa época são seletivas, uma das coisas que mais me dava prazer era saber sobre as pessoas. Lembro-me de como era observá-las lá na escola, época do primário. Apesar de me sentir extremamente longe delas, aquém de seus universos, ao prestar atenção no que diziam e faziam, percebia as sutilezas que reverberavam seus prazeres e dores, e isso se tornou uma fascinante jornada.

As pessoas mudam, conforme o tempo passa e também elas passam por nós. São poucos os amigos que trago daquela época. Na verdade, até hoje não compreendi como consegui a amizade deles e as amizades que vieram depois, já que observar as pessoas e percebê-las dessa forma tão repleta de lonjuras, também é viver do lado de fora da realidade delas.

Na verdade, com o tempo eu também fui me moldando. O tempo não desperta somente sabedoria, mas também necessidade. E quem não necessita de pessoas a sua volta; quem passa as vinte e quatro horas do dia imerso na solidão pungente, sabe não o quanto há de divindade em conhecer profundamente uma pessoa... E dá trabalho, mas ainda bem que nem todos nós somos preguiçosos, não é mesmo?

E há as peculiaridades... Saber respeitá-las é compreender que cada um é um, por mais que escolham o mesmo tipo de roupas, assistam aos mesmos filmes e adorem aquela mesma cidadezinha que faz o coração da gente desejar uma mudança geográfica. Peculiaridades são fundamentais, pois graças a elas aprendemos a amar o outro de uma forma única.

Falo sobre minha fascinação pelas pessoas ao mesmo tempo em que me afasto do que elas desejam de mim. Uma das minhas peculiaridades é o apreciar a solidão. Não aquela sobre a qual já falei... Aprecio a solidão, mas daquela que oferece a casa vazia na hora da criação. A solidão dos quintais em final de tarde. Dos telhados em dia de chuva. A solidão do adormecer ouvindo folk e acordar dançando samba. A solidão das construções pessoais, as que definem nosso caráter e as prioridades.

Falando em prioridades...

Considero-me uma pessoa de sorte por ter quem me ame a ponto de ser meu amigo. Tenho amigos fantásticos! São pessoas para se admirar, porque entre as peculiaridades delas está a honestidade do sentimento que oferecem. E não sei como caibo na vida delas, já que sou daquelas que não cumprem direitinho o calendário, porque às vezes me afobo, melhor, entro mesmo em pânico, e não consigo estar entre as pessoas, por mais que as admire. Sendo assim, já faltei a casamentos, aniversários, festas, datas importantes para esses meus amigos, e alguns deles compreendem que não se trata do evento ou de um problema pessoal... Outros nem tanto.

Já cheguei a cogitar não ser merecedora do amor que me oferecem, mas foi numa fase de falta de tolerância comigo mesma. Quem não merece o amor? Talvez aquele que não o saiba preservar e, no que me consta, apesar de todas as restrições e pisadas de bola que minhas peculiaridades provocam entre mim e meus amigos, está aí uma coisa da qual sei cuidar: o amar o outro.

Ah, as pessoas...

www.carladias.com


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