sexta-feira, 31 de agosto de 2007

PEQUENA CARTA PARA UMA SAUDADE FORTE (Leonardo Marona)

De onde vem a idéia do refúgio? Quer se esquentar? Chegue mais perto. Não toque! Melhor primeiro dividir os pedaços da carne. Espere um pouco antes de lembrar dos mínimos ossos torácicos daquele coelho com batatas, com batatas? Mais importante que responder é perguntar, mas isso na época de Godard. Onde está Godard? Pensando na guerra. “Mas de quem os aviões não explodem todos os dias?” Que linda frase, minha amiga. Posso te chamar assim, espero. Que linda frase, irmã do meu destino. Uma frase sem condenação, uma frase cotidiana, que te traz como anúncio, uma frase comunitária, completa, já me sinto mais próximo. Não! Ainda não toco. Também não fujo. Não faço nada. Não precisamos fazer nada para estarmos juntos. Precisamos apenas de um labirinto e um enigma. Planando. Sim, posso sentir o vento no tórax. Pobre coelho despedaçado, de mínimos ossos torácicos. Ainda nos veremos, eu sei, espero. Mas quando nos virmos de novo, veremos o quê?


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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

REENCONTRO [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Sabe quando você encontra um amigo que não via há muito tempo? Junto com o sorriso de orelha a orelha por rever quem a gente gosta, vem a lembrança do último encontro. A gente sabe quando foi, sabe também que se despediu com aquele mesmo "eu te ligo" de sempre, que é bem capaz que tenha deixado algo pré-agendado - "então fica combinado aquele chopp no mês que vem? Começo do mês, sem falta, hein?" ou coisa do gênero. Muitas vezes há um certo constrangimento por ter ficado tanto tempo sem ligar, sem falar, sem mandar uma mensagem, por ter negligenciado o amigo tão querido.

É mais ou menos desse jeito que estou me sentindo hoje. Pois foi assim que me despedi das letrinhas, ao menos das letrinhas que, organizadamente, formam um texto que, por pretensão minha, será levado a público para leitura de quem assim o quiser. Deixei um compromisso pré-agendado e não o cumpri. Pensei nas letrinhas algumas vezes, e estou sendo sincera ao dizer que só pensei algumas vezes nelas, não muito, não o tempo todo. Tive aquela impressão - tão humana - de que elas sempre estarão por aí quando eu precisar delas e, dessa forma, podem esperar pela minha boa vontade. A verdade é que as abandonei sem dar notícias.

A última vez que escrevi um texto foi em 31 de outubro do ano passado. Meu aniversário, por coincidência. Se bem me lembro, naquele dia estava com a bruxa encostada e quis escrever para cutucar o Saci, que melhor faria em deixar as bruxas em paz e arrumar um dia só para ele. No mês seguinte, falhei nos dois compromissos que tinha com as letras e também com os meus amigos do Crônica. Peço desculpas pelas faltas, mesmo sendo elas antigas. Porque o tempo me mostrou que, se as letras continuaram à minha disposição, o Crônica teve um longo período de recesso que me encheu de saudades.

Confesso que está sendo muito difícil este reencontro com as letras. Elas, compreensivelmente, não estão sendo exatamente calorosas. A falta de sincronia entre meu cérebro, meus dedos e as letras são conseqüência do meu longo afastamento. Agora mesmo, ao escrever "conseqüências", tive a nítida impressão de estar repetindo palavras. Estou? Certamente estou, não sei se "conseqüências" em especial, mas outras palavras já apareceram neste pequeno texto várias vezes. Estas são as mais fáceis. As outras ainda guardam distância e não se apresentam para me ajudar.

Mas escolher as palavras certas nem seria um problema tão grande - pois tenho tempo! - se idéias se apresentassem. Letras e palavras, mesmo as mais caprichosamente escolhidas e alinhadas só servem se expressarem uma boa idéia, inventarem uma boa história, contarem um bom causo. Neste momento, o tal constrangimento do reencontro é quase tão grande quanto a vontade de pensar em alguma coisa, mas em alguma coisa muito legal para falar, em alguma coisa que divirta, que entretenha ou que encha de raiva alguma pessoa. Alguma coisa que crie uma emoção, um sentimento ou pelo menos um desacordo. Alguma coisa que faça com que o que escrevo seja mais do que um punhado de letras organizadas em palavras, organizadas em linhas, organizadas em parágrafos. Mas é bobagem falar em inspiração ou falta de assunto quando tanta gente melhor já o fez, conseguindo transformar a falta de tema e assunto em história interessante. Não, não era essa a minha intenção. Juro.

A minha intenção é a de avisar às letras e às palavras que eu voltei. E também dar um toque pro meu cérebro para que trabalhe mais e melhor, pois pretendo exercitá-lo daqui pra frente. Com o tempo, a gente - letras, palavras, idéias e eu - vai se entender, tenho certeza. Não tão bem quanto eu gostaria que fosse, pois já não era assim antes. Mas ao menos o suficiente para que a gente possa se tratar como aqueles velhos amigos que, não importa há quanto tempo a gente não veja, quando encontra nunca falta assunto, nunca fica desconversado.

E fica então marcado o próximo chopp, sem falta, para quinta-feira da semana que vem.

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quarta-feira, 29 de agosto de 2007

TRÊS AFETOS >> Carla Dias >>

Nessa reestréia do Crônica do Dia, selecionei a trilogia dos meus atuais afetos para levar a vocês o quanto é bom voltar a este espaço e poder comentar sobre arte e humanidade. Obviamente, não deixaria de abusar também das novas ferramentas, portanto também poderei elucidar melhor essas minhas querenças.

Tenho um amigo que é artista em várias linguagens. Músico, poeta e já li roteiro dele pelo qual me apaixonei. Anda com o pé na animação e o seu talento para a fotografia é inspirador... Tão inspirador que eu estava passeando pelo site dele, ainda ontem, e me deparei com uma imagem na qual me detive, como se eu também estivesse sentada naquele banco, observando a imensidão. Olhem só:



O nome do meu amigo é Jander Minesso. Quem estiver a fim de conhecer outras imagens, acesse o site clicando AQUI. A viagem será bem agradável.

Semana passada, eu estava visitando o site da Dave Matthews Band e vi que um dos projetos do Dave Matthews é uma gravadora chamada ATO Records (According To Our Records), fundada pelo próprio e por Coran Capshaw, Michael McDonald e Chris Tetzeli. Essa gravadora é responsável pelo lançamento do recente CD da dupla que faz parte dos meus afetos em pauta: Rodrigo Sánchez e Gabriela Quintero. Mexicanos que hoje vivem na Irlanda, formam uma dupla de violonistas que não negam a paixão pelo heavy metal (no CD “Rodrigo y Gabriela” há até uma versão para a canção “Orion” do Mettalica), mas fazem uma música universal.

Violonistas peculiares (Rodrigo é rápido e preciso e Gabriela tem um quê percussivo), merecem a atenção daqueles curiosos pela música e que buscam por novidades. Para que compreendam um pouquinho sobre o que falo, segue o vídeo da música “Diablo Rojo”, uma das minhas preferidas.




Meu terceiro afeto foi descoberto numa madrugada da semana retrasada, quando eu assistia televisão naquele ritmo de quem não encontra lugar onde ficar. Deparei-me com esse filme sueco que chegou a ser indicado a vários prêmios, entre eles o Oscar de Filme Estrangeiro em 2005, mas que eu ainda não tinha assistido.

“A Vida no Paraíso” (Så som i himmelen – 2004), dirigido por Kay Pollak, conta a história de Daniel Daréus, um maestro que há muito tempo está à frente das mais importantes orquestras do mundo. Ele sofre um ataque cardíaco que o obriga a parar com a ostensiva agenda de apresentações. Daniel volta para a sua pacata cidade natal para afastar-se da música, mas é lá que ele reencontra a essência dela, assim como a sua própria.

Ao começar a trabalhar com o coral da igreja, Daniel sugere aos seus integrantes que busquem pela “voz interior”. E assim como condutora da música, a voz também se torna personagem dessa história sobre rever o passado e conquistar novos rumos.



Espero que meus afetos estejam à altura da comemoração deste dia... Bem-vindo de volta Crônica do Dia e amigos cronistas e leitores!

www.carladias.com

Foto Rodrigo y Gabriela: Tina Korhonen
Foto A vida no Paraíso: divulgação




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